Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quarta-feira, 10 de março de 2010

Fome de terra


A lugubridade dos dias pareceu ter atingido o seu expoente máximo nesta Sexta-feira. A chuva caía num incessante lacrimejar dos céus, como se a condensação tivesse acumulado décadas de tristeza. O vento assobiava a sua melancólica melodia, lançando as gotículas de chuva num caótico estado de louca correria, numa aleatoriedade direccional de deixar qualquer trauseunte próximo da insanidade mental. O vizinho curso de água tresandava a excesso da mesma, deixando o imponente arvoredo transfigurado em isoladas ilhotas no meio da mancha castanha que corria desenfreada. A névoa surgia como um fantasma pairando, ameaçador, indutor de previdência, aconselhando a uma daquelas Sextas-feiras de ficar pelo aconchego caseiro. Ao fundo, o som rouco das ondas assemelhava-se a um trovejar sem raios. Mas a voz da saudade abafou o agudo sibilar do vento, a contínua percussão da chuva e o batuque da espuma branca. Quais Ulisses, simples gente do xisto, armada de vontade de enfrentar o Cíclope. Sem armas, com bagagens, tempo de cumprir a penitência de duas horas enfrentando a tempestade. E que tempestade! O contínuo movimento das escovas do pára-brisas quase hipnotizava o condutor. O vento, desalmado, perseguia-nos, quais fugitivos, sempre no encalço, provocando uma perigosa dança no asfalto. A transposição da ponte de Vila Pouca de Aguiar constituíu uma das mais arrojadas acrobacias a que alguma vez havia sido exposto. A subida do Alvão assemelhou-se à uma qualquer encenação teatral a que assistimos sentados na primeira fila e onde a cortina branca nunca mais abre para vermos o espectáculo. Alguém deixou as janelas do teatro abertas... Que ventania! Que chuva! Que nevoeiro! Que tridente!!! Valeu pelo suspiro da chegada, pelos calorosos sorrisos que aquecem até a mais penada alma... E pela magnífica galinha caseira estufada que tinha à espera para reconfortar a adrenalina da jornada! Seguida da incursão ao "meu" tasco da aldeia de anos, onde residem mais uns sorrisos abertos pela chegada de um filho pródigo, um café bem tirado e mais um "copetcho" para reavivar espíritos enregelados. E ainda tive direito a bónus de coelho do monte. A ementa do almoço do dia seguinte não foi passível de discussão! O Sábado acordou com as mesmas tonalidades dos dias anteriores. Taciturno... Gosto de Macedo pintado a sol... Aquele ambiente soturno, monotonia do cinza, transforma-me num asceta da lareira. Aprecio passear pela minha "vila" debaixo do quase anonimato iluminado a astro-rei. À falta de melhor, recolhe-se mais "ua gabela" para colmatar o frio e colhem-se, entretanto, umas folhas de tomilho e alecrim para animar o desgraçado do Oryctolagus cuniculus que haveria de servir de repasto. O mais novo da descendência saiu das imediações ao ser confrontado com o Bugs Bunny que jazia, inerte, na bancada, aguardando que lhe extirpassem o que lhe restava de aspecto de coelho. Diga-se que, para o progenitor, também não é espectáculo que lhe encha as medidas... Haveria de saber melhor que o proporcionado pela vista, cozinhado na ancestralidade de um pote de ferro. Divinal... Magistral... Indescritível... Quase irrepetível... Sabores a monte e a terra, que entram na suprema esfera do inesquecível... Estômago reconfortado, hora de zarpar para a aldeia, que a gente vai sofrendo as agruras da passagem do tempo e as marcas vão-se acentuando. Por vezes, há que dar um "cibinho" de calor humano à gente que nos marca a vida e carrega carga genética semelhante à nossa. Particularmente quando as energias se vão esvaindo pelo peso dos anos. Irremediáveis contingências da vida... Vida que deve ser celebrada. Mais não seja com uma visita ao Centro Cultural para uma revivescência de velhos tempos... E já vai o monólogo longo...

sexta-feira, 5 de março de 2010

A safra do az-zait

“Olea prima omnium arborum est”

A adversidade carrega consigo, por vezes, a surpresa. O ano não correu de feição a uma das grandes culturas mediterrânicas que herdámos: o olival. Surpreendentemente, ainda que com condições climatéricas aziagas, a colheita de azeitona da última campanha superou, a crer nas notícias provenientes da Cooperativa Agrícola, o expectável para oliveiras expostas ao rigor de um Inverno anómalo (se atentarmos que, no último decénio, tivemos 6 dos anos mais quentes do último século). Ao olhar, em pleno séc. XXI, para esta árvore pela qual nutro uma estranha paixão, não resisto a uns breves apontamentos sobre este ser vegetal híbrido, Olea europaea para os entendidos. Um híbrido ser que, ainda que cantado desde imemoriais tempos («E com um ramo de oliveira o homem se purifica totalmente.» Eneida de Virgílio), com vestígios neste recanto luso desde a vetustez das épocas, elevado ao Olimpo por Gregos, idolatrado por Romanos, popularizado por Árabes, só na história recente teve o seu auge por transmontanas terras. É difícil imaginar a Terra Quente privada de olivais, nas suas cotas abaixo dos 700m. Contudo, os apreciadores do aurífero líquido gratos devem estar à filoxera do séc. XIX. A dita praga da vinha foi o mote para um revestimento distinto das encostas da Terra Quente. Não que já em pleno séc. XVIII não existissem freguesias, como a dos Cortiços, referidas como terras que produziam «azeite em abundância». Não que, na primeira metade do séc. XVI, surjam as primeiras efectivas referências à nobre oliveira por terras transmontanas. Basta crer em João de Barros quando diz «…e muito pouco tempo há que ali se plantàrão as primeiras oliueiras, e agora há muito azeite na terra», referindo-se ao termo de Mirandela. Ou no Contrato dos Maninhos relativo ao termo de Miranda, de 1532, «nos lugares onde isso possa ser, plantar dentro de quatro annos quarenta oliveiras». Contudo, se recuarmos à época medieval, a economia rural estava despida de olivais. Pode dizer-se, sem relutância, que a ementa desses nossos antepassados estava desprovida do tão apreciado azeite. Os diplomas e documentação medieval são quase omissos em referências à oliveira e ao azeite. Predominam as relativas à vinha e aos cereais, nomeadamente no que aos textos das Inquirições diz respeito. E, mais dúvidas houvesse, em nenhum exemplar de forais transmontanos surge o azeite como produto passível de pagamento de portagem. É-me difícil imaginar a vida sem “ua seladinha” temperada com azeite, o de “berdade”, não aquele que nos impõem com galináceos de duplo L. Mais difícil é tragar o obscurantismo em que vive o Azeite DOP Trás-os-Montes. Nada de exclusivo… Não me apetece falar de Terrincho, de Churra Badana, de Batata, de Castanha… Mas apetece-me dizer uma verdade irrefutável: somos incomensuravelmente bons e negamos a exploração do bom que temos!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poção mágica

Tudo não passaria de um favor… Um daqueles favores que se fazem às pessoas que nos alimentam a alma a carinho e disponibilidade.
- Não queres ser meu vizinho?...
- Não quero o quê???
Mas, então, como assim?... Vizinho? Mas agora a amizade vai necessitar de andar de mãos dadas com a vizinhança? E, viperina língua a minha, ainda há vizinhos? Essa espécie não está no mesmo catálogo do lince ibérico? Pelos vistos, não… Quer dizer, em termos práticos, de vivência real, está. No mundo em que a gente se esconde por detrás de um monitor, onde as cordas vocais são substituídas pelo monocórdico tom de um teclado e os afectos se manifestam por “dois pontos, parêntesis”, há vizinhos, imensos vizinhos. Solidários, sorridentes, disponíveis… Desconhecidamente desconhecidos… Agradavelmente agradáveis…
Estranhos amigos estranhamente amigáveis… Como dizia, tudo não passaria de um favor… Depois, o contagiante entusiasmo de alguém que leva metade da minha existência fez o resto. Foi um pequeníssimo passo até à adesão a algo que me provocava incontáveis pruridos. As redes sociais… E, particularmente neste caso, um tal jogo de agricultura e pecuária virtuais… A coisa começou com aquele olhar de soslaio, sobrancelhas franzidas, desconfiança à deriva. Prosseguiu com uma postura de petulância, tipo “isto não é para mim”, desprezo a roçar o absoluto. Entretanto, a intriga apossou-se de mim: o que terá algo para deter a capacidade de já ter contagiado 76 milhões de pessoas? Resolvi baixar do meu pedestal e investigar o âmago, entender o umbigo, percepcionar a abrangência. E surpreendi-me… Mais que um jogo, relativamente bem elaborado, utópico porque se colhem morangos 4 horas após a sementeira e convivem pinguins com bananeiras, é um fenómeno sociológico. Que deveria ser passível de uma leitura profunda a uma certa realidade social em que vivemos mergulhados. A dependência do estatuto e dos conceitos materialistas ao mesmo associados conduziu ao isolamento social. Cada um por si e fé em Deus… Como adepto incondicional da pureza das emoções, da amizade, da entreajuda, da solidariedade… - ok… pausa… sei que sou lírico, mas gosto deste lirismo - … espantou-me, e espanta-me, aquilo a que venho assistindo ao abrigo de um simples jogo e de uma rede social. Recebo e envio pedidos de amizade a desconhecidos (simplesmente porque são amigos de amigos de amigos…). É anómalo, porque a amizade não se constrói a pedido, mas é real… Como se a gente vivesse numa incessante sede de contactos. E, pelo que posso apurar, vive! Em pouco tempo, sem saber muito bem como, tenho quase 200 amigos!!! Desses, cerca de 5% são meus Amigos na real vida que levo. Outros tantos, são pessoas que me “desconhecem” e às quais “desconheço” nas minhas incursões macedenses. As restantes, simplesmente foram aparecendo. Contudo, na vida virtual são meus amigos e vizinhos… Pedem-me ajuda, peço-a eu igualmente. E há sorrisos, conversas, comentários… E a insignificância de uns e outros reduz-se, de forma quase mágica, a um valor residual. Os seres com os quais me cruzo por Macedo, carrancudos, isolados, entregues a si próprios, surgem, invariavelmente, dotados de sorrisos nas suas imagens de perfil. Haverá alguma proibição que iniba as pessoas de sorrir pessoalmente? Que raio de medo colectivo este que se apoderou da gente, que a leva a recear expor-se quando incarnam um personagem real! E que, quando fazem de conta que são o “Zé da rede social”, se transfiguram, enviam presentes, sorriem de “dois pontos parêntesis”, são solidários, dizem “olá!”, partilham pontos de vista, geram cumplicidades! E, no que respeito me diz, nada como recorrer ao chicote da auto-flagelação, porque, a bem da verdade, também não fujo propriamente à regra. Outra coisa mais me espanta… Numa época de progressivo abandono das actividades agrícolas e pecuárias, o que conduz toda esta gente (eu incluído) a transformar-se em “agricultores virtuais”? Serão as afinidades pela terra? Serão estas conjugadas com o isolamento? O que conduzirá milhões de pessoas a “criar” galinhas, patos, porcos, coelhos, cavalos e outros animais mais? O que as levará a “lavrar”, “semear” e efectuar a respectiva “colheita”, quando o sector primário está votado ao abandono? O que motiva tanta gente a passar horas, por vezes, a “catar ovos” e “mugir vacas”? E, se um dia, a abandonada província transmontana se transformasse numa “farmville”? Poção mágica…

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O sopro da existência

Em termos meramente práticos, a morte tem supremacia sobre a vida. Na batalha da existência, a segunda acaba sempre por ceder. Resignação absoluta, não há volta a dar... Porém, enquanto nos mantemos em oposição ao sono eterno, vão surgindo figuras que se atravessam na empreitada e dão um pouco de luz à passagem. Infelizmente, as contingências da vida constrangem-nos a relegarmos para o esquecimento algumas delas. E só nos lembramos das suas marcas quando se torna impossível partilhá-las pessoalmente. É o caso da incontornável figura do Padre Neto. Ao ler a notícia do seu desaparecimento, mais que recordar-me da sua inconfundível figura de professor e das histórias a ele associadas, a minha memória foi instantaneamente acometida por uma sensação de injustiça. Não exclusivamente direccionada à figura daquele professor de Português que, do alto da sua sobranceria, nos massacrava com actividades embrionárias das, hoje, extra-curriculares. Foi a minha fonte para os meus parcos conhecimentos de Latim... A sensação de injustiça referida provém, antes, de algum (aparente) esquecimento de todos aqueles que marcaram a minha educação macedense. Há sempre um tempo para tudo, ainda que o mesmo provenha de uma ausência para a eternidade... Seria impossível listar todos os que acrescentaram um pouco àquilo que hoje sou. Dentro desse universo, há quatro pessoas às quais tenho que demonstrar a minha profunda gratidão por tudo o que me deram, enquanto aluno e enquanto pessoa. A primeira delas, a que me acompanhou nos meus primeiros passos, a inestimável Professora Maria Cândida. Segue-se-lhe a pessoa que, pela paixão com que me transmitiu a História, deixou a semente para semelhante sentimento que hoje nutro pela dita, o Prof. Fundo Ferreira. Finalmente, duas pessoas que me ajudaram a ver o mundo com cores distintas das que, habitualmente, um adolescente vê. Muito, muitíssimo obrigado, Prof. Jacinta e Prof. Clara!!! Um agradecimento extensível a todos os que aqui são omissos...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A ignomínia do asfalto

O horrendo da sinistralidade também pode, por vezes, residir na aleatoriedade do macabro. Os últimos registos no cruzamento de Vale de Nogueira são a infeliz prova disso. Ao ler o relato da ceifa de mais vidas pelo fatídico IP4, a minha memória foi assolada pelos arrepios que me transtornam o espírito sempre que resolvo invadir a unicidade do Azibo. No regresso da invasão, apenas… A aproximação da reentrada no IP4, por muito empenho que coloque no alheamento de um inqualificável cruzamento, tolda-me o discernimento, pela irresponsabilidade de quem o projectou. Porque tenho consciência que, por muitas cautelas que tome, um dia posso ser o bafejado pela fava. Basta uma ligeiríssima distração para me candidatar a fazer parte de uma lista negra na qual não desejo estar incluído. Foi necessário trovejar incessantemente para apelar a Santa Bárbara… A crer no que é veiculado pela imprensa, na próxima época balnear já não será necessário atravessar o Cabo das Tormentas. Tratar-se-á de um remendo, apenas uma forma ilusória de não andar com as calças rotas. Disfarça… Um disfarce que vem na mesma senda daqueles com que o mutismo transmontano vem sendo alimentado. Dão-nos fast-food, comemos, enrugamos a cara e… calamos. Somos olhados como se a gente que se esconde para lá do Marão se tratasse de uma casta menor. Uma casta que não merece mais que um IP4 enferrujado pelo tempo. E promessas sempre adiadas, deste país que, ele sim, não merece a gente brotada no seu recanto nordeste. Uma gente que se entrega ao silêncio, deixando-se embalar pelas cantigas dos bandidos que lhe vão sugando a seiva e o pouco que tem. Prestamos vassalagem a um Estado que nos amputa os membros, castra-nos, retira-nos serviços básicos, deixa-nos entregues aos sortilégios de vias de comunicação mal amanhadas. E engana-nos com presentes embrulhados a veneno… Entretanto, a gente vai envelhecendo… E morrendo… Nem que seja a atravessar o IP4… Foto: Guillaume Pazat / Kameraphoto

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Caprichos do paladar

Quando a prolongada ausência desperta os suspiros da sua letargia, as saudades vociferando, num protesto virulento nascido da ausência... Quando os sentidos perdem o Norte, carregando o peso da longitude que os afasta da textura da terra-mãe... Retira-se, sorrateiramente, aquela compota com sabor a Trás-os-Montes, religiosamente guardada para um momento especial. Desperta-se o pão do Ti Luís do seu sono congelado. E aguarda-se pelo finar dos momentâneos protestos da alma... Não finam os ditos, não se sacia a alma. Recorre-se àquelas azeitonas especiais, treinadas para elevar as papilas gustativas ao éden, socorre-se uma alheira esquecida no desolador frio de um congelador. Salva-se a dita, que nos retribui o esforço com aromas únicos e distintos gostos. Repentinamente, lembramo-nos de visitar um velho amigo, perna que já foi, presunto, chamam-lhe os entendidos. E eis que, do nada, surge a antecipação de gostos pascais. Nada de transcendente, já não faltam os 40 dias... De súbito, ergue-se o gosto pela epopeia. "Não é tarde, nem é cedo! Fazemos um folar?" Reúnem-se as tropas... Ancestrais saberes na retaguarda... As alas, qual guarda-de-honra, farinha, fermento e ovos de um lado; azeite, manteiga e sal do outro... Na vanguarda segue a indómita vontade de seres a quem lhes corre sangue de xisto nas veias... Começa a batalha da tradição. "En garde!" Desfere-se o primeiro ataque, forças centradas no presunto, estocada após estocada, vai cedendo às investidas do gume afiado. Recobram-se forças, rapina-se um dos moribundos pedaços do desmembramento, acalma-se a seca garganta, enquanto se aguarda pelo apoio da retaguarda. Sábias mãos, veteranas de longas batalhas, saber de décadas acumulado. Investem as alas, imbuídas de uma abnegação tal que, em breves instantes, impulsionadas pela valentia da retaguarda, se confundem no campo de batalha em que um alguidar se transformou. São momentos de ansiedade, desfeita a ala dos ovos, confundida a da farinha. Entram as gorduras na liça, não se percebe o que em tempos foram. Pede-se ao repórter para abandonar o campo de batalha, mantém-se o mesmo em serviço nas imediações. Protesta o comandante, protestos em vão, diga-se. Afinal, dever de repórter é transmitir ao povo o que se passou. Imparcialmente! Terminada a peleja, honra aos vencidos, homenagem aos contendores. Enfeita-se o palco das cerimónias com escorregadia gordura, que os convidados não se podem pegar. Aquece-se o salão, não os apoquente o frio. E espera-se... Pacientemente, espera-se. Enquando os sentidos vão sendo atormentados pela invasão de odores a tradição que se vão acumulando no espaço. Não há forno típico, nem o inconfundível perfil aromático da lenha transmontana, mas há o familiar cheiro a folar! Aquele cheiro que me faz voar sobre Bornes, planar sobre o Azibo, desafiar a subida à Senhora do Campo, perder-me num labiríntico resgatar de memórias. E salivo... Qual reflexo pavloviano, salivo, ao mesmo tempo que inalo a atmosfera transmontana em que a cozinha se transformou. A angústia dos sentidos acalma-se, finalmente, com aquela única visão de uma obra de arte ligeiramente tostada. Como que a querer partilhar desta orgia de aromas e sabores, a Natureza decide aparecer no festim, presenteando os sentidos com outras cores...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O dia da Carne Vai

É um dia como outro qualquer... O céu assumiu a apatia do nem chove nem deixa chover (malandrices, apesar do espírito carnavalesco, não são para aqui chamadas)... Dia amorfo este, sem chama, sem o colorido de outros tempos. É por estas alturas que a omissão da fanfarronice me arrefece o espírito. Socorro-me das memórias, e de imagens surripiadas, com a devida autorização do "excelente fotógrafo". Poderia ter descido uns poucos de quilómetros. Mas não há Caretos e "Madamas"... E não há Podence, nem Lamas, nem Macedo, sequer. E não há frio cortante, por muito gélido que esteja o ar marítimo. Faça-se um recuo no tempo... A um tempo em que o Carnaval ainda era Entrudo. Os já por aqui mencionados "peidinhos engarrafados" faziam as delícias dos empertigados narizes. Vem-me à memória o velhinho "Ciclo" onde, numa das suas espartanas salas, um rapazola, hoje verdadeiro senhor macedense, resolveu que haveria de boicotar uma aula de Inglês. O nauseabundo aroma que premiou a atmosfera deixou a professora indiferente, por orgulho, ou por narinas entupidas. Cumprida a ordem de fecho das minúsculas janelas, os meus sensores olfactivos ainda se arrepiam com aqueles 50 minutos de degredo. E a minha memória visual regista aquela imponente figura que, ironicamente, ia repetindo: "What a pleasant smell! Don't you like it?"... A solidariedade fez com que ninguém o tivesse acusado... Cousas de outros tempos... Era um tempo em que os "stourotes" e os "rasca-paredes" mais não eram que uma inofensiva brincadeira que hoje transformaram em algo semelhante a um qualquer campo minado do Afeganistão. Tempo em que o Jardim era transformado no culminar de preparativos de um arsenal único representado pelas "bombinhas de Carnaval". Que eu saiba, nunca ninguém se "friu". Nem quando duas pessoas que eu bem conheço resolveram abafar o som da sequência de "bombinhas" com uma craterazinha aberta em pleno Jardim com recurso a dinamite... Não morreu ninguém, não se registaram feridos e não houve necessidade de chamar o helicóptero do INEM... Já se sabia que o dito das hélices não passava de uma brincadeira de Carnaval... Havia as "caretas" vendidas na Tabacaria, na Livraria, no "Snhô'Iduardo" ou no "Snhô'rmando". De um qualquer polímero que tresandava a plástico e que obrigava a destapar o anonimato de quando em vez. Os "disfraces" eram arrancados de esquecidos baús onde repousavam velhas lendas, mistura de rendilhados ocultados pelo tempo, trapos ultrapassados, "tchanatos" com histórias para contar. No final, ganhava o mais garrido e o mais esteriotipado. E dava a "risa" a todos... Especialmente quando não havia susceptibilidades feridas por ficar "imbuligado" com um cocktail onde entravam farinha, farelos, cinza e água. Parecia que a "sostrice" se assemelhava a medalhas de guerra. Quanto mais "côtras" houvesse para limpar ao final do dia, mais intensa tinha sido a jornada. E havia o terror dos Caretos, nada de etnográfico, nada de manutenção de tradições. Era o terror puro, em versão ligeiramente mais pacífica que uma guerra. Mas havia uma batalha de chocalhos que aterrorizava as raparigas que se refugiavam no primeiro esconderijo que encontrassem. E houve histórias de violência. Como aquela em que alguém despejou água a ferver em dois ousados que subiam pelas paredes de xisto... O que eu gostava era do pânico por que eram tomadas as mulheres. "Fuge, fuge, que já'i bãim!!!"... O fascínio por aqueles seres diabólicos que vinham em desenfreada correria em busca de vítimas superava qualquer medo. Ficava atónito, assistindo ao alvoroço da gente, enquanto aquelas figuras pintalgadas a lã colorida desciam a partir da eira, onde terminava o caminho vindo de Podence. Os chocalhos anunciavam o apocalipse! Um qualquer fim do mundo que eu não entendia muito bem. Tal como não entendia porque o mulherio se agarrava, em suplício, aos putos que circulavam pelas imediações do Cruzeiro. Ou porque, em última instância, se enclausuravam, horas a fio, dentro de perímetro marcado pelo adro. Respeitinho pela infância e pelo sagrado... No final, zarpavam os demónios de volta a Podence e contavam-se macabras histórias de indefesas donzelas que "ium ficar thchêinhas de maçaduras"... Haveriam de ter que dar o chá ao bafejado pela sorte dos casamentos anunciados a partir dum mega-funil, lá para os lados do cemitério... Com sorte, poderiam ter como retribuição uma "cacada", elaborada a partir de telhas velhas, do que se encontrasse, acompanhadas dos meus tão adorados "bulharacos"... Era Entrudo...