Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Partidas do tempo

"Ele há cousas lubadas da breca"! Então não é que ia, todo satisfeito, de malas aviadas para Macedo e a meteorologia resolveu pregar-me a partida? Cousa rara, nevou a pouco mais de 40 km da terra adoptiva! E as informações que me chegavam do Alvão não eram nada animadoras... Lá terei que me aguentar com as trovoadas, chuvadas e demais adas que por aqui vão abundando, tendo que prescindir dos mimos que a progenitora já tinha à espera... Amanhã há mais... Neve? UM ÓPTIMO 2010 PARA TODOS OS QUE POR AQUI VÃO COUSANDO UNS DEVANEIOS!

Auto da Arca do Inverno, por Vil Dizente

Não há barqueiros, pele de lobo, pele de cordeiro, não há companheiro nem fidalgo, nem almas para atravessar rios, mitos de Caronte sem óbulos em versão dramática. Há, defraudem-se expectativas culturais, um sarau em versão privada, de actor, bailarino, músico e pintor, artes em amena fusão onde as letras representam, dançam, cantam e colorem. Sonoridades silenciosas ao ritmo de paixão macedense… Não se cobra bilhete de entrada, não se restitui o dito na presença de apupos… Cousas… Entre-se na Estalagem do Caçador, ou imagine-se a entrada. Palco de grandiosos actores, mesmo com a renovação de passagem para o outro lado da rua. Apreciava mais a anterior… Gostos… Veja-se o funcionário que nos sorri timidamente à entrada, no seu traje cinza, placa identificadora na lapela. Escolha-se a sala da esquerda, lareira acesa, cadeirões prontos a acolher o desejo de um suave conforto. Ou opte-se pela da direita, banco artesanal, imitação de sela, um café à antiga, tomado ao balcão, na companhia de uma sequência de registos de caça. Instalemo-nos confortavelmente, olhando em redor, observando o silêncio de troféus inanimados, embalsamados para a posteridade, enquanto nas vitrinas desfilam modelos, antigos receptáculos de infusões e outras bebidas mais. O Venturoso presente não está, nem o homónimo idealista de Azevedo, está o sonho, ou o espírito dos Pires, seja na versão Valfredo, Urze ou Peito, e outros mais guardados na memória de criança. De rompante, emerge do imaginário o Entrudo Chocalheiro, anunciando o primeiro acto, batidas nada cadenciadas, evidente demonstração de que Molière é prescindível nesta peça macedense. Do nada, surgem os aromas da Feira da Caça, magistralmente misturados com os provindos da Feira do Folar de Vilarinho de Agrochão, numa perfeita simbiose com os emanados da Feira da Castanha de Lamas. Ainda a heterogeneidade de sabores nos preenche o espírito, entra em cena o paradoxo da idade e do isolamento. As “Velhotas Espertalhonas”, demonstração cabal que o envelhecimento não tem lugar para os lados de Morais, umbigo do mundo, dizem, onde renascem esquecimentos de segadas e malhadas. Exemplos a seguir, que Parques Geobiológicos só por lá terão lugar. Vestígios de mares nunca dantes navegados… Navegue-se pelo Festival de Música Tradicional, cante-se o ser e encante-se a alma. Inale-se o esplendor de Orquídeas e Cogumelos Selvagens, absorvam-se ambientes únicos em Jornadas de Conservação da Natureza, ouvindo-se, quem sabe, inusuais sons de Ópera no exterior. Fujam, talvez, mais jovens almas, há sempre um qualquer bilhete a 1 euro para ingressar na Feira de S. Pedro, ou bilhete algum para o Macedo ComVida. Cousas de Verão, com alternativos directos da pública estação, que Verão não é, mas é Total. Mais as radicais versões, para quem radical é, todo-o-terreno por Serras do Norte ou Voleibol de Praia no incomparável Azibo. Um tal de encanto, inigualável bandeira azul vezes seis, de ouro para QUERCUS, de qualidade para DECO e deslumbrante para SÁBADO. Talvez no futuro, para descansar das andanças, o Eco-Campo de Golfe. Venha mais um café, bem servido, acompanhamento do esplendor daquela aguardente velha, fruto de bons velhos tempos. Haverá gente às voltas no túmulo… Viaje-se até às Noites com o Património, intercalando com a Biologia, a Astronomia e a Geologia. Ressuscite-se o Martim Gonçalves, o de Macedo, dê-se alma ao Nun’Álvares, prepare-se o alardo da Vilariça ao de Avis e juntem-se no Campo do Pereiro. Mostre-se-lhes a Casa Falcão, exemplar de posteriores eras, e façam-se admirar retábulos, cruzes e demais adereços, ajoelhem-se os da nacionalidade em homenagem a Santa Maria da Vitória, que a Batalha está mais para sul, mas por lá repousa um pedaço da alma macedense. Conduzam-se ao sobranceiro de Pinhovelo, Piunero doutros tempos, alma Zoela doutros, talvez. Louve-se o Imóvel de Interesse Público e repense-se o abandono. Tracem-se longitudinais linhas até à dos Corvos, passagem pelo Cramanchão, desvio ao Sabor de pinturas únicas, parentes “fozcoenses”, quiçá. Cozam-se tégulas, lá para Salselas? Cruzem-se medievais pontes e artesanais fontes. E levem-se as tégulas por caminhos desenhados por romana gente, lá para os lados de Lamalonga. Saúdem-se germanos, preste-se homenagem a Vitiza e ao Egica progenitor. Homenageie-se a sacralização do Sobreirinho, legado único de incomensuráveis histórias não completamente desvendadas. Confunda-se a visão com o redesenho territorial, revivam-se aldeias perdidas no tempo e na extinção, sinta-se a vida em Carvas, Chorense, Chiqueiro, Paixão, Olgas, Crastelos e outras mais. Absorva-se a vida de uma história, ou a história de uma vida, na lendária Banreses. Escreva-se um novo capítulo no que resta do testemunho das pedras. Refaça-se a Terronha, outras mais, arquitecte-se vida, crie-se… Faça-se uma vénia aos concelhios progenitores da terra de Macedo. Nozelos, em terras de Arcas, que caixas não são… Cortiços, de mel só a textura da seda… Pinhovelo, ícone zoelarum, pinheiro velho de tempos idos… O Grande, Vale de Prados, ou umas quaisquer Casas Queimadas de engano… Sezulfe, reminiscências antroponímicas de germanos… Chacim, terra de meirinho-mor do reino, lendas de chacinas, mouros e donzelas, outras verdades virão, sem timbres associações… Venha mais um café, que se faz tarde e o auto parece não acabar. Acabou… O auto? Não… Acabou a Estalagem, isto foi só um sonho…

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Quando a genética é substituída pelo coração

Hoje não é, propriamente, um dia de gratas recordações. O tempo é carrasco que rapidamente transforma o ontem num passado longínquo. Há aniversários que deixam um sabor agridoce. Já não choro a perda porque prefiro encher o baú de memórias com imagens de estéreis discussões políticas, sociais, religiosas. É mais salutar sentir o calor da voz, naquele expectável telefonema sempre que o nosso clube ganhava. E ouvir a forma carinhosa como os genros-filhos eram tratados: “Ó Mingas, bebe lá mais um copetcho! Ó Dumas, então vai mais uma pinga?”… Ou a mais carinhosa ainda como os netos, em fins-de-semana ou breves férias, eram a “Pirzeta”, a “Pirulita” e o “Saquenito”. Havia sempre aquele inconfundível brilhozinho no olhar a cada recepção, mesmo que as emoções ficassem escondidas por detrás das agruras da vida. Uma incursão à horta era sempre motivo para um orgulhoso sorriso pela qualidade da terra, pelos produtos únicos que dela brotavam. Sentia-se uma melódica sequência de palavras naquele pedaço de terreno ancestral, legado de gerações, veículo para um renascimento quando a reforma chegou. E havia a pesca, aquela actividade que nunca me cativou, mas na qual participei, mais não fosse para partilhar a merenda devorada debaixo de uma qualquer ponte à beira do Tuela ou do Sabor. E para gerar aquele pinguinho de orgulho ao trio de mosqueteiros que levavam o “puto” atrás. O “puto” não tinha jeito para a pescaria, estava mais virado para sentir a regeneração que se antevia a cada sorriso daqueles três inseparáveis amigos por terem um “jovem” com paciência para ouvir as suas lições sobre canas e minhocas. Sorver um pouco de vinho através de um cantil que o mantinha fresco é memorável. Enquanto se deglutia um naco de pão trigo, acompanhado a um qualquer petisco, olhando o infinito e absorvendo o som da corrente que, mesmo ao lado, mostrava a beleza única de rios selvagens. Hoje sorrio através das memórias… Mas doeu, como nenhuma outra perda tinha feito doer.

Trovas de um ano que finda - Vias de comunicação II

O Túnel do Marão é uma obra que se expande para lá das expectativas de um mais fácil acesso a terras transmontano-bragançanas. Será a própria luz ao fundo do mesmo? Rasga-se a serra, talvez os que para lá do Marão estão, deixem de mandar. Já nada mandam, é certo, e pouca gente resta para o fazer, mas à falta de melhor, conforta manter a crença. Nunca se sabe se, numa qualquer teoria da conspiração, o túnel mais não seja que o último assalto a um reduto enclausurado por um IP4 desnivelado, perigoso, mal concebido. E que, quando o buraco estiver terminado, não aproveitem os quilómetros do mesmo para encurralar os irredutíveis, tapando cada uma das saídas, de forma a acabar-lhes, de vez, com a raça. Dessa forma, será desnecessária a solidariedade de companhias eléctricas, submergindo-se tudo de vez… Convém não esquecer que, para lá do Tua e do Sabor, ainda há o Rabaçal, o Fervença, o Azibo, o Macedo, o Maçãs, o Angueira, o Mente, o Baceiro, o Tuela (não sei se me esqueci de algum), mais umas ribeiras e ribeiros que, devidamente aproveitados, poderiam criar muito mais que a iconográfica Ilha do Fidalgo. O que seria de um distrito transfigurado em arquipélago, formado pelas Ilhas de Montesinho, Coroa, Nogueira e Bornes? Como já temos os da Madeira e dos Açores, e “perdemos” Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, mais a “ilhota” Ceilão que de nome mudou, passaríamos a ter a compensação: Arquipélago do Onde É Que Isso Fica. Não haveria mais discussões acerca de um “estúpido” distrito com “apenas” 150.000 habitantes que se queixam de os terem privado da ferrovia… Lá se poderia ligar, por via férrea, Bornes à Nogueira? Deixaria de existir, veja-se, um distrito português sem um quilómetro de auto-estrada! E o Tribunal de Contas remetia para o arquivo morto as hipocritamente paralelas questões das AE Transmontana e Douro Interior… Cousas de outros tempos, já não teríamos nenhum Zarco ou Teixeira a descobrir terras do Jardim, á beira de Porto Santo plantadas. Nem polémicas haveria acerca de Silves ou Cabral como premiados de primeira observação de terras de aves de rapina aproveitadas para publicidade a derivados lácteos com futebolistas de permeio… Outros haveria para comemorar, daqui por cinco séculos: Soares, Silva, Sousa, Barroso, Lopes, Amaral, Cunhal, Lourenço, entre tantos, tantos outros que, ao longo do vigésimo século, demonstraram que vale a pena a persistência. Ainda que a dita possa advir, nalguns casos, de carga genética transmontana… Mas é, duplamente, do distrito ao lado… Na rifa dos Orçamentos de Estado, em arquipélago transformados, mais não seríamos que uma autónoma região, sorvedora de dinheiros públicos. Teríamos as Linhas do Tua e do Sabor, mais um troço da do Douro submersas. Mas seríamos bafejados por um aeroporto na cumeada de Bornes, com extensão ganha, principescamente, ao grande oceano transmontano, aproveitando as antenas como base de sustentação; um porto de mar interior na Nogueira, com direito a fogo-de-artifício no fim-de-ano a partir da Senhora da Serra; para os lados de Montesinho e Coroa, ao invés de abandono e vida selvagem, teríamos um "corço" carnavalesco mascarado de lobos, raposas, javalis e veados, marcando presença centenas de figurantes ursos que já por cá andaram e que, valha-me Santa Genética, devem por cá ter deixado algum raro marcador… Que sonhador sou… Entretanto, a realidade mostra-me a faceta das obras que não se sabe até quando irão prosseguir… E constrange-me a um desvio que inclui A41, A42, A7, A24, até chegar ao irregular piso onde me obrigam a circular de faróis acesos enquanto as suspensões vão gemendo ao sabor de um piso por demais desgastado. Desgaste extensível à paciência de percorrer quilómetros de asfalto em trajectórias inverosímeis, atrás de uma qualquer infeliz lesma que anseia por uma merecida dupla faixa de rodagem… E é bom que não neve, numa daquelas manifestações de nevada “caga-tacos”, capaz de contornar as mínimas condições de circulação num país situado a latitudes europeias de clima temperado… Mais uma das vantagens da transformação em arquipélago: teríamos sal que chegasse… Mas nem tudo é mau. Venha de lá a estupefacção e o bom senso! No último nevão(!) em Macedo, fui surpreendido pela rápida intervenção de veículos camarários, pirilampos laranja activados, às duas da madrugada, enquanto um louco cavaleiro se entretinha a registar a alvura pelo vazio centro macedense. Tire-se o chapéu quando é de toda a justiça fazê-lo! E coloque-se quando se circula entre a sede concelhia e as participantes freguesias. Retire-se, apenas, o exemplo do troço entre Macedo e o Pontão de Lamas… Como se resolve a irregularidade do traçado? Copia-se o exemplo do IP4, com pequenas diferenças… Ao invés de duplo traço contínuo e frágeis separadores, pinta-se o meio da via com um longo traço branco, imperceptível em circunstâncias onde a dúvida da ultrapassagem nos assalta. O que se deseja? Voltar ao litoral, imaginando os benefícios de transformar a suprema região geradora de electricidade sem colher benefícios, numa mais suprema região, geradora de ainda mais electricidade, colhendo menos benefícios ainda. Para lá de, submersa e transformada em arquipélago (só por ter uns “picozitos” acima dos 1000 metros), ter direito, em forma de compensação pela ausência de ferrovias e rodovias decentes, a uma qualquer companhia aérea que não poderia ser SATA, pelo perigo que o plágio representa. Poderia ser CHATA (Catantcho Hai Arraiolos Trasmuntanos Atesoados) ou, numa versão mais suave, Companhia Hipócrita Aérea Transmontanos Abandonados. “Q’mai fai”… Afinal, o Canis lupus signatus sabe nadar… Iô…

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Trovas de um ano que finda - Vias de comunicação

O Azibo e o ambiente mágico em que a ilusão de cada um dá permissão para se deixar envolver não serão novidade. Quando ainda era permitida a circulação sem restrições em todo o seu perímetro, desgastei a pintura do veículo por acessos referenciados num qualquer guia onde se encontravam incluídos roteiros nada recomendáveis para viaturas normais. Valeram a pena os riscos, os inerentes à perigosidade de alguns caminhos e os propriamente ditos numa tal de metalizada (foi-se o metal e a pintura, ficando a famigerada viatura com umas pinturas rupestres tipo "unhadas do diabo"). Vieram as proibições e, com elas, finaram alternativas de acesso ao Azibo embrulhadas a Natureza. Em boa hora surgiu o Corredor Verde entre Vale de Prados e Vale da Porca. Nunca tinha tido a lembrança de efectuar a travessia da serra do Cubo. Limitava-me a olhar para aquela elevação a seguir a Vale de Prados, imaginando-a como mais uma entre as muitas que pintam o Nordeste. Descobri-a, por acaso, quando decidi aventurar-me pelos xistos que ainda resistem na antiga Vale de Prados o Grande, pelo seu pelourinho e pela sua igreja. Ganhei uma nova paixão. Pelo percurso pitoresco, pelas subidas e descidas, pela ondulação do asfalto, pela paisagem. E pelos incomparáveis minutos que dura a ida do astro-rei para o seu descanso a oeste. Quando o céu se encontra despido de nebulosidade, não é de estranhar ver um tolo empoleirado numa viatura, lá para o final da tarde, de máquina fotográfica em punho, lá para o alto de serra do Cubo. Cada um com as suas tolices, mas um pôr-do-sol distinto vale sempre a descolagem... Os encantos do Corredor Verde que, dizem, um dia, há-de ligar à Via Panorâmica do Azibo, não terminam por aqui. Apreciar a albufeira num outro ângulo, numa descida razoavelmente inclinada, vale o esforço. E o Núcleo que inclui a Sala-Museu de Arqueologia fica logo ali, não ao virar da esquina, mas ao atravessar do paredão que permitiu a existência da Paisagem Protegida. Ali chegados, internamo-nos num mundo que não defrauda as expectativas. A natureza em estado puro, a marca humana limitada ao bom gosto e uma viagem à ancestralidade de uma terra, diziam, sem história, ou a dita limitada a umas maças misturadas com valorosos cavaleiros. A história macedense vale muito mais que lendas. Sente-se o passado, as vidas daqueles que nos legaram um espólio desenterrado a suor e esforço. Aspira-se cada pedaço do Neolítico da Mamoa de Santo Ambrósio, do Bronze da Fraga dos Corvos, do Ferro e da Romanização da Terronha de Pinhovelo... Um recuo no tempo, ao tempo em que pensávamos só haver história para lá das fronteiras macedenses. Há estradas assim, que nos conduzem por serras mágicas até locais de encanto. Outras há, percorridas na loucura própria da juventude, pó levantado pela bicicleta, perdidas entre montes e vales, que, de locais de encanto, nos levam a aldeias quase esquecidas, vestígios de histórias de outros tempos, em que os besteiros eram a elite de arcaicos exércitos. A estrada entre Balsemão e Paradinha já não é a mesma de outros tempos, mas o asfalto é mais confortável. E persiste em obsequiar-nos com imagens desaparecidas dos mapas. Algo semelhante acontece na descida para a perdida aldeia num vale encaixado da serra de Bornes, resquício provável da passagem das hordas germânicas por estas terras, depois de por cá terem andado as Legiões. Em tempos, a inclinação fazia recear uma qualquer súbita anomalia nos travões e uma mais rápida chegada à Burga. Os receios terão diminuído com as mais que justas protecções laterais. Mais não seja, amparam uma qualquer distracção... Mas nem tudo são rosas... Os espinhos virão... Começando pela agrura da melhor(?) via de acesso ao distrito...

domingo, 27 de dezembro de 2009

Imperfeições

O Pai Natal passou de rompante, renas esbaforidas, motores do trenó gripados por excesso de nada. Ou um pedaço de tudo regado a ausência a sabe-se lá o quê. Talvez seja a magia que ande arredia. Ou talvez seja uma qualquer coisa que, por obra e graça de magias nunca inventadas, tenha operado uma inversão e passe a surgir uma cartola do coelho. Das orelhas, abas, ou a suprema negação de Darwin… Não é frustração, não é desilusão, é um qualquer híbrido assemelhado a “frustrilusão”, fusão de conceitos, simbiose de vazios num universo cheio. Pareceu Natal, soube a Natal, mas as semelhanças não estavam lá e os sabores tão pouco. O comodismo tem destas coisas. Fecham-se as torneiras da tradição, corta-se a corrente do ser. Provoca-se um curto-circuito nos dias e os dias sancionam com um interruptor numa posição ininteligível, não se descortinando se a luz está meio ligada ou meio desligada. Contingências de uma semana que está a terminar sem nunca ter começado. Foi estranho este Natal. Houve de tudo, preenchido com tonalidades de nada. Excesso de repetições? Talvez… Excesso de comodismo? Talvez, também… Excessos? Nem por isso… Houve família, desejou-se mais família. Surgiu a neve e as sensações do manto branco agudizaram o desejo de uma repetição nunca repetida. Veio a chuva e desejou-se o frio. Hoje o frio bateu à porta, veículos manchados a brilhante branco, e deseja-se a contradição da amenidade do termómetro. Que raio?!?! Vou-me embora e desejo ficar, ainda cá estou e sinto a ansiedade do regresso à terra adoptiva… Estarei a desligar-me de Macedo? Ou estará Macedo a pregar-me a partida de mostrar o lado obscuro ao filho pródigo? Ou não terei dado liberdade à rebeldia? Ter-me-ei rebelado contra a liberdade? Soa a insanidade, provinda de mente sã. Contradições ou imperfeições… Ambas ou nenhuma delas, ou apenas um devaneio momentâneo de quem se apresta para abandonar, uma vez mais, as raízes desejando ficar. Mais não fosse, para cumprir planos não cumpridos. Não me soube a tradição porque, estranhamente, ausentei-me da familiaridade da aldeia, neguei a vontade por excesso de zelo manifestado pelo aparente conforto. Vou amanhã, num qualquer amanhã sempre substituído pelo cadeirão onde agora me sento. Cousas do ser ou o ser das Cousas… Adorar os tons, detestar os sons. Idolatrar percursos locais, fugir de contactos pessoais. Sorrir à gente, fugindo de repente, num breve esgar de quem não quer estar, negando o mundo num abraço profundo. O paradoxo de amar não querendo estar, raízes quebradas por cavalgadas inacabadas. E um mundo proximamente distante, onde o sonho alado perdeu as asas na imensa vontade de voar, Ícaro dos dias onde o alto foi baixo, o grande foi pequeno, o tudo foi nada. Queimaram-se as asas, não ardeu o desejo de voar. Há sempre uma próxima vez, Quinta-feira, talvez. E um regresso ao velho mundo dos sonhos, onde as negações incentivam a arte de sonhar, sem as correntes do mundo exterior, sem as guilhotinas da vontade alheia, com o horizonte de um novo dia, repleto de pequenos nadas construtores de grandes tudos. Não foi um pesadelo, foi apenas uma forma arcaica de demonstrar que Macedo pode ter o gosto de sempre, se o sempre for desenhado a lápis do gosto. Desta vez, os traços surgiram grosseiros, sem nexo ou sentido, como se um risco à esquerda saisse impulsionado à direita, desenhando círculos esquinados e quadrados sem ângulos. Porquê? Cousas minhas, cumplicidades do ser, desvendadas em aromas a geada quente. Ou chuva em excesso numa terra de frio... Outras cores...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Banalidades natalícias

O tempo vai insistindo em pregar partidas, como se, ao invés de estarmos em plena época natalícia, estivéssemos a passar pelo período em que os Caretos de Podence saem à rua. A serra de Bornes acordou hoje mais branca que há dois dias. No entanto, por aqui, em plena portela de Macedo, a chuva fria insiste na sua desagradável queda, acompanhada a vento e a vontade de permanecer nas imediações da lareira. Indubitavelmente, preferia aqueles dias de sol, marcados a frio intenso e ao choque térmico que representa uma saída de casa. Ou, em alternativa, passear no exterior calcando o manto branco. O dito extinguiu-se e, com ele, o frio. Parece que, vou ter um “Wet Christmas” em vez do mais tradicional “White Christmas”… Haja Natal, branco ou cinzento, mas acima de tudo colorido a família, a afectos e a sorrisos. Torno este desejo extensível aos visitantes das Cousas, deixando, em simultâneo, um natalício agradecimento pelo incentivo que vem representando cada entrada neste peculiar mundo macedense. E agora é tempo de dar início aos preparativos que hão-de resultar naquelas “cousas”, criminosas pelo excesso de gordura e açúcares, saborosas por idênticos motivos. Venham de lá as rabanadas, os sonhos, as filhós… E a aletria, o arroz-doce, os pudins… E venha de lá o Natal! BOAS FESTAS!