« - Olha-me para este ingénuo! A querer comparar o Algarve, a sua meteorologia e as suas praias com o interior transmontano»…
Bem Vindo às Cousas
Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Cabos da Boa Esperança
«”A grande conclusão é que o Turismo é a grande esperança para o Nordeste Transmontano, o único sector em que os indicadores são positivos.” - Conclusões do seminário da Caça e Turismo, que decorreu em Macedo de Cavaleiros.» (Excerto de uma notícia da Rádio Brigantia)
No que me toca, enquanto Transmontano Nordestino, o indicador positivo é este mesmo: constatar que, publicamente, alguém responsável tocou na mais que provável galinha dos ovos de ouro para a não transformação de Trás-os-Montes, e mais especificamente no seu Nordeste, na coutada que já por aqui venho, insistentemente, referindo. É indesmentível que o deserto a que se referia um anterior ministro não se restringe à extensão que fica para além do Tejo… Nos meus áureos anos (se é que algum dia os tive) de bom rapaz, os meus amigos alentejanos diziam-me que éramos primos. O que nos distinguia é que eles tinham enviado os calhaus todos para o interior norte… Eu ria-me, dizendo que Trás-os-Montes e a Região Norte eram a autêntica paisagem. O resto eram conquistas… Mas tinham razão na consanguinidade. Mas por distintos motivos, revelados duas décadas após: o litoral é Portugal e o resto é, cada vez mais, paisagem. Pois aproveitemos a paisagem!!!
E, “de caminho”, aproveitemos, também, uns “troquitos” de Portugal para o seu aproveitamento… Deixemo-nos de auto-estradas! Recentemente, um amigo dizia-me, a propósito dos meus incessantes protestos, que o asfalto era um pau de dois bicos. Tinha razão! De facto, se a auto-estrada coloca Trás-os-Montes mais perto, é incontestável que também facilita uma mais rápida fuga dos transmontanos que ainda restam… Deixemo-nos, de igual forma, de estéreis discussões acerca de Zonas Industriais! Mas nós temos indústria? E, caso esteja equivocado, confesso que é deprimente passear pelas ZI’s de cada uma das sedes de concelho do distrito bragançano… O que temos, então? Comércio, muito comércio, num conceito de comércio que não gera riqueza (a não ser para poucos)… Serviços, muitos serviços (cada vez menos, é certo, exceptuando o incremento de agências bancárias)… Agricultura, pouca agricultura, “pouq’tchinha, munto pouq’tchinha”…
Somos uns depauperados, economicamente falando. Os indicadores económicos colocam-nos na cauda da cauda da cauda europeia. Isso, enquanto transmontano, é dor que suporto. O que é insuportável é a resignação. Entregámo-nos a um mutismo de reflexos pavlovianos, reagindo sempre que nos acenam com umas migalhas. Basta pensar na hipocrisia da EDP Solidária… Para os crentes, deixo uma sugestão: recheiem-me a minha conta bancária mensalmente, que eu não me importo de ser solidário… Adiante… Olhando para a mais meridional região de Portugal Continental: o Algarve. Quantos anos esperou por uma ligação rodoviária condigna? Imensos, imensos… Mas nunca deixou de ser Algarve. Tem indústria? Não, exceptuando umas conserveiras, alguma extracção de sal e a transformação de figos secos e amêndoa. Quer dizer… Tem indústria, se é que se lhe pode chamar indústria: a do turismo.
« - Olha-me para este ingénuo! A querer comparar o Algarve, a sua meteorologia e as suas praias com o interior transmontano»…
A verdade é que este ingénuo tem consciência que não temos figos secos (ou teremos poucos), mas temos a Batata de Trás-os-Montes, “tchouriços” e outras coisas mais. Não temos Vilamoura, mas temos o Azibo. Não temos o Corridinho, mas temos Pauliteiros e Caretos. E temos serras, montes e vales, rios e ribeiros, lobos e veados. E, não tendo o Atlântico, mergulhamos na intensidade do “Mar de Pedras” de Torga. E somos uma gente, da qual presunçosamente faço parte, única, distinta, talhada pelas rugas do tempo, enrijecida pelas agruras das geadas e afável pelo calor dos três de inferno. Seremos um pedaço esquecido, mas não devemos, jamais, esquermo-nos de nós próprios. Mas esquecemos, fazendo de conta que não existimos. A verdade é que existimos… Tratemos da nossa existência.
Olhando com olhos de ver para a esperança do Turismo. Da última Feira vieram sinais de recuperação do que moribundo parece estar. A possibilidade de aproveitar o herói macedense para colocar o seu Senhorio no mapa da História de Portugal é um sinal de possibilidade de passagem do Cabo das Tormentas. Já vai longo o desabafo… Noutro dia, convidarei Martim Gonçalves de Macedo a tomar um prolongado café nas Cousas… Afinal, Aljubarrota, a Batalha, vivem de quê?...
« - Olha-me para este ingénuo! A querer comparar o Algarve, a sua meteorologia e as suas praias com o interior transmontano»…
sábado, 30 de janeiro de 2010
Ninguém escreve ao Coronel Porco
Coronel morto, coronel "deporco"... O arraial da matança não terminava pela imposição cruel, mas necessária, de um ferro no pescoço do animal. Tinha seguimento no ritual do desmembrar de um corpo, mesmo que tudo isto se assemelhe a algo macabro. Era assim, é assim, um culminar da lei da sobrevivência, ainda que impressione pela frieza das palavras. E, respeitem-se castradores das tradições ou defensores dos direitos dos animais, o "mata-porco" é um pedaço vivo de transmontanas ancestralidades. Tão ancestrais como retirar a vida a uma alface... Vida que alimenta vida. Difere o processo porque a alface é temperada com sal, azeite e vinagre. A reservada fatia suína para o fumeiro tem outros temperos mais.
Resumidos na vinha de alhos para alguns, "adôbo" para os puristas, coisa de somenos para quem não entende patavina do amor dedicado à prévia elaboração de umas raras coisas que aparecem em feiras de fumeiro a preços exorbitantes. Mesmo que aparentem mau aspecto inicial. Mas nem tudo o que tem bom aspecto correspondência tem no inigualável sabor final...
« - Abonda'di o baldu grande! E tchêga-me a bacia d'smalte. Ora probe lá! Tchisq'lo dedo!»
« - Aparece-me-se um cibinho insosso... E ou punha-le mais um tantinho de pimento queimão...»
« - E ó depeis num fica munto picante, or não?»
« - Num s'm'aparece, c'o mou gosta de l'sentir o paladar a tchamar um copito pr'ápagar o fogo.»
Uns dias passados de seleccionadas carnes em banhos, era hora de passar ao manusear das "entchedeiras", um manusear único, sem prévios diplomas para lá do foi "a nha mãe q'mu insinoue". As tripas vão ganhando forma, num arredondado colorido pintado ao sabor das conversas de fazer passar o tempo. Iam surgindo linguíças, o salpicão da língua, os ditos salpicões, as "butcheiras" e os afamados "butélos". E as piadas de ocasião, brejeirices próprias dos distintos formatos que vão adquirindo as obras de arte.
« - Este tem-nu grande! Que mim desimbaraçado debria ser!»
« - Bô, mas quem o'intcheu num le fezu as festas todas...»
« - Bá, bamos lá falar im termos, c'os indezes podim star puri a'oubir à porta...»
Um a um, os exemplares iam enchendo os alguidares, aguardando, pacientemente, a sua vez de entrar na "bara", enquanto se pedia mais um "tóro pra se pôr de strafogueiro". Eram tempos em que os "nob'meses d'imberno" ainda cantavam num desafinado tom equilibrado pelo calor das conversas e pela melancólica protecção de paredes de xisto. Entretanto, haveria de chegar a hora de comer os "ossos da suã" e, num qualquer especial dia, o "cibo" de lombo e as costelas. E que "mim bôs erum"! Acompanhados de umas batatinhas e grelos cozidos "ó lume" no pote.
« - Tchega-te pra lá, c'as tchouriças stão a pingar!»
Depois era tempo das alheiras. A começar pelo ritual de escolher o melhor pão, aquele pão que já só tem existência nas memórias gustativas. Aquele que era amassado ao sabor de um descomunal esforço braçal, levedado sabe-se lá porque artes do benzimento precoce, rezas esquecidas no tempo. Sabia a lenha, a verdadeira lenha alimentada a neve e geadas, seca pelo estio dos três meses de inferno. E era meticulosamente cortado, "nabalhas" afiadas pelo empírico saber de décadas. Descansava nos alguidares, enquanto as mentes se preparavam para madrugar, prontas para a ritualização dos potes aquecidos a lume forte.
Coziam-se as carnes, não uma carne qualquer, mas sim as que anónima gente ia deixando, em dias de feira, em forma de gratidão, numa anómala decoração da escadaria de acesso à casa. Coelho e lebre do monte, perú e galinha caseiros, pato e perdiz caçados e, aqui e ali, fruto da exiguidade, um faisão para temperar melhor a calda. Como era reconfortante aspirar aqueles aromas a vida selvagem. As narinas expandiam-se ininterruptamente em busca da melhor recepção daquela orgia aromática. Haveria de se ingerir a sopa das alheiras, um anormal caldo feito de pão regado a inenarráveis sabores.
Estômagos recompostos, hora de rechear as tripas, umas compradas no "Snhô'rmando", outras não. Começava-se, invariavelmente, pelos "azedos". Seguia-se aquela mistura desagradável à vista, onde uma pasta com um aspecto a roçar o incómodo ia sendo manuseada pela arte de pares de mãos que se digladiavam numa arena de saboroso lodo de pão e carnes desfiadas.
O resultado final haveria de ser compensador. Especialmente pela nova decoração assumida pelo tecto fronteiro à lareira. Quase que religiosamente, um vara de alheiras era reservada para as patuscadas com os amigos do Pai. Uma outra teria como destino o amigo de sempre, o homem que ajudou a retirar-me, artificialmente, do ventre materno, Urze Pires de seu nome. As outras eram para quando apetecesse presentear as papilas gustativas. No meu caso particular, naquelas frias manhãs de Inverno em que aprendi a degustá-las, assadas na brasa, na companhia do calor da lareira e de um café como só a tradição transmontana sabe fazer.
E quase me esquecia do ritual da salgadeira. Aquela artesanal arca onde eram espalhados sacos de sal grosso para resguardar os presuntos antes da sua exibição num canto da cozinha. Essa era a única tarefa reservada para o patriarca. Eu olhava, estupefacto, para a forma metódica como ele alinhava aqueles pedaços de carne naquilo que a minha imaginação identificava com um branco e minúsculo lago salgado. Suspeitava que os presuntos e as espáduas estariam a dormir e que, um dia, despertariam de novo, quando fossem encaminhadas para aquele banho feito de uma pasta que incluía pimentão, vinagre e sabe-se lá mais o quê. Haveriam de permanecer, numa espécie de enforcamento, ao calor e ao fumo da lareira. Um dia, estariam prontos para serem lascados e devorados com um naco de pão. E, lá para o Carnaval, haveria de ressuscitar o "butelo", fruto raro numa floresta de "casulas secas"... Um dia, como já pouca gente escreve ao Coronel Porco, houve uns doidos que resolveram reviver o que morto vai estando... "Inda bãe q'inda há alguns tchabascos. É q'um lombinho d'adôbo inda sabe mim bem"...
« - Abonda'di o baldu grande! E tchêga-me a bacia d'smalte. Ora probe lá! Tchisq'lo dedo!»
« - Aparece-me-se um cibinho insosso... E ou punha-le mais um tantinho de pimento queimão...»
« - E ó depeis num fica munto picante, or não?»
« - Num s'm'aparece, c'o mou gosta de l'sentir o paladar a tchamar um copito pr'ápagar o fogo.»
« - Este tem-nu grande! Que mim desimbaraçado debria ser!»
« - Bô, mas quem o'intcheu num le fezu as festas todas...»
« - Bá, bamos lá falar im termos, c'os indezes podim star puri a'oubir à porta...»
« - Tchega-te pra lá, c'as tchouriças stão a pingar!»
sábado, 23 de janeiro de 2010
Crónica de uma matança anunciada
“Das carnes, o carneiro; das aves, a perdiz e, sobretudo, a codorniz; mas se o porco voara, não havia carne que lhe chegara.”
Era uma vez… Uma qualquer Sexta-feira, num qualquer mês de Janeiro (ou de Dezembro, dependia das agruras do termómetro). Uma daquelas Sexta-feiras que a memória soube preservar sem precisar o ano. Memórias de uma infância regada a momentos inolvidáveis, merecedores da eternidade das letras. Era o culminar de um ano de “biandas”, de guardar religiosamente as cascas das batatas e outros restos mais, iguarias dos seres porcinos que aguardavam na “loje dus porcos”, na impaciência dos seus inconfundíveis roncos, pela chegada de uma “galdromada” mais. Por detrás do “cancelo”, ficava a apreciar aquele frenesim, assistindo à forma pouco ortodoxa como “imbuligabum” os narizes, peculiar forma de tomada eléctrica, naquele preparado com mau aspecto mas que, afinal, até emitia uns aromas nada desagradáveis. O mesmo já não poderia dizer-se dos restos digestivos dos “laregos”. De vez em quando, era necessário calçar as “galotchas” e pegar numa “bassoura de gestas” e, à “mangueirada”, privar o habitáculo dos dejectos. Sabe-se lá se por sensibilidade em demasia, ganhava amizade aos “recos”. Via-os crescer até estarem “cebados”, ia-lhes dando umas palmadas nos costados e, quando me incomodavam enquanto ajudava a proceder à higiene do seu lar, dava-lhe uns “piparotes” nas orelhas. Só para lhes mostrar quem mandava na pocilga…
Depois, chegava a fatídica Sexta-feira. Passava o dia a despedir-me dos bichos, numa incessante romaria que me fazia descer a escadaria das traseiras, num percurso até à “loje”. E, por vezes, dava por mim a “spremer a lágrima” porque pensava que, no dia seguinte, àquela hora, os “roncos” já estariam silenciados, os narizes de tomada ao avesso. Depois, resignava-me, começando a pensar nas alheiras, nos salpicões, nas linguiças, no presunto. Enxugava a face e pensava que “pró an’há mais”… Nessa Sexta-feira, já se sentia a azáfama que, no Sábado, revolucionaria o quotidiano caseiro. A única coisa que contrastava era a calma do meu Pai perante o insistente questionário da Mãe, sempre eléctrica, sempre a anunciar a calamidade de não estar tudo pronto para a degola.
«- Sim… O banco para matar o porco já está lá em baixo… E a escada para o pendurar também… Sim… Já está tudo combinado com o matador» …
E era hora da deita, que era preciso madrugar. O dia acordava como acordavam os dias da época. A saudação matinal era de um frio cortante, com o testemunho branco das baixas temperaturas nocturnas num apelo a um retorno ao quente dos lençóis. Havia a compensação da enorme lareira, acompanhada de potes. Mas era o dia do “mata-porco”…
Qual D. Sebastião surgido do nevoeiro, lá vinha o “Sôr Ablino”, munido do seu facalhão, com aquele sorriso maroto de quem se apresta para mais uma tarefa banal. Bem cá no íntimo, desejava que ele não aparecesse. Mas aparecia sempre… E eu voltava a pensar nas "alheirazinhas"… A sua aparição era o sinal de partida para o ritual. Os “homes” atavam uma corda à pata do suíno e arrastavam-no através da adega até ao exterior, enquanto ele se debatia para que o não retirassem do seu mundo. Emitia uns guinchos que me constrangiam a recolher-me a um qualquer local onde pudesse obter um pouco de silêncio. Era difícil, porque aquele som ensurdecedor ecoava pela vizinhança. Deve ter sido o meu trauma de infância… Quando a paz regressava, saía da minha momentânea clausura para assistir ao desenrolar do longo dia que se avizinhava. A começar por aquele rodopiar de um braço, qual fenómeno vampiresco, no interior de um alguidar cheio de sangue do animal, misturado com o indispensável vinagre, para não “tralhar”. Cumpridas as formalidades de confirmação do óbito, através do saber empírico do “Sôr Ablino”, chegava a hora de impregnar o ar com os aromas provindos do chamuscar da pelagem do animal. Inicialmente, ainda se usava a palha. A evolução trouxe o maçarico e a tarefa ficou mais facilitada. Especialmente quando tinham que se arrancar as unhas ao porco. Mais tranquilo, assumia as despesas de ajudar, munido de uma pedra, ou de um pedaço de cortiça, à raspagem da pele queimada e à posterior lavagem.
Interminável, parecia-me, até ver aquele ser prostrado em cima de um banco, quase alvo como a geada matinal. E as mãos geladas, tão geladas, que passava por um breve desconhecimento acerca de serem as mesmas uma extensão do meu corpo ou daqueloutro que jazia em exposição pública. Era chegada a hora de uma outra exposição, a das entranhas. Aquela faca de gume afiadíssimo deslizava, cirurgicamente, através do ventre, libertando uma neblina animal, cheiro a morte, ou a podridão, à medida que mais fundo penetrava. As mãos iam-se misturando na gordura, aproveitando o momento para as trazer de volta à vida, tal o gelo que delas se tinha apoderado. Era tudo metódico, bem gizado, tripas para um lado, vísceras para outro. As que não serviam, eram atiradas aos biltres, a “canzaria”, vadios e nobres, que se aglomerava à espera do melhor pedaço. Que, nesse tempo, a anormalidade era não ver cães a vaguear pela rua, donos do seu território, amigos de brincadeira. Todos tínhamos o nosso rafeiro, todos eram rafeiros, de raça ou não. Eram cães… O “Sôr Ablino” era um tipo às direitas. Sem excessos de gordura, um pouco pau de virar tripas, até. Mas era “rijo cmó aço”! Transmontanamente rijo… Até no vocabulário… Especialmente aquele com que brindava os atrevimentos caninos.
«- Starrafoda ó cutcho! Infio-te já o nabalho pur’as goelas!»
«- Ó Sôr Ablino, olhe a linguagem, que estão aqui garotos!»
«- Atão que caralhitchu quer? De piquenino é que se troce o pipino! Bá, num mo diga que num oubim uas caralhadas de bez im quando?»
A indignação, particularmente a com proveniência na religiosidade e bons costumes femininos, não obstava à insistência naquele vocabulário por parte do “Sôr Ablino”. E eu divertia-me, com aquele aparente vulgar linguajar, fruto de alguma genuinidade transmontana. Afinal, quando ia à aldeia, a cada cinco palavras, ouvia seis “starrafoda” e afins… Entretanto, o mulherio aguardava, impacientemente, pela oportunidade de zarpar até ao ribeiro, lá para os lados de Nogueirinha, à saída de Macedo, onde iriam, nas límpidas águas que hoje não são, lavar tripa e tripa virar. Os “homes” ficavam a pendurar o “reco”, a discutir as qualidades do dito.
«- Mim bô bitcho c’aqui botou! Boas biandas debe ter mamado, o reco»”…
Aproveitando o interregno para o respectivo aquecer de goelas com um copito. E os putos, os putos como eu era puto, limitavam-se a ser putos, como um puto deveria ser. Olhavam, atónitos, para o cadáver suíno, sentiam um arrepio na pele e rapidamente regressavam às corridas de carrinhos de rolamentos, ou a qualquer outra brincadeira, que podia incluir uns “biqueiros nas canelas” atrás de uma bola ou um “índios e cobóis” com “uas lapadas nas bentas” de permeio. E a avó, a omnipresente figura da avó, a ancestral tratadora dos “rijões” e dos potes, dos “strafogueiros” e “gabelas de lanha”…
«- Andadi, mou filho, que já bã’im aí as mulheres de labá’as tripas, queitadinhas, tchêas de frio. Laba lá as mãos pra ires prá mesa!» …
E a mesa, nesse dia, tornava-se pequena. Pela quantidade de comensais e por igual quantidade de conversas imperceptíveis para um puto. Conversas cruzadas, travessas e pratos cruzados também, corrupio de gente misturada com os aromas próprios do “mata-porco”, cheiro de “rijões” irmanados com aromas de vísceras assadas na brasa, calor humano incrementado pelo emanado da indescritível fogueira, estridente gritaria.
«- Trai’í maiz’um cibo de batatas!»
«- Abondá’í maiz’um tantinho de binho!»
«- Pintchou-s’o copo do Senhô’rmando. Amanha-l’outro!» …
E “amanhaba-se” o estômago enquanto se combinava o “desfazer do porco” no dia seguinte. Dia seguinte? Amanhã continua a epopeia, que já vai a matança longa…
«- Sim… O banco para matar o porco já está lá em baixo… E a escada para o pendurar também… Sim… Já está tudo combinado com o matador» …
E era hora da deita, que era preciso madrugar. O dia acordava como acordavam os dias da época. A saudação matinal era de um frio cortante, com o testemunho branco das baixas temperaturas nocturnas num apelo a um retorno ao quente dos lençóis. Havia a compensação da enorme lareira, acompanhada de potes. Mas era o dia do “mata-porco”…
«- Starrafoda ó cutcho! Infio-te já o nabalho pur’as goelas!»
«- Ó Sôr Ablino, olhe a linguagem, que estão aqui garotos!»
«- Atão que caralhitchu quer? De piquenino é que se troce o pipino! Bá, num mo diga que num oubim uas caralhadas de bez im quando?»
«- Mim bô bitcho c’aqui botou! Boas biandas debe ter mamado, o reco»”…
Aproveitando o interregno para o respectivo aquecer de goelas com um copito. E os putos, os putos como eu era puto, limitavam-se a ser putos, como um puto deveria ser. Olhavam, atónitos, para o cadáver suíno, sentiam um arrepio na pele e rapidamente regressavam às corridas de carrinhos de rolamentos, ou a qualquer outra brincadeira, que podia incluir uns “biqueiros nas canelas” atrás de uma bola ou um “índios e cobóis” com “uas lapadas nas bentas” de permeio. E a avó, a omnipresente figura da avó, a ancestral tratadora dos “rijões” e dos potes, dos “strafogueiros” e “gabelas de lanha”…
«- Andadi, mou filho, que já bã’im aí as mulheres de labá’as tripas, queitadinhas, tchêas de frio. Laba lá as mãos pra ires prá mesa!» …
E a mesa, nesse dia, tornava-se pequena. Pela quantidade de comensais e por igual quantidade de conversas imperceptíveis para um puto. Conversas cruzadas, travessas e pratos cruzados também, corrupio de gente misturada com os aromas próprios do “mata-porco”, cheiro de “rijões” irmanados com aromas de vísceras assadas na brasa, calor humano incrementado pelo emanado da indescritível fogueira, estridente gritaria.
«- Trai’í maiz’um cibo de batatas!»
«- Abondá’í maiz’um tantinho de binho!»
«- Pintchou-s’o copo do Senhô’rmando. Amanha-l’outro!» …
E “amanhaba-se” o estômago enquanto se combinava o “desfazer do porco” no dia seguinte. Dia seguinte? Amanhã continua a epopeia, que já vai a matança longa…
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Injustiças toponímicas
O herói macedense, o verdadeiro herói macedense, o salvador da pátria em Aljubarrota permanece oculto no esquecimento das artérias macedenses. Espero que, um dia, seja feita justiça aos "de Macedo", os Senhores de Macedo de Cavaleiros. Não numa qualquer ruela escondida ou numa nova urbanização que venha a surgir. Já por aqui propus a homenagem merecida. Se o Jardim 1º de Maio já foi de Oliveira Salazar, Público ou da Câmara, porque não sofrer nova alteração e transformar o mais digno espaço macedense numa homenagem ao seu herói?
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Caçar o Turismo
A curta existência das Cousas tem deixado espaço para as manifestações de júbilo pela proliferação de eventos de carácter cultural que vão pontuando o ano macedense. Em algumas ocasiões, exacerbando os mesmos por compreensíveis efeitos da genética... O desfilar do calendário apresta-se para nos brindar com mais um (já) ícone da cultura macedense: a Feira da Caça e do Turismo. Mesmo considerando as variações de nomenclatura, é indesmentível que uma 14ª edição, não sendo idade de monta, é já uma respeitável idade para um evento com estas características.
Como em tudo na vida, não há bela sem senão... O primeiro senão provém das contingências da utilização de novas tecnologias. Infantilmente, diverte-me a omissão do "c de cedilha" nos endereços electrónicos. Confesso que, dar de caras com uma "feira da caca", arranca-me irreprimíveis gargalhadas. Cousas, sem reflexo na prática... Idêntico fenómeno já não é gerado por coisas mais sérias. Bastante mais sérias, a meu ver, claro está. Ainda recentemente lia, não me recordo a proveniência, acerca do amargo de boca sentido por turistas apreciadores dos encantos do Azibo, pela ausência de unidades hoteleiras, na verdaderia acepção da palavra, no concelho de Macedo de Cavaleiros. Mencionavam os inconvenientes de terem que se deslocar diariamente para Bragança por não conseguirem instalar-se condignamente em Macedo, ressaltando da entrevista a "anomalia" de terem trocado o mar do Algarve pelo mar de pedras, como destino turístico. Obviamente, reconheciam a existência de oferta de estruturas para turismo rural, mas tocaram na ferida. Uma ferida que passou a sangrar incessantemente a partir do dia em que o sonho de Manuel Pinto de Azevedo viu as suas portas fechadas. Voracidades
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Motores efémeros
Ainda falta rasgar uma folha do calendário, é certo. A crueldade do tempo, entre a inspiração do hoje e a expiração do amanhã, não se sacia com movimentos de lentidão dos ponteiros. Nesse tempo que parece distante, o futuro mesmo ali ao lado, os montes entregues à devassidão do abandono, restolho de vidas ceifadas por adiadas promessas, encher-se-ão de seiva, em forma de pó, certo é. É efémero, um fim-de-semana apenas, e mais que ver veículos artilhados em manobras inusuais, a emoção de assistir ao regresso de vida.
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