Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 27 de maio de 2011

A santidade das pedras

Repousam na execrabilidade da incúria, fustigados pela intempérie da rejeição. São pétreas árvores apodrecidas que um dia albergaram humanos frutos desenhados a alma, fontes de benta água que, diabolizada a antrópica essência, de oásis lhes resta a vegetação que oculta o deserto. Por vezes, penetrar nas entranhas deste maravilhoso reino equivale a verter secas lágrimas pelo odor a putrefacção das pedras, oco aroma a vazio do que preenchido foi. Talvez seja um asfáltico vírus potenciado a betoneiras, ou a selvajaria de um certo sonambulismo arbitrário, soporífera conexão de digestivos sistemas ao armazém do espírito, quiçá. Cosam-se os anéis, remendem-se os dedos, toque-se ao de leve a textura do abandono. Facultem-se óculos a dimensões muitas, veja-se um mundo de oculta densidade debruada a fantasia. Perscrute-se a seiva das pedras, ouça-se-lhes o silêncio, sensibilizem-se os ouvidos para o eterno gemido que paira numa ruminante tela de desprezo. Há fantasmas assim, ascetas de empilhados calhaus, teimosamente resistentes na sua periclitância de audaz verticalidade. Num passado não muito distante ouviram as preces da anónima gente de Morais ou Banreses, pagadores de promessas à Senhora do Monte ou a São Geraldo, círios acesos, corações ao alto, paramentos na exultação do divino. Um dia, humanas comodidades, ou microbianas tentações, volta-se as costas ao aconchego, fecham-se as portas, se as há, alteram-se votos, veneram-se santos outros. Talvez seja assim a espécie, ingrata, despudor dos tempos. Encerra-se um ciclo, choros de despedidas muitas, o suponho pelo secreto rumor do resistente xisto. Olho extenuado para o altivo campanário da igreja da Senhora do Monte, rosto de virtude perdida, orgulhoso do seu passsado apagado a chuva e vento, a agrestia de neve e geada, a sufoco de escaldante sol, em ténue equilíbrio de vilipendiada majestade, esquissada a patranhas de ignominiosa negligência de quem não sabe honrar os testemunhos da ancestralidade. Em Banreses saboreio, por breves instantes, o eco das orações de gente simples, talhada a campo, vergada a rugas do tempo, mãos calejadas pelo tormento de agrícola faina, domingueiros fatos de respeito ao culto. Na efemeridade de um devaneio, regresso à civilização, histórias tantas por desvendar, realidades do desrespeito por fantasmas que pacientemente aguardam por condigno féretro. Ou, ingénuos desejos de ressuscitação patrimonial, despertar um dia vassalagem prestando à musicalidade dos sinos de um indómito campanário de xisto, inexpugnável reduto de glorioso passado. Talvez me tenha ouvido a pretensa santidade das pedras...

Fugas no Reino das Pedras

Os dias embrulhado pelo afago das pedras são assim. Calmos, extirpada a canícula de final de Maio assemelhada à de Augusto mês. Sedentos, de inenarráveis amizades seladas a amenas cavaqueiras sob a protecção de um publicitário guarda-sol. Extenuantes, por indescritíveis incursões às profundezas deste mar pétreo, aparentemente esquecido pelo carácter protector da divindade... Será o olvido premeditada forma de preservar a essência, nada mais que a essência? Hoje senti-lhe o âmago... "Por mares nunca dantes navegados"... Há gente assim, que a troco de nada, insondáveis (ir)realidades da modernidade, nos presenteia com o calor de um singelo sorriso pela partilha do muito que sabe acerca das entranhas deste oceano de calhaus que me viu nascer. Talvez hoje a palavra deslumbramento seja ínfima para traduzir o encantamento dos sentidos pelo saborear da verdadeira natureza em estado virgem. Mas não só... Há disponibilidades que não se pagam, preços que existência não têm, moram apenas num estranho recanto onde vive gente que já não acreditamos existir. Mas existe... Hoje confrontei-me com essa clara evidência. Mas públicos encómios não são o meu timbre e saberão os destinatários dissecar a gratidão... Adiante, que o todo-o-terreno vociferando vai, esfaimado que está por deglutir as artérias trajadas a pó e pedra, ornadas a herbáceas testemunhas de ancestral calcorrear. Esventram-se os aromas, reduzindo-os à paixão de, paulatinos inícios, barrarem qualquer incómodo causado por desenfreados insectos arrancados à sua paz. Cheira a terra, a terra-mãe, inconfundível e inimitável perfil aromático. Repentinamente, uma espécie de orgia dos sentidos. É a raposa que, sorrateira mas curiosa, observa os invasores. São as aves de rapina que nos sobrevoam, num aéreo bailado que sabe a eternidade. É o espanto de uma cegonha que nos observa do seu altaneiro ninho. São os sons a nada, numa orquestra de silêncio quebrada a intenso chilrear de quem rasga céus e pousa, espantado, nas arbustivas formas que pintam as encostas a cores de encanto. Ou um zumbido aqui, outro acolá. E o canto da brisa a acariciar o escalpe, ou a melodia do ribeiro que corre indiferente ao cágado que nas suas águas repousa. Isto não se explica, não se mostra, não se escreve sequer. Sente-se, apenas. Sente-se quando nos damos permissão a fundirmo-nos com a terra, numa improvável fusão em que as pedras são participantes e do elenco fazem parte as silvas, os cactos, as giestas, as estevas e sei lá que mais espécies que tentam vedar-nos o passo. Sente-se quando nos embrenhamos no desconhecido, sabendo de antemão que ali está o útero onde repousámos, o ventre que há-de aconchegar-nos se perdermos o norte, a mãe-terra, a protectora, a suave ondulação que nos embala. Hoje sentei-me no regaço da mãe...

sábado, 14 de maio de 2011

Balada das rugas tristes

Gemem os velhos, de farrapos tratados, encostados a indistintas memórias de um refulgente passado, num "escano" carcomido pelos anos ou num "motcho" corroído nas articulações de que desprovido está. Sozinhos, preferencialmente sozinhos, no remanso de uma eterna solidão, esquecida gente que um dia gente foi. Vivem à sombra do tempo, abrigo possível no lento esganar, roendo a agonia em sepulcral silêncio, na rapidez de ponteiros que tardam na sua inexorável marcha. O futuro, o indesmentível futuro que a todos toca, servir-se-á em caminhos cravados a ervas daninhas, quem as limpe não há, haja quem sobreviva para as calcar a carpir de despedida última. Se gente sobrar de "companha" para derradeiras viagens... São os velhos, impiedosas rugas rasgadas a vida, dura e tormentosa vida, testemunhos de um pretérito sulcado a arados feitos de "candiólos", epiderme engelhada a "carambina", "scarabanadas" de trabalhos muitos, faces traçadas a pregas do estio. E merecem tanto carinho os velhos, os nossos velhos, odores de ancestralidade, aromas a genes de pedra. Mas são morbidamente apagados, absorvidos pela esponja de um atroz esquecimento, empurrados de encontro a paredes de xisto, também elas a aguardar um lento finar, verticalmente enfileiradas, quando calha, moribundo silêncio entrecortado pela brisa de uma estatística que lhe desperta o torpor. O "Retrato Territorial 2009" trouxe-me a evidência do que evidente já era: demograficamente, estamos a definhar de forma lenta e penosa. Em apenas uma década, tão somente um mísero par de lustros, diminuímos a densidade populacional, coisa pouca para o que pouco já era. Veja-se o decréscimo a linguajar trajado a política e descortinar-se-á o positivo: afinal, semelhante fenómeno é visível em cerca de 50% dos concelhos do território português, na sua grande maioria situados no lit... ops... interior. "Co mal dos outros bem m'ou bêjo"! Segue a procissão dos estatísticos indicadores, antes da chegada do "Censos 2011"... O concelho macedense, no período 2000-2009, viu a sua taxa de variação de crescimento natural enquadrada no fabuloso grupo dos que decresceram entre -10 e -4% (há piores)... Coisa medianamente compensada pela equivalente da componente migratória: situamo-nos no pelotão dos que cresceram entre 0 e 3,5%... A voracidade vai devorando os quadros e mapas, em busca de algo que atenue este triste sentir. Mas nada, nada de nada! A taxa de fecundidade diminuiu, o índice de envelhecimento incrementou... A proporção da população entre 0 e 14 anos teve uma variação negativa, em apenas 10 anos, situada no intervalo de -4,9 a -2,9%. Em contrapartida, a homóloga da população com idade superior a 65 anos teve uma variação positiva entre 2,6 e 4,8%. Oh inclemência dos deuses! Graves actos devem ter sido os desta humilde gente que, como todos, envelhece. Mas não assiste a rejuvenescimento, senta-se, apenas, aguardando na pacatez de uma soalheira tarde, ou amansando o tormento invernal na companhia de um "strafogueiro e uns guiços". Um dia, num não muito longínquo futuro, talvez surjam mais Banreses, frutos em bolorenta compota, vestígios de albergues de vida. Olhe-se, exemplo extremo, para os destemidos 60 habitantes que os "Censos 2001" apontavam para a excelsa freguesia de Soutelo Mourisco, "ajuntada" com Cabanas e Vilar d'Ouro. Sinta-se, na efemeridade de uma incursão vespertina, o pulsar do silêncio da serra, prenúncio de morte do qual um felino não consegue fazer-nos abstrair, pressintam-se os abutres a sobrevoar a carcaça. Estão lá, ao longe, em sádico sorriso de necrófago que aguarda pacientemente pelo concretizar da coutada... Entretanto, louvem-se os velhos, os nossos velhos, na sua silenciosa e ineficaz contestação do abandono... (Com uma enorme gratidão ao Paulo Patoleia e ao Valter Cavaleiro pela cedência dos magníficos registos fotográficos)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cousas de xisto

POR FAVOR, PREVIAMENTE AO VISIONAMENTO, RETIRE O SOM À "COUSAS RÁDIO"...


Há mundos que se entranham na alma...


domingo, 1 de maio de 2011

Ventos da montanha

Imagem do berço, donatária de memória de vidas na corda bamba da incerteza, quando, numa qualquer Sexta-feira do estio, idos desacertos, se apela ao anjo Urze Pires e ao amigo dentista Simão, juntem-se-lhes os arcanjos "operadores de Mirandela", Mário Rafael e Mexedo, Caiado anestesista, amostra de vida, novel pedaço de memorandos futuros, haveria um dia de parir "cousas" da terra, "cousas" poucas brotadas do orgulho, de imberbe arrancado ao materno ventre por imitações de popular etimologia derivada de pretensos nascimentos de imperadores, cesariana ou cesárea a pintam, incisões num tempo em que os ponteiros eram pautados a sabe-se lá por que corrompido silêncio... Homenageiem-se as Mães, Adelina, Júlia original de Maria, matriarca de prole muita, não teve exemplo a seguir na filha que rebento único gerou; fite-se o tempo em recordações de adoptiva encarregada, Carolina mãe o foi também, desigualdades de etária faixa esbatidas, agruras de forçada ausência de alfa macho, contingências de prematuro finar. Louve-se a mãe outra, depósito de principado do reino que vem, fiel depositária dos genes, ópera de Verdi, caroços de amores muitos, "carabunhas" talvez, fusões que um dia esquissaram o sucesso, olhos ardentes, alavancas de profícua permanência de um Álvares qualquer, Álvaro-filho, etimologias o afirmam, ou profeta de nome. Exacerbem-se os genes, de hispano-godos talvez, ou suevos quiçá, primogénitos brasões de nacionalidades a encarnado pintadas, quarteto de meias-luas traçados, heráldicas tantas de insondáveis pesquisas, linhagens o argumentam, irrefutáveis pendões de pentágono completado a Bragança, Maia, Baião e Ribadouro. Mas, humanas mães o perdoem, de sapiens capacidade o perdão, erga-se o templo a progenitora outra, sacralize-se a terra, humanize-se o ventre de pétreo ser, telúricas formas do útero, coito do ar com o solo, inimagináveis fusões de impenetrável paixão. Sou filho das pedras... A montanha como mãe, o vento como pai, insano calor do inferno como progenitor, madre arrepiante geada de Inverno. Sou descendente dos lobos, cruzamento com rebanhos de ovelhas e cabras, histórias muitas de arrepiar, filho da Lua e do Sol, raposa a mãe, javali o pai, desconexas ligações o dirá o bom senso. Há nascimentos de uma gravidez do pó, entranha-se a terra nos órgãos, vem o sangue desenhado a eritrócitos com hemoglobina de xisto, e as defesas de leucócitos firmadas, hematologia o diz, vem levantada a castelos de brancos glóbulos de neve, muralhas erguidas a suor de intranspirável medula. Talvez este paradoxo de progenitores muitos prefácio tenha em rupestres pinturas de Foz Côa primas, siga-se o rasto de futuras submersões, Sabor selvagem o foi, lá para a Levada Velha ou em setentrional concelho auroques esboçados. E os tetra-tetravós, de sedentarização arcaicas formas, fugas muitas num Buraco da Pala de vizinho concelho, ou meridional Zedes, megalíticas erupções de antrópico sentir, vá-se em romaria ao bispo santo, Ambrósio de cegos milagres, mamoa escondida de desvendada ancestralidade. Sigam-se os trilhos, perscrute-se a ansiedade do destino sem meta riscada, trepa-se a Xaires, dos primórdios os metais, respira-se a essência de Bornes, dos Corvos dizem o penedo, Bronze o achado em arqueologias de regressivo sentir. Deglute-se uma refeição de Zoelas, território o fomos, netos e bisnetos, descendência da unicidade respeitada pela gente do Lácio. Romanos teremos sido, latinas empresas herdámos, lugares perdidos em testemunhos de tégulas ou sigillata, Egica ou Vitiza por cá deixaram legados, em cargas de distinta coloração do olhar, do escalpe também, Bárbaros que em Laetera cunharam monetários vícios. De Mouros, lendas muitas, vestígios poucos, nulos o digo, talvez Alfandica raro exemplo seja, lá longe ao virar da esquina do dorso de Montemé. Sou filho das carcaças de histórias muitas, honro as mães, as puras, as virgens, e as de donzelas tributos, as outras também. Sou filho de ventos da montanha, prole de um mistral em anómala simbiose com um suão, de oliveiras descendo, ouriço-azeitona serei, castanha que azeite dá, num pão de batata ceifada, centeio arrancado cozido num pote, e uma alheira com sabor a pedaços de solo enrijecido pela estiagem, enrugado pelo tormento dos nove de residência de Belzebu, saciado por flocos de neve ou choros intensos do céu. Neste dia de todas as Mães, honro as minhas, carnais e adoptivas, reais e imaginárias. Mastigo um pouco de ficcional parada, desfile de calhaus, xisto a um lado, granito a par, vertentes de alegre sentir. Sou filho das pedras... Honro-as também... Sou filho do Reino Maravilhoso... E sou filho da minha "vila"... Pátria-mãe...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Folaradas - Injecções de distinto sentir


Ocasionalmente, uma sã insanidade apodera-se de ignóbil gente que, paradoxos de inventadas vanguardas, ao invés de apreciar o bulício de corredores atulhados de espécimes a paspalhar, pavlovianos reflexos atiçados por esfaimado monstro da criação do supérfluo, dedicação tem a artesanais formas de incremento dar ao assoberbamento residente nesta peculiar forma de ter orgulho em ter sido parido num mundo de pedras e calhaus. O Folar Transmontano parece ser um dos veículos da soberba... Porque não é um pecado mortal, nem moral o é, que moralidade é extasiar os sentidos com as riquezas que a criação nos facultou, e a gula, de pecaminosa, só quando satisfeita não é. Desvarios de um pretenso sandeu, fanáticos da modernidade o epitetarão, deliciosamente consumido até à medula por este incomensurável orgulho de fazer parte da prole da ignóbil gente. Porque a tradição já (só) não é o que era para os que idolatram o facilitismo de uma deslocação à pastelaria mais próxima em busca do produto acabado... "Inda há uns tchabascos que s'astrebim a indrominar uns folares e uas bolas à moda dos abós. Puri"... Haja vontade, ajuda, "tchitcha e óbos dos de berdade". E haja "quim os dêa, ou pitas poedeiras"... "Scatcha-se" o presunto, "amanhum-s'uns cibos" de salpicão e linguiça, "bota-se um tantinho de tchitcha gorda". Segue-se em alegre romaria para uma Lamas de encanto, torpor tamanho em genética espera, impagáveis sorrisos de compadres, afilhada também, abraço da alma de adoptiva irmã, a genialidade humilde de um calor único, impoluta chama que o espírito aquece. Nem o tormento meteorológico aplaca a ânsia do reencontro com a ancestralidade, retornos a uma velha infância em que o dia dos folares era oficial feriado do lar. Tempos outros, idos tempos, jamais esquecidos, sempre lembrados. Era a procissão "folaresca" aos fornos dos vizinhos, o dos Mascarenhas, saudosa D. Marquinhas, sempre sorridente, sempre diligente. Ou o da D. Deolinda, manhãs outras, em frente seguia o cortejo. Fina o passado, ressuscite-se o presente. Que a moda é a mesma, ingredientes o dizem, a vontade também, mudam apenas os actores e o cenário da peça, restituições de um pretérito nunca distante. Afinal, os aromas persistem em idêntico assombro dos sentidos, alternância às formas apenas, num repetido ocaso do ontem, deslumbramento do hoje que sobe. Amanhã será dia de repetições muitas, elenco outro, produções tais de substitutos realizadores de películas de intermináveis episódios da gente. É o Dia dos Folares, episódio infinito, oito prostrado, pessoais cunhos de intépretes que um dia passaram pela escola de dramática representação e noutro, "cousas" da inevitabilidade, cresceram. Profanação de um templo de costumes finados, moribundos talvez, sacrilégio dirão os adoradores de eléctricos artefactos. Ou uma inexpugnável resistência à herança de pais, avós e demais ancestrais, zelo da nostalgia, homenagens a oclusas vozes em registos da memória, articulados sons que um dia transmitiram o legado, vícios da alma, os direi, ou hedonismo dos sentidos. "Amassadeira" limpa, "amassadeira" pronta, alvo pó depositado em espera, há-de chegar a amornada preparação de amarela cor, casamento previamente combinado pela sapiência da tradição. Siga a boda que gente espera por tostado epílogo. Fecundações em forma de pasta em simbiose de branco com amarelo, envolvência paciente, braços que giram ao sabor de uma receita escrita nas paredes da memória. Lentamente, sem pressas, que longas são as festividades, vai-se sentindo o cheiro a inconfundíveis aromas, anestesiam-se nasais receptores, folga a mente de económicas convulsões, alivia-se a apreensão do futuro de um país adiado... Subitamente a estridente algazarra de umas mãos que à escola da vida foram resgatar inumanas forças para vergastar a disforme pasta que na "amassadeira" repousa. Surpreende a intensidade da flagelação, naquele incessante "chlap-chlap" que amansa a adormecida fera antes do despertar das leveduras. É o fascínio no feminino, como só um feminino ser é dotado para violentar a dureza tornando-a macia. Talvez a massa pressinta esse carinho em dóceis mãos que a chicoteiam num constante vaivém, numa paradoxal vexação que a amaciará a ternura. Impressiona a destreza, arregala-se o olhar para as formas previamente untadas, agora recheadas a pasta amarela, suavize-se o mortal pecado que o destino próximo está. E a "tchitcha", pedaços de antigo saber arrancados a porcinos seres, domados a fumo e sal como só uma transmontana cozinha pode adestrar. Apetece surripiar um pouco, mas inutiliza-se a pretensão com um "carólo de bola-subada com um cibeco de queijo curado", duro como extremidades bovídeas, saboroso como um divino manjar... Faz-se a cama aos folares, "mim amanhadinha", velhos cobertores de lã a servirem de abrigo, formas alinhadas e acomodadas ao sabor de antigos ensinamentos. Agora é esperar que "lebedem os bitchos"... "Abonda daí uas gestas pr'ácender o forno, se faxabôre!"... É hora de impregnar a atmosfera a distinto aroma de lenha resgatada ao monte. Força alucinogénica que asas faculta para viagens a remotos tempos, recorda-se a imponente figura da matriarca, a "Bó Maria", intensas viagens a outrora, motriz força para um sorriso mais. A curiosidade detendo se vai na evolução das chamas que fustigam o revestimento do forno, efémero regresso à mesa onde o garrafão repousa, um "copetcho" de permeio, retemperem-se forças para mais "ua gabela". Fomenta-se a combustão alimento dando à amostra de inferno, numa quase interminável espera pela chegada ao degrau da temperatura perfeita. Condimenta-se o tempo a histórias antigas, fecham-se as portas da amargura temperando o crepitar da lenha a reconfortantes piadas, "bô, dá-l'a risa àquela", "bota cá mais ua pinga atão", "num le qués tchiscar a mais um cibo de queijo?"... Discute-se a catástrofe do país, "homes" para um lado, "mulhés" para o outro, cruzam-se conversas em amálgamas de inentendíves vocábulos, por vezes, ambiente entrecortado por uma risada mais, calorosas formas de celebrar uniões de anos, cumplicidades paridas pela afinidade genética e pelo cimento da amizade. É a emoção ao rubro enquanto ruborizam as paredes do forno. Hão-de alvas ficar, diz a prioresa do forno. Destapam-se os acamados, "ulha que mim marelinhos stão!", acomoda-se o forno com o "ranhadouro", resgata-se a pá do seu esquecido canto e início se dá à invasão do côncavo cubículo que albergará enformados prazeres. Fita-se o incrível esboço que os círculos vão desenhando à medida que o infernal espaço é preenchido. Paradisíacas visões que excitam salivares glândulas... Seguem-se as bolas de azeite, "subadas" as dizem também, atulha-se o disponível espaço, fecha-se a porta a investidas outras. E espera-se, novamente se espera, num tamanho aguardar intercalado por mais uma pitada de sorrisos, conversa para aqui, discurso para lá, desconexa comunicação ali, ou silênio apenas. Anda rápido o tempo ou detém-se em oco momento, negligência aos ponteiros em emoções de familiar paródia, é assim o tempo na aldeia, num desfilar de apeadeiros e estações temporais que parecem ignorar o passar das horas. Como se um constante entretenimento da alma obstruísse a pressão da incontornabilidade dos dias. Destapa-se a boca do forno, pasmados olhares de surpresa, é chegada a hora do preenchimento da ânsia, finalizada está a cozedura. É a sublimação dos sentidos, rompem-se os laços que tempo deram ao tempo, numa luta por um estranho equilíbrio de tostado manjar em pá de forno sem mãos. Em breves instantes hordas aromáticas invadem o espaço, redondas formas exalam perfume a terra, a saber, a tradição, a memória, a emoção. Repetidos olhares atónitos, como se a visão fosse desvirginada por uma qualquer momentânea raridade. Mas não... É tão só um desmascarar de idas recordações, regressões ao futuro, inviolabilidades de recuadas épocas. "Incerta um dos que num têim thictcha a ber se stão bôs!"... Tudo se assemelha a um desmaio do tempo, num bloqueio da realidade, suga-se o tutano de amarelo petisco, como se primeva vez fosse. Surreal contágio... É a gula no auge, amparo na consciência, num frenesim repetido a cada ano e sempre renovado. São os tontos, gente que renegar não faz às origens, perseverança do querer, reminiscências de indígena fundo, louvores a memórias gravadas, renovar de laços, "tchalotice" talvez. É o degustar da tradição, num pétreo deglutir do sabor aos montes que nome deram a uma terra de encantos muitos.
São os folares, os nossos folares, alheamento de torres decoradas a asfalto e betão, fugas a corrupções muitas, cegueira dos tempos. É o orgulho sentido, este xistífero orgulho, nascido algures a nordeste, onde o sangue foi moldado a "tchítcharos" e "erbanços", a "butelo" e "butcheiras", a "pitas" e "parrecos", a "cotchino" e... A "uas carbalhadas, de bêze im quando, tamém"... "Bô era!"...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Anatomia do abandono

Sexta-feira Santa, numa quase madrugada de almoço, invenção de desfasados horários. Alvorada em dia de abstinência, o diz a tradição, que a que carroça puxa jejua de árduos trabalhos de provimento de proteínas, deixem o peixe ter voz, sabe-se lá porque artimanhas de insatisfeito bulário... As pecaminosas mentes anuência dão à secular tradição, relegando a "tchitcha" para o baú da espera, voz dando à saborosa alternativa de um bacalhau assado na brasa. Mas isso são contas gastronómicas mais viradas para vespertinos períodos... Porque, entretanto, o chamariz do exterior superou a espera de satisfação do paladar. Não que a meteorologia estivesse disposta a dar tréguas, assim o anunciava o céu, pintalgado aqui e ali com umas pinceladas de tímido azul. Factor que impeditivo não foi a um périplo por circuitos de ciclismo de juvenis tempos. Fustigado o pára-brisas por tenebrosas bátegas de água, enfurecidas por um qualquer demónio escondido atrás de nuvens em tons de cinza, arrastadas num estranho bailado de aleatoriedade. Pecados que me penitenciam a observar o mundo meu através de monótonos movimentos de negras escovas... Cumprida a pena, em melancólico arrastar que conduziu, vagarosamente, por Vale de Prados, Pontão de Lamas, Gradíssimo, Amendoeira, até a um retorno a mergulhos de encanto, devaneios no estradão da Barragem da Carvalheira. Amainada a tempestade, retemperada a vontade, regresso pelo mesmo caminho, num apreciar de uma beleza única que afaga a saudade e alimenta a alma. Subitamente, Arrifana, iluminada pela fugacidade de uma revivescência do astro-rei. As hordas de gotículas que o passeio atormentando iam, deram uma breve folga à sua irrequietude, permissão dando a uma reconfortante, mas triste, incursão ao abandono. Imobiliza-se a viatura, olha-se em redor numa estonteante busca de vida, como se o desejo de estancar a frustração se sobrepusesse ao desespero que consome. Nem vivalma, fantasmas, apenas fantasmas, ou os ténues gemidos do xisto empilhado, onde resiste, que as agruras da passagem dos anos apagando vão o que em tempos serviu de abrigo à vida. Sobrevivem esqueléticos testemunhos de ancestral arquitectura, amparados, aqui e ali, por madeira corroída, suporte de telhas de meia cana que abatidas vão sendo por invisíveis projectéis do ostracismo. Percorrem-se as toscas artérias que um dia foram preenchidas a passos, imaginam-se pegadas carcomidas por vegetal vida, observa-se o vazio, penetrando-lhe nas entranhas em busca de algum sinal que estanque a angústia da premonição de definitivo encerramento. De súbito, um cachorro, cauda em alegre abanar, desenfreados pulos de encontro a duas "aves raras" com bípede postura. Afinal, ainda há vida! Deve o canídeo estranhar a presença de dois seres, alienígenas formas invasoras de um espaço onde pouco mais deve conhecer que a familiaridade da silhueta dos donos. Na probabilidade de incrementar a estranheza por ser bafejado por carícias de um par de seres desprovidos de rugas do tempo, faces queimadas pela agrestia, olhos marcados pela dureza dos dias. Entretanto, do nada vindo, familiares sonoridades do trote de um equídeo, mágico interromper do eco do chilreio. E um ser humano!!! Estranha visão... Estranha e breve visão... De um cavalo a saciar a sua sede no tanque do largo, olhar desconfiado dirigido a dois imóveis seres que se deliciam com a inusitada visão. Prossegue a jornada, um desvio mais, que poucos se hão-de fazer sem o retorno da monotonia eivada a pequenez. Uma paragem na frontaria da capela dedicada a Santo Estêvão, dizem-no na Europa padroeiro dos cavalos, coincidências de cavalar espécime a pavonear-se nas imediações. Dá-se permissão à regressão temporal, épocas outras, imaginação ornada a vida que por ali houve, saúda-se mentalmente a gente que passa, carregada de agrícolas alfaias, ou a anciã que transporta a sua "gabela de guiços" para atear a fogueira que inunda a tradicional cozinha a fumo, "bueiro" aberto para renovação da névoa. Talvez haja um forno comunitário, é dia de folares, sorrisos abertos, descalças crianças em frenética correria, gente à janela a saudar os visitantes. «Bôs dias nos dia Deus! Atão andum de besita? Us senhôs num são de cá, or não? Bá, ande di a comer um cibo de folar, sub'ás scaleiras q'ou já lo ponho. Mas olhe q'hoije num se come tchitcha, q'é pecado»... Do fundo da algibeira surge o aviso da modernidade, alerta para o bacalhau pronto a degustar. Retorno à realidade de Arrifanas muitas, vestígio toponímico árabe, o dizem os entendidos, "ar-raihân", terra de murtas, "ar-rihana", terra de hortas. "Bem m'ou finto, que bus-jiu digo ou! Atão os sarracenos nim tempo tiberum pra s'alibiarem nestas terras do catano, quanto mais pra botarem nomes às cousas!"... É verdade que uns notáveis frades eruditos se dedicaram a detectar "vestígios da língoa arábica" em terras portuguesas, mas Arrifana está longe de ser terra de murtas ou assemelhada às planícies da Vilariça. Olhe-se para o lugar semi-abandonado, do alto da antiga estrada a macadame, e perceber-se-á o conceito de arrife, vocábulo em desuso, ainda utilizado em pleno séc. XVI no "Livro do Tombo das demarcações dos lugares das comarcas de Tralosmontes", onde surge na designação de um lugar a expressão "arryfe de pedra"... E diz-nos José Pedro Machado, no seu Grande Dicionário da Língua Portuguesa, que Arrifana é uma "Série de arrifes". Arrifes? Coisa árabe, certo é, disseminada por todo o continental território, com extensão à freguesia de Arrifes em Ponta Delgada, dizem-no derivado de "ar-rif", flanco de montanha, zona pedregosa ou, simplesmente, rocha e pedregulho... Contam-no as lusas influências por insulares terras das Canárias, onde "arrifafe" significa terreno estéril, ou "arrife" tem como significado "terreno inculto ou pedregoso"... Coitada da Arrifana! Di-lo, também, certo geológico linguajar, onde ha arrifes em serras, como a de Aire, escarpados de falha os denominam... Seria mais poético vê-la como terra de D. Arriana, medievais nomenclaturas de descendência de D. Mumadona. Ou como bíblicas influências, Jarif o clama Neemias (7:24), Harife se pinta em hebraico, ou Arrife, alternativas formas o desenham... Ou cousas da mitologia, dizem-na irmã de Aretusa... Chega de seca, que se me espanta a saliva e se me enruga a cavidade bucal... Vou à Santa Catarina beber um pouco de água da fonte...