Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (III) - Tertúlias na Interioridade Literária

Talvez se tratasse de uma alucinação... Uma daquelas aparições fantasmagóricas saídas de profundos e enraizados desejos, recônditos da alma onde persiste em morar a crença de que, na minha eterna "vila", reside algo mais que a útil banalidade, sempre útil banalidade, reforce-se, de manifestações banais ("pleonasme-se" um pouco, precioso auxiliar de composição, banalize-se a banalidade... banal)... Talvez se tratasse, ainda, e em alternativa, de um estarrecimento ocular por precoces deturpações dos periscópios da alma. Conduzi as extremidades de superiores membros ao par de componentes que filtram as cores do mundo, numa desesperada tentativa de me vincular à realidade. Esfreguei denodadamente, revolvendo pálpebras e pestanas, breve escuridão de irresponsabilidade, efémero acto de presentear os globos com alguma conjuntivite... Porém, de volta ao planeta, alucinação não era, e de metafísicas formas, nem sinal. Era real, intensamente real, pasme-se! Ali estava, bem à frente das "bistinhas c'a terra há-de cumer", um quadro de intrepidez, arrojo de um duo de almas a querer lançar sementes de abcedário na pretensão de inóspito solo. Talvez essas fossem as dores, algias de braços trémulos pela lavra, desconfortos de suor brotado de uma fonte de incerto porvir. Talvez os prazeres fossem outros, a adrenalina da incógnita, a inviolabilidade do querer. Na dúvida, ficou a agenda rasgada a traços de "TERTÚLIA" em folha de dia de aniversário da progenitora. Mais não fosse, a incomum tentativa não morreria sem assistência, sedentos genes loucos em busca de um oásis distinto de oásis outros que povoando vão terras onde cheira a prenúncio de morte. Mas isso são contas de ocultos rosários, sub-reptícias formas de ermar o que ermado nunca foi... No dia, lá estaria, orgulhoso de ver a minha terra num literário gemido. Grito de Ipiranga, diria, num assomo de inusitada coragem, desvairadas melancolias livrescas, dirão os mais atentos a qualquer sinopse de brejeiro sentir. "Anyway"... Viradas as folhas do calendário, assentados arraiais no macedense primo do de Belém, encantamentos pela pureza do desbravar de trechos, inquietantes formas de encarar o público por uma magnífica decifradora de vocábulos da alma, sorriso aberto, escudo incapaz de disfarçar o excesso de nervosismo, deliciosos enganos geradores de arrepios, uma voz que ecoou pelo âmago de macedense sentir, inesquecível gravação neste xisto interior de uma privacidade que só eu sinto e não partilho. Desfilem as ideias, prestem-se auditivos sensores ao entorpecimento da palavra, mágicos torpores, diria, num acervo de vozes e retratos de distinto sentir. Cale-se a poesia que a prosa vai falar. Silencie-se esta, honra à crónica seja dada. Escute-se, agora, a chama de indecifráveis, vezes muitas, poéticas chamas. Clamem as letras históricas pelo seu heróico lugar, deixem-se fundir, também, na ficção de romanceadas histórias, ou verta a sabedoria de acumulada vivência por macedenses ruas. Inebriem-se os sentidos, somente, portas escancaradas ao pingue-pongue entre a veterana escrita e o imberbe escrever. Permissão seja dada ao deambular por entre prismas de tons de unicidade, verdades muitas, verdades outras, cúmplices seres que aram a pena, miscelânea de ingredientes de uma estranha confecção, pastelaria dos sentidos, bolo da alma. Aconteceu, irremediavelmente aconteceu, algures onde o setentrião se cruza com o sol nascente, parando, escutando e olhando, talvez tenha finado o enterro, ou tenha belzebu deixado de lhe querer assistir. Ou tenha o futuro renascido das cinzas, milagre das têmporas de algum padroeiro ibérico, Martim de Macedo, quiçá, segredos desvendados, de queimados fontanários ou do primeiro da de Borgonha. Desviou-se o tiro, a bruma o cegou, a noite dos tempos lhe serviu de aconchego. Ausentou-se o fresco sabor da marmelada fresca, descansos de época, da cafeína, também. No final, sei e sinto que persistem chávenas de negro líquido, em "solo" pedido do lado de lá da fronteira, "cargado" de preferência, transmontana paixão de irreprimível sentir. Como alguém que serve de cavalgadura ao "Cavaleiro" terá dito, num sentido mas breve adeus, ressuscitando palavras de meio século, voltarei eu também. Singela e grata homenagem desenhada a V de vitória & a P de persistência...

sábado, 4 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (II) - Refulgências de pele lamacense


A Festa... Era no Domingo. Pretérito futuro, perfeito ou imperfeito, num envolvimento mais que perfeito. Eram as cores, garridas, até, trajes de gala que engalanavam o âmago de um qualquer orgulho que parecia irremediavelmente perdido, no quotidiano de "gadanhas", "seitouras" e "aixadas". Sujas roupas, desajeitadas vestes amparadas pelas Sortes, o Moral, Cristelos, Cedelais ou uma Canelha qualquer. Nesse dia ocultava-se a gente "imbuligada" da terra, excepção aos garotos, irrequietos "cmó catancho", desenfreadas correrias pelo aglomerado de gente com roupa "striada de nóbo". E não se ouvia o melancólico ranger dos veículos de tracções outras, alaranjadas formas calcorreantes de caminhos ornados a pó, onde me empoleirava, vezes sem fim, "stadulhos" por segurança, infância doirada por companhia. Nesse Domingo, o despertar era decorado a sonoridades distintas, troavam os sons da alvorada a ritmo de canhão, acordava atordoado com a sequência de "pum-pum-catrapum", tímpanos em algazarra, que os céus pintavam-se a trajectórias de um inconfundível "fiiiiiuuuuu", rastilhos acesos, elevações fumegantes, ficava no ar o rasto de efémeras nuvens artificiais. Era uma cadência de estouros, contra-estouros e re-contra-estouros que me atazanava o espírito, numa melodia que se assemelhava a um concerto de martelos que me vergastavam os receptores auditivos. Até a compensação chegar em forma de sonhos de arcaicos heróis de recolha de "barelas". Ou até descortinar os primeiros acordes da banda 25 de Março, alinhadinha, com o "mestre" na vanguarda, secundado pela rapaziada que fazia da carolice aprendizagem musical. Desafinavam, por vezes, mas ficava siderado com aquele "pó-ró-ró-ró", orgulhosamente extasiado por ver o "Ti Demingos" a debitar umas notas musicais. Era o melhor músico do mundo e arredores, projecto de ídolo de infância do sobrinho. «É u mou tio q'ali bai na banda!»... E já me tinha dado "deis e quinhentos prós doces»... Imaginava-me, crescido, a manusear dourados botões de trompete ou saxofone, percussão talvez, pratos poderia ser, apenas sonhava fazer parte daquele grupo dos "grandes", fardado e de chapéu de polícia na cabeça. Não hesitava em segui-los, marchando ao seu compasso, empunhando, numa mão, a melhor "barela" que havia encontrado no lameiro, na outra munido da artesanal bandeira de papel, encarnada de preferência, que carinhosamente o "Ti Demingos" me tinha deixado surripiar da varanda. Seguia-os, religiosamente, num estranho culto, simbióticas formas onde me via como um imaginário soldado, guardião do rebanho musical. Talvez a minha bandeira de papel fosse o estandarte do exército e a "barela" fosse a espada ou a espingarda dotada de baioneta. Não me recordo de recontros com o inimigo, probabilidades de não existência, ou incompatibilidades da memória. Quem sabe, o inimigo daria tréguas naquele dia especial, aquartelando-se à distância, receios de ser trespassado e esquartejado por aquele indomável general de truta e meia. Apareceria o "Squina", perdão, hábitos não perdidos de tardios baptismos, professor que meu foi. Que por religioso ser, excepções não havia para juvenis epítetos de classe docente. Dizia, apareceria o Quina, perdão de novo, Padre Quina, se faz favor, homem que a sua existência confunde com o pulsar de Lamas. Queira-se ou "desqueira-se", inebriadas vozes de pecados muitos... Com essa inesquecível figura de batina, chegava a solenidade, aproximava-se a "santa hipocrisia" também, que as viperinas linguas amansadas ficavam, que quem ali estava agora era o "S'nhô Pá'dre". E mandava, se mandava! Punha tudo em reboliço. Chapéus desenterrados da cabeça, para "eis", negros lenços desviados, capilares plumagens femininas à vista. E excomunhão para desafios à tradição e ao respeito, ostracizem-se adoradoras de Mary Quant ou expositoras de antepassados de Wonderbra. O "Ti Fanano" punha os sinos em desassossego, "imbarrando-se, dás bezes" na torre da igreja, num desafio ao precipício, inigualável sorriso de oponente do perigo. Silêncio agora, se faz favor, era hora da missa. Missa cantada, mal cantada, encantadoramente mal cantada. Que delicioso era subir a escadaria ao fundo da igreja, ascender ao alpendre, abafar as constantes risadas quando uma voz se descontextualizava do canto, porque havia sempre um mais atrevido que deixava escapar um «Ulha! Aquela aparece-se c'ua pita zeganiçada!». O privado espectáculo da "ganapada" não evoluía para o descalabro porque havia sempre uma respeitável voz que, em surdina, lançava o aviso: «Se num fitchais a matraca, infiu-bos puri ua lostra!». Por entre vernáculas expressões que, por decoro, e por respeito à solenidade, não devem ultrapassar a barreira do irreproduzível. Devotamente, seguia-se a procissão, não sem antes rebentarem mais uns petardos aéreos, anunciantes da saída do pálio, dos andores e do povo que os seguia, cumprimentos de promessas, caras lavradas pela amargura, artificialismo em casos muitos, mostras de social solidariedade, ou dever cumprido, simplesmente. Ia disfarçado de "Cruzado", alva faixa conquistada a custo junto das catequistas, afinal só era "mêo" de Lamas, por causa da costela "imberna". Confesso que preferia não estar dependente do andamento, mas caso assim não fosse outras seriam as memórias. Regredindo no tempo, reconheço que havia um tormento que superava aquele sacrifício da independência e a exposição do escalpe ao tórrido sol de Agosto. Terminada a "pecissão", a minha vontade de desentorpecimento de mente infantil era castrada por uma nova procissão, a do desfilar de gente à qual tinha, quase compulsivamente, de agradar com um sorriso, cedendo ao "bota cá ua mãozada", enquanto olhava esse qualquer desconhecido familiar afastado como executor da minha pena de reclusão às imediações do adro. Cumprida a sentença, prémio de horas muitas, recebia a honra, impagável honra, de ser portador do chapéu do "Ti Demingos". E que "contcho ficaba, tchêinho de proa". Breves mas memoráveis instantes até ouvir a voz da imponente figura da "bó", bradando aos céus, que o "jantar" já estava na mesa. Hora de saciar apetites, laranjada ou gasosa por companhia, que bebidas do Tio Sam ainda eram uma miragem. A azáfama de assados e afins continuava, sequências de éden do paladar, apressadas deglutições para zarpar em direcção à irreprimível tendência consumista de catraio. Com início nos encantos da sorte do bazar, fugazes rasgos de tentativas de recolha de um papelinho premiado. Quando, finalmente era bafejado pelo carimbo da Comissão de Festas, advinha a frustração. Ganhava um "tareco" que, sabe-se lá porque mágicas artes, haveria de aparecer na quermesse do ano seguinte... Inspirado pelo desalento, refugiava-me nos refrigerantes da taberna do "Ti Zé Pinto" ou nos "matraquilhos" da homónima do "Ti Luís". E pedia "ua tchicla d'ua croa" para relaxar a musculatura facial, antes do massacre a pedras esferificadas e gastas pelo tempo, imóveis e desfigurados seres pétreos trajados a jogadores de futebol como carrascos. Por vezes, um dedo exterior ao elenco levava uma "biqueirada" da distracção, trocava-se o parceiro por outro qualquer ansioso em lista de espera. E sujava-se a mão, a vestimenta até, com o óleo que impregnava o suporte dos mudos jogadores equipados à Benfica, Porto ou Sporting. Era tarefa ingrata, depois, justificar os negros resquícios que precisavam de dose extra de "RenaMatic". Se o dito, ou uma boa esfrega com sabão azul não devolvessem a original cor do tecido, era provável que a epiderme facial apresentasse resquícios, de igual forma. Esses rejeitavam qualquer aplicação de tensioactivos... Folgava, com sorte, a carne. Como folga era dada à autofagia que, chegada à hora da "cêa", ia afligindo as entranhas. Nada que um "cibo de tchithca com tantinho arroz" não resolvesse. Culinárias artes da ancestralidade prévias à exteriorização do nocturno espírito festivo. Arrumava-se a banda no velhinho coreto, soava o arranque das primeiras "modas", perfilavam-se arautos conquistadores de donzelas, timidamente apregoando dotes dançarinos. Terminada a dança, voltava tudo ao lugar, nada de exageros, progenitores-sentinela à espreita por entre um copo mais. A inovação dos "cunjuntos" chegaria mais tarde, mas chegou. Dias em que o "Pontão" passava a registar um inusual movimento automóvel, caóticas formas de alterar a fisionomia do "povo", itinerantes mostras de alienígenas matrículas. Um dia veio o cheiro a morte, sinais dos tempos, hipnotizou-se a vergonha e invadiu-se o pretenso privado couto da concelhia sede. Revés de uma inadiável aculturação, paralelos interesses, quiçá, finou a tradicional entrega da bandeira aos novos mordomos. Recusas, incapacidades, desinteresses, estranhas causas muitas, de inentendíveis que são. De resistentes saíu nova prole de mordomos, louváveis guerreiros de moribunda tradição. Cuidados paliativos, tão só... Visíveis na lenta agonia de uma Festa que é prima afastada da Festa que conheci. Mas resiste. Tal como resiste a minha sede de revivescência de quase imemoriais tempos, tão longe que parecem ir, tão perto estão aconchegados. A alfinetada neste ser não provém da perda de aura da Festa, a propriamente dita, com foguetes, bandeirinhas e arraial. Essa apenas é importante porque é a Festa da "minha" Lamas, da "minha" aldeia, das raízes. A outras não me recordo de ter ido, exceptuando a da vizinha Podence, por familiares atributos. Os pontiagudos artefactos que me assolam residem no alheamento a que a Festa está hoje votada. E, por nefasta inerência, na representatividade que esse efeito de modernos tempos tem no evoluir da contaminação através do desprezo. Não é só a Festa que está moribunda ou, em instância última, para demasiado grave não ser a acusação, com efusividade reduzida. É a própria essência de uma forma de estar, contágios do chamariz que já provocou desertificação, despovoamento agora é, eufemismos de quem vai promovendo a gestação do abandono. O parto, quando chegar, há-de ser doloroso. Entretanto, vamos tocando pífaro, ou assobiando para o ar, aguardando que a Senhora do Campo faça algum milagre. Serão gémeos? Sócrates e Aristóteles? Coelho e Lebre? Portas e Janelas? Louça e Plástico? Jerónimo e Touro Sentado? Quem sabe, mas já não acredito em milagres, muito menos provenientes de São Bento... Entretanto, deu-me um desvario do ser... Talvez tenha sido de não ter bebido laranjada e gasosa na Festa. Nebulosidade dos tempos... Cousas voláteis, etílicas, dirão as más línguas... "Q'sa contra-racosa quim u dixo, q'ou num imprenho pur os oubidos, nim pur lado nium! Hai bezes que sou mouquinho de todo"...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (I)

O encantamento não tem a sua génese na representação de mês de aniversário (esse, já lá vai). Nem resulta da atracção que, artes mágicas o dirão, o número 9 exerce no cavaleiro, cardinal que agora se lhe atribui, ou pelo primo 7, pai que foi da nomenclatura original. A cada ano, o mês que sétimo já foi, alumia o início de um novo trajecto. Estranhas formas de cavalgar a translação... Dizem que o Natal é quando um homem quer... Extrapolei a coisa para a Passagem de Ano e desato, mentalmente, a deglutir as passas e o champanhe dois pares de meses antes da efeméride das doze badaladas do trivial fim do ano. E parto para a decrescente contagem que me conduzirá a nova euforia, lá para finais de Julho, perante a aproximação dos dias que, tradição o diz, me fazem aspirar um pouco de atmosfera quente, tórrida até, de uma terra sem a qual o mês da inveja de Augustus estaria desprovido de um colorido único. Anormalmente, Agosto é o último mês do meu ano. Ao não ser Augustus, ou Julius, resumo-me à insignificância de Cabalarius, jeito não vendo de corromper os equinócios e os solstícios. Mas, a bem da honestidade, não queria ver o pseudónimo perpetuado por uma qualquer nomenclatura de um dos doze. O homónimo já se encarregou, e bem, de o fazer pela via dos acordes, mais o seu cavalo de pau... Mas já estou a divagar, e as divagações gosto de as deixar entregues à irrequietude dos pensamentos... Regressando a Setembro... Mês em que me encarrego de digerir a apimentada delícia de um breve período estival que, por alturas de Agosto, é condimentado, quase invariavelmente, a resquícios de xisto, montes, tradições, família, e regado a... "muntas cousas", por vezes, abusivamente, "cousas muntas". A culpa é "du calôre"! E da irresistível hospitalidade traçada a família e amigos, onde, em cada mesa cabe sempre um "bota lá mais ua pinga", ou é "copetcho q'stá sempre mêo bazio"! Se na mesa espaço não houver, é só mais uma, por vezes vertiginosa, descida até à adega mais próxima. Só a acalmia de Setembro consegue superintender alguns neurónios que ainda permanecem alvoroçados, desregrados que foram pelas partidas do tempo, ausências de horários, despreocupações de colesterol, triglicéridos, ureia e demais aparentes compósitos de parafernália bioquímica. Mas Macedo faz-me incomensuravelmente bem! Ainda que no regresso tenha sido parasitado com um trio de quilos a mais. Alternativa e enganadoramente, talvez a balança tenha sentido a ausência de rotina, desregulando-se propositadamente, em jeito de vingança. Lirismos... De regresso à Terra (o planeta)... Uma estadia na Terra (a mãe) conduz-me à utopia da simplicidade, elevando singelas "cousas" a patamares da excelência. A esquiva Podarcis, olhando-me de soslaio, arquitectando repentinas fugas, não sem antes fazer pose para a eternidade. Ou o par de jovens Delichon, dos beirais as dizem, assustadoramente à beira do precipício. No dia seguinte já por lá não moravam, apenas quiseram legar o registo da sua acrobacia sobre o arame. Mas morava os silêncio das pedras, guardadoras de historias muitas, esquecido pedaço de tégula, jazendo aconchegada por rolados calhaus. Talvez, bem auscultada essa réstia de romana herança, ainda possamos ouvir algum lamento Zoela, ou prece a Aernus. Ofertando-lhe uma flor, quem sabe... Uma das que compõem o jardim regado a suor e carinho, como só ancestrais mãos sabem fazer desabrochar. Cores muitas e formatos tantos, garridas formas de sarapintar a terra castanha, ressequida por abrasador calor. O forno diminui a temperatura quando o satélite surge na sua lunar forma, mas mantém quentes os corpos assados pela canícula. É hora de abreviar o tormento aos sedentos e coloridos seres que rodeiam a albergaria macedense. Aproveita-se a artificial precipitação para refrescar o desnudado tronco, mais habituado à nocturna aragem marítima. "Num corr'um arzinho!", queixa-se a progenitora. "Bá, q'inda bem puri ua trubuada d'Agosto, q'inda há um cibo bi alustrar prós lados da serra", riposto, em carinhosa ironia de quem vê a celeste abóbada pintalgada a constelações. "E frias-te no crutcho! Bem m'ou finto que tchoba!"... E não choveu... Mas choveram sonoridades de Bizet, abafada noite das Eiras, numa simbiose orquestral onde conviveu uma harpa com o brio de uma Senhora que manuseava castanholas como nunca havia visto... Não era a Carmen...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A impavidez da impunidade

Ao lusco-fusco, o horizonte apareceu carregado a homicídio. Uma negra coluna de fumo erguia-se assustadoramente, impregnando o ar daquele putrefacto aroma a vida queimada. E as televisões regozijam... Neste país de profecia da desgraça, interessa preencher os telejornais com situações catastróficas, forma acabada de manipular as mentes através do medo. Anestesie-se a gente, bloqueie-se a capacidade de pensar e castre-se a segurança. Porque é isso que interessa... Ao olhar para mais um exemplo da impunidade que permite que continuemos a arder, lembrei-me de Bornes, do verde da serra e dos momentos que por lá passei a percorrer-lhe as entranhas. E fiquei impaciente, anormalmente impaciente. Atrevi-me a emoldurar os arrepios numa qualquer meditação que me afastasse os maus pensamentos. Mas os ditos persistiram até ter resolvido colmatar a angústia revendo as muitas fotos através das quais fui captando o tutano da serra. Serviram de bálsamo ao tormento de fazer futurologia catastrófica... Afinal de contas, a "minha" serra ainda está (por enquanto) virgem no que respeita aos malfadados incêndios. Até quando? Na minha pacata forma de estar até consigo compreender a existência de pirómanos. Para o que não tenho compreensão é para aqueles que revelam uma atroz incapacidade de deter o monstro. Interesses paralelos... Eu só não quero que queimem a "minha" serra, nem as serras dos outros... E, já agora, caso não seja pedir muito, apanhem os incendiários e mandem-nos para umas prolongadas férias nas Berlengas... Ou nas Desertas... De preferênica com as mãos amputadas. Assim mesmo!

domingo, 29 de agosto de 2010

Pur u q'à neitinha fáze frezquinhu'e...

A saudade, enquanto deturpação do espírito, é um malabarismo estupidamente português. Dizem-na um fenómeno parido de uma qualquer metamorfose em que um pincel ganhou vida e desatou a calcorrear uma tela de cores garridas, adulterando-lhes a essência, enegrecendo-lhes as entranhas. Depois... Bem, depois nasceu uma aberração em que um inusitado fenómeno de lixiviação transformou umas tonalidades musicais alegres numa coisa a que deram o nome de fado. O fado português... O fado do destino... O fado das lágrimas... A triste, responsável e sensata forma de colorir um pedaço de terra assemelhado a um rectângulo. Colorir ou, inúteis vozes, enterrar a cabeça na areia, aguardando que o destino coloque a cauda a sarapintar o céu de corantes que façam lacrimejar a mais alegre das almas. Passada esta espécie de diarreia mental, hora de insanos acometimentos à verdadeira saudade, aquela que brota de uma irresponsável forma de estar, estranhas raízes "lusitanas" o afirmam, que sentir saudade não é conforme hábitos de alegre sentir. Desequilíbrios à parte, atentando nas leis do fado, também sinto saudade. Uma estranha saudade em que a alma não chora, antes cerra as pálpebras para recobrar os sentidos de efeitos de estadias por terras do Martim, de Macedo o dizem. Alegremente sentindo o pulsar de uma terra que marca a fogo e aço a vivência de um cavaleiro que, desmesuradas bocas, perdeu o anonimato da identidade. Que se dane! Foi-se a incógnita, permaneceu a vontade de vomitar palavras! Desenhadas a orgulho e a outras coisas mais. Ou cousas... Que tentam ludibriar, positivamente diga-se, este execrável fado que celebra a profecia da desgraça... Prefiro, indubitavelmente, a graça sem "des". É mais cómoda e confortável. Mais não seja, ajuda a aliviar o fardo do vazio que se aloja em nós quando nos vemos privados de um mundo que julgamos nosso e do qual nos vemos amputados. É um pouco assim que me sinto. Estendi as palmilhas por Macedo durante uma efémera temporada e as agulhas desmagnetizaram, virou o sententrião a meridionais latitudes e confundiram-se os sentidos. Como se o Nordeste se tivesse transformado num qualquer algures situado nos antípodas. Mas está lá, no mesmo sítio de sempre, aconchegado a Bornes e Nogueira. Eu é que já lá não estou. Mas é como se estivesse, ao virar da esquina, numa qualquer esplanada da Agostinho Valente. Aspirando respiráveis ares desprovidos de essência a combustão. Como se sente a ausência dos ares de Bornes! E nem a brisa marítima consegue disfarçar os aromas do corrupio dos círculos de borracha corroídos pelo asfalto. As narinas hão-de resignar-se... Novamente... Faz parte do ciclo, até à interrupção para uma nova incursão de fim-de-semana. Num qualquer Setembro, ali ao pé, virado o augustino mês, numa breve angústia temporal, revivescências de trajectos sempre tidos, ou quase sempre, que o Marão é feito de travessias muitas. Numa "bota" onde o Norte e o Leste se cruzam, cumplicidades geradas pela inconfundível paixão onde a Terra Fria se tornou amante da Terra Quente, gerando uma prole talhada a Inverno e Inferno. Desta vez, ficou para trás o sufoco das tardes regadas a forno, o suspiro pelas noites arrefecidas pelo brilho estelar. Há sempre o reverso da medalha. De um lado, as saudades... Do outro, um ansiado sossego nocturno, sem janelas abertas para que entre a atmosfera retemperadora da escuridão. O Atlântico tem destas coisas: "à neitinha fáze frezquinhu'e"... Ufa!!!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

"CAFÉ SOLO"...

...com murmúrios de xisto. Ou identidades que tresandam à poeira do estio, eriçada por infames "biqueiradas" no velhinho campo da bola, no Toural, na Praça, na Estação, ou noutro macedense lado qualquer. Correrias intemporais, lavradas a desenfreadas infâncias, restauradas por inevitáveis avanços na tecnologia de ancestrais charruas. Ontem lavrava-se a pena, hoje massacram-se as extremidades de anelares, indicadores e restantes irmãos, ajeitem-se os seres às negras teclas. Mas a essência está lá. Lá, cá, ou noutro lado qualquer... Sou mais prosaico que poético, confesse-se a alma. Alma minha que, confissões feitas, resistência não dá a poéticas passagens de um ser que carrega fardo semelhante ao meu: é macedense. Se é que isso é fardo de monta... Mas alivia o peso "botando ó mundo" as lamechices próprias de quem exala aromas esquissados a vivências nunca perdidas. E que bem que fazem aos sensoriais receptores! Lê-se, relê-se, devora-se, em nunca acabadas histórias contadas a, por vezes diga-se, indecifráveis vocábulos. Volte-se atrás, apenas, numa efémera regressão, como se os signos adquirissem tonalidades nunca inventadas, dando sentido a um trivial prazer de observar o mundo com olhos de réptil alado ou, inventem-se formas outras, visões de inanimados seres que, instantes breves, privados se vêem do mutismo que as formas lhes deram. Pode ser uma cadeira, uma mesa talvez, prostradas numa esplanada qualquer, acariciando um pires que suporta o peso de uma chávena de líquido fumegante... Com uma qualquer história para contar... De gente, do tempo, do trânsito, do céu, do mar, do paraíso... Injecções de cafeína poética... Enquanto se aquece o esófago com um "café solo"...

Sufocos da impunidade

Talvez seja o restolho da penitência de almas que vagueiam por pecados nunca tidos. Ou a impunidade reduzida a um nevoeiro assassino onde mal se vislumbra o negro de morte. Mas cheira! A homicídio, a declarado homicídio! Por enquanto, por nobres terras aconchegadas a Bornes e a Nogueira, o atroz inferno tem-se resumido à aspereza dos três do ditado. E à efemeridade de uns fogachos que apenas chamuscam a terra sedenta. Por enquanto... Não sei quanto mais haverá para arder no Gerês ou na Estrela. Os ventos da morte virar-se-ão, mais dia menos dia, para o reino olvidado. Não são as mediáticas imagens televisivas que me alimentam a angústia. Este tormento da alma tem causas que residem muito para lá das mãos assassinas de quem queima o meu país. O pão bolorento que dá alimento a esta estranha ansiedade é fermentado em inacessíveis corredores onde se cozinha fósforo e rastilho, fervilhantes mentes que ainda hão-de legislar contra os lobos que fumam de madrugada, contra coelhos em algazarra por patuscadas nocturnas com javalis por companhia, contra veados que ateiam fogos para suavizar a digestão das herbáceas... O que me sufoca não é a atmosfera pintada a cinza, nem o intragável cheiro a pulmão verde queimado. O que verdadeiramente me sufoca é a política de terra queimada, onde sobrevivem iluminados seres que não têm os "armazéns genéticos" no sítio para pôr cobro a uma calamidade anunciada. Viva a política do "termo de identidade e residência"! Entretanto, pode ser que vejamos mais ministros em hipócritas condolências por bravos que tombam assassinados por obscuros interesses que não me obscurecem o discernimento. Incendiárias formas de não deixar prostrar a voz que ecoa da revolta das cinzas...