Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Paulitadas na Dança de Palotes

A propósito de outras andanças, um amigo sentenciou uma pequena discrepância com o seguinte comentário: "Na vox populi quase tudo o que é antigo, ou é romano ou mourisco"... «Oh, Santa Prepotência!» - dirão os mais arreigados a essa elevação a digitais impressões de Júlio César ou Al-Mansur, e afins sucedâneos, de tudo (ou quase tudo) o que velho é. «Oh, Santo Alívio!» - direi eu, enclausurado que estou nesta infame anormalidade, que me conduz ao protesto sempre que vejo indumentária medieval pintada a togas ou turbantes... "E ós depeis, ou num sou capaze de fitchar a matraca! Habium de me puntear as beiças, cmu fazim ós miótes rotos!... Bô, ma num m'amoutchaba na mesma, q'as idêas habiam d'sbarar dos miólos pró cumputadore. Tchintcha-l'aí, home do catantcho!"... Haverá contestação, na certa. Contudo, prefiro a alheia contestação, à equivalente da própria alma. Toda esta verborreia a propósito de outras "cousas" que vão decorrendo lá para os lados das redes sociais, "cousas" essas que servido têm para rebarbar os excessos da minha ignorância. Em simultâneo, também têm sido o rastilho para este mau feitio que me atormenta a alma e impulso me dá para embrulhar a realidade a comentários quando algo prazenteiro não é, ou de esquiva forma se furta à verdade, ou de mansinho a deturpa. Ingenuamente, inúmeras vezes, a deturpa... Como se este meu transmontano povo se furtasse à hibridez em que vive, sem percepção ter. Por isso transforma em romanas ou árabes, coisas que têm um "cibeco" mais de meio milénio. E acredita nisso, porque lhe faz bem a um ego historicamente maltratado. Afinal, seja por mutação genética ainda não estudada, seja antes por nos terem compulsivamente enclausurado na pobreza (material e de espírito), a cada nova esternutação histórico-cultural remetemo-nos a uma supérflua grandeza, espirrando para o ar gotículas de inverdades que, de tão repetidas, correm o risco de se transformar em verdades. Universais e irrefutáveis!!! E, estranhos pruridos na alma, este meu anestesiado povo trata de empurrar a outra grandeza, a que naturalmente possui, para patamares não consentâneos com o orgulho que deveria ostentar. Bastaria uma limitação à identidade, não valorizando em demasia quem de pouco tempo dispôs para, sequer, deixar registos de ADN nas águas do Azibo ou do Sabor; nem sobrevalorizando tudo aquilo que é mais fruto de fantasiosas falácias que de provadas realidades... Como dizia anteriormente, a propósito de alguns encantamentos noutras bandas que fazem parte da prole das novas tecnologias... Vieram os Pauliteiros à baila. Sei que não se nota muito, mas sinto uma desmesurada paixão por tudo o que se relacionando vai com aquela leira a nordeste do rectângulo a que alguém se atreveu a chamar de Reino, abusando do atrevimento ao caracterizá-lo de Maravilhoso. Ah Grande Adolfo!!! (não o de Braunau - livra! - mas sim o de S. Martinho da Anta, vulgo Torga)... E como os Pauliteiros são uma das dignas imagens de marca da leira, obviamente se enquadram nessa tela de paixão... Só que... Ao ler uma das muitas publicações que recheio vão dando à teia, vulgar "net", soou o alarme! Como tinha sido transcrita, na íntegra, de uma página institucional, fiquei a saber que a existência das danças dos Pauliteiros ocorre há mais de 2000 anos, no Norte de Portugal, na Galiza e em Castela-Leão e que agora só se dança no distrito de Bragança... Como a coisa me fazia colapsar todas as tentativas que tenho feito para minorar a minha ignorância, resolvi dar mais umas voltas por outras páginas, institucionais umas, particulares outras. E o estarrecimento foi crescendo... Como é possível que, depois de tantos ilustres nos terem deixado como legado o fruto das suas dedicação e sapiência à cultura Mirandesa (Vasconcelos, Deusdado, Alves, Gallop, Giacometti, Mourinho, entre outros), se persista em exacerbar o que necessidade não tem de exacerbado ser? A "dança de palotes", como correctamente é designada pela cultura Mirandesa, é uma herança ancestral cujo valor é indiscutível. É difícil precisar as suas origens, dividindo-se os eruditos quanto à génese desta estranha forma de dança de acompanhamento a "lhaços" tocados a gaita-de-foles, tambores, castanholas e, eventualmente, "fraita" (a modernidade introduziu-lhe, recentemente, os ferrinhos e a pandeireta). Se uns lhe vêem reminiscências das danças pírricas gregas, trazidas pela romanização, outros encontram o seu eco nas pantominas medievais derivadas da encenação de lutas entre cristãos e mouros. Outros ainda buscam o seu nascimento a partir de influências indo-europeias, retratadas provavelmente nas "danças de espadas" do centro europeu. Com bastante segurança, a atentar na Geografia de Estrabão, os povos pré-romanos que habitavam a Península Ibérica já excecutavam danças em honra dos seus deuses, assim como se exercitavam através de simulacros de combate, possivelmente assemelhados a danças. O que parece indubitável é que o estranho bailado em que se entrelaçam "paulitos" será uma expressão de origem pagã que a Igreja se encarregou de incorporar em festividades religiosas, à semelhança de muitas outras manifestações. Provavelmente, com intuito guerreiro, ou como culto de fecundidade, ou como manifestação de celebração a alguma divindade, algo que é denominador comum a diversos povos e religiões, desde os Egípcios aos Hebreus, passando por Gregos e Romanos. O que é inegável é que, talvez por influência Leonesa, a "danza de palos" ou "paloteo" se instalou nos concelhos da raia transmontana, particularmente em Terras de Miranda. Do lado de lá da fronteira, para lá do "paloteo", recordo-me do "ball de bastons" na Catalunha, o "palotian" em Aragão e a "ezpatadantza" no País Vasco. E, subindo até ao Reino Unido, não é difícil verificar as afinidades entre os Pauliteiros e as célebres "morris dances"... Contrariamente ao que acontece em Espanha, com referências explícitas a estas danças na literatura (por exemplo, Cervantes faz-lhes referência na sua obra-prima), em Portugal a notoriedade dos Pauliteiros só tem eco em finais do séc. XIX, levando um grupo a actuar, pela primeira vez em Lisboa. Quando em meados dos anos 30 do século passado, actuam no Royal Albert Hall de Londres, ganham dimensão internacional. Os anos 40 e 50 representam a revitalização pela mão de António Maria Mourinho, mas será só a partir da década de 70 que os Pauliteiros ganham nova vitalidade, chegando aos dias de hoje como um dos ícones da cultura transmontana. Um ícone que temos obrigação de preservar! Sem exacerbar... (Foto: AFCML)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Penhascos brancos

Talvez seja inédito, ou estejam os processos cognitivos atravancados de acumulações de esparsas memórias. Sábio ancião não sou, nem sábio de forma alguma serei, que a absoluta sapiência é omnisciente modo de estar, e gosto de ser burro que nem um tamanco, salutar forma de aspirar a cavalares promoções. E no enredo deste constante limar da ignorância, recurso a pergaminhos da memória, hercúleo esforço por trazer à tona uma qualquer naufragada imagem, não me recordo de nevões em Novembro. E se, acasos do destino, vir ressuscitado um perdido quadro do passado, já não irei a tempo de corrigir o que escrito está. Porque, simplesmente, não me apetece e, bastas vezes, gosto de ver saciados os apetites ou, lexicais variações de um polimento inverso, aprecio a saciedade dos não apetites. Não me vou vergastar por isso. Nem o vou fazer por não me lembrar do que lógico deve ser, que ilógico, ilógico, seria um nevão em Julho. E aguardo, serenamente, a chegada de um tempo que espero distante, onde darei rédea solta a esta sede de partilhar histórias e historietas, Macedo por timbre, Trás-os-Montes por escudo, netos e bisnetos por companhia. Algures num perdido alpendre de uma anunciada coutada, cachimbo de sôfregas aspirações, assim os pulmões o permitam, baforadas de idílicos aromas abaunilhados, entrecortadas por incursões a um pretérito onde a vida ainda reinava em província de amores muitos, Torga o sentiu, outros também. Nesse longínquo dia de um futuro-mais-que-perfeito, traições da memória não corrompam o éden, lembrar-me-ei que nevou nos últimos dias de Novembro do ano da graça de 2010. Não o da "Odisseia no espaço", o outro, o não ficcional, o dos Orçamentos e FMIs, afins e demais, bem me entende quem queira do entendimento fazer armadura para peneiras que já não tapam sóis. 2010, o da odisseia espacial, talvez, especial, também, para os desprevenidos crentes que, como eu, ingredientes são do bolo de massa atónita, num depauperado mundo que sustenta ricos fidalgos a submarinos e atrasados veículos anti-motim, desesperando numa pobre fidalguia de bloqueada gente à primeira mijinha de alvura, porque a desprotegida Protecção Civil se verá privada - diz a minha inocência - de verbas para um básico serviço público de desencarceramento de quem atascado fica à primeira mija dos deuses feita de tresloucados farrapos brancos. E fiquei com inveja, assim me confesso, pecados meus... Quem os não tem, seus também? Que a neve possui os seus encantos, encantos muitos os direi, e a chuva, doseada seja, também os terá. Mas não para quem aterrou no penico de Portugal, Atlântico por vizinho, produtiva terra onde quando não chove, há chuva. E mais chuva, e ainda um pouco mais de chuva, torrencial ou às pinguinhas, pingando torrencialmente, ou torrencialmente pingando. Ainda se pudesse fazer bolas de chuva para me confundir no infantil mundo da descendência! E nem as insanas versões para arquitectar um boneco de chuva resultam... O velho cachecol fica invariavelmente ensopado e são em vão as inúmeras tentativas de recolocar a cenoura a servir de apêndice olfactivo... Por isso fico a ruminar nesta abrutalhada forma de sã inveja. Também queria um "cibo de nebe", um "cibinho", só um "tantinho pra num ficar im augado"...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Martinhadas e Castanhadas


"Ou cousa que se l'apareça"! Havia algo de místico, sobrenatural até. Seria um dia como qualquer outro dia, não ditasse o calendário situar-se na vizinhança de meados de Novembro, algures onde apregoava a tradição haver uma sinopse do estio, dizem-na Verão de um cavaleiro romano que virou bispo por ter corrompido a profecia de vigésimo primeiro século: uma tal de centúria em que são os pobres que desafiam a gravidade, não a do Isaac, que essa é coisa de maçãs, assim a dizem, mas a outra, a da situação! Assim de mansinho, para não ser rotulado de reaccionário, aquela que vem sendo madre de todas as cousas, cousas essas que incluem, a título meramente exemplificativo, nada de transcendente, juros da dívida pública no limiar da entrada em cena de Santo FMI (para os mais desatentos, o dito Santo é o padroeiro da Fome Mascarada Iminente, santidade meio a jeito de deturpação do globalmente parodiado por infiltrados agentes mediáticos). Ou a maléfica forma de impor ao mendigo que ceda metade da sua capa ao eminente cavaleiro... Apenas um prolongar da ausência de tréguas na milenar luta entre Sua Eminência e Nossa Iminência... Destravado espírito o meu que se deixa agrilhoar pela viperina condução de extremidades superiores de encontro a um teclado! "Atão, c'um lecença de Bosselências, ou juro pur estas bistinhas q'a terra e os bitchinhos hádim cumêre e inda juro tamém pur'us mous pecadinhos, que são mim pouquetchos, que fui dezbiado das nhas intenções pur estes malditos tóros das manápulas, que debium mas era star imbarrados pra que num s'apusessim desinquietos. Olha pró que l'habia de dar ó diatcho dos dedos! Ind'ós mando pró caralhitchas d'Antártida, pra ber s'amoutch'um tantinho, que bus-jiu digo ou. Dixu-m'u aldrúbias do Tonho Lingrinhas, o que s'amigou co'a galdéria da Miquinhas da Ti Alzira dos Poulos, que por lá num s'amanham homes ingrabatados q'indrominim o pobo cum IBAs de bint'i deis ou bint'i três pur cento, nim nos cobrum IMI se nos der na catchimónia de nos botarmos a fazer um ou deis iglus. E aparece-se q'os postes prás SECUTES num se sigurum no gelo... Peis, é berdade, num há batatas nim castinheiros, nim recos pra cebar, mas inda s'amanhum uns pinguins, que tânho que préguntar à minha se num ficum munto rijos si us strugir mim strugidinhos"! Entretanto, após este fogacho desviante, estou de regresso ao Planeta Europa, aqui bem perto da extremidade a que uns rapazolas colonizadores apelidaram de Finis Terrae... Não será a dita, porque o Colombo e o Álvares decidiram dar voz à sua obstinação, mas Finisterra não sendo, assemelha-se, cada vez mais, a "Cu do Mundo", desconhecendo-se se ficará no nadegueiro hemisfério ocidental ou oriental, porque andam por aí uns países a reclamar o epíteto, atente-se em privações de pátrias de verdadeiros filósofos. Ainda há filósofos? Pois... Terá derivado esta efémera cedência do controlo à hipnose por um teclado para uma agonizante filosofia barata? Um momento, que vou armadilhar os fusíveis que energia providenciam a este desregrado impulso de escrevinhar filosofando acerca do "infilosofável"... ... ... Dizia eu, quando o curto-circuito mental ainda não tinha ocorrido, que havia algo de místico, sobrenatural até (sim, logo no início desta "martinhada", antes da verborreia que incluiu pinguins e afins - ops, rimou...). O Dia de S. Martinho, o do "baiádêguipróbóbinho", era detentor daquele trágico ritual de apenas providenciar a extrema unção às castanhas após a degola das ditas, e depois do inferno a que eram submetidas numa enorme fogueira no terreiro, num qualquer comunitário terreiro, dos que possuem imensos donos sem terem donatário algum. Era grande o ajuntamento! Vinha o Zé Povinho, e o Povão Zé, estranhas simbioses geradoras de um simples Zé Povo, ou Povo Zé, onde cabiam a Senhora, a Dona, o Senhor e o Doutor. Nada de estratificações, nada de obsoletas ramificações de instituídos feudalismos, "népias"! Nesse dia vulgarizava-se a igualdade de classes, num hilariante disparate histórico em que, por um dia, reinava a utopia de direitos e deveres semelhantes, igualitárias neblinas que obliteravam milenares realidades. Era o Magusto, o "Magnus Ustus", a grande fogueira, ou reminiscências de um "Magus Ustus", ancestralidades de sementes celtas de um qualquer Samhain. Era a pureza vingadora das distinções, soturnas faces que soçobravam perante os enternecedores sorrisos que desenhavam caras "infurretadas" pela cinza, se desinibiam por gargantas acariciadas a jeropiga ou outro qualquer líquido alento para melhor digestão dos "bilhós". E provava-se o vinho, o novo, o velho, garrafões envoltos em vime em breve esvaziados ou, ternurenta tradição, as pipas transformadas em alcoólicas bicas, num desenfreado corrupio de provas em copo único. Que se danassem os micróbios! Aliás, a microbiana vida devia alhear-se da potencial mortandade em vespertinos finais de algazarras muitas, espíritos à solta, num atmosférico escambo de etílicos vapores, desenfreados diabos invasores de alheias adegas, contínuos ecos de desencontradas gargalhadas, ao sabor de mais "ua pinga", um "cibo" de presunto, quando o havia, um "tantinho" de queijo curado, do duro, daquele que se solta em finas lascas, lascando, de igual forma os dedos dos mais incautos. E voavam "carabunhas", resquícios de deglutidas azeitonas, imaginárias guerras sem baixas, onde as bestas eram braçais forças arremessadoras de salivados projécteis. Foi ontem, num pretérito algures perdido no tempo, resgatado de uma qualquer memória futura. E ninguém se "imbutchinaba" nessas batalhas onde toldados cérebros se aglomeravam num pequeno mundo de xisto...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Associação Potrica - Lapadas, biqueiros e lostras no iletrismo



O maior mal não é o analfabetismo, é o iletrismo das classes dirigentes (Ricardo Jorge)

Para os mais desprevenidos... Há, reconhecidamente, um dialecto de "Tráze duje Monteje", com as suas especificidades regionais, sublinhe-se. Para os que, humildemente, o desconhecem, talvez tivesse sido mais eficaz ter no título "Pedradas, pontapés e estalos" (e para os que, com sobranceria o renegam, fica, simplesmente, "ua lapada, um biqueiro e ua lostra" para a renegação). Já para os afoitos dos neologismos, talvez a substituição do "iletrismo" por "iliteracia" se revelasse mais conveniente. Contudo, não pretendendo ser mais papista que o Papa, procuro - nem sempre conseguindo, é verdade - elevar a desbaratada Língua Portuguesa a um delicioso purismo, temperando a ousadia com um "cibo" de orgulho nas raízes. Conquanto, nos tempos que correm, lhe veja a pureza desvirginada por "atos de corrução" paridos por quem, numa "ação" de desvirtuar o ditado, aceitou que fosse ensinado o Pai-Nosso ao padre. Andarão o Luís, o Fernando, a Florbela, o Ary e outros mais "práguêjando ná séputura", a aviltar semelhante homicídio? Que pensará El-Rei D. Dinis, tresloucado poeta-lavrador que impôs o bárbaro Português como língua oficial dos diplomas? Que se dane, ainda se desconhecia a existência das terras de Vera Cruz e as traulitadas resumiam-se a ser sanadas por Tratados de Alcanices, e Tordesilhas ainda se anunciava longe... E, reconheça-se o factualmente indesmentível: os polegares apenas detinham desenvoltura para manejar espadas, maças e demais artefactos bélicos medievais para "infiar uas catchouçadas" nos do lado de lá, e para se defender das ditas, também. Hoje, dizem os especialistas em genética, o futuro será sorridente para uns tendencialmente mais extensíveis polegares, muito à custa da massiva utilização de novas tecnologias. Nada de anormal, nada de pecaminoso... O pecado mora ao lado, bem ao lado da correcta utilização de um tal de camoniano idioma, adulterado a "kstões de kem axa k ixo d screver é 1a xpriêxia dkls k tb é 1 xpetakulo" transcendente, mesmo que a transcendência se transforme num vocábulo inentendível. Adiante, que o Sabor ainda corre selvagem e o Tua ainda não inundou a linha... E adiante que, ocasionalmente, vão surgindo motivos para sorrir! Como uma tal de "Associação Potrica" ("Axoxiaxão Potrika" em "Portecladês", cabal demonstração de poliglota!), uma infame organização que, pasme-se, quer revigorar hábitos de leitura. Em cafetarias!!! Mas que "dexk/xideraxão" para quem apenas encara determinados locais como um vínculo à cafeína ou a etílicas formas de arejar a mente! Mas que atentado à liberdade de "xprexão"!!! Mas este rapazola, detentor de uma linguística insanidade de Cavaleiro Andante, aplaude, aplaude, e volta a aplaudir, aplaudindo novamente, numa prolongada ovação a mais esta tentativa de não anuir com a ostracização a que a Língua Portuguesa vai sendo votada através de ignominiosas formas de barata prostituição. Amparem-se os superiores membros, rubicundos que estão de tanto aplauso, limitem-se as suas extremidades a transfigurar os signos de um teclado em vocábulos de louvor a tão impagável iniciativa. Todavia, vou sendo assolado por uma inenarrável tristeza... Macedo estará à distância de um pulo, mas a minha dose de cafeína foi deglutida algures num "tasco" à beira mar plantado onde, em substituição do delicioso silêncio de um livro, ecoava pela atmosfera a aculturação de uma pronúncia que, não desmerecedora de crédito pela sua beleza, se inflitrou em forma de "á-cô-ré-dô" desde que uma Sónia de cravo e canela invadiu o mar português. Foi ontem, lá longe, a preto e branco... E foi hoje, bem perto, a cores... Nesse hoje apenas desejei, temporal arrepio dos sentidos, aspirar uma macedense atmosfera, temperada a Torga ou Junqueiro, condimentada a Pires Cabral ou Trindade Coelho, ou adoçada a monstros outros. Limitei-me à leitura da saqueta de sacarose, reli a saudade e tentei decifrar uma forma de aplaudir uma tal de "Associação Potrica", essa tal que convida para uma "Pausa para a leitura" nos cafés macedenses. Bem-haja! Porque o analfabetismo não reside naqueles que não sabem ler; mas sim naqueles que, sabendo-o, não o fazem... Impavidamente extensível ao iletrismo de certas classes...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sobrevivências com rejuvenescimento do espírito

Será a repetição uma apologia à perversidade de insistentemente escutar a surdez alheia? Ou soará a tal… Para lá da potencial catalogação de insanidade, encaro o repetitivo ser como um audaz, mas tenebroso também, violentador do silêncio das massas. As encefálicas, as cinzentas, as corporais e, para que ostracizadas não se sintam, as alimentícias também. Só para compor o ramalhete das massas, dê-se albergue aos hidratos de carbono, momentâneos desvios da atenção ao essencial, fica-se a pensar no amido e segue o baile do silêncio, entrecortado pelo ruído de umas bolhas de água fervente, frutos da convecção que faltando vai à minha resignada gente. Afunda-se a alma e renega-se a física, num desfilar de fluidos em que as moléculas compulsivamente rejeitam o efeito calorífico, apenas por ausência do mesmo. Derivações de uma qualquer densidade pétrea, não a da terra, não a que emana de geológicas entranhas, mas a do betão que insistem em impingir, à força de atoardas orçamentais, expoente máximo da indignidade com que uma cambada de umbigos com excessivo perímetro vai cerceando a milenar constatação de que todos estamos dotados de resquícios de cordão umbilical. «- Or om’zesta! C’um catancho, o Cabaleiro debe-se ter sbarrado contra um candiólo e ficou tchalotinho, o pobre home! Puri, sbarou no carambelo, scarnatchou-se todo e botou-se scaleiras abaitcho. Foi o mou que mu dixo, oubiu-lo no pobo ó Ti Tonho Gago, ma num me spanta que lu tânha intendido ó scontra, q’o home ingalêa-se co’as palabras e dás bezes dize deis e são déze! Mas inda cm’assim, aparecesse-me q’o Cabaleiro já num dize cousa cum cousa»… Não confirmo nem desminto, talvez seja apenas a indumentária com que o dito traja, carapaça como armadura, antídoto à propaganda com que um bando de falsários leva a cabo aquilo que noutras bandas seria apelidado de genocídio, macabras limpezas, redutoras da etnicidade que lavra na alma de um povo, silenciosamente conduzido ao lenocínio. Sim, porque os ímpetos carnais são dotados de várias vertentes! E as formas de exploração da carne resumidas não são ao propriamente dito… Triste sina a de um povo que “s’amoutcha”, vergastado pelo despotismo dos iluminados de beneditinos corredores, amansado pelo marketing de “train à grande vitesse”, depauperado por extintas “Sem Custo para os Utilizadores”, indiferentemente sodomizado por IVA, IRS, IMI e demais paridos verdugos do pouco que lhe resta. Penitência para alheios pecados, dez “políticos-nossos” e cem “avé-confrarias”, jejum por quarenta dias… E uma sorridente auto-flagelação, alegre suplício da alma (e da carteira também), venham de lá campanhas mais, eleitorais umas, estomacais as outras. “Bou-me mas é fitchar a matraca, num me bânha puri um AVC ou, transmontanamente, um ABC - Agonia por Bias das Cousas”. (Mentalmente, confesso que o C me faz derivar insistentemente para uma vernácula forma vocabular que rima com tostões, assim meio a jeito de conotações caprinas, mas não quero ferir susceptibilidades)… E, verdade seja dita, por caprino linguajar, o queijo de cabra que degustei no fim-de-semana fez-me esquecer as agruras temporais. E as espirituais também! Trás-os-Montes regenera-me a alma! Ainda que este fim-de-semana seja apologético de uma fogueira das vaidades, repetidas mostras em tapetes de arranjos florais, reina a hipocrisia por um dia, que bárbaro sou!, iluminada a ceráceas formas que, por efémeras, não desmentem a compostura de ser socialmente correcto uma vez por ano, na procissão de um rebanho que anda tresmalhado na restante dúzia de meses. Que se danem as sepulturas por 364 dias! Pois… Também sou do rebanho, mas sou uma ovelha ranhosa que se dá ao tresmalho no dia primeiro do mês que já foi nono… Na panóplia de opções, prefiro ausentar-me, numa debandada geral do ser, levando a companhia dos que já companhia me fizeram, relembrando-os numa privada cerimónia, algures num paraíso a que chamam Azibo, onde apascento as recordações a chamas de redescoberta de um mítico chão de onde brotam pedras, sobreiros, cogumelos, castanheiros e outras coisas mais. E onde as agora gélidas águas me aquecem numa orgia de inacabados sentidos, sou capaz de ver o som de um grasnar e ouvir imagens de um sol que se apresta a entregar-se a Morfeu, cheirar a textura da rugosidade das pedras e tocar os aromas que se desprendem da terra, provando a essência de nunca inventados sabores. É tão só um aconchego entre tantos outros que emanam de uma curta estadia pela terra que me esculpiu o ser. Fogueiras outras, que não as da vaidade, umas que aquecem a alma, o coração outras. Moram naquele abraço, num sorriso mais, tantas vezes repetido, na suave sonoridade de palavras traçadas a distinta pronúncia, vozes do povo, vozes da alma, vozes do querer. Residem naquele “capão” que se vai buscar para fazer o “magosto”, nos “stourotes” das castanhas que saltitam no velho assador, nos “bilhós” regados com jeropiga, nas gargalhadas que vão povoando o ambiente com o desfilar de histórias mil vezes repetidas e mil vezes aplaudidas a “risa”. Não cansam, reconfortam, embriagam o espírito sem etílicos vapores. E aliviam o fardo de um Dia de Todos os Santos onde, nos dias que correm, por de todos os santos ser, cabe também um qualquer Dia de São Nunca, padroeiro dos orçamentos, ou, controversas verdades “infurretadas” a inverdade, passou a caber também o Dia de São Pinóquio, incontestado padroeiro e defensor de “boys” ou, instância última, de “jobs” para os ditos… Perdoe-se o Geppetto, que não sabia o que fazia…

sábado, 30 de outubro de 2010

Taciturnidade dos dias

Por vezes sentimo-nos na contingência de abafar a vontade, uma quase indómita vontade de largar amarras e desatar em navegações por megalíticos oceanos. Mas remetemo-nos à clausura, enquanto aspiramos a zanga dos deuses, privações do astro, rei o dizem, a celeste abóbada tingida a limbo de negro, escuridão do dia, numa cabal demonstração de incontidas naturalidades atmosféricas. "Tchobe que Deus a dá", ou numa mais pitoresca versão apreendida de pretéritos tempos estudantis, até os cães bebem água de pé. E por aqui anda a gente, singulares formas de adesão a um ascetismo forçado. Mas sabe bem, de igual forma. Trás-os-Montes também aprendeu a ser mar, transgressões por vezes, regressões outras, sequências tais que culminam em três de inferno. Estamos nos outros nove, de Inverno os pintam, desgarradas cores ou talvez não, que esta fruste terra é pintada a nunca inventadas tonalidades. Talvez por isso a ame, a adore para lá de compreensíveis entendimentos, desmedidas paixões por uma terra de incontáveis partos, não os consequentes de nove, mas os da surrealidade de um chão capaz de parir pedras recheadas a batatas ou castanhas. E a suor de gente... Talvez esta sonoridade me afecte, cadências muitas de bátegas, "chlap-chlap", "ping-ping", fustigadas vidraças que parecem chorar, ou frutos à espera de repetidas maturações, molhados, suados, quem sabe, ou humedecidos por vontade divina. Mas sabe bem, repito... Como bem sabe o alegre cantar de um qualquer conjunto de aves que parecem festejar a tormenta, abrigadas nos pinheiros fronteiros. Ou como bem soube o almoço, saberes do tempo, "adôbo" ou vinha de alhos, costelas em repouso de encantado tostar, aromas ao vento, cálidas estrofes de um poema de lenha a crepitar. Ou, simplesmente, desencontradas poesias escritas a lápis de xisto... Frutos secos à espera de uma quase incineração, ou talvez não, outros há que desdenham "d'ua gabela de guiços", basta um seco figo para os aconchegar. Variedades muitas, sucos da alma, filhos do vento e da chuva, do calor também, o suor como pai, as rugas por mães. É a terra, o espírito das pedras, místico, druidas e fadas num bailado só. É isto, é pouco, é muito, é um raio de sol que obscurece o negro, é a chuva que insiste em cair, duradoura paz de uma raíz da terra. Sou eu, és tu, você também, o senhor, a senhora e vossemecê, quem sabe? É isto, dizia, é Trás-os-Montes... Entende? Afirmativo? Então é filho de xisto e granito...

Compensações por coisas simples e banais

Sair da Invicta a uma Sexta-feira ao final da tarde, através da A4, é um exercício próprio para transfigurar a salutar paciência em atroz demência. Sabedor de tal, passei a aproveitar o comodismo da VRI e primas A-Quarentas e qualquer coisa. Não perderam o epíteto de cómodas, mas ganharam o incómodo de, nuns míseros quilómetros, ver a minha carteira sequestrada por uns artefactos metálicos, obras de arte suburbana erigidas por desgorvernados artistas, não plásticos, mas cada vez mais de plástico, ao sabor de disparates cuja culpa é atribuída, invariavelmente, à mediática crise. Mas fui apanhado desprevenido pelo hábito... Quando dei por mim, mal refeito do equívoco de ter renegado a promessa de não circular pelas novas artérias cleptómanas, já as ditas me tinham surripiado três euros e meio, sem apelo nem agravo. Nada como passar por uma experiência traumática para não desejar repeti-la... Circunstancialmente, apeteceu-me cantar o fado, não o popular do trinta e um, mas o da A-Quarenta e um. «Aaaaiiiii.... Ó-la-ri-lo-lela, Como estes não há nenhum, Segue o roubo em Portugal, Até na A-Quarenta e um!»... Repentinamente, fui acossado por um inexplicável saudosismo da velhinha Nacional Quinze. As viagens eram tormentosas, curva e contracurva, intermináveis filas por vezes, um autocarro da extinta Cabanelas que parava a cada cem metros e servia de guia ao extenso formigueiro automóvel, pára, arranca, primeira, segunda e dali não saía até me afastar do perímetro distrital da Invicta. Mas não me sentia roubado! Cousas da Cleptocracia... Adiante, que a A4 está perto, ao virar da portagem. E Amarante, um pouco à frente, logo ali, onde se descortina um acumular de traseiras luzes encarnadas, prévio sinal da exaltação do espírito por pressentimentos de viagem demorada. Sorte danada! A paragem forçada ocorre antes da saída que anuncia o tortuoso itinerário para Marco de Canaveses. Conheço-lhe as entranhas de outras fugas, desvios de tormentos outros. «- Pode ser que resulte»... Resultou, felizmente, resultou, mas fez tardar a hora do repasto que sábias e ancestrais mãos iam preparando. Chegou tarde o desbravar dos sentidos, mas chegou, por entre um breve abraço mais, que a fome ia mutilando as paredes estomacais e multiplicando a ansiedade de degustar o sabor a terra. Cheira a frio, não um aterrador frio invernal, antes aquele frio que arrepia a espinha ao sair da amena temperatura do companheiro de jornada, um leve choque térmico apenas, doce, saboroso, distinto. E cheira, também, a lenha queimada, freixo talvez, oliveira quiçá, carvalho provavelmente, ou qualquer outra, que "mai fai", elimina uns arrepios, seduz com outros. A estranha agradabilidade de adornar os sentidos com os aromas a fumo que passam a decorar a roupa... Sentidos outros que absorvem o desenho de umas alcaparras (as de azeitona, não as outras), temperadas, numa simbiose dourada a azeite e vinagre, uma pitada de sal e um "cibo" de cebola picada, chamariz para a exaltação de gostos perdidos. Ou outros pitéus mais, só para entrada, só para compor o estômago dos «mous filhinhos, que bindes tchêinhos de fome!»... Venha de lá a satisfação do prévio pedido, mimo do inigualável frango caseiro, suculentas coxas que invalidam receios da gula. Reconfortado estômago, divina marmelada, só para adoçar, supremo queijo de cabra, para compensar o doce, nada de mais, delicioso anúnico de sobremesa apenas. Porque a aletria, aquela cremosa aletria aguardava, escondida de gulosos olhares, "grand finale", último aplauso antes da entrada em cena da "volta dos tristes". Só para descontrair, só para desgastar os excessos, só para matar saudades da "vila". E que saudades! Quase deserta, como quase deserta estará em cada noite de tardios repastos, exceptue-se o alarido de académicos festejos, aqui e acolá, lá longe, de passagem. Como de passagem aqui estou, instantes breves na brevidade do retrato de uma noite com coisas simples e banais. As últimas brasas, trémulas, moribundas, anunciam a morte de um dia que já aconteceu, num sempre ansiado retorno a este frio ar que me aquece. Inexplicáveis compensações... Velhinha fisga por testemunha...