Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 19 de junho de 2010

Conventos memoriais ou a morte das intermitências

O abrupto traumatismo luso-literário que me foi infligido nos velhos tempos do "Secundário", injustiças cometidas com "As viagens na minha terra" ou "Os Maias", arcaicos métodos compulsivos de incentivar a leitura, apenas teve o seu ocaso entrado que estava o finar do vigésimo século. Numa dessas revistas semanais pioneiras em agregar espécimes literários às suas edições, surgiu uma colecção de grandes autores. O simbólico do preço não colocou entraves de maior à dupla aquisição. Para mal dos meus pecados de então, o primeiro duo incluía... "Os Maias". Franzi o sobrolho, quase aderi à imediata desistência, tal o trauma. Contudo, aguardei pelo terceiro exemplar... "O memorial do convento"... Má sorte, amor ardente! Uma "coisa" escrita por um autor que se situava quase nos antípodas do que norteava o meu pensamento! Porém, como não sou xenófobo (não apenas no conceito de preconceitos raciais que, erradamente, se atribui à expressão), mandei a resistência intelectual às malvas e decidi dar-me permissão para me embrenhar nas aventuras e desventuras de Blimunda e Sete-Sóis, mais as históricas Mafra e a inovadora Passarola de Gusmão. O desacerto literário fascinou-me, o sarcasmo e a ironia geraram uma estranha cumplicidade com um rapazola habituado a situar-se na contra-corrente, não por contra ser, mas por concordar com a de Calcutá, que era sempre a favor de alguma coisa. Óbvio que a "pseudo-intelectualite" sempre colocou reservas e reticências (e outros ortográficos sinais mais) a uma lavra que contrastava com o nosso jeito de povo bem amanhadinho, cumpridor das mais elementares regras gramaticais, mas que depois vende o corpo e a alma a imposições ortográficas paridas além-atlântico... Prostituições intelectuais... A safra foi de tal forma proveitosa que, sôfrega e rapidamente deglutido o ficcional do reinado do "Freirático" (dizem-no "o Magnânimo", mas a sua magnânime apetência por noviças dixit...), deixei que as recordações traumáticas se esbatessem e, a medo, invadi o queirosiano universo dos amores e desamores de Carlos Eduardo e Maria Eduarda... E vi-me na contingência de rever todos os conceitos que tinha herdado dos meus verdes anos de estudante macedense. Fiz um tratamento anti-celulite luso-literária, recompus-me e tratei de elevar a ícones (não a ídolos, que a idolatria não faz parte dos meus dias) alguns autores portugueses que descobri e redescobri. Um deles, finado que está, terá agora direito a inumeráveis e incontáveis cerimónias de póstumo louvor. Provavelmente, com a irónica e sarcástica presença dos detractores... Aqueles que quase me convenceram, Nobel atribuído, que Uderzo e Goscinny estavam equivocados quando epitetavam os Gauleses de loucos... Loucos, loucos, são os Suecos... Bem vistas as coisas, ainda terá uma barragem com o seu nome, lá para o Alentejo, talvez, que as setentrionais terras são pouco atreitas a que uma qualquer barragem do Sabor ou do Tua seja baptizada com nomencaltura de anti-cristo... Essas, hão-de ser "Qualquer Coisa Comendador Mexia"... Restringindo-me à minha trivial posição de constituinte do anónimo povo, a minha homenagem quedar-se-á por ler o que ainda me falta... Mesmo que discorde, de forma absolutamente absoluta, de "lanzarotianas" posturas políticas. Mas, trabalho é trabalho, conhaque é conhaque... Ah! Não sei se o diabo virá ao enterro, mas louvem-se os vivos também! Porque de um qualquer "Sancirilo" resgatado, há uns anos, de uma estante, espantou-se o fantasma da portuguesa literatura. Neste caso, alimento deu ao "monstro" do orgulho na terra-mãe... E tudo isto porque queria escrever sobre a recente criação da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Logo tinha que desaparecer o mago do sarcasmo, para derivar as idéias... Por ter mencionado sarcasmo... E porque fiz uma referência, ainda que indirecta, ao grande Pires Cabral... Lembrei-me do Grémio Literário... A saudável simbiose literária expectável entre os dois distritos transmontanos redundará numa mais que previsível intelectual guerra surda?... Espero que o olfacto me engane... Antes que a coisa azede, "bou-me infardar uas cereijas mim ducinhaze"...

Despotismo energético

Amiúde, a minha voz interior presenteia-me com a subtileza de privados sussurros, rastilhos do ser, desencadeadores de um atípico género de convulsões revolucionárias no interno país... Habitualmente, como já conheço esta peste com que diariamente lido, remeto-me à clausura do silêncio. Forma de salvaguardar a proliferação de "cousas ditas a quente". O silêncio convoca as cerebrais calotes polares a intervir, quais benzodiazepinas, atrofiadoras de um vulcão que, a explodir, poderá ter efeitos colaterais de ricochete. Como pessoa, mas acima de tudo, como transmontano, é notório o meu quase ódio de estimação por uma certa monopolista companhia eléctrica. Qual teoria da conspiração, começo a duvidar se somos (des)governados a partir de S. Bento... A começar pelo patamar da desgovernação de chorudas remunerações... Questione-se um qualquer adolescente, daqueles que ainda possuem neurónios pensantes: "- No futuro, gostarias de ser Primeiro-Ministro do Governo Português?"... "- Não! Optaria, antes, por ser Primeiro-Ministro do Governo EDP!"... "-Porquê?"... "- Porque aufiro vergonhosamente mais, porque mando encapotadamente mais e porque não tenho que aturar a Oposição em estéreis debates parlamentares"... Lógico... Para lá disso, o ficcional adolescente poderia acrescentar outras coisas mais... Faces ocultas da lua... Ou, por exemplo, a passividade de uns depauperados que vivem numa região eternamente esquecida, onde, despoticamente, lhes castram a seiva que lhes corria entre montes, vales fluviais rasgados a pá e picareta, pretensos incómodos ao saudável evoluir económico do país dos descobrimentos... Para quê? Para construir barragens que suguem um pouco mais ao pouco que nos resta. Mas, um dia, qual pontapé no traseiro da letargia, assisto a algo inusual: o "poder" e a "oposição" da autarquia macedense estão de acordo! Não, desta vez não é por uma qualquer homenagem a um vulto da terra! A vereação encontrou um ponto de unanimidade: um enfrentamento à EDP! A tal que, para lá de não retirar a sub-estação do (agora) centro da "vila", bem ao lado do pólo escolar, ainda quer impor, a seu bel prazer, a colocação de linhas de alta tensão que, ao que parece, inviabilizariam os voos nocturnos do helicóptero de emergência recentemente colocado em Macedo. Os meus protestos podem chegar ao Céu, mas desconfio que até lá deve estar a decorrer um qualquer projecto de EDP-hipocritamente-solidária... A minha voz é insuficiente para mexer neste deboche total... Agregassem-se-lhe outras mais e "mexia, mexia"...

domingo, 13 de junho de 2010

Aberrações de um país de bananas

Um pouco de considerações utópicas... Faz de conta que nasci no outrora medieval concelho de Vale de Prados, o Grande... Faz de conta, ainda, que sou um pouco mais velho, que sobrevivo de uma qualquer mísera reforma ou que, detentor de outros rendimentos, possuo a minha courela, entretenimento de sobrevivência de um qualquer final de tarde... Carinhosa, mas arduamente, cuido dos hortícolas produtos, assistindo, de pesarosa forma, ao delapidar dos mesmos por eventuais amigos do alheio. Um dia, um qualquer dia, cansado das intrusões à minha propriedade, decido montar guarda, direito inequívoco de defesa do que meu é. É noite... Aproxima-se um vulto do local onde me encontro abrigado, pleno de boas intenções, perfeitamente demonstráveis através da indumentária, visível no facto de o dito vulto se apresentar encapuzado. Talvez tenha tentado algum tipo de abordagem comunicativa... Ou talvez o instinto tenha falado mais alto... A verdade é que, para lá destas irreais deambulações com cheiro a literário, existiu um real ser que, do alto dos seus respeitáveis 76 anos, decidiu defender o que seu era... É discutível o método, assim como o é o facto de ter ceifado uma vida. Contudo, era a vida de alguém que se apresentava encapuzado, munido de uma arma de fogo e que, qual cereja no topo do bolo, era procurado pela Polícia Judiciária. Atenuantes, só atenuantes... Na boa fé de idoso, após o cometimento do crime, entregou-se o presumível homicida às autoridades... De que lhe valeu tal honroso acto? O pedido da insuspeitável Justiça de uma pena de 15 anos de prisão efectiva, acrescida de uma indemnização de 384 mil euros! O colectivo de juízes acabou por dar a benesse de "apenas" 8 anos de prisão acompanhados da indemnização de 30 mil euros... Percebo, agora (tão ingénuo que sou), aquilo que, há uns anos, um inspector me dizia acerca de um assalto de que fui vítima, após se ter descoberto o autor material de tão louvável acto (autor que, como muitos semelhantes autores, ficou impune). A revolta levou-me a questionar o saudoso inspector acerca, entre outras coisas, do comportamento a ter perante a possibilidade de chegar a casa e ter no seu interior outro amigo do alheio. Dizia-me ele que o pior que poderia fazer era a opção por qualquer tentativa de defesa do património com recurso à violência. Estupefacto, fui ainda mais longe, atirando para o ar a horrível possibilidade de o amigo do alheio estar a "divertir-se" com a minha mulher ou com a minha descendência... A resposta, pronta e concisa: "O melhor é não lhe fazer nada!"... Ou então... A parte do "então" é melhor ficar no âmbito da privacidade... Não vá a Justiça incomodar mais um ser honrado deste país... País? Este país deveria condecorar aqueles que lhe fazem favores... Paradoxalmente, condena-os... Que bananas somos!!!

sábado, 5 de junho de 2010

Abonda di um rodilho…

Hora do almoço, por entre “testos, sertãs, caçoulos e ua nabalha”… Reedições desta alma transmontana que não arreda pé… Como se a essência se renovasse a cada aragem com que a serra ameniza este tórrido calor que, a manter-se a toada, transformará os três de Inferno num quarteto ou num quinteto. Hora de “intcher o bandulho”… Com um “cibo de pito” dos que sabem ao vagar com que se “ac’moda a tenda”. Aromas que amansam esta fome de terra, ar impregnado de mágicos tormentos do espírito, volatilidades que emergem da humildade de um “tatcho” que guarda imensas histórias “strugidas” para contar. É sempre assim, assim foi sempre. A riqueza brotada deste ócio de transmontana gula, pecado não é, que a simplicidade dos humildes não consta da negra lista dos sete. Um trago de fresco néctar… Cruzadas conversas, e o refúgio no ascetismo de uma realidade sonhada, por entre montes… De emoção… Bucólicos espaços, guardadores de rebanhos de solidão, seres petrificados numa secular vivência que vida já teve e de vida se vê amputada. Um regato, distinto regato, outras azibescas crónicas registadas. A paz, ou o pouco que dela resta, semeada pelo silêncio de fantasmas que por aqui andaram, “satchos e aitchadas” em punho, “seitouras” em riste, uma “segada ou ua ácarreja” do tempo, memórias ventiladas pelas folhas na incomunicabilidade de indecifrável linguajar vegetal. Percebo-lhes as dores, apenas, e isso basta. E entro-lhes na seiva, solidariedades de quem da mesma terra brotou. Sinto-lhes as dores, também, como se os meus membros fossem uma inusitada extensão das ramificações que se entretêm num estranho bailado ao som de uma orquestra onde se conjugam os sons do refrescante vento e do sol abrasador. Por breves instantes, deixo que as minhas raízes penetrem profundamente na terra da qual sou feito, deixando-me irrigar pela água que segue o seu percurso até ao Sabor. O tempo pára, para um reabastecimento do ser, fortuitas descobertas do local onde realizei o meu primeiro acampamento escutista. E senti, de novo, o negro cavalo de ferro que aterrorizou os putos de lenço amarelo ao peito… A ponte ganhou vida, numa intemporal brevidade de confusões nostálgicas, comboio saído da moribunda estação do Azibo, fumegando, vociferando contra os enganos, numa corajosa corrida contra a resignação desenhada a carris enferrujados, flores fúnebres depositadas ao longo da sua memória, pretéritas luzidias formas, regaço de toneladas de ferro movido a carvão. O monitor do tempo apagou-se, entretanto. Tempo de fugas para outros cardeais pontos, onde resistentes searas abraçam o gigante, deixando-lhe o dorso de guardião a desenhar os contornos do horizonte. Outros horizontes se levantam… O vento fustiga as alegres mentes que vislumbram um planáltico mar, ondas de prazer olhadas do alto, humanas aves, aladas formas de quem sente o desejo de um planado voo, sobrevoando esta paixão cravada numa tela de nunca inventadas tonalidades. O apelo do serpenteante caminho reduz o desejo e incita a uma cavalgada monte acima, onde nos aguarda um prolongado convívio com o choro de encavalitadas pedras, silencioso protesto de quem moribundo está, agonizando num abafado carpir de antigas mágoas, testemunhos de indómita gente que um dia fundou o paradoxal prazer de privar com as pedras, numa estranha harmonia com a aparência do inóspito. As pedras estão lá, içadas a seco suor de um doloroso abandono, digitais impressões invisíveis, sussurros de uma finada ancestralidade, murmúrios da contemplação de um mundo onde apenas sobrevivem heróicas faces fulminadas pelo tempo, tristes olhares de uma anciã que colhe umas ervas, tímido sorriso de quem vê a privacidade da sua solidão invadida por um alienígena, eterno amante desta esquecida província, “tchotchinho”, pensará ela para os botões da sua esfarrapada indumentária corroída pela agrestia do campo. “Buas tardes nos dia Deus!”… Seguida da pureza de um desconfiado olhar. Desconfiado fiquei também dos seus pensamentos… “Q’andará pr’áqui este tchabasquetcho a indrominar? Cousa boa num debe ser! Tchamo já o mou, q’inda l’abre a cabeça ó berde“… As “pitas” soltas, excepcionais formas de vida onde paira a túnica da desertificação, interruptores para um breve desvio de atenção. Em direcção ao astro que teima na sua ininterrupta aterragem, algures onde a pobreza é camuflada a mar. Tempo de descer também, numa despedida pintada a “até já”, saudade abreviada pela entrada em cena de inesperados actores. E pela esperança representada por eólicos seres que povoam o horizonte da irmã gémea, fraterna figura da outra extremidade. Por momentos, os agravos à terra amainam, num efémero esquecimento às injúrias a que este Reino vai sendo sujeito em constância. Ergue-se da imensidão do espaço a mística imagem do panteão de indígenas divindades, talvez por lá more um transmontano deus, Aernus poderá ser. Talvez escute o silêncio das preces, talvez aceda a um “ex voto” de Zoelas descendentes, talvez tenha sido o obreiro do repovoamento de Castanea sativa, divina intervenção, que força braçal exígua é. A sonoridade do encanto esvaiu-se num regresso à realidade… Era hora do almoço… Do fundo do túnel desta prazenteira letargia, a voz da ancestralidade... “- Dromes? Atão num bês que s’arramou um cibinho d’auga? Abonda di um rodilho!”…

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Alambiques do paladar

Quando me deparo com a surpresa, não me limito a guardar o excitar das papilas gustativas no restrito mundo do meu paladar. Quando menos se espera, somos confrontados com um qualquer canto, resguardado numa pouco explícita reentrância, algures ao lado do “Lar dos Velhos” (É deselegante a designação, sei-o… Mas, vox populis dixit… Conscientemente, estou descansado: discordo da existência de “velhos”… Porque a velhice terá sempre mais 15 anos que eles…). Hoje cumpri mais uma etapa no meu real sonho de constituir uma equipa de futebol de afilhados. É a suprema forma de constatar que devo ser um mau rapaz… Estou quase lá e, verdade seja dita, assumo o papel com o mesmo entusiasmo que o fiz da primeira vez… E já lá vai um quarto de século! Tenho mais uma afilhada!!! Joana, a minha nova “joaninha”! Extravasando aquilo que não me sinto capaz de desenhar através de palavras, limito-me, neste privado espaço, à constatação paralela de que, à custa disso, descobri o “Alambique”. Poderia ser um local de repasto mais… Pelo contrário, revelou-se uma surpresa. Uma daquelas surpresas que me constrangeu a abrir uma das poucas excepções de publicidade gratuita. Afinal, o que é bom, deve ser publicitado… A começar pelo espaço, simples, equilibradamente decorado, primando o bom gosto de não nos vermos compelidos a fechar os olhos perante uma qualquer aberração. Continuando pela surpresa de verificar que o proprietário é uma das “velhas glórias” do meu Clube Atlético, redes defendidas ao longo de imensos anos, recordações partilhadas dos tempos em que olhava para ele como o último bastião das cores verde e amarelo que também defendi. As entradas, simples e bem elaboradas, nada de “nouvelle cuisine”, saborosas, apetitosas, com realce para o magnífico queijo com que os meus sensores foram presenteados. E uma sopa… Não uma qualquer sopa! Mas uma daquelas sopas em que se sente o cheiro a terra, como se estivesse em casa da matriarca, ancestrais saberes onde se misturam deliciosos pedaços de couve com um toque a verdadeiro gosto de feijão. O “Bacalhau à Alambique” estava divinal! Batatas com sabor a batata… Azeitonas com sabor a azeitona… E um travo a ervas aromáticas que desafiou os sentidos, conduzindo-os ao limiar da gula. O leitão, para quem não é um acérrimo defensor do dito, constrangeu à repetição. Pelo tostado no ponto ideal, pelo tempero “au point”. E pelo fantástico acompanhamento de legumes, de mãos dadas com um arroz que, subjectividades à parte, estava delicioso! Confesso que degluti a refeição com uma alarvidade que ultrapassa a normalidade… E, quando julgava ter as paredes estomacais devidamente recheadas, eis que surge no cardápio uma montra de sobremesas que foram incapazes de ocultar a tendência para a humildade do apetite. Descobri um espaço extra no sistema digestivo para elevar ao éden o sorriso do gosto. Especialmente pelo divinal bolo de bolacha que, durante largos minutos, entreteve os maxilares movimentos, elevando-os a um metafísico mundo, no limiar da felicidade eterna. Tudo isto não deve ser guardado na exclusividade de privadas memórias. Pelo contrário, entra no âmbito daquelas coisas boas que devem ser partilhadas. Porque, de coisas más anda a procissão cheia… "Botim-me pra cá cousas mim boas, q'ou sou um home q'l'agrada ber ua image cum gozto à'ntigo!"...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O reverso das medalhas… e das faixas de campeão

A inexplicabilidade de uma estadia macedense mora no andar de cima. Um piso de difícil acesso, sem escadaria ou elevador, sem janelas através das quais se possa levar a cabo um assalto de juvenis formas, ou sem portas para arrombar. A efémera felicidade mora, mesmo, no andar térreo. Aquele onde se absorve a singularidade das “cousas”, pressentindo o breve arfar de anciãs formas de respirar a transmontana vida. Os pulmões estão lá, mas não lhes é permitido dar voz à função para a qual estão destinados. E a respiração é ofegante, arritmada, dissonante, sem o arrojo que lhe deveria marcar a cadência. Como se tivéssemos lido num qualquer clássico autor que, para lá das barreiras que nos isolam, o acto não pecaminoso se resume a inspirar dióxido de carbono em vez de oxigénio, contrariando o que aplicável é pela química da vida. Somos diferentes, mas não tanto! O último fim-de-semana ficou marcado por dois actos que tipificam a nossa forma de estar. No Sábado, as Jornadas da Primavera… No Domingo, o jogo de consagração do Clube Atlético… Orgulhosamente, marquei presença em ambos! Orgulhosamente, absorvi o muito que tem sido feito em prol da elevação de uma certa auto-estima que parece andar arredia desta gente que prefere o fado de se sentir esquecida e abandonada. Orgulhosamente, bebi, no Sábado, de uma forma quase desenfreada, Xaires, a Fraga dos Corvos, Zoelas, vivências medievais, a notável figura de Nuno Martins de Chacim, o insubstituível Cónego Figueiredo Sarmento. Orgulhosamente, revivi, no Domingo, os inolvidáveis momentos do velhinho campo pelado, onde participava no coro que gritava, quase em uníssono, “Macedo, Macedo, Macedo”! Triste, mas não orgulhosamente, constatei uma forma de estar que, cada vez mais, aproximo do híbrido. Há uns anos, era insistentemente afirmado, em certos meios, que a mentalidade macedense era feita pela “nobre classe dos nouveau-riches”… Pelo que me apercebo, deixou raízes e espalhou sementes. Um estrato social marcado pela hibridez de quem não se sente capaz de se intrometer no núcleo que, ainda que sob pressupostos errados, elevam ao patamar do intelectual. Mas que também revela uma desmesurada presunção ao não se misturar com aquilo a que devem considerar a ralé, porque o “futebolês” é linguagem abusivamente recursiva da base da pirâmide. Parece-me que foi criada uma espécie de maçonaria holográfica, onde a única coisa palpável reside no umbigo de cada um, um revivalismo do “orgulhosamente sós”, com a agravante de as pseudo colónias ultramarinas se resumirem ao espaço delimitado por quatro paredes ou pelos “cavalos” cujo único objectivo é fazer salivar aqueles que sonham em ascender a tão indefinida classe. Viperina linguagem esta, de Cavaleiro Andante sem montada… Num regresso ao orgulho… Foi com um dito indisfarçável que conduzi a descendência ao contacto com uma realidade distinta, traçada a marcas de ancestralidade, onde se misturaram cerâmicas do Calcolítico, com artefactos da Idade do Bronze, epigrafia de “gens zoelarum”, formas de vida medievais, toponímias e genealogias do de Chacim, curiosas histórias de um Cónego. Com o mesmo dito indisfarçável, foi a dita conduzida à bancada do Estádio Municipal, equipada a rigor com a t-shirt comemorativa e com o cachecol que rodopiou ao sabor do golo de Luisinho. Macedo é Macedo, tenha o orgulho proveniência nos rios da História ou na singeleza de um festejo por uma subida adiada por um quarto de século! A semelhança entre um evento e o outro esteve nas cadeiras vazias… A enchente quedou-se pelo alheamento dessa “nobre” gente que ainda não entendeu que o futuro não surge, constrói-se!...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Artes Sacras, Arqueologias e Histórias

Apelar ao bom senso torna-se, nos tempos que correm, hercúlea tarefa. A sociedade à qual demos permissão para nos corromper, vai trilhando caminhos pouco abonatórios, onde a mesquinhez, o egoísmo, o materialismo, entre outras coisas menos próprias, vão ditando as regras de um país sem escrúpulos à beira do abismo. Inconscientemente, deixamo-nos influenciar pela proliferação de super-heróis, como se cada um de nós fosse detentor de super-poderes que nos deixassem imunes à corrosão que vai grassando. Ou, alternativamente, acreditamos que passámos a integrar um qualquer especializado corpo de pára-quedistas civis, devidamente preparado para enfrentar o vazio. Mas isto sou eu a ter um dos meus delírios mensais… Há vida para lá destas momentâneas fases lunares, nas quais dou permissão ao “eu” contestatário para respirar um pouco de ar poluído… É efémero e é desnecessário bater com a cabeça de encontro a uma parede. Basta massacrar umas teclas com as cabeças das extremidades superiores durante alguns minutos, que isto passa… Já passou… Entretanto, dizia que havia vida para lá destes acessos de insanidade momentânea… E há! Como, por exemplo, a inerente ao Museu de Arte Sacra. Dizia, há dias, o Bispo de Bragança que o dito museu é “um pólo de atracção cultural para a cidade de Macedo de Cavaleiros e para o concelho, mas também para a diocese e para a região”. Ora aqui está algo em relação ao qual manifesto uma completa concordância! Não obstante esta manifestação, o tempo verbal utilizado não corresponde à realidade factual. Na verdade, o Museu de Arte Sacra DEVERIA SER “um pólo de atracção cultural…”! Infelizmente, os animadores números de visitantes no seu curto primeiro ano de vida reflectem uma triste realidade. A maioria dos visitantes é proveniente do exterior do distrito. Ou isto reflecte um alheamento dos autóctones ou, procurando ser positivo, as coisas elaboradas com ponderação e qualidade possuem o condão de servir de chamariz aos forasteiros. Das duas, três… Contudo, diz-me o meu privado agente secreto, vulgo “dedo mindinho”, que ainda subsiste gente macedense que desconhece a existência de um museu em pleno centro da “vila” (perdoem-me o revivalismo). Puro desinteresse ou a “pureza” de falta de divulgação? Sendo repetitivo: das duas, três… Três foram as vezes em que já coloquei o comodismo de lado para uma incursão a esse pedaço da nossa História. E não dei o tempo por perdido. Lá regressarei na primeira oportunidade para verificar, in loco, as mudanças de espólio entretanto operadas. No mesmo local onde vi as declarações do eclesiástico bragançano, outras me chamaram a atenção… Estas provenientes do Arqueólogo Carlos Mendes, da Associação Terras Quentes. A bem da verdade, sendo um dos admiradores do trabalho desenvolvido, em conjunto com a autarquia, por esta associação, em prol da ressuscitação da “História Perdida” do concelho, as ditas declarações não me causaram qualquer espanto. Honestamente, já as aguardava há imenso tempo. A possibilidade de criação de rotas vocacionadas para um turismo com uma vertente arqueológico-histórica não é uma utopia. O património está disseminado pelo território concelhio, possuímos uma riqueza que ultrapassa as cerradas fronteiras de maças e cavaleiros que, durante décadas, alimentaram o nosso imaginário histórico. Contrariamente ao que possa supor-se, o concelho de Macedo está dotado de marcas da passagem por estas terras de ancestrais gentes, antepassados que aqui aportaram desde, pelo menos, o Neolítico/Calcolítico (a Mamoa de Sto. Ambrósio ou o Povoado de Xaires assim o ditam). Mas podemos recuar ainda mais no tempo… Levada Velha dixit… Ou avançar… Até ao período medieval… Ou a posteriores períodos… Tem dúvidas? No próximo Sábado, no Centro Cultural poderá dissipá-las… Eu não perderei a oportunidade…