A lugubridade dos dias pareceu ter atingido o seu expoente máximo nesta Sexta-feira. A chuva caía num incessante lacrimejar dos céus, como se a condensação tivesse acumulado décadas de tristeza. O vento assobiava a sua melancólica melodia, lançando as gotículas de chuva num caótico estado de louca correria, numa aleatoriedade direccional de deixar qualquer trauseunte próximo da insanidade mental. O vizinho curso de água tresandava a excesso da mesma, deixando o imponente arvoredo transfigurado em isoladas ilhotas no meio da mancha castanha que corria desenfreada.
Bem Vindo às Cousas
Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com
quarta-feira, 10 de março de 2010
Fome de terra
A lugubridade dos dias pareceu ter atingido o seu expoente máximo nesta Sexta-feira. A chuva caía num incessante lacrimejar dos céus, como se a condensação tivesse acumulado décadas de tristeza. O vento assobiava a sua melancólica melodia, lançando as gotículas de chuva num caótico estado de louca correria, numa aleatoriedade direccional de deixar qualquer trauseunte próximo da insanidade mental. O vizinho curso de água tresandava a excesso da mesma, deixando o imponente arvoredo transfigurado em isoladas ilhotas no meio da mancha castanha que corria desenfreada.
sexta-feira, 5 de março de 2010
A safra do az-zait
“Olea prima omnium arborum est”
A adversidade carrega consigo, por vezes, a surpresa. O ano não correu de feição a uma das grandes culturas mediterrânicas que herdámos: o olival. Surpreendentemente, ainda que com condições climatéricas aziagas, a colheita de azeitona da última campanha superou, a crer nas notícias provenientes da Cooperativa Agrícola, o expectável para oliveiras expostas ao rigor de um Inverno anómalo (se atentarmos que, no último decénio, tivemos 6 dos anos mais quentes do último século). Ao olhar, em pleno séc. XXI, para esta árvore pela qual nutro uma estranha paixão, não resisto a uns breves apontamentos sobre este ser vegetal híbrido, Olea europaea para os entendidos.
Um híbrido ser que, ainda que cantado desde imemoriais tempos («E com um ramo de oliveira o homem se purifica totalmente.» Eneida de Virgílio), com vestígios neste recanto luso desde a vetustez das épocas, elevado ao Olimpo por Gregos, idolatrado por Romanos, popularizado por Árabes, só na história recente teve o seu auge por transmontanas terras. É difícil imaginar a Terra Quente privada de olivais, nas suas cotas abaixo dos 700m. Contudo, os apreciadores do aurífero líquido gratos devem estar à filoxera do séc. XIX.
A dita praga da vinha foi o mote para um revestimento distinto das encostas da Terra Quente. Não que já em pleno séc. XVIII não existissem freguesias, como a dos Cortiços, referidas como terras que produziam «azeite em abundância». Não que, na primeira metade do séc. XVI, surjam as primeiras efectivas referências à nobre oliveira por terras transmontanas. Basta crer em João de Barros quando diz «…e muito pouco tempo há que ali se plantàrão as primeiras oliueiras, e agora há muito azeite na terra», referindo-se ao termo de Mirandela. Ou no Contrato dos Maninhos relativo ao termo de Miranda, de 1532, «nos lugares onde isso possa ser, plantar dentro de quatro annos quarenta oliveiras». Contudo, se recuarmos à época medieval, a economia rural estava despida de olivais. Pode dizer-se, sem relutância, que a ementa desses nossos antepassados estava desprovida do tão apreciado azeite. Os diplomas e documentação medieval são quase omissos em referências à oliveira e ao azeite. Predominam as relativas à vinha e aos cereais, nomeadamente no que aos textos das Inquirições diz respeito.
E, mais dúvidas houvesse, em nenhum exemplar de forais transmontanos surge o azeite como produto passível de pagamento de portagem. É-me difícil imaginar a vida sem “ua seladinha” temperada com azeite, o de “berdade”, não aquele que nos impõem com galináceos de duplo L. Mais difícil é tragar o obscurantismo em que vive o Azeite DOP Trás-os-Montes. Nada de exclusivo… Não me apetece falar de Terrincho, de Churra Badana, de Batata, de Castanha… Mas apetece-me dizer uma verdade irrefutável: somos incomensuravelmente bons e negamos a exploração do bom que temos!
A adversidade carrega consigo, por vezes, a surpresa. O ano não correu de feição a uma das grandes culturas mediterrânicas que herdámos: o olival. Surpreendentemente, ainda que com condições climatéricas aziagas, a colheita de azeitona da última campanha superou, a crer nas notícias provenientes da Cooperativa Agrícola, o expectável para oliveiras expostas ao rigor de um Inverno anómalo (se atentarmos que, no último decénio, tivemos 6 dos anos mais quentes do último século). Ao olhar, em pleno séc. XXI, para esta árvore pela qual nutro uma estranha paixão, não resisto a uns breves apontamentos sobre este ser vegetal híbrido, Olea europaea para os entendidos.
Um híbrido ser que, ainda que cantado desde imemoriais tempos («E com um ramo de oliveira o homem se purifica totalmente.» Eneida de Virgílio), com vestígios neste recanto luso desde a vetustez das épocas, elevado ao Olimpo por Gregos, idolatrado por Romanos, popularizado por Árabes, só na história recente teve o seu auge por transmontanas terras. É difícil imaginar a Terra Quente privada de olivais, nas suas cotas abaixo dos 700m. Contudo, os apreciadores do aurífero líquido gratos devem estar à filoxera do séc. XIX.
A dita praga da vinha foi o mote para um revestimento distinto das encostas da Terra Quente. Não que já em pleno séc. XVIII não existissem freguesias, como a dos Cortiços, referidas como terras que produziam «azeite em abundância». Não que, na primeira metade do séc. XVI, surjam as primeiras efectivas referências à nobre oliveira por terras transmontanas. Basta crer em João de Barros quando diz «…e muito pouco tempo há que ali se plantàrão as primeiras oliueiras, e agora há muito azeite na terra», referindo-se ao termo de Mirandela. Ou no Contrato dos Maninhos relativo ao termo de Miranda, de 1532, «nos lugares onde isso possa ser, plantar dentro de quatro annos quarenta oliveiras». Contudo, se recuarmos à época medieval, a economia rural estava despida de olivais. Pode dizer-se, sem relutância, que a ementa desses nossos antepassados estava desprovida do tão apreciado azeite. Os diplomas e documentação medieval são quase omissos em referências à oliveira e ao azeite. Predominam as relativas à vinha e aos cereais, nomeadamente no que aos textos das Inquirições diz respeito.
E, mais dúvidas houvesse, em nenhum exemplar de forais transmontanos surge o azeite como produto passível de pagamento de portagem. É-me difícil imaginar a vida sem “ua seladinha” temperada com azeite, o de “berdade”, não aquele que nos impõem com galináceos de duplo L. Mais difícil é tragar o obscurantismo em que vive o Azeite DOP Trás-os-Montes. Nada de exclusivo… Não me apetece falar de Terrincho, de Churra Badana, de Batata, de Castanha… Mas apetece-me dizer uma verdade irrefutável: somos incomensuravelmente bons e negamos a exploração do bom que temos!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Poção mágica
- Não queres ser meu vizinho?...
- Não quero o quê???
Mas, então, como assim?... Vizinho? Mas agora a amizade vai necessitar de andar de mãos dadas com a vizinhança? E, viperina língua a minha, ainda há vizinhos? Essa espécie não está no mesmo catálogo do lince ibérico? Pelos vistos, não… Quer dizer, em termos práticos, de vivência real, está. No mundo em que a gente se esconde por detrás de um monitor, onde as cordas vocais são substituídas pelo monocórdico tom de um teclado e os afectos se manifestam por “dois pontos, parêntesis”, há vizinhos, imensos vizinhos. Solidários, sorridentes, disponíveis… Desconhecidamente desconhecidos… Agradavelmente agradáveis…
Estranhos amigos estranhamente amigáveis… Como dizia, tudo não passaria de um favor… Depois, o contagiante entusiasmo de alguém que leva metade da minha existência fez o resto. Foi um pequeníssimo passo até à adesão a algo que me provocava incontáveis pruridos. As redes sociais… E, particularmente neste caso, um tal jogo de agricultura e pecuária virtuais… A coisa começou com aquele olhar de soslaio, sobrancelhas franzidas, desconfiança à deriva. Prosseguiu com uma postura de petulância, tipo “isto não é para mim”, desprezo a roçar o absoluto. Entretanto, a intriga apossou-se de mim: o que terá algo para deter a capacidade de já ter contagiado 76 milhões de pessoas? Resolvi baixar do meu pedestal e investigar o âmago, entender o umbigo, percepcionar a abrangência.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
O sopro da existência
Em termos meramente práticos, a morte tem supremacia sobre a vida. Na batalha da existência, a segunda acaba sempre por ceder. Resignação absoluta, não há volta a dar... Porém, enquanto nos mantemos em oposição ao sono eterno, vão surgindo figuras que se atravessam na empreitada e dão um pouco de luz à passagem. Infelizmente, as contingências da vida constrangem-nos a relegarmos para o esquecimento algumas delas. E só nos lembramos das suas marcas quando se torna impossível partilhá-las pessoalmente. É o caso da incontornável figura do Padre Neto. Ao ler a notícia do seu desaparecimento, mais que recordar-me da sua inconfundível figura de professor e das histórias a ele associadas, a minha memória foi instantaneamente acometida por uma sensação de injustiça. Não exclusivamente direccionada à figura daquele professor de Português que, do alto da sua sobranceria, nos massacrava com actividades embrionárias das, hoje, extra-curriculares. Foi a minha fonte para os meus parcos conhecimentos de Latim... A sensação de injustiça referida provém, antes, de algum (aparente) esquecimento de todos aqueles que marcaram a minha educação macedense. Há sempre um tempo para tudo, ainda que o mesmo provenha de uma ausência para a eternidade... Seria impossível listar todos os que acrescentaram um pouco àquilo que hoje sou. Dentro desse universo, há quatro pessoas às quais tenho que demonstrar a minha profunda gratidão por tudo o que me deram, enquanto aluno e enquanto pessoa. A primeira delas, a que me acompanhou nos meus primeiros passos, a inestimável Professora Maria Cândida. Segue-se-lhe a pessoa que, pela paixão com que me transmitiu a História, deixou a semente para semelhante sentimento que hoje nutro pela dita, o Prof. Fundo Ferreira. Finalmente, duas pessoas que me ajudaram a ver o mundo com cores distintas das que, habitualmente, um adolescente vê. Muito, muitíssimo obrigado, Prof. Jacinta e Prof. Clara!!! Um agradecimento extensível a todos os que aqui são omissos...
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
A ignomínia do asfalto
O horrendo da sinistralidade também pode, por vezes, residir na aleatoriedade do macabro. Os últimos registos no cruzamento de Vale de Nogueira são a infeliz prova disso. Ao ler o relato da ceifa de mais vidas pelo fatídico IP4, a minha memória foi assolada pelos arrepios que me transtornam o espírito sempre que resolvo invadir a unicidade do Azibo. No regresso da invasão, apenas… A aproximação da reentrada no IP4, por muito empenho que coloque no alheamento de um inqualificável cruzamento, tolda-me o discernimento, pela irresponsabilidade de quem o projectou. Porque tenho consciência que, por muitas cautelas que tome, um dia posso ser o bafejado pela fava. Basta uma ligeiríssima distração para me candidatar a fazer parte de uma lista negra na qual não desejo estar incluído. Foi necessário trovejar incessantemente para apelar a Santa Bárbara… A crer no que é veiculado pela imprensa, na próxima época balnear já não será necessário atravessar o Cabo das Tormentas. Tratar-se-á de um remendo, apenas uma forma ilusória de não andar com as calças rotas. Disfarça… Um disfarce que vem na mesma senda daqueles com que o mutismo transmontano vem sendo alimentado. Dão-nos fast-food, comemos, enrugamos a cara e… calamos. Somos olhados como se a gente que se esconde para lá do Marão se tratasse de uma casta menor. Uma casta que não merece mais que um IP4 enferrujado pelo tempo. E promessas sempre adiadas, deste país que, ele sim, não merece a gente brotada no seu recanto nordeste. Uma gente que se entrega ao silêncio, deixando-se embalar pelas cantigas dos bandidos que lhe vão sugando a seiva e o pouco que tem. Prestamos vassalagem a um Estado que nos amputa os membros, castra-nos, retira-nos serviços básicos, deixa-nos entregues aos sortilégios de vias de comunicação mal amanhadas. E engana-nos com presentes embrulhados a veneno… Entretanto, a gente vai envelhecendo… E morrendo… Nem que seja a atravessar o IP4…
Foto: Guillaume Pazat / Kameraphoto
Foto: Guillaume Pazat / Kameraphoto
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Caprichos do paladar
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
O dia da Carne Vai
É um dia como outro qualquer... O céu assumiu a apatia do nem chove nem deixa chover (malandrices, apesar do espírito carnavalesco, não são para aqui chamadas)... Dia amorfo este, sem chama, sem o colorido de outros tempos. É por estas alturas que a omissão da fanfarronice me arrefece o espírito. Socorro-me das memórias, e de imagens surripiadas, com a devida autorização do "excelente fotógrafo". Poderia ter descido uns poucos de quilómetros. Mas não há Caretos e "Madamas"... E não há Podence, nem Lamas, nem Macedo, sequer. E não há frio cortante, por muito gélido que esteja o ar marítimo.
E havia o terror dos Caretos, nada de etnográfico, nada de manutenção de tradições. Era o terror puro, em versão ligeiramente mais pacífica que uma guerra. Mas havia uma batalha de chocalhos que aterrorizava as raparigas que se refugiavam no primeiro esconderijo que encontrassem. E houve histórias de violência. Como aquela em que alguém despejou água a ferver em dois ousados que subiam pelas paredes de xisto... O que eu gostava era do pânico por que eram tomadas as mulheres. "Fuge, fuge, que já'i bãim!!!"... O fascínio por aqueles seres diabólicos que vinham em desenfreada correria em busca de vítimas superava qualquer medo. Ficava atónito, assistindo ao alvoroço da gente, enquanto aquelas figuras pintalgadas a lã colorida desciam a partir da eira, onde terminava o caminho vindo de Podence. Os chocalhos anunciavam o apocalipse! Um qualquer fim do mundo que eu não entendia muito bem. Tal como não entendia porque o mulherio se agarrava, em suplício, aos putos que circulavam pelas imediações do Cruzeiro. Ou porque, em última instância, se enclausuravam, horas a fio, dentro de perímetro marcado pelo adro. Respeitinho pela infância e pelo sagrado... No final, zarpavam os demónios de volta a Podence e contavam-se macabras histórias de indefesas donzelas que "ium ficar thchêinhas de maçaduras"... Haveriam de ter que dar o chá ao bafejado pela sorte dos casamentos anunciados a partir dum mega-funil, lá para os lados do cemitério... Com sorte, poderiam ter como retribuição uma "cacada", elaborada a partir de telhas velhas, do que se encontrasse, acompanhadas dos meus tão adorados "bulharacos"... Era Entrudo...
Subscrever:
Mensagens (Atom)