Imporei respeito ao pretendente e os chocalhos abafarão a conversa... E ganharei na preservação das tradições. Umas tais que, não nos "pônhamus guitchos", serão carcomidas pela castração a que vamos sendo votados, ainda que, miseravelmente, votemos, e os nossos miseráveis votos nos "botem" na miséria... Um voto transmontano é um voto no desprezo... E, dizem os antigos, quem não se sente, não é filho de boa gente. Não terei a presunção de dizer que sou filho de boa gente, ainda que o seja, mas deixo espaço aberto para a discordância. Mas sinto-me! E aí, não há discórdia que pegue. E cada vez mais sinto que as migalhas que, subservientemente, acolhemos ao abrigo de um "samaritanismo" que nos compele a regurgitá-las de seguida, mais não são que evidentes tentativas que vão provando a nossa ineficácia como povo distinto.Bem Vindo às Cousas
Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
É mal, ninguém leva a Carnaval
Imporei respeito ao pretendente e os chocalhos abafarão a conversa... E ganharei na preservação das tradições. Umas tais que, não nos "pônhamus guitchos", serão carcomidas pela castração a que vamos sendo votados, ainda que, miseravelmente, votemos, e os nossos miseráveis votos nos "botem" na miséria... Um voto transmontano é um voto no desprezo... E, dizem os antigos, quem não se sente, não é filho de boa gente. Não terei a presunção de dizer que sou filho de boa gente, ainda que o seja, mas deixo espaço aberto para a discordância. Mas sinto-me! E aí, não há discórdia que pegue. E cada vez mais sinto que as migalhas que, subservientemente, acolhemos ao abrigo de um "samaritanismo" que nos compele a regurgitá-las de seguida, mais não são que evidentes tentativas que vão provando a nossa ineficácia como povo distinto.quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Sussurros do Além
Há gestos inimitáveis, pedaços inexplicáveis gerados pela vontade de olhar uma terra com a distinção que a mesma merece. Por vezes, o eco das "Cousas" tem o sabor da utopia, a magia do infinito. Reconforta... O mail das "Cousas" foi recheado a surpresa. Uma inultrapassável surpresa, direi eu... Se o herói macedense não está vivo, algures num qualquer mítico universo, as suas perseverança e coragem substituíram a maça por um teclado... Não há Sandoval, há apenas outras coisas mais... Passo a transcrevê-las, com a devida vénia ao Martim... 
«Caro Cavaleiro Andante.
Quer acredite ou não, a tecnologia celestial do século XIV dá-me para ir acompanhando os seus escritos e fico sempre emocionado quando os leio, só espero, como aquele que de vez em quando passa por aqui, um tal D. Quixote, que as suas palavras não sejam levadas, como as dele, pelos ventos que fazem mover os moinhos. Não no que diz respeito à minha pessoa, mas pelo que temos em comum, o gosto pelo torrão de terra que nos viu parir. Neste meu tempo ainda não existia a aerovip, nem tão pouco automóvel, ou a rede expresso e creia-me que não foi fácil andar, trotando ou galopando, fazendo intermináveis jornadas para levar o nome dos “Macedo” ao centro das emoções, ao centro das decisões, ao centro do mundo. Ir do umbigo ao coração, a distância era enorme e não somente a distância de um palmo. Mas, contrariamente ao que se possa pensar, no meu tempo viajava-se muito, explicarei mais tarde.
Estamos de acordo que, Macedo dos meus Cavaleiros, deveria, há muito, constar da história deste reino/república que se chama, há mais de 800 anos, Portugal e não por mim. Ainda há dias encontrei-me com o Vasco Pires, como deve saber, um da estripe dos Chacins, bisneto do Nuno Martins, o rapaz que acompanhava o conde estabre. Estivemos a recordar histórias do bisavô, homem Macedense de grande estatuto e de grande merecimento a quem lhe deveis maior reconhecimento.
Quanto a mim e aquilo que foram os meus feitos, mais não fui que fiel a quem sempre me tratou bem e em quem sempre confiei, o meu Rei e Senhor a quem justamente servi. Aquilo que se passou no campo de São Jorge, foi somente, como diria alguém do seu tempo, “ o homem certo no local certo e no momento certo”, mas aquele Sandoval estava mesmo a pedi-las. O meu Rei lá me encheu de terras e mercês, mas algumas foram, quase presentes envenenados, como aquela do Outeiro que me obrigava amiúde a guerrear com os nossos arqui-inimigos castelhanos, mas vá lá, as fazendas compensavam. Ainda não havia a mania das condecorações, recebia-se em géneros, o que era bem mais confortável.
Após a batalha real, aquilo a que vocês modernamente chamam Nação, quase que não existia, mas o seu resultado final (há quem diga que tive alguma coisa a ver com isso) serviu para nos galvanizar, para nos reorganizarmos como reino e assim partirmos para o maior e mais glorioso feito que uma nação poderia almejar – a descoberta geográfica do mundo onde hoje viveis – essa galvanização que nos tempos contemporâneos (a psicologia) lhe chamais auto-estima, abrangeu toda a colectividade (apesar de sermos poucos e com grandes carências, tempos de muita fome e maleitas), estava no seu máximo, nunca teríamos conseguido realizar tais feitos se não estivéssemos imbuídos nesse estado de espírito.
Como eu venerei todos os meus antepassados zelas, os tais que começaram a domar este torrão macedense, tendo sido por eles que tive a vida sacrificada que tive, também não vos ficaria mal lembrarem-se um pouco de todos aqueles que vos antecederam e vos transmitiram os genes, dos quais muito se podem orgulhar – olhem que vos faria bem à auto-estima.
Martim Gonçalves de Macedo»
«Caro Cavaleiro Andante.
Quer acredite ou não, a tecnologia celestial do século XIV dá-me para ir acompanhando os seus escritos e fico sempre emocionado quando os leio, só espero, como aquele que de vez em quando passa por aqui, um tal D. Quixote, que as suas palavras não sejam levadas, como as dele, pelos ventos que fazem mover os moinhos. Não no que diz respeito à minha pessoa, mas pelo que temos em comum, o gosto pelo torrão de terra que nos viu parir. Neste meu tempo ainda não existia a aerovip, nem tão pouco automóvel, ou a rede expresso e creia-me que não foi fácil andar, trotando ou galopando, fazendo intermináveis jornadas para levar o nome dos “Macedo” ao centro das emoções, ao centro das decisões, ao centro do mundo. Ir do umbigo ao coração, a distância era enorme e não somente a distância de um palmo. Mas, contrariamente ao que se possa pensar, no meu tempo viajava-se muito, explicarei mais tarde.
Estamos de acordo que, Macedo dos meus Cavaleiros, deveria, há muito, constar da história deste reino/república que se chama, há mais de 800 anos, Portugal e não por mim. Ainda há dias encontrei-me com o Vasco Pires, como deve saber, um da estripe dos Chacins, bisneto do Nuno Martins, o rapaz que acompanhava o conde estabre. Estivemos a recordar histórias do bisavô, homem Macedense de grande estatuto e de grande merecimento a quem lhe deveis maior reconhecimento.
Quanto a mim e aquilo que foram os meus feitos, mais não fui que fiel a quem sempre me tratou bem e em quem sempre confiei, o meu Rei e Senhor a quem justamente servi. Aquilo que se passou no campo de São Jorge, foi somente, como diria alguém do seu tempo, “ o homem certo no local certo e no momento certo”, mas aquele Sandoval estava mesmo a pedi-las. O meu Rei lá me encheu de terras e mercês, mas algumas foram, quase presentes envenenados, como aquela do Outeiro que me obrigava amiúde a guerrear com os nossos arqui-inimigos castelhanos, mas vá lá, as fazendas compensavam. Ainda não havia a mania das condecorações, recebia-se em géneros, o que era bem mais confortável.
Após a batalha real, aquilo a que vocês modernamente chamam Nação, quase que não existia, mas o seu resultado final (há quem diga que tive alguma coisa a ver com isso) serviu para nos galvanizar, para nos reorganizarmos como reino e assim partirmos para o maior e mais glorioso feito que uma nação poderia almejar – a descoberta geográfica do mundo onde hoje viveis – essa galvanização que nos tempos contemporâneos (a psicologia) lhe chamais auto-estima, abrangeu toda a colectividade (apesar de sermos poucos e com grandes carências, tempos de muita fome e maleitas), estava no seu máximo, nunca teríamos conseguido realizar tais feitos se não estivéssemos imbuídos nesse estado de espírito.
Como eu venerei todos os meus antepassados zelas, os tais que começaram a domar este torrão macedense, tendo sido por eles que tive a vida sacrificada que tive, também não vos ficaria mal lembrarem-se um pouco de todos aqueles que vos antecederam e vos transmitiram os genes, dos quais muito se podem orgulhar – olhem que vos faria bem à auto-estima.
Martim Gonçalves de Macedo»
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Estórias da História
Não nego a minha apetência para me arrepiar com a magnitude do pulsar da minha terra, ainda que as contingências da vida me tenham transportado para longe do epicentro. Não obstante a distância que subtrai intensidade às ondas sísmicas, sou detentor de um sismógrafo emocional que, por via do inexplicável que Macedo me gera, detecta os mais ínfimos sinais de abalo. Talvez por isso sinta a "bota" com tanta emoção. E talvez por isso sinta o complexo neuronal em ebulição sempre que o nome da minha terra vem à baila. Este é um orgulho que não escondo... Presunçosamente, vou passeando Macedo e, por inerência, Trás-os-Montes, espalhando pelos cantos a magia de uma terra que não se explica. Sente-se, apenas...
A Associação Terras Quentes poderia não passar de uma instituição mais, uma das muitas que, inúmeras vezes, vão surgindo ao sabor de escatológicos interesses que não é função das Cousas escalpelizar. Contrariando a minha inicial sensibilidade de desconfiança, a ATQ, no quase último decénio, encarregou-se de dissipar a lendária neblina que envolvia dois pretensos cavaleiros, mais as suas maças. Desenterrou vestígios de um riquíssimo passado macedense, tesouros ainda não completamente abertos. Trouxe à luz do dia pedaços ocultos pela voragem do tempo e esquecidos no imaginário popular. Ressuscitou obras devoradas pela incúria humana e deu vida a artesanais marcas gravadas em rochas. Hoje, encho-me de orgulho pela bibliografia que vai sendo recheada por artigos sobre a Terronha de Pinhovelo. Ou pela que vai tendo como ídolo a Fraga dos Corvos de Vilar do Monte e a sua representatividade na 1ª Idade do Bronze Ibérica.
E, como anteriormente referi, há tesouros ainda por desvendar. Xaires será um deles, seguramente. A Necrópole do Sobreirinho será outro, um daqueles locais onde abunda um misticismo ímpar, guardião de segredos únicos. O futuro da história da "bota" macedense está ao virar da esquina, espelhado, desde já, pela Sala-Museu de Arqueologia e pelo Museu de Arte Sacra. A última Feira da Caça e Turismo revelou uma nova faceta desse futuro, visível na exposição do projecto para a obra com que Macedo será dotado e que, não duvido, encherá os Macedenses de orgulho. Será o culminar de um processo de restituição da glória a um esquecido herói macedense que é, afinal, herói nacional.
Poderá parecer incongruente, mas Macedo é um pedaço de Aljubarrota. A aldeia de "Sam Pedro de Maçaedo" do séc. XIII deu ao mundo o braço que, em pleno séc. XIV, permitiu que os manuais de História contenham, hoje, a Dinastia de Avis. E o Mestre ficou-lhe grato, extremamente grato... A mesma gratidão devo eu, como filho macedense, à boa hora em que a Câmara Municipal resolveu estabelecer um protocolo com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, corporizado na Associação Terras Quentes. Poderá soar a irrisório, mas hoje conheço o âmago da existência da minha "vila" e do meu concelho muito à custa do labor da ATQ, do seu trabalho, das suas publicações e do seu site institucional. Mais grato ficarei, futuramente, quando vir renascer, de cara lavada, um dos locais que marcou de sobremaneira a minha aprendizagem. Ansioso estou por ver Macedo no mapa da História de Portugal... Muito à custa de um heróico acto de um tal de Martim Gonçalves de Macedo...
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Voos do tempo
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Cabos da Boa Esperança
«”A grande conclusão é que o Turismo é a grande esperança para o Nordeste Transmontano, o único sector em que os indicadores são positivos.” - Conclusões do seminário da Caça e Turismo, que decorreu em Macedo de Cavaleiros.» (Excerto de uma notícia da Rádio Brigantia)
No que me toca, enquanto Transmontano Nordestino, o indicador positivo é este mesmo: constatar que, publicamente, alguém responsável tocou na mais que provável galinha dos ovos de ouro para a não transformação de Trás-os-Montes, e mais especificamente no seu Nordeste, na coutada que já por aqui venho, insistentemente, referindo. É indesmentível que o deserto a que se referia um anterior ministro não se restringe à extensão que fica para além do Tejo… Nos meus áureos anos (se é que algum dia os tive) de bom rapaz, os meus amigos alentejanos diziam-me que éramos primos. O que nos distinguia é que eles tinham enviado os calhaus todos para o interior norte… Eu ria-me, dizendo que Trás-os-Montes e a Região Norte eram a autêntica paisagem. O resto eram conquistas… Mas tinham razão na consanguinidade. Mas por distintos motivos, revelados duas décadas após: o litoral é Portugal e o resto é, cada vez mais, paisagem. Pois aproveitemos a paisagem!!!
E, “de caminho”, aproveitemos, também, uns “troquitos” de Portugal para o seu aproveitamento… Deixemo-nos de auto-estradas! Recentemente, um amigo dizia-me, a propósito dos meus incessantes protestos, que o asfalto era um pau de dois bicos. Tinha razão! De facto, se a auto-estrada coloca Trás-os-Montes mais perto, é incontestável que também facilita uma mais rápida fuga dos transmontanos que ainda restam… Deixemo-nos, de igual forma, de estéreis discussões acerca de Zonas Industriais! Mas nós temos indústria? E, caso esteja equivocado, confesso que é deprimente passear pelas ZI’s de cada uma das sedes de concelho do distrito bragançano… O que temos, então? Comércio, muito comércio, num conceito de comércio que não gera riqueza (a não ser para poucos)… Serviços, muitos serviços (cada vez menos, é certo, exceptuando o incremento de agências bancárias)… Agricultura, pouca agricultura, “pouq’tchinha, munto pouq’tchinha”…
Somos uns depauperados, economicamente falando. Os indicadores económicos colocam-nos na cauda da cauda da cauda europeia. Isso, enquanto transmontano, é dor que suporto. O que é insuportável é a resignação. Entregámo-nos a um mutismo de reflexos pavlovianos, reagindo sempre que nos acenam com umas migalhas. Basta pensar na hipocrisia da EDP Solidária… Para os crentes, deixo uma sugestão: recheiem-me a minha conta bancária mensalmente, que eu não me importo de ser solidário… Adiante… Olhando para a mais meridional região de Portugal Continental: o Algarve. Quantos anos esperou por uma ligação rodoviária condigna? Imensos, imensos… Mas nunca deixou de ser Algarve. Tem indústria? Não, exceptuando umas conserveiras, alguma extracção de sal e a transformação de figos secos e amêndoa. Quer dizer… Tem indústria, se é que se lhe pode chamar indústria: a do turismo.
« - Olha-me para este ingénuo! A querer comparar o Algarve, a sua meteorologia e as suas praias com o interior transmontano»…
A verdade é que este ingénuo tem consciência que não temos figos secos (ou teremos poucos), mas temos a Batata de Trás-os-Montes, “tchouriços” e outras coisas mais. Não temos Vilamoura, mas temos o Azibo. Não temos o Corridinho, mas temos Pauliteiros e Caretos. E temos serras, montes e vales, rios e ribeiros, lobos e veados. E, não tendo o Atlântico, mergulhamos na intensidade do “Mar de Pedras” de Torga. E somos uma gente, da qual presunçosamente faço parte, única, distinta, talhada pelas rugas do tempo, enrijecida pelas agruras das geadas e afável pelo calor dos três de inferno. Seremos um pedaço esquecido, mas não devemos, jamais, esquermo-nos de nós próprios. Mas esquecemos, fazendo de conta que não existimos. A verdade é que existimos… Tratemos da nossa existência.
Olhando com olhos de ver para a esperança do Turismo. Da última Feira vieram sinais de recuperação do que moribundo parece estar. A possibilidade de aproveitar o herói macedense para colocar o seu Senhorio no mapa da História de Portugal é um sinal de possibilidade de passagem do Cabo das Tormentas. Já vai longo o desabafo… Noutro dia, convidarei Martim Gonçalves de Macedo a tomar um prolongado café nas Cousas… Afinal, Aljubarrota, a Batalha, vivem de quê?...
« - Olha-me para este ingénuo! A querer comparar o Algarve, a sua meteorologia e as suas praias com o interior transmontano»…
sábado, 30 de janeiro de 2010
Ninguém escreve ao Coronel Porco
Coronel morto, coronel "deporco"... O arraial da matança não terminava pela imposição cruel, mas necessária, de um ferro no pescoço do animal. Tinha seguimento no ritual do desmembrar de um corpo, mesmo que tudo isto se assemelhe a algo macabro. Era assim, é assim, um culminar da lei da sobrevivência, ainda que impressione pela frieza das palavras. E, respeitem-se castradores das tradições ou defensores dos direitos dos animais, o "mata-porco" é um pedaço vivo de transmontanas ancestralidades. Tão ancestrais como retirar a vida a uma alface... Vida que alimenta vida. Difere o processo porque a alface é temperada com sal, azeite e vinagre. A reservada fatia suína para o fumeiro tem outros temperos mais.
Resumidos na vinha de alhos para alguns, "adôbo" para os puristas, coisa de somenos para quem não entende patavina do amor dedicado à prévia elaboração de umas raras coisas que aparecem em feiras de fumeiro a preços exorbitantes. Mesmo que aparentem mau aspecto inicial. Mas nem tudo o que tem bom aspecto correspondência tem no inigualável sabor final...
« - Abonda'di o baldu grande! E tchêga-me a bacia d'smalte. Ora probe lá! Tchisq'lo dedo!»
« - Aparece-me-se um cibinho insosso... E ou punha-le mais um tantinho de pimento queimão...»
« - E ó depeis num fica munto picante, or não?»
« - Num s'm'aparece, c'o mou gosta de l'sentir o paladar a tchamar um copito pr'ápagar o fogo.»
Uns dias passados de seleccionadas carnes em banhos, era hora de passar ao manusear das "entchedeiras", um manusear único, sem prévios diplomas para lá do foi "a nha mãe q'mu insinoue". As tripas vão ganhando forma, num arredondado colorido pintado ao sabor das conversas de fazer passar o tempo. Iam surgindo linguíças, o salpicão da língua, os ditos salpicões, as "butcheiras" e os afamados "butélos". E as piadas de ocasião, brejeirices próprias dos distintos formatos que vão adquirindo as obras de arte.
« - Este tem-nu grande! Que mim desimbaraçado debria ser!»
« - Bô, mas quem o'intcheu num le fezu as festas todas...»
« - Bá, bamos lá falar im termos, c'os indezes podim star puri a'oubir à porta...»
Um a um, os exemplares iam enchendo os alguidares, aguardando, pacientemente, a sua vez de entrar na "bara", enquanto se pedia mais um "tóro pra se pôr de strafogueiro". Eram tempos em que os "nob'meses d'imberno" ainda cantavam num desafinado tom equilibrado pelo calor das conversas e pela melancólica protecção de paredes de xisto. Entretanto, haveria de chegar a hora de comer os "ossos da suã" e, num qualquer especial dia, o "cibo" de lombo e as costelas. E que "mim bôs erum"! Acompanhados de umas batatinhas e grelos cozidos "ó lume" no pote.
« - Tchega-te pra lá, c'as tchouriças stão a pingar!»
Depois era tempo das alheiras. A começar pelo ritual de escolher o melhor pão, aquele pão que já só tem existência nas memórias gustativas. Aquele que era amassado ao sabor de um descomunal esforço braçal, levedado sabe-se lá porque artes do benzimento precoce, rezas esquecidas no tempo. Sabia a lenha, a verdadeira lenha alimentada a neve e geadas, seca pelo estio dos três meses de inferno. E era meticulosamente cortado, "nabalhas" afiadas pelo empírico saber de décadas. Descansava nos alguidares, enquanto as mentes se preparavam para madrugar, prontas para a ritualização dos potes aquecidos a lume forte.
Coziam-se as carnes, não uma carne qualquer, mas sim as que anónima gente ia deixando, em dias de feira, em forma de gratidão, numa anómala decoração da escadaria de acesso à casa. Coelho e lebre do monte, perú e galinha caseiros, pato e perdiz caçados e, aqui e ali, fruto da exiguidade, um faisão para temperar melhor a calda. Como era reconfortante aspirar aqueles aromas a vida selvagem. As narinas expandiam-se ininterruptamente em busca da melhor recepção daquela orgia aromática. Haveria de se ingerir a sopa das alheiras, um anormal caldo feito de pão regado a inenarráveis sabores.
Estômagos recompostos, hora de rechear as tripas, umas compradas no "Snhô'rmando", outras não. Começava-se, invariavelmente, pelos "azedos". Seguia-se aquela mistura desagradável à vista, onde uma pasta com um aspecto a roçar o incómodo ia sendo manuseada pela arte de pares de mãos que se digladiavam numa arena de saboroso lodo de pão e carnes desfiadas.
O resultado final haveria de ser compensador. Especialmente pela nova decoração assumida pelo tecto fronteiro à lareira. Quase que religiosamente, um vara de alheiras era reservada para as patuscadas com os amigos do Pai. Uma outra teria como destino o amigo de sempre, o homem que ajudou a retirar-me, artificialmente, do ventre materno, Urze Pires de seu nome. As outras eram para quando apetecesse presentear as papilas gustativas. No meu caso particular, naquelas frias manhãs de Inverno em que aprendi a degustá-las, assadas na brasa, na companhia do calor da lareira e de um café como só a tradição transmontana sabe fazer.
E quase me esquecia do ritual da salgadeira. Aquela artesanal arca onde eram espalhados sacos de sal grosso para resguardar os presuntos antes da sua exibição num canto da cozinha. Essa era a única tarefa reservada para o patriarca. Eu olhava, estupefacto, para a forma metódica como ele alinhava aqueles pedaços de carne naquilo que a minha imaginação identificava com um branco e minúsculo lago salgado. Suspeitava que os presuntos e as espáduas estariam a dormir e que, um dia, despertariam de novo, quando fossem encaminhadas para aquele banho feito de uma pasta que incluía pimentão, vinagre e sabe-se lá mais o quê. Haveriam de permanecer, numa espécie de enforcamento, ao calor e ao fumo da lareira. Um dia, estariam prontos para serem lascados e devorados com um naco de pão. E, lá para o Carnaval, haveria de ressuscitar o "butelo", fruto raro numa floresta de "casulas secas"... Um dia, como já pouca gente escreve ao Coronel Porco, houve uns doidos que resolveram reviver o que morto vai estando... "Inda bãe q'inda há alguns tchabascos. É q'um lombinho d'adôbo inda sabe mim bem"...
« - Abonda'di o baldu grande! E tchêga-me a bacia d'smalte. Ora probe lá! Tchisq'lo dedo!»
« - Aparece-me-se um cibinho insosso... E ou punha-le mais um tantinho de pimento queimão...»
« - E ó depeis num fica munto picante, or não?»
« - Num s'm'aparece, c'o mou gosta de l'sentir o paladar a tchamar um copito pr'ápagar o fogo.»
« - Este tem-nu grande! Que mim desimbaraçado debria ser!»
« - Bô, mas quem o'intcheu num le fezu as festas todas...»
« - Bá, bamos lá falar im termos, c'os indezes podim star puri a'oubir à porta...»
« - Tchega-te pra lá, c'as tchouriças stão a pingar!»
sábado, 23 de janeiro de 2010
Crónica de uma matança anunciada
“Das carnes, o carneiro; das aves, a perdiz e, sobretudo, a codorniz; mas se o porco voara, não havia carne que lhe chegara.”
Era uma vez… Uma qualquer Sexta-feira, num qualquer mês de Janeiro (ou de Dezembro, dependia das agruras do termómetro). Uma daquelas Sexta-feiras que a memória soube preservar sem precisar o ano. Memórias de uma infância regada a momentos inolvidáveis, merecedores da eternidade das letras. Era o culminar de um ano de “biandas”, de guardar religiosamente as cascas das batatas e outros restos mais, iguarias dos seres porcinos que aguardavam na “loje dus porcos”, na impaciência dos seus inconfundíveis roncos, pela chegada de uma “galdromada” mais. Por detrás do “cancelo”, ficava a apreciar aquele frenesim, assistindo à forma pouco ortodoxa como “imbuligabum” os narizes, peculiar forma de tomada eléctrica, naquele preparado com mau aspecto mas que, afinal, até emitia uns aromas nada desagradáveis. O mesmo já não poderia dizer-se dos restos digestivos dos “laregos”. De vez em quando, era necessário calçar as “galotchas” e pegar numa “bassoura de gestas” e, à “mangueirada”, privar o habitáculo dos dejectos. Sabe-se lá se por sensibilidade em demasia, ganhava amizade aos “recos”. Via-os crescer até estarem “cebados”, ia-lhes dando umas palmadas nos costados e, quando me incomodavam enquanto ajudava a proceder à higiene do seu lar, dava-lhe uns “piparotes” nas orelhas. Só para lhes mostrar quem mandava na pocilga…
Depois, chegava a fatídica Sexta-feira. Passava o dia a despedir-me dos bichos, numa incessante romaria que me fazia descer a escadaria das traseiras, num percurso até à “loje”. E, por vezes, dava por mim a “spremer a lágrima” porque pensava que, no dia seguinte, àquela hora, os “roncos” já estariam silenciados, os narizes de tomada ao avesso. Depois, resignava-me, começando a pensar nas alheiras, nos salpicões, nas linguiças, no presunto. Enxugava a face e pensava que “pró an’há mais”… Nessa Sexta-feira, já se sentia a azáfama que, no Sábado, revolucionaria o quotidiano caseiro. A única coisa que contrastava era a calma do meu Pai perante o insistente questionário da Mãe, sempre eléctrica, sempre a anunciar a calamidade de não estar tudo pronto para a degola.
«- Sim… O banco para matar o porco já está lá em baixo… E a escada para o pendurar também… Sim… Já está tudo combinado com o matador» …
E era hora da deita, que era preciso madrugar. O dia acordava como acordavam os dias da época. A saudação matinal era de um frio cortante, com o testemunho branco das baixas temperaturas nocturnas num apelo a um retorno ao quente dos lençóis. Havia a compensação da enorme lareira, acompanhada de potes. Mas era o dia do “mata-porco”…
Qual D. Sebastião surgido do nevoeiro, lá vinha o “Sôr Ablino”, munido do seu facalhão, com aquele sorriso maroto de quem se apresta para mais uma tarefa banal. Bem cá no íntimo, desejava que ele não aparecesse. Mas aparecia sempre… E eu voltava a pensar nas "alheirazinhas"… A sua aparição era o sinal de partida para o ritual. Os “homes” atavam uma corda à pata do suíno e arrastavam-no através da adega até ao exterior, enquanto ele se debatia para que o não retirassem do seu mundo. Emitia uns guinchos que me constrangiam a recolher-me a um qualquer local onde pudesse obter um pouco de silêncio. Era difícil, porque aquele som ensurdecedor ecoava pela vizinhança. Deve ter sido o meu trauma de infância… Quando a paz regressava, saía da minha momentânea clausura para assistir ao desenrolar do longo dia que se avizinhava. A começar por aquele rodopiar de um braço, qual fenómeno vampiresco, no interior de um alguidar cheio de sangue do animal, misturado com o indispensável vinagre, para não “tralhar”. Cumpridas as formalidades de confirmação do óbito, através do saber empírico do “Sôr Ablino”, chegava a hora de impregnar o ar com os aromas provindos do chamuscar da pelagem do animal. Inicialmente, ainda se usava a palha. A evolução trouxe o maçarico e a tarefa ficou mais facilitada. Especialmente quando tinham que se arrancar as unhas ao porco. Mais tranquilo, assumia as despesas de ajudar, munido de uma pedra, ou de um pedaço de cortiça, à raspagem da pele queimada e à posterior lavagem.
Interminável, parecia-me, até ver aquele ser prostrado em cima de um banco, quase alvo como a geada matinal. E as mãos geladas, tão geladas, que passava por um breve desconhecimento acerca de serem as mesmas uma extensão do meu corpo ou daqueloutro que jazia em exposição pública. Era chegada a hora de uma outra exposição, a das entranhas. Aquela faca de gume afiadíssimo deslizava, cirurgicamente, através do ventre, libertando uma neblina animal, cheiro a morte, ou a podridão, à medida que mais fundo penetrava. As mãos iam-se misturando na gordura, aproveitando o momento para as trazer de volta à vida, tal o gelo que delas se tinha apoderado. Era tudo metódico, bem gizado, tripas para um lado, vísceras para outro. As que não serviam, eram atiradas aos biltres, a “canzaria”, vadios e nobres, que se aglomerava à espera do melhor pedaço. Que, nesse tempo, a anormalidade era não ver cães a vaguear pela rua, donos do seu território, amigos de brincadeira. Todos tínhamos o nosso rafeiro, todos eram rafeiros, de raça ou não. Eram cães… O “Sôr Ablino” era um tipo às direitas. Sem excessos de gordura, um pouco pau de virar tripas, até. Mas era “rijo cmó aço”! Transmontanamente rijo… Até no vocabulário… Especialmente aquele com que brindava os atrevimentos caninos.
«- Starrafoda ó cutcho! Infio-te já o nabalho pur’as goelas!»
«- Ó Sôr Ablino, olhe a linguagem, que estão aqui garotos!»
«- Atão que caralhitchu quer? De piquenino é que se troce o pipino! Bá, num mo diga que num oubim uas caralhadas de bez im quando?»
A indignação, particularmente a com proveniência na religiosidade e bons costumes femininos, não obstava à insistência naquele vocabulário por parte do “Sôr Ablino”. E eu divertia-me, com aquele aparente vulgar linguajar, fruto de alguma genuinidade transmontana. Afinal, quando ia à aldeia, a cada cinco palavras, ouvia seis “starrafoda” e afins… Entretanto, o mulherio aguardava, impacientemente, pela oportunidade de zarpar até ao ribeiro, lá para os lados de Nogueirinha, à saída de Macedo, onde iriam, nas límpidas águas que hoje não são, lavar tripa e tripa virar. Os “homes” ficavam a pendurar o “reco”, a discutir as qualidades do dito.
«- Mim bô bitcho c’aqui botou! Boas biandas debe ter mamado, o reco»”…
Aproveitando o interregno para o respectivo aquecer de goelas com um copito. E os putos, os putos como eu era puto, limitavam-se a ser putos, como um puto deveria ser. Olhavam, atónitos, para o cadáver suíno, sentiam um arrepio na pele e rapidamente regressavam às corridas de carrinhos de rolamentos, ou a qualquer outra brincadeira, que podia incluir uns “biqueiros nas canelas” atrás de uma bola ou um “índios e cobóis” com “uas lapadas nas bentas” de permeio. E a avó, a omnipresente figura da avó, a ancestral tratadora dos “rijões” e dos potes, dos “strafogueiros” e “gabelas de lanha”…
«- Andadi, mou filho, que já bã’im aí as mulheres de labá’as tripas, queitadinhas, tchêas de frio. Laba lá as mãos pra ires prá mesa!» …
E a mesa, nesse dia, tornava-se pequena. Pela quantidade de comensais e por igual quantidade de conversas imperceptíveis para um puto. Conversas cruzadas, travessas e pratos cruzados também, corrupio de gente misturada com os aromas próprios do “mata-porco”, cheiro de “rijões” irmanados com aromas de vísceras assadas na brasa, calor humano incrementado pelo emanado da indescritível fogueira, estridente gritaria.
«- Trai’í maiz’um cibo de batatas!»
«- Abondá’í maiz’um tantinho de binho!»
«- Pintchou-s’o copo do Senhô’rmando. Amanha-l’outro!» …
E “amanhaba-se” o estômago enquanto se combinava o “desfazer do porco” no dia seguinte. Dia seguinte? Amanhã continua a epopeia, que já vai a matança longa…
«- Sim… O banco para matar o porco já está lá em baixo… E a escada para o pendurar também… Sim… Já está tudo combinado com o matador» …
E era hora da deita, que era preciso madrugar. O dia acordava como acordavam os dias da época. A saudação matinal era de um frio cortante, com o testemunho branco das baixas temperaturas nocturnas num apelo a um retorno ao quente dos lençóis. Havia a compensação da enorme lareira, acompanhada de potes. Mas era o dia do “mata-porco”…
«- Starrafoda ó cutcho! Infio-te já o nabalho pur’as goelas!»
«- Ó Sôr Ablino, olhe a linguagem, que estão aqui garotos!»
«- Atão que caralhitchu quer? De piquenino é que se troce o pipino! Bá, num mo diga que num oubim uas caralhadas de bez im quando?»
«- Mim bô bitcho c’aqui botou! Boas biandas debe ter mamado, o reco»”…
Aproveitando o interregno para o respectivo aquecer de goelas com um copito. E os putos, os putos como eu era puto, limitavam-se a ser putos, como um puto deveria ser. Olhavam, atónitos, para o cadáver suíno, sentiam um arrepio na pele e rapidamente regressavam às corridas de carrinhos de rolamentos, ou a qualquer outra brincadeira, que podia incluir uns “biqueiros nas canelas” atrás de uma bola ou um “índios e cobóis” com “uas lapadas nas bentas” de permeio. E a avó, a omnipresente figura da avó, a ancestral tratadora dos “rijões” e dos potes, dos “strafogueiros” e “gabelas de lanha”…
«- Andadi, mou filho, que já bã’im aí as mulheres de labá’as tripas, queitadinhas, tchêas de frio. Laba lá as mãos pra ires prá mesa!» …
E a mesa, nesse dia, tornava-se pequena. Pela quantidade de comensais e por igual quantidade de conversas imperceptíveis para um puto. Conversas cruzadas, travessas e pratos cruzados também, corrupio de gente misturada com os aromas próprios do “mata-porco”, cheiro de “rijões” irmanados com aromas de vísceras assadas na brasa, calor humano incrementado pelo emanado da indescritível fogueira, estridente gritaria.
«- Trai’í maiz’um cibo de batatas!»
«- Abondá’í maiz’um tantinho de binho!»
«- Pintchou-s’o copo do Senhô’rmando. Amanha-l’outro!» …
E “amanhaba-se” o estômago enquanto se combinava o “desfazer do porco” no dia seguinte. Dia seguinte? Amanhã continua a epopeia, que já vai a matança longa…
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