Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



terça-feira, 17 de agosto de 2010

"CAFÉ SOLO"...

...com murmúrios de xisto. Ou identidades que tresandam à poeira do estio, eriçada por infames "biqueiradas" no velhinho campo da bola, no Toural, na Praça, na Estação, ou noutro macedense lado qualquer. Correrias intemporais, lavradas a desenfreadas infâncias, restauradas por inevitáveis avanços na tecnologia de ancestrais charruas. Ontem lavrava-se a pena, hoje massacram-se as extremidades de anelares, indicadores e restantes irmãos, ajeitem-se os seres às negras teclas. Mas a essência está lá. Lá, cá, ou noutro lado qualquer... Sou mais prosaico que poético, confesse-se a alma. Alma minha que, confissões feitas, resistência não dá a poéticas passagens de um ser que carrega fardo semelhante ao meu: é macedense. Se é que isso é fardo de monta... Mas alivia o peso "botando ó mundo" as lamechices próprias de quem exala aromas esquissados a vivências nunca perdidas. E que bem que fazem aos sensoriais receptores! Lê-se, relê-se, devora-se, em nunca acabadas histórias contadas a, por vezes diga-se, indecifráveis vocábulos. Volte-se atrás, apenas, numa efémera regressão, como se os signos adquirissem tonalidades nunca inventadas, dando sentido a um trivial prazer de observar o mundo com olhos de réptil alado ou, inventem-se formas outras, visões de inanimados seres que, instantes breves, privados se vêem do mutismo que as formas lhes deram. Pode ser uma cadeira, uma mesa talvez, prostradas numa esplanada qualquer, acariciando um pires que suporta o peso de uma chávena de líquido fumegante... Com uma qualquer história para contar... De gente, do tempo, do trânsito, do céu, do mar, do paraíso... Injecções de cafeína poética... Enquanto se aquece o esófago com um "café solo"...

Sufocos da impunidade

Talvez seja o restolho da penitência de almas que vagueiam por pecados nunca tidos. Ou a impunidade reduzida a um nevoeiro assassino onde mal se vislumbra o negro de morte. Mas cheira! A homicídio, a declarado homicídio! Por enquanto, por nobres terras aconchegadas a Bornes e a Nogueira, o atroz inferno tem-se resumido à aspereza dos três do ditado. E à efemeridade de uns fogachos que apenas chamuscam a terra sedenta. Por enquanto... Não sei quanto mais haverá para arder no Gerês ou na Estrela. Os ventos da morte virar-se-ão, mais dia menos dia, para o reino olvidado. Não são as mediáticas imagens televisivas que me alimentam a angústia. Este tormento da alma tem causas que residem muito para lá das mãos assassinas de quem queima o meu país. O pão bolorento que dá alimento a esta estranha ansiedade é fermentado em inacessíveis corredores onde se cozinha fósforo e rastilho, fervilhantes mentes que ainda hão-de legislar contra os lobos que fumam de madrugada, contra coelhos em algazarra por patuscadas nocturnas com javalis por companhia, contra veados que ateiam fogos para suavizar a digestão das herbáceas... O que me sufoca não é a atmosfera pintada a cinza, nem o intragável cheiro a pulmão verde queimado. O que verdadeiramente me sufoca é a política de terra queimada, onde sobrevivem iluminados seres que não têm os "armazéns genéticos" no sítio para pôr cobro a uma calamidade anunciada. Viva a política do "termo de identidade e residência"! Entretanto, pode ser que vejamos mais ministros em hipócritas condolências por bravos que tombam assassinados por obscuros interesses que não me obscurecem o discernimento. Incendiárias formas de não deixar prostrar a voz que ecoa da revolta das cinzas...

domingo, 25 de julho de 2010

Renascimentos do espírito em Morais

Mais que um alívio à nostalgia, a revivescência de ancestrais tradições poderá ser um sinal de vitalidade de um povo. Por algumas aldeias transmontanas vai-se assistindo a regressões temporais, breves recuos a épocas em que a força braçal comandava o destino agrícola. Vão proliferando, aqui e ali, recriações do que marcava o calendário do campo, a partir de alturas do S. João. A aldeia de Morais tem representado a pedrada no charco no concelho macedense. O teatro vivo, de gente que segue um guião empírico, naturalmente descurando o decorar de deixas, mostrando a faceta de gente rude e simples, simpática e bela, que conquistou uma terra áspera e bravia, rasgando-lhe as entranhas a suor. Era assim a segada… A acarreja…. A malha… Tempos outros, em que o mar doirado era o chamariz para bandos de segadores, gente que descia para laminar o pão que a terra dava. Era a dureza, o tórrido escaldar, a poeira, a sede… Mas também a alegre algazarra dos cantos, o espírito comunitário do “torna-jeira”, as sopas da segada, de pão amolecido em água de bacalhau, lascas do dito, alho “rijado”… E a “cabaça” do precioso néctar que circulava de boca em boca, sem receios de transmissões de Influenza… Não havia H1N1, nem H5N1… Havia, apenas, sede, muita sede, de corpos desgastados pelas braçadas nesse doirado mar, gente que nadava munida de “seitouras” e “dedeiras” (“dedaleiras”, chamam-lhe, também), amputando as ondas do seu balançar, testemunho no restolho. E uma poeira cerealífera que se entranhava no corpo… Nada que evitasse, chegado o tempo, infantis viagens empoleirado em veículos de tracção animal, “estadulhos” por companhia, ao som de melancólico ranger, triste e profunda pretérita canção saída de artesanais rodados, numa aguda cadência de nunca inventados acordes. Isto não passa de uma “espalhadoura” do tempo, tempo que mudou, felizmente, que a evolução de conceitos e técnicas é humana marca. Mas há delícias intemporais, visões de um passado não muito distante, imagens de marca de um povo. De um povo que, no meio da agrestia, ainda sabe sorrir… NOTA: As imagens que acompanham este texto foram gentilmente cedidas pela Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A terapia dos enganos

Folhear a imprensa escrita da pretérita semana revelou a voz de um assustador monstro: os custos da interioridade. Os efectivos e aqueles que, a longo prazo, hão-de deixar mossa pela deglutição encapotada dos parcos recursos de que uma região dispõe. Ao abrigo de uma propalada reforma na Saúde, encerraram-se serviços básicos, numa clara demonstração de prepotência que baldados esforços de alguns não conseguiram suster. A pretensão de reduzir custos, à custa da saúde de uma população envelhecida, redundou no incremento da noção de que os “selvagens” transmontanos estão, cada vez mais, entregues a si próprios. De forma contraproducente, vão-se recebendo os amargos rebuçados do engano, aplaudindo projectos solidários nascidos de submersões ou saudando chegadas de atrasadas hélices. Hélices que, pelos vistos, não funcionam quando são precisas. A inoperacionalidade das ditas, na presença de dois graves acidentes que marcaram, infelizmente, os concelhos de Valpaços e Bragança, veio a lume na dita imprensa escrita. E todos ficámos a saber que todas aquelas quase indecifráveis siglas que incluem VMERs, SIVs e afins, gerida a sua operacionalidade por um CODU que, sei lá, está sob a alçada do INEM, o qual, por sua vez, deve ser gerido por uma qualquer FGSDD (esta é inventada…), afinal não passam de veículos devidamente artilhados, profusamente decorados, mas que não dispõem de pessoal médico suficiente para darem resposta às necessidades das populações que se viram amputadas daquilo a que, ainda que não funcionado devidamente, já estavam habituadas. O infeliz desfecho que teve o acidente de um transmontano que, no decorrer das suas actividades, ficou debaixo de um tractor agrícola, não teria sido diferente caso tivesse ocorrido há alguns anos atrás. Porque os meios tardariam em chegar a uma das muitas remotas aldeias transmontanas e, ao que pude constatar pelo veiculado nas notícias, os ferimentos eram de gravidade considerável. Contudo, talvez, e não ultrapassando uma mera base hipotética, a rapidez de meios que um helicóptero representa tivesse ocasionado a salvação de uma vida. Mas estava inoperacional… Pelas más condições atmosféricas? Não… Por uma qualquer avaria, resultado de falta de manutenção? Não… Por falta de pessoal médico? SIM!!! E, já agora, um aviso a todos os transmontanos: acreditando no referenciado pela imprensa, a terem acidentes que exijam a rápida intervenção de meios de socorro rápidos, evitem tê-los nos próximos dias 21, 22 e 30. Porque, numa tal de escala de serviço para Julho, o helicóptero sedeado em Macedo de Cavaleiros, estará inoperacional nesses dias, por falta de médicos… Um dos deputados eleitos pelo círculo de Bragança mostrou a sua indignação, entre outras coisas, pelo facto de «as populações transmontanas estarem a ser enganadas». Senhor Deputado, só se apercebeu agora? Mais vale tarde, que nunca...

domingo, 4 de julho de 2010

Cirroses da alma numa educação corrompida


As regressões temporais, se abusivamente tomadas como recurso, extirpam o valor ao futuro. Contudo, quando, por instantes que não vão além de uma suave brevidade, lhes dou permissão para envolverem a nostalgia num terno abraço, fico despojado das vestes da incerteza com que, sub-repticiamente, nos vão adornando. Como desdenho dos enfeites, desdizendo, no entanto, o ditado, socorro-me do arado em que transformo os signos, chicoteando uns pequenos quadriláteros com as extremidades dos membros superiores, numa tecnológica metáfora que transforme o alfabeto em gritos. Ou, em alternativa, em silenciosos alertas que, paradoxalmente, vejam amplificada a sua sonoridade… Pode ser que alguém se dê ao trabalho de decifrar a lavra… E que mais se juntem à depreciação da teia com que, hipocritamente, nos enredam, numa atroz morfinização, atordoando-nos com carícias emparelhadas com sorrisos que escondem o esmalte da dentada fatal. Como a impavidez me corrói a essência do ser, “num m’amoutcho”!… Por isso, de “bêz’im quando”, inverto os ponteiros, relegando o presente para um mero comparativo com o pretérito. E nem sempre a doçura vem reflectida a mel, fenómeno de avulsas letras onde o “m” convida o “f” a substituí-lo… Porque é de letras que se trata, ou da forma como lhes decifrei as entranhas, sugando-lhes a essência, aglomerando-as numa estranha espécie a que a preceptora dava o nome de abecedário, fazendo-as conviver lado a lado, até ao clímax de as obrigar a gerar perceptíveis vocábulos. Mas isso foi noutros tempos… Tempos em que, esporadicamente, por familiares atributos, retirava a exclusividade de aluno da Primária do Toural e penetrava noutros escolares mundos recheados de putos, lá para as bandas de Sezulfe ou, alternativamente, para os lados de Lamas. Estranhamente, para modernos tempos, sublinhe-se, havia putos, putos que aprendiam, corriam, brincavam, tal como faziam os putos do Toural. E havia professoras, professoras que ensinavam, repreendiam, presenteavam com reguadas, tal como faziam as professoras do Toural. À hora do almoço, os putos faziam uma marcha de 5 ou 10 minutos, numa breve conexão com o seu mundo, o aconchego do lar ali ao lado, paredes meias com o edifício branco onde aprendiam a soletrar e onde tinham um recreio para brincar, pais à espera, tal como faziam os pais dos putos do Toural. No final das tarefas escolares, pastas às costas, infindáveis correrias de infantis energias, a casa à mão de semear, proximidades, ou a segurança do conhecido. Tal como faziam os putos do Toural… Um dia, contingências várias, os putos cresceram, e foram fazer putos para outro lado. Deixou de haver putos, tal como havia na Escola do Toural. E os edifícios brancos foram sendo amputados, paulatinamente, de vida, votados ao esquecimento, premeditadas formas de, o futuro o dirá, manietar a gente, forçando-a ao abandono da terra, para que um dia a terra seja coberta por um qualquer dos muitos lençóis planeados, sustidos a emparedamento de betão, e para que não se afogue a gente, que matar só o passado, crime não é. Criou-se uma nova classe infantil: a dos deportados. Putos que mal largaram ainda a etapa da “teta”, 5 ou 6 anitos, tão só, sonhos quebrados por uma reorganização educativa pensada e planeada por pais que colocam os filhos num qualquer Colégio Alemão ou Francês. Pais, que não sendo de transmontanos putos, desconhecem o sabor da madrugada, nem provam viagens de autocarro por províncias de auto-estradas privadas… Talvez, um dia, a castração crie uma proliferação de novas Banreses, submersas quiçá, ou engolidas por uma vegetação parida em xisto do esquecimento. A arqueologia do vigésimo segundo agradecerá, fortuitos achados de gente que virá em busca da exploração da coutada. Nesta viagem ao futuro, não me surpreenderá que um portador genético exprima a admiração pela pétrea ossatura que testemunhará, silenciosamente, que ali existiu uma qualquer Soutelo Mourisco, ou coisa que o valha. Entretanto, o mutismo e a resignação de todos nós, vai alimentando o Golias que, desmesuradamente, engole xisto e granito e os cospe em forma de betão, ou em forma de irreversível destruição, tentáculos que silenciosamente se movem, absorvendo rasgadas entranhas à sua passagem, sorvendo os poucos que buscam ascender a David. E nós? Nós fugimos, num indescritível individualismo de quem apenas cuida do próprio umbigo, esquecendo-nos de olhar para o costado, golpeado insistentemente sem que esbocemos o mínimo esgar de dor. Calamo-nos, esquecendo, até, a dupla auricular que, de mudos, nos deveria fazer ouvir. Não escutamos a dor, porque nos vendem que a dor não se escuta. E nem a sentimos, porque nos anestesiam com a virtualidade de analgésicos de cavalar dose, escudando-se a governativa medicina por detrás de solidariedades de amargos rebuçados. Um dia, num regional periódico, lê-se o diagnóstico da única pedopsiquiatra de um futuro condenado Centro Hospitalar do Nordeste. Aumentam os casos de putos, iguais aos putos do Toural, de Sezulfe, de Lamas, e de outras aldeias mais, com distúrbios emocionais, incrementam as dificuldades cognitivas, proliferam as queixas de deportados que esperam, madrugada ainda, pela abertura de portões. E, sei lá, conjectura apenas, há putos, iguais aos putos do Toural e do resto que não me apetece repetir, que mergulham, sem volta, num qualquer Tua, que Azibo ou Sabor poderia ser, quem sabe… Será um conluio? Terá Sulpício Galba disseminado os seus genes para lá do aceitável? Ter-se-ão conjugado os ditos com os de Servílio Cepião? Se não é, parece… Ou, contemporaneidades, terá deixado rasto um dos últimos estadistas da potência do mesmo paralelo do lado de lá do Atlântico? Um tal que, como medida de combate aos incêndios que assolavam um dos 50 Estados, afirmava ao Congresso que deveriam abater-se as árvores… Não existiria combustível, nada haveria para arder… A medida terá chegado a este europeu canto. Para não haver desertificação, promove-se, encapotadamente, a dita. Já não restará nada para desertificar… Nem vozes que se levantarão contra o que desertificado está… Um dia, talvez os macedenses putos passem a deslocar-se, A4 concluída, para um qualquer centro escolar, Vila Real, talvez? Utopias de uma escamoteada realidade… Ou a finada luz de um qualquer túnel fechado... Nota: Três magníficas fotos que adornam este post são da autoria de Valter Cavaleiro, ao qual agradeço a sua permissão para as utilizar

Estranha paz, eternas viagens

O inexpectável da vida é feito do expectável. Um dia, sem prévia marcação, todos sabemos que faremos a derradeira viagem, aquela que deixará um vazio difícil de preencher naqueles que aguardam na lista de espera. O insofismável desfecho da vida... Desígnios da criação, o luto que nos esforçamos por adiar. Um dia, ainda que acreditando que enganamos a lógica, apercebemo-nos da ilógica do engano. Os suspiros do espírito vão amainando a dura e cruel realidade. E só acordamos, efectivamente, quando se torna irreversível a viagem de alguém... Não um qualquer alguém... Um ser que nos habituamos a admirar, mesmo que tenhamos que reforçar a aprendizagem de formas de comunicação por erros paridos pela medicina. E admiramo-lo, não como por muitos terá sido admirado, porque, simplesmente, nasce uma estranha amizade. Solidificada em memoráveis noites de acesa cavaqueira num não menos memorável ícone macedense. Daquelas imperdíveis noites em que a conversa se prolongava até a impaciência começar a surgir em irrepreensíveis sinais, provenientes do senhor de casaco cinza, prostrado de cansaço, diligente, por detrás do balcão. Gostava de o provocar, não pela provocação em si, mas porque a minha sede de aprendizagem falava mais alto. E, extasiado, deixava-o falar, gesticular, bradar aos céus, praguejar. Por vezes, saía desaustinado em direcção à sala em frente. Era hora de acalmar os vapores da sapiência, refresco da alma para quem eu admirava pelo poço de cultura que era. E tanto que aprendi nessas inolvidáveis noites! E tanto que absorvi desse desfiar de acumulados anos de devorador de mundo, de letras, de notas! Hoje, fechou-se definitivamente o livro. Ficaram as sementes, as raízes e as imagens. Particularmente a do seu inseparável cachimbo... Por isso, em jeito de póstuma homenagem, impregno o ar desses inigualáveis aromas provenientes do "pipe". Fechando os olhos, não escondo uma tímida lágrima de saudade, enquanto o "Peterson" me transporta para aquele banco em forma de sela, onde as horas se transformavam em minutos e o tempo parecia não passar. Não me despeço, porque há pessoas das quais nunca nos despedimos. Ou faço apenas aquilo que ele fazia na hora do "até amanhã": ergo o polegar em sinal de aprovação e digo-lhe o que, invariavelmente, me dizia do alto da alva cabeleira e daquele enigmático sorriso... "Bebe mais um copo"... Hoje bebo mais um, amigo João...

domingo, 27 de junho de 2010

Oh, Gente da Minha Terra…

O horizonte, desenhado pelo ondulado dorso de Bornes, não prenunciava nada de bom. Algodões sujos pintavam o céu a tonalidades de cinza, o troar dos deuses bom augúrio não era para a aguardada audição da diva. As primeiras gotículas, grossas, cheias, daquelas que abafam o tormento do estio, mas que constrangem as almas ao resguardo. Mentes receptivas à invulgar beleza de um céu rasgado, aqui e ali, por ziguezagueantes ondas eléctricas, aleatoriedade de trajectórias que reclinam o espírito, numa espera de novo espectáculo de pirotécnica arte celeste. Talvez o ribombar tenha despertado S. Pedro. Talvez, no dia da inauguração da sua Feira, tenha aberto inusuais portas para que as nuvens corressem para o exterior do aéreo espaço macedense. Os ânimos de celestes protestos acalmaram com o aproximar do canto do povo. Em boa hora! Mariza cantou, cantou, e encantou! Num quase insuperável encantamento de cantadas palavras que vão muito para lá de fadados choros trinados. Mariza não é fado, é uma espécie de magia distribuída a gente habituada ao canto do esquecimento. Mariza não é uma diva fechada em caprichos que as divas têm. Mariza é povo, também… E Mariza é emoção, porque as suas palavras chegam onde não supunha, sequer, pudessem chegar. Mesmo que, timidamente, se tenha ausentado do palco dessas mesmas emoções, num escondido choro de quem vive uma estranha simbiose com o povo que a ouve. A acústica não era a desejável para absorver uma inusitada voz, mas que se dane a acústica, porque há vozes e momentos de tal forma marcantes que nem eventuais deficiências conseguem apagar. Não me reconheço no fado, confesso-o. Percebi, ontem, porque exercia Mariza estranhos efeitos neste ser sem grandes afinidades com a dita canção nacional. Mariza transpira música, exala alma, distribui a simplicidade dos grandes, mistura-se com o anónimo povo e, neste macedense povo, tocou-lhe nas entranhas do sentir, fazendo explodir uma inexorável forma de estar em que a rigidez das faces traçadas a rugas de xisto sofreu uma repentina metamorfose. Macedo superou-se a si próprio, anormalmente libertando emoções, como se um signo de esperança tivesse saído de uma qualquer poção mágica lançada pelo canto de uma esguia diva que chora sorrisos. Eu sorri, chorando, não escondendo um tímido humedecer dos periscópios da alma, enquanto pulava e deixava ecoar as palmas, absorvido pela multidão que quieta não estava. E emocionei-me quando, da minha garganta, qual analgésico efeito num finado torpor, ecoou um “de quem eu gosto, nem às paredes confesso”… Emoção não devida, em exclusivo, à música ou à diva que a transfigurou. A emoção explodiu porque, simplesmente, a minha banal voz se soltou num transmontano grito, no meio de corações de Gente da Minha Terra!