Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quinta-feira, 20 de maio de 2010

Espelhos de vida

Sou suspeito… Esta suspeição que sobre mim paira e me acompanha os passos, qual sombra eterna legada pela genética ou, mais não fosse, herdada por insubstituíveis visões de ondas planálticas rasgadas pela intrepidez dos que amputaram o Reino de Leão de um pedaço que julgava seu… Não renego o ser suspeito que sou. Seria trair a essência, o alicerce-gérmen, a pilastra que sustenta a inalienável crença que me sussurra ao ouvido que ser Macedense e, por inerência, Transmontano, não é melhor nem pior que outra qualquer coisa ser. É, tão só, ser diferente… Ser percorrido por insondáveis arrepios, como se a circulação sanguínea se transformasse numa torrente de eléctricos efeitos, sempre que o saudável monstro que este orgulho é, se alimenta a novas temperadas a rosmaninho e regadas a uma qualquer pinga saída directamente de uma pipa de ancestrais saberes. Sou chato, eu sei… Mais não seja, para o teclado, massacrado numa incessante sequência de transmontanos ritmos, queixando-se da transmissão para o monitor de alguns indecifráveis vocábulos, sublinhados a onduladas linhas encarnadas, por não constarem de indesmentíveis dicionários. E nem os acordos ortográficos lhes valem… «Peis é! Num sei a quem dianho botar a culpa de ficar tão contcho cum esta terra cum que m’amiguei. Arrebunhou-m’a alma, fêzu-m’ua burra no peito, scatchou-me o espírito, e fêzu-me sbarar cum a proa que nela tânho, q’até me pintcho. Até se m’aparece que m’stou a ingaliar comigo próprio!». Nos tempos “spritados” em que vamos (sobre)vivendo, reconfortam-me as razões para algumas manifestações de exaltação, sorvendo, de forma sôfrega e trôpega, as ondas brotadas do “Oceano Megalítico”. «E num se pense que fico imbutchinado por ficar todo imbuligadinho de xisto!». Pelo contrário… Permito-me deleitar-me com esta profusão de ventos pétreos, inalando-os até me sentir etilizado, neurónios dormentes, pernas trementes, sãs descoordenações lexicais, como se possuído por uma efémera “tchabasquice”. «Que mai fai! Todos tãim o dreito a um cibinho de tchotchice, de vez’im quando!»… O “meu” Azibo passou a ser detentor de duas praias decoradas a Bandeira Azul! A repetente (a sextuplicar!) Praia da Pegada e a sua nova acompanhante nestas andanças, a homónima da Ribeira. Não é para todos!... Entenda-se a minha insanidade momentânea… Estou inebriado… “Amantizei-me” com o Azibo desde o tempo em que ainda lhe rasgavam as entranhas. Deixei-me seduzir pela Ilha do Fidalgo quando uma incursão à “Barragem” mais não era que uma epopeia de adolescentes tomados pela indomável vontade de um mergulho de final de tarde. Foram incontáveis as travessias a nado, desde as “escadinhas” até à “ilha”. Era o almejado prémio para um grupo de “gandulos” que, quando a canícula já não investia desmesuradamente contra o escalpe, se aventuravam, de polegar em riste… Era o supremo troféu, após a descida da poeirenta estrada… Era o nosso canto, o nosso quase privado canto, espaço sagrado, onde podíamos dirigir impropérios à vida, solidariedades juvenis com aves de rapina por companhia… Não perco uma oportunidade para ir dar um mergulho às “escadinhas”. Ainda que o sacralizado lugar já esteja desprovido do encanto de outrora, vou erguendo as memórias dos seus recônditos esconderijos, transmitindo o ceptro à descendência. Fico embevecido por lhes descrever as invisíveis pegadas e as apagadas ondulações provocadas pela algazarra de gente imberbe. Em simultâneo, agradado fico com a renovação do espaço, com a preservação do mesmo, numa manifestação de cultura ambiental num país habitualmente privado dela. Como bem salientou o actual autarca macedense, «este sucesso deve-se não só ao empenhamento do município e aos investimentos realizados na Albufeira do Azibo, mas a todos os macedenses e visitantes.» Assim continue… Porque o Azibo não é só um magnífico “Espelho de Água”. É, também, um sublime “Espelho de Vida”…

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Desconexões nostálgicas

"...Trás os Montes é um berço onde tenho de nascer todas as horas e morrer um dia..." - Miguel Torga



Trás-os-Montes é um berço onde renasço... E onde tenho de regressar um dia... Nem que para finar seja... A cada incursão, sinto que, tal como Torga, vou para lá receber ordens, dos meus antepassados. Não é um vulgar chamamento, antes é uma purga da alma, desinfestação interior que me livre dos patogénicos agentes que me corrompem as entranhas de xisto. A verdade é que a terra bravia me regenera o espírito, como se a natural sequência fosse exposta a uma regressão de rejuvenescimento. Pode soar a humana insanidade, mas uma travessia do Marão (ou do Alvão, enquando o IP4 assiste à sua sentença) representa um vínculo com a eterna juventude. Não há druidas ou poções mágicas, apenas resistem os seus fantasmas. Em forma de vento que irrompe do nada para fustigar serranias, ou de um simples pardal que lhe faz frente num desaustinado movimento alado. Ou a canícula que faz gotejar uma face esgotada, sede de um retemperador mergulho em riachos com histórias para contar. Ou no Azibo, simplesmente... Formas temperadas a ser, misturas de nada onde reina o tudo. E um velho que passa, sorriso terno, desconfiado, rugas do tempo marcadas num semblante tostado pelo sol. "Atão, num é de cá, peis não?"... "Ah carvalho ma racosa, atão é filho de fulano? Já mu pudia ter dito! Bote lá comigo que puri inda bubemos um copo! Olhe q'a nha pinga num se fica atrás dessas murraças que se bendim no Lidére, ou lá no que caralhitchas é! Num sei pur onde anda a minha, mas já lu digo que fica mim contcha si'u lebo lá a casa!"... Mas não, fica sempre para uma qualquer outra vez, que os "pur dentros" já não estão vocacionados para abusos do passado, recuadas épocas em que negação não haveria à hospitalidade do copo. Lascas de presunto por companhia, navalhas afiadas pelo esmero, ancestrais funções de pedras "afiadeiras" resguardadas do esquecimento, num qualquer canto à beira da adega. "Carabunhas" lançadas no vazio, poço de infindados desejos sem mácula, sonhos de uma infância sempre revivida e nunca perdida. É a perdição do espaço, num tempo que dá razão a Einstein, porque os ponteiros entram numa greve de zelo, retardando o sol no zénite ou prolongando o estremecimento do silêncio das constelações que nos cobrem. Como se o sol reinasse de noite e as estrelas se espraiassem num dos areais do Azibo. Contrastes de um longínquo uivo com um bramido perdido, sombras que pairam num Reino Esquecido. Como se Banreses tivesse estendido os seus braços do abandono, suspiro de uma ressuscitação sempre adiada, num abraço fraterno entre iguais. Mais não seja, em jeito de profecia... Talvez isto seja a antítese do transmontano que sou... Gosto de brindar a minha terra com um sorriso mas, por vezes, a saudade amputa-me da capacidade de distender os lábios e a pena limita-se a desenhar desconexos signos de nostalgia... Amanhã passa... "Ou num tu dixo?"...

domingo, 16 de maio de 2010

O diabo veio ao enterro

Macedo é uma jovem donzela no mapa concelhio nacional. Durante largos anos as suas história e identidade foram confundidas com lendas de maças e cavaleiros. A bem da verdade, parece-me, honestamente, que a história e a identidade estavam omissas do quotidiano macedense. Contingências dos tempos ou ausência de quem tivesse a coragem para desenterrar o passado. O último decénio trouxe à tona uma realidade distinta. A obscuridade em que a história macedense viveu mergulhada durante décadas, sofreu um duro revés. Hoje, já é possível termos os nossos heróis, ressuscitados que vão sendo ao sabor da persistência e do labor de um punhado de gente que não se resignou ao fado das lendas. O dia 8 de Maio mais não foi que o fruto desse resgatar. Foi reconfortante perceber que, ainda que moribundo, Macedo caminha para a recuperação. Não se pode exigir que as arreigadas mentalidades sofram uma atroz metamorfose. Tenho fé que à próxima geração lhe seja permitido passear num qualquer Jardim Martim Gonçalves de Macedo, ou numa qualquer Avenida Nuno Martins de Chacim. E estou grato pela oportunidade de ter privado com um dos escritores que marcou a minha juventude, e vai marcando a minha vida adulta. A bem de Macedo e, porque não, de Trás-os-Montes, venham de lá mais diabos que venham ao enterro desta falta de orgulho em sermos feitos de xisto... Pena que os diabos ainda sejam poucos...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Cousas de estarrecer!

Quando o tema é a Saúde, é expectável que o mesmo surja de mãos dadas com a polémica, quais gémeos agrupados após a nascença, contrariando a habitual expressão do senso comum. Para mal de pecados nossos, quando o dito se alia a terras transmontanas, ou vem dor, ou vem algia... Não é perlimpimpim, mas perlimpimpou-a o gato... Infelizmente, vêm sendo recorrentes as descoordenações na (des)Saúde que (não) temos. Não! Desta vez já não vou dilacerar as hélices holográficas! Tiveram o seu tempo, o seu momento de fama pelos consecutivos adiamentos. Também não me vou deter sobre maternidades. Recorro, excepcionalmente, à versão egoísta que vai marcando o ser social que o Homem (também) deveria ser: já não preciso de parteiras, obstetras e afins... E como só espero ser avô daqui por uns anitos, até lá terei tempo de me recompor e de cumprir a respectiva penitência... Ainda sobrariam os SAP, as Urgências, ou o que delas resta... Mas já estou cansado de bater no ceguinho... Desta vez, a incredulidade bateu à porta. Não sei se chore, se ria, ou se pegue num chicote de auto-flagelação, de forma a estancar esta vontade imensa de bater em alguém ou, masoquista e alternadamente, ir de encontro a uma parede com a caixa que alberga o órgão pensante. Não será necessário ser detentor de capacidades "sherlockianas" para encontrar exemplos anedóticos do funcionamento de algumas entidades que deveriam zelar pela nossa saúde, nomeadamente as que são responsáveis por dar resposta a casos urgentes. Basta procurar no "Youtube"... O que surgiu na imprensa desta semana relativamente à articulação entre os CODU (Centros de Orientação de Doentes Urgentes) e os diversos meios de socorro, mais que anedótico, é alarmante. Sem esmiuçar outros casos relatados, a ser verdade a ocorrência de uma chamada aos Bombeiros para acudirem a uma situação de paragem cardio-respiratória em Podence, quando a mesma, efectivamente, ocorrera em Limãos, faz-me pensar que este país, na verdade, está entregue ao deboche total... Afinal de contas, contas feitas, de números não passamos... Pelos vistos, alguém terá confundido "Podãos" com "Limence"... É desculpável... São fonética e geograficamente semelhantes. Caso tracemos um meridiano que atravesse a Ilha do Fidalgo no nosso Azibo, a distinção entre Podence e Limãos reside, tão só, numa letra... Uma fica a Oeste dessa imaginária linha, ficando a outra a Este. A diferença resumida a um "O". Que, neste caso, como em tantos outros, foi um "O" de óbito...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

E porque no Domingo foi Festa da Senhora do Campo…

A aproximação do fim-de-semana era o mote para mentais desenhos sobre o que desejaria da festa. Por entre despertos sonhos de Capitão América ou Super-Homem, construía heróicas aventuras para partilhar com os compinchas de brincadeira de fim-de-semana. Nunca se concretizava o idealizado. A frenética intempérie de juvenis mentes alcandorava os sonhos ao patamar do irrealizável. Acabava tudo por sair de improviso, situações em que o “E agora?” obtinha sempre uma resposta válida. Mais não fosse, inventava-se um qualquer desacato para precaver a instalação da monotonia. Mas isso era quando já me encontrava em Lamas, despido de preconceitos da polida vizinhança da “vila”, provido de trapos velhos, calças gastas pelo tempo e pelo uso, sapatilhas desnudadas do aspecto com que haviam saído da “Sapataria do Fernandico”… Mesmo olhado de soslaio, procurava integrar-me naquele corrupio de desregrados putos que, terminadas as obrigatórias tarefas agrícolas, desencantavam sempre uma nova aventura para encher o cardápio das memórias futuras. E achavam uma aberração dos deuses que o “puto citadino” apreciasse participar nas ditas tarefas, ainda que as tentativas redundassem sempre em desajeitados gestos, causa lógica de “mangação”. Mas eu gostava na mesma! “É purque num tens q’alombar dia sim, dia sim!”… A verdade é que tinham razão… Uma razão que me permitiu gravar esses momentos, bem como todos aqueles que antecediam a chegada à aldeia. Nesse tempo, Lamas não era mesmo ali ao lado. O fim-de-semana assemelhava-se a uma longínqua viagem, à qual não poderiam faltar os acessórios indispensáveis para a sua passagem com o máximo conforto. A Sexta-feira era invariavelmente preenchida com o massacre materno, relembrando-me das coisas a não esquecer. De pouco adiantava, porque a euforia suplantava qualquer capacidade de retenção. E, afinal, caso me esquecesse de algo, haveria sempre um primo para ma emprestar. Só não podia esquecer-me do traje dominical. Festa ainda era festa e persistia o ritual de “estriare roupa de nóbo”… Terminado o jantar, era hora de zarpar até ao fundo do Jardim para apanhar a “carreira das nóbe”. Uma velhinha “Cabanelas”, pintada a traços verdes e amarelos, motoristas sempre conhecidos. Retenho a associação de que os mesmos eram sempre da Amendoeira, sabe-se lá porquê. Assim como retenho bem gravado na memória o formato dos bancos, desconfortáveis, de cor acastanhada, revestidos a uma qualquer imitação de pele. Não me causavam muito incómodo. Preferia viajar em pé, apoiado no vidro, apreciando o desfilar nocturno e as ténues luzes que anunciavam, sucessivamente, Nogueirinha, Vale de Prados, Arrifana… Parecia longa a viagem, meros 6 km de asfalto ondulante. Era penosa a subida desde o “Pontão até ó pobo”. Não havia vivalma nesse percurso, para lá de uns distantes uivos acompanhados pelos latidos dos seres caninos que garantiam a segurança da aldeia. Aqui e ali, ruídos de aves nocturnas, o céu por companhia, estranhos sombrios bailados do arvoredo que ladeava a estrada de terra batida. E dois seres que desafiavam a noite… Vislumbradas as primeiras casas, abrandava-se o passo, recuperava-se da ofegante respiração, recompunham-se as trémulas mentes dos terrores do breu. E prosseguia-se, com o restante da caminhada até chegar a casa da avó ou, posteriormente, à da tia. Havia sempre um mimo à espera, aconchegos perdidos na memória do tempo… O ribombar dos foguetes anunciava a alvorada. Era hora de uma rápida higiene matinal, pequeno-almoço devorado pela pressa de ver a Banda desfilar. Era espantoso ver a gente do campo “bestida de labado”, aprumada, despojada das agruras de tarefas agrícolas. Era festa! Corria-se desenfreadamente em redor do adro, saltavam-se os muros com o cuidado de não “esfarrapar” as calças novas nem “scamoutchar” os sapatos. Gerava-se uma solidariedade espontânea sempre que algum se “sbarrava” de encontro ao pó. Tínhamos que estar limpos antes da imposição das faixas de “cruzados” ou do arregaçar de mangas para transportar o andor pequeno. E saía a “pecissão”, marcada pelo compasso da Banda, em alternância com o silêncio, a oração ou os cânticos. O Padre Quina encabeçava a manifestação de louvor, marcando o ritmo, porta-voz da gente que, devotamente, elevava as suas preces à Santa Protectora, enquanto, de forma pausada, se debatia com a inclinação do “cabeço”. A chegada ao “Encontro”, mais que apenas um solene momento, representava o alívio do esforço pela subida, especialmente para os cumpridores de promessas, gente simples que onerava o corpo com o pesado fardo de uma saca de farinha ou de grão, com uma criança ao colo ou com a privação de protecção para os pés. Ou, simplesmente, carregando aos ombros os pesados andores… Começada a missa, era tempo de desligar das obrigações religiosas e percorrer o recinto em loucas correrias, apreciando os “homes” que se aglomeravam em torno das improvisadas barracas de “comes-e-bebes”, mais para beber que para comer, é certo. Quando a sede apertava, havia sempre um familiar por perto para me presentear com uma gasosa ou uma laranjada. Em última instância, ia-se à torneira… Reiniciava a correria, olhos fixos no céu em busca das trajectórias dos foguetes. Não estava contemplado no programa da Festa, mas havia uma competição infanto-juvenil à parte. “A ber quim trai mais barelas!”… Eram os nossos despojos da imaginária guerra que se desenrolava nos céus. Todos queríamos ter a melhor “barela”, ainda que parecessem todas iguais… Também queríamos ter as cornetas ou os carrinhos de plástico vendidos em artesanais bancas, delícias da pequenada, juntamente com os coloridos “doces” que por lá se amontoavam sem grandes conceitos de arrumação. Terminadas as celebrações litúrgicas, hora de ajuntamento das tropas familiares, no mesmo sítio de anos, repetindo o mesmo ritual de anos. Mas tinha sempre um sabor diferente… E havia sempre imensa gente em redor das mantas estendidas no chão. Chegava sempre mais alguém “pra buber um copo” ou para debicar uma azeitona. O tardio almoço campal era regado a imperceptíveis conversas de adultos, complementadas pela algazarra dos primos e por risos, estridentes formas de demonstração de harmonia e satisfação. Deixava sempre um cantinho do estômago de prevenção. Sabia que, ao percorrer o recinto, haveria sempre uma cara conhecida que se dirigiria a mim. “Atão num queres um cibo de bolo? Or tomó lá!”… A determinada altura, já com o esófago a suplicar para não o massacrar com a passagem de mais doçaria, aceitava, grato, provava, respondendo afirmativamente à pergunta “Atão, dize lá que num é mim bô?”, esgueirando-me o mais rapidamente possível. Desfazia-me, sorrateiramente, da dádiva, enquanto rogava à Senhora do Campo para que eu já tivesse percorrido as “tasquinhas familiares” todas… Ficava empanturrado de bolos para uma semana. Hoje, tenho pena de não ter guardado algumas fatias…

domingo, 25 de abril de 2010

Porque é Abril…

… a lógica aconselharia à colocação de um Dianthus caryophyllus. Contudo, a Liberdade presenteou-me com a faculdade de optar por outras cores e formas que não o vermelho e o cravo. Esta é a minha singela forma de prestar tributo aos idealistas de um mundo desprovido do pesado jugo do sentido único. Retiro daqui qualquer homenagem aos que pretenderam, subrepticiamente, subverter o sonho de um país livre, metamorfoseando-o, manietando as individuais liberdades, procurando, por ilícitos meios, conduzi-las aos antípodas. O Macedense Raul Rêgo mais o seu “República”, ainda por cá andassem, saberiam converter, incomparavelmente melhor que eu, esta ideia. Viva Abril! Viva a Liberdade! Mas, indubitavelemente, não quero que viva esta Liberdade adulterada, uma Liberdade que viu o seu sinónimo alterado sem o recurso a qualquer acordo ortográfico. A Liberdade não condiz com o desprezo a que é votada uma região. A Liberdade não pode pactuar com a castração com que, sucessivamente, um povo é privado dos seus mais básicos direitos. A Liberdade não pode, alegremente, caminhar lado a lado com a corrupção, o clientelismo, a pedofilia, o escândalo económico, usando como cajado de apoio a impunidade. A Liberdade não deveria ter finado, de vez, com o abismo da dicotomia “patronato-proletariado”? A Liberdade que hoje vejo acentuou as diferenças. Esta Liberdade trouxe mais riqueza aos que abastados eram e mais pobreza aos que na míngua viviam. O “meu” Trás-os-Montes é considerado, estatísticas assim o proclamam, a região mais pobre desta Europa do Euro… Mas não era… Agora é uma região “livre”. Pode dizer o que quer, é verdade. Mas amputam-na do básico, tiram-lhe maternidades e elementares serviços de urgência, roubam-lhe o caminho-de-ferro, dão-lhe migalhas em troco de barragens impostas, privam-na de vida. E sugam-lhe o tutano… Como faço parte do osso, sinto-lhe as dores e o sufoco da sucção que sobre o mesmo é exercida. E desdenho desta Liberdade que é a antítese do Robin dos Bosques. Esta Liberdade tira aos pobres para dar aos ricos… E desgraçado do pobre que não dê a sua contribuição… Mais não seja na forma de mais de metade da produção da energia eléctrica nacional. Não deveríamos viver no Orwelliano país d'"O Triunfo dos Porcos"...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

E ainda mais cousas interessantes...

BIBUM US RUQUÊLHUS!!! QUE MIM BÔS QUE SÃO!!!