Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Spantalhices

As estadias pela terra-mãe possuem outro colorido quando o astro-rei desponta da sua letargia. Não há diabo que me segure na protecção de um tecto e, logo que os primeiros raios irrompem através do cinza que tem marcado a abóbada, zarpo para a sempre celebrada “volta dos tristes”. Desço até ao centro da “vila”, esforço-me por parecer um alienígena na própria terra, distribuindo, aqui e ali, um cumprimento mais, sorrisos de gente que mantém na memória os traços fisionómicos do puto. Uma das obrigatórias paragens ocorre na transfigurada Praça das Eiras. Momentos para recordar os plátanos, o coreto, as tendas da feira, as fontes, a escola da “discriminação sexual”… E para ser surpreendido com uma exposição ao ar livre… De Espantalhos!!! Ficou mais colorido o meu dia…

Cousas Pascais

A incontornável passagem das Estações é implacável. Traduz-se no fenómeno de um constante regresso ao passado, como se a nostalgia tomasse conta dos dias, qual exterminadora do presente. Um presente que cada vez mais se afasta do passado, sem retorno possível, sem regressão que se fareje no horizonte. Já não sei se a Páscoa perdeu os seus encantos ou se o encanto da Páscoa se esfumou ao sabor da modernidade. Mas, afinal, falar da Páscoa é o mesmo que falar do Natal… Ou talvez seja uma simbiose de defeitos meus com feitio meu, também. Quem sabe se perdi a capacidade de camaleão? A verdade é que já não sinto a Páscoa transmontana como a sentia há uns anos atrás. E não é pela ausência do Coelhinho da dita, assim como o espírito natalício não sofreu uma metamorfose por eliminação do Pai Natal. Desadaptações… Ou uma incessante luta contra o consumismo reinante, num revolucionário espírito pró recuperação dos valores tradicionais, da identidade perdida, do transmontano coração que se vai esvaindo ao sabor de estradas que não existem… Talvez as mentalidades tenham sofrido uma inexplicável corrosão. Ou explicável, quiçá… Seja lá qual for o nome do réu, o juiz não se encontra desprovido do seu. A espada de Dâmocles resume-se ao gume que amputou a doçura da tradição, substituindo-a pela agrura dos valores do fantasma de um depauperado fidalgo que dá pelo nome de consumismo. Ou, na sua mais abominável versão, galopante usurpador de direitos da tradição, de familiares valores: o dinheiro, mais o seu séquito de vassalos que guarida lhe dão. Hoje, já não se fazem folares, já não se oferecem amêndoas. Assemelha-se tudo a um fenómeno materialista, onde a pureza de uma oferta foi usurpada pela monstruosidade das contingências dos modernos tempos. Tempos em que a Visita Pascal, aquele acontecimento que fazia da Segunda-feira de Páscoa um dia distinto, com acessos decorados ao colorido primaveril, se transformou numa efémera ocorrência com o supremo objectivo de recolher um envelope… E já nem a sineta desperta as mentes…

quarta-feira, 7 de abril de 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

Portuguinder Sorpresa

Havia tempos em que a época pascal possuía outros encantos. Até a meteorologia parece ter-se prostituído aos ventos da modernidade… Ainda estarei longe da caducidade. Não me espanta, por isso, que o meu sistema neuronal persista em associar a Páscoa ao período primaveril. Flores, verdejantes campos, aves chilreantes, presságios de Verão… Estou atolado, até aos superiores extremos capilares, da chuva, do vento, do ar fresco que persiste em encarcerar-me… Em jeito de compensação, distracções ao avesso, decidi adaptar-me à permeabilidade, que inflexibilidades não conduzem a lado algum. Troquei as tradicionais amêndoas de Páscoa, aquelas mesmo, artesanais, duras como as extremidades de bovídeos, pintarolas de tripartidas cores: branco, azul e rosa… E cedi à tentação, a provinda da publicidade que inunda os écrans, numa infernal sequência de consumismo natalício, seguido de carnavalescos acessórios, com paragem no apeadeiro do Dia do Pai, estações pascais, veraneantes férias, regresso às aulas… Blheargh… Finalmente, aderi aos “óbos de tchiculate”! Diz o marketing que o seu recheio detém a capacidade de divertir pais e filhos… Contudo, numa desesperada tentativa de salvar a economia nacional, tomei a infeliz decisão de comprar o que é nosso. Contrariando as iniciais pessimistas expectativas que apontavam para um hercúleo esforço em busca de Portuguinder Sorpresa, eis que, ao virar da esquina, ali estava um escaparate decorado a “portugalidade”. Os olhos redobraram o brilho perante tão apelativo embrulho. O meu neurónio racional, numa desesperada tentativa de assumir o comando dos desenfreados parceiros, mais vocacionados para a ingenuidade, gritou, alto e bom som: «Quando a esmola é muita, o pobre desconfia!»… Mas os pobres dos rasos soldados, ouvidos não deram à voz de comando. Acossados por insana loucura, numa quase orgia predadora, atiraram-se, quais esfomeados seres, ao ovo que ocupava o primeiro lugar da fila. A ansiedade tomou conta do ambiente… Qual seria a surpresa? Saiu uma A4 e um Túnel do Marão para montar!!! Dois em um!!! O racional neurónio, do alto do seu pedestal, confidenciou aos seus botões: «- Saiu uma A4 e um Túnel do Marão? Eu chamo-lhes malabarismos»… Ripostaram os botões: «- Não sejas tão negativo! Estamos curiosos pela abertura do próximo Portuguinder Sorpresa!»… A angústia não tardou em dissipar-se. Três em um! Desta vez, recheio constituído por uma companhia de electricidade, uma solidariedade pintada a hipocrisia e uma linha do Tua! Tudo para montar, também! Esperem!... Este Portuguinder Sorpresa tem um fundo falso… Abram! Traz uma barragem escondida! E um comboio anfíbio!!! E contém ainda um bolo chinês da sorte! «- O que diz? O que diz?»… Superadas as dificuldades para aceder ao neurónio racional, supremo comandante de desordenadas tropas, a leitura foi efectuada em voz alta: «- A ingenuidade transmontana paga-se com a produção de 65% da energia eléctrica nacional. O futuro reserva-vos a insistência na retribuição em migalhas»… Ao invés de apupos, o ambiente foi invadido por calorosos aplausos e unânimes mensagens de agradecimento por tão promissor futuro… Do interior da algazarra foi possível percepcionar um «Abra-se o próximo ovo!». Surpresa geral… Helicópteros!!! Com autocolantes do INEM para decorar!!! Desprovidos de tripulação? Desta vez não é o Tribunal de Contas… Não faz mal! Os helicópteros voam sozinhos e, com um pouco de sorte, voarão para outro local que não o inicialmente prometido. E, afinal, este Portuguinder Sorpresa também traz Serviços de Urgência para montar!!!... Num último assomo de coragem, o neurónio racional dirigiu-se à multidão, tentando pôr cobro à colectiva euforia, manipulada por subversivos agentes trajados a beneditinos corredores. Subrepticiamente, sem que os agentes notassem a manobra, foi aplicada uma forte dose de antídoto, despertador da letargia reinante. Olhos abertos, mentes despertas, descobriu a multidão, afinal, que em cada Portuguinder Sorpresa, os kits são sempre os mesmos, apenas lhes muda a cor. Sai sempre malabarista! Impune… E da impunidade vamos vivendo, alegremente sorrindo para uma qualquer câmara de televisão que surja a gravar o isolamento, a pobreza, a solidão, a tristeza, a doença, a velhice… Como transmontano, já não como mais Portuguinder Sorpresa… Ainda que me tirem as poucas amêndoas que restam… Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome…

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ramos de Domingo

Noutros tempos não era assim... Imbuídos de um qualquer comunitário espírito, embrulhados na tradição do espírito pascal, impulsionados pela infantil alegria que não se explica. Um ramo de oliveira, temperado a rosmaninho e, na aldeia estando, decorado a "doces" e bolachas... Afinal, para um puto, o que se sobrepunha a qualquer benzimento do ramo, eram os "doces", sacralizados numa boca que os saboreava sem se deter na benta água que regado os tinha. Nos dias que antecediam o Domingo de Ramos esboçava, mentalmente, o desenho do ramo. Teria que ser distinto... A realidade, porém, é que a distinção não ultrapassava a banalidade de anteriores anos. Invadia o olival que se situava nas traseiras de casa, amputava as oliveiras de pequenos pedaços seus e olhava-as com tristeza, desculpando-me de tal acto por restarem imensos ramos ainda. Acomodava-os junto ao muro e descia até aos lados da Chenop. Onde hoje existe proliferação de marca humana, existia um quase selvagem estado de arbustivas formas, no meio das quais se encontrava, aqui e ali, rosmaninho. E outras flores silvestres mais... A casa chegado, chegava, de igual forma, o habitual "raspanete": «Para que é que queres as flores? Não te disse já que o ramo não leva essas flores?». Mas eu insistia... Poderia ser que algum ano a coisa passasse despercebida. Nunca passou...
Entretanto, cresci. Com o crescimento, surgiu outra visão e, com esta, outra consciência. Que para aqui chamada não é... Hoje, já não vou entregar o ramo aos padrinhos. Aliás, desconheço se ainda tenho padrinhos. Mas tenho afilhadas e afilhados! Que persistem no inigualável sorriso da tradição. E, como não devo ser um mau diabo, continuo a ser presenteado com o "ramo", ainda que o dito, em algumas circunstâncias, não seja em formas florais. Talvez seja um utópico, mas os meus afilhados não são uma qualquer "coisa" que ajudamos a baptizar. Nem são o motivo para mais um mega almoço que, com o decorrer dos anos, se esquece. São, mesmo!, aquilo que deveriam ser: os meus segundos filhos. Por encarar a coisa dessa forma, ganho-lhes a amizade e, com sorte, ainda faço uma equipa de futebol. De andebol, já tenho... Os tempos modernos trouxeram o alheamento. Perdem-se as tradições, ocultamo-nos por detrás de materialistas contingências de vida. Mas há gente que persiste na manutenção de ancestrais formas de ligação. Será por isso que continuo a ter os meus Ramos de Domingo?

terça-feira, 23 de março de 2010

O João Semana de Talhas

Há jantares especiais. Daquelas refeições temperadas com a simplicidade do ser, caras lavradas pela charrua do tempo, gente só e desamparada, gente que vive sem consciência ter que outra gente há que a sua existência desconhece. Talhas... Uma aldeia, das muitas aldeias que constam do rol cujas coordenadas geográficas, para os senhores que se pavoneiam pelos corredores de São Bento, se resumem a "cu do mundo"ºN-"cu do mundo"ºW... Uma aldeia cujo futuro se escreve a letras reumáticas. Uma aldeia, que poderia ser uma qualquer outra, que fez repousar, com as suas cores, com o seu sotaque, os talheres que ajudavam a saciar o estômago. Órgão que, repentinamente, entrou em animada convulsão, enquanto, mais acima, a emoção ia apertando o peito, e os sacos lacrimais se aprestavam para expelir uma tímida gota. Gente votada ao abandono, uma réstia de esperança na cavalgadura que ampare o desajeitado andar, azedos queixumes de quem vê o sombrio pairar do carrasco que o tempo é. E não há luz que ilumine a sombra... Ou haverá? Neste caso, felizmente, há! Caso isolado, eu sei, mas exemplar, sei-o também. Aquilo a que tive o privilégio de assistir no programa "30 minutos", mais que um médico-autarca que presta um impagável serviço a uma comunidade, é a pureza das emoções de uma aldeia macedense. E, por inerência, caso meu, a raiva por que sinto consumir-me sempre que assisto ao desprezo a que o "meu" mar de pedras é votado. Neste caso, a raiva foi substituída pelo sorriso trazido por gente simples e genuína, do campo nascida, de direitos roubada. Gente que apenas quer alguém que lhe compreenda as dores... Especialmente as que brotam da alma. O Dr. Benjamim parece entender ambas. Sabe-se lá porquê, trouxe-me à memória o secundário personagem de Júlio Dinis... Obrigado...

sábado, 20 de março de 2010

Abril, helicópteros mil

A pausa de uma semana pode trazer o estarrecimento pela complacência do verdugo. Será breve, eu sei, que as vergastadas no depauperado Reino do Esquecimento, vulgo Trás-os-Montes, regressarão com uma rapidez superior ao tempo que as costas aliviam da descida do chicote. Mas, enquanto o dito rasga o ar no sentido ascendente, deleite-se o espírito transmontano com o anormal, quase alienígena, fenómeno de redobrada atenção à agonia porque vai sendo tomada a saúde do moribundo Reino. Contrariando as mais pessimistas (e realistas) expectactivas, Macedo vai ser dotado de uma Clínica Oncológica, ao abrigo de uma parceria entre o CHNE e o IPO. Os maus ventos que anunciavam a catástrofe sofreram uma alteração de rumo... Esta chamada aqui não ocorre pela simples dotação de um serviço de saúde. Ocorre porque não merecemos ter que nos deslocar 200km através de um IP4 mal parido e mal conservado, quando sofremos as agruras de uma visita indesejável. Já basta a malfadada visita... Ainda no universo da saúde, ou no da falta dela... As célebres hélices do INEM reencontraram a trajectória da sua viagem aos confins da galáxia e aterrarão, com um atraso de 2 anos, algures por Macedo, num qualquer próximo mês de Abril. Digo "num qualquer próximo" porque o ano não está especificado... E, gato escaldado de água fria tem medo... E porque de água falei, aguardo, impacientemente, que as ditas hélices não tenham estado expostas à intempérie e não tragam o epíteto de "enferrujadas"...