Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Hipocrisias solidárias

De repente, surgiu do nada, qual Fénix renascida, uma entidade que suga a Trás-os-Montes 55% da produção eléctrica nacional, sem lhe dar nada em troca... Minto! Com os dentes todos! Afinal, a dita entidade tem 100 mil euros para distribuir pelos 10 concelhos abrangidos pelas futuras hidroeléctricas do Tua e do Sabor, ao abrigo de candidaturas, convenientemente com o prazo de um mês, para projectos solidários. Contas de merceeiro feitas, se cada concelho tiver a capacidade para apresentar um projecto, o meu fica com direito à fantástica verba de 10 mil euros. Algo semelhante àquilo que a dita entidade deve estar a facturar no tempo em que demorei a escrever 7 ou 8 linhas... Um preço justíssimo para o atentado paisagístico e histórico a que a província transmontana vai ser sujeita. Como transmontano no qual corre (mesmo) sangue transmontano (porque, infelizmente, há os que, após transfusões efectuadas com água do Tejo, dão azo a processos adulterados de hematopoiese da qual saem eritrócitos que renegam a genética) sinto-me enganado, injuriado, ludibriado, e mais uma panóplia de "ados" aliado a outra de "idos" que não podem ser transpostos para a Língua Camoniana, ainda que, transmontanamente falando, sejam perfeitamente aceitáveis, ao abrigo dos "contra e racontra"... Está bem... Qual é o problema? Só vão submergir uma jóia transmontana, não se trata de nenhuma hidroeléctrica no Tejo que envolva o desaparecimento das heranças manuelinas. Vai-se, apenas um marco de D. Luis I. Gostaria de ver idêntico tratamento a outro dos ícones "luisinos"... Caía o Carmo e a Trindade com um "terramoto da Invicta"... E o que faz o meu povo transmontano? Amanhã andará, feliz e contente, a circular no Energy Bus que a dita entidade que nos suga em duplicado porá à disposição das populações para que utilizem racionalmente a energia que produzem no seu território. Como dizia o medieval poeta francês, François Villon, "a necessidade leva as pessoas ao engano e a fome os lobos a sair do arvoredo"... Será ignorância? Será ingenuidade? Será resignação? Alguma coisa há-de ser, porque continuamos a "ser comidos de cebolada" e parece que gostamos... Até posso ser ignorante e ingénuo, mas não me resigno... Nem quando olho para a última listagem do ranking das escolas secundárias... A melhor posicionada do distrito de Bragança é a de Miranda do Douro. Segue-se-lhe a de Carrazeda de Ansiães, ficando a de Macedo de Cavaleiros no terceiro lugar do pódio. Relativizando, não parece má a atribuição do bronze. O reverso da medalha surge quando Miranda ocupa, a nível nacional, o lugar 243... Ou quando Macedo se fica pelo lugar 308, sensivelmente a meio da tabela, que inclui 608 escolas... Quererá isto dizer que os estudantes do distrito são menos capazes para as "letras"? Definitivamente, não! Basta-me pensar nas inúmeras personalidades para as ditas dotadas... Excluindo certos universos, como o da política, um campo sempre minado, recordo-me, rapidamente, de Guerra Junqueiro, Trindade Coelho ou Pires Cabral. Sem necessidade de recorrer ao vizinho distrito e ao autor que mais imortalizou o "reino maravilhoso", Miguel Torga... Por tal, excluo os factores genéticos... Será uma responsabilidade do pessoal docente? Não creio. Tenho gratas recordações do contributo que recebi na minha formação macedense. É um problema sociológico? Talvez... Mas parece-me mais um recuo a um velho tempo, no qual não vivi, em que a manutenção da iliteracia era garantia de submissão... Calem a gente que a gente não falará... Desertifiquem o território que uivos de lobo e bramas de veado podem silenciar-se de formas alternativas... E alcateias e manadas não votam... Eu não falo, grito, ainda que seja numa ridícula forma de desespero. Por paixão, jamais Trás-os-Montes será silenciado. Ainda que o xisto vá caindo...

Vá para fora cá dentro

A aproximação de um fim-de-semana representa, para a grande maioria, a possibilidade de libertação das correntes do tempo. O ritmo é abrandado pela cadência dos despertadores desligados, pela isenção de horários nas refeições, pela pausa na correria matinal. E, depois, paradoxalmente, o descanso transforma-se, para muitos, numa causa mais do moderníssimo stress... Porque soa a anormalidade quebrar o desenfreado ritmo adquirido ao longo de cinco consecutivos dias. Mas também existem os estranhos seres cuja primeira sinalética das benesses de fim-de-semana é o lento e prolongado espreguiçar sem o despótico alerta do despertador. E uma volta mais no aconchego dos lençóis... Ou a manutenção em traje nocturno até à hora tardia do almoço... Alternativamente, a manhã também pode ser ocupada por outros afazeres que não a suave preguiça... Como, por exemplo, temperar a mente com um pouco de especiarias histórico-culturais. Que tal uma incursão ao (ainda) novíssimo Museu de Arte Sacra? Começando por, previamente, efectuar um reposição de cafeína numa das pastelarias que existem nas suas imediações. Como o Museu abre ás 10h, nem se torna necessário madrugar, dando tempo para um pequeno-almoço desprovido de pressas e para, aos que a tiverem, preparar a descendência sem o fantasma dos atrasos matinais. Vale a pena a visita. Não só pelo recheio do Museu. A envolvência de um solar do séc. XVIII permite um contacto com o que deveria ter pautado as políticas urbanísticas ao longo do último século. Penetra-se num mundo distinto, onde não têm lugar aberrações arquitectónicas em formato paralelipípedo e no qual se respira uma atmosfera de viagem a encantos passados em boa hora renovados no presente. A subida da curta escadaria indicia a entrada num universo alheio às enfermidades do betão, num regresso a um tempo não muito distante em que o quotidiano político era marcado pela discussão de outros valores e no qual o nosso vizinho ainda era nosso amigo. Desencantos dos tempos modernos... A recepção deixa antever um ambiente acolhedor, seja pelo espaço, seja pelas pessoas que nos recebem. E depois é só transpor a porta e aceder à exposição de um espólio que nos remete para uma viagem à ritualização do sagrado. O esplendor dos Missais, dos séc. XVI ao XIX, as cruzes processionais, os cálices e demais adereços litúrgicos, as telas, geram um tal encanto que se chega a suspeitar se as navetas e os turíbulos deixam escapar os aromas da resina perfumada até aos nossos receptores sensoriais. Sendo religioso ou laico, o percurso pelo interior do Museu de Arte Sacra faz-nos mergulhar num pequeno oceano da ancestralidade sagrada que foi povoando o concelho macedense. E, porque não, deixa-nos uma surpreendente e profunda sensação de alívio pela preservação de um pouco do nosso orgulho macedense. Para lá desta sugestão, a freguesia de Talhinhas, mais concretamente em Gralhós, poderá assistir, neste fim-de-semana, a uma demonstração da perseverança na manutenção da etnografia macedense, através de um espectáculo levado a cabo pelo Grupo Cultural e Recreativo da Casa do Povo, no Sábado, pelas 21horas. Ainda no mesmo dia, em Macedo, ocorre a Gala do 5º aniversário da AJAM, pelas 21h30. Já no Domingo, pelas 16 horas, Bagueixe poderá assistir a uma actuação da Banda 25 de Março, enquanto que Meles poderá deixar-se encantar pelo Grupo Coral Macedense, pelas 18 horas. Ficam as sugestões para um fim-de-semana diferente, a provar que a vitalidade de um concelho do interior transmontano não se pode aferir apenas por parâmetros de betão e asfalto. E há mais, muito mais para descobrir, indo para fora cá dentro... Caso esteja em Macedo, aproveite. Caso não esteja, pode incluí-lo num próximo roteiro de fim-de-semana. Há "montes" de coisas para descobrir... NOTA: os registos do interior do Museu de Arte Sacra foram retirados da página electrónica da C. M. Macedo de Cavaleiros (se for processado pela usurpação, deixo de fazer publicidade turística...............)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

(A)normalidades macedenses

Não resisto, com a devida autorização do autor, a publicar a prova que me há-de levar, num próximo fim-de semana em que me dirija a terras macedenses, a armar-me em explorador da vida selvagem, lá para os lados da Senhora do Campo. Já tinha visto javalis e raposas em liberdade. Já tive o privilégio de avistar, em estado selvagem, um lobo. Entre outra bicharada mais banal. Mas agora, HÁ VEADOS!!! (ou, em última instância, UM VEADO!!!)

domingo, 18 de outubro de 2009

Coutada transmontana

Já lá vão dois a três anos desde que li uma reportagem, salvo erro no DN, que apontava para a tomada do lugar do homem e das suas marcas, na região transmontana, pelas fauna e flora selvagens. A substituição de terrenos agrícolas por incultos criava a oportunidade para a flora se renovar, ganhando terreno às culturas e criando condições propícias para o rejuvenescimento de espécies animais, favorecendo a cadeia alimentar onde, para haver predadores, é condição essencial a existência de presas. Confesso que, na altura, fiquei possuído por um híbrido "pessioptimismo". Por um lado, nessa notícia encontrava eco para as negras estatísticas demográficas, bem como para o queixume proveniente dos resistentes escritores que fazem do solo pergaminho e do arado caneta. Por outro, retirava conclusões positivas acerca da optimização ambiental e via renascer as possibilidades de observar a fauna transmontana sem o recurso ao cativeiro. Fiquei um pouco como o "touro no meio da ponte"... Depois, esqueci-me da notícia até ter assistido a uma reportagem televisiva sobre a brama dos veados. Afinal, a população de Cervus elaphus estava mesmo a aumentar. Mas Montesinho ficava, mais as suas fantásticas pinturas, lá mais para a região setentrional do distrito... Ficou, desde logo, registada na minha agenda uma próxima e urgente visita aos meus amigos do peito Alípio e Zelinda, lá para os lados de Lomba, uma casa onde um minuto possui sessenta segundos da mais pura e impagável amizade (daquelas amizades que nos enchem o peito de um ar tão distinto, tão distinto, que quase nos sentimos embriagados por excesso de oxigénio). Entretanto, a azáfama quotidiana conduziu, de novo, os ditos Cervus elaphus ao esquecimento. Até ter surgido um espécime perto da minha segunda terra, a já tão celebrada por mim Lamas! É verdade! No pretérito dia 12, Manuel Cardoso, o macedense autor que deu "um tiro na bruma" fantástico e revelou um magnífico "segredo da fonte queimada", registou, para a posteridade, um exemplar que pesará duas vezes e meia mais que eu e terá um quarto da minha idade. Nada mais, nada menos, que perto da sua habitação, lá para os lados de "entre Lamas e Latães" (um local onde os seus guardiães canídeos se aprestaram para fazer tatuagens nos meus membros locomotores - valeram-me os ditos para me transformar em Usain Bolt e para me recordar de deixar um aviso da próxima vez que me aventurar para lá do Facho...). Ora, se há veados numa área excêntrica, significa que têm razão as estatísticas do ICN que apontam para um aumento das populações de veados e do consequente incremento na sua área de dispersão pelo distrito de Bragança (30000 hectares é uma superfície considerável). Inversamente, a leitura sobre a dispersão humana será o que se sabe... Por outro lado, aprecio, como pouca gente o fará, a vida selvagem... E umas costeletazinhas de veado, especialmente quando tenho noção que já não estarei a contribuir para uma qualquer extinção... Percebo agora o porquê da existência de 20 alcateias na região transmontana, descontando daqui o inegável valor das tentativas de preservação do Canis lupus signatus por parte do Homo sapiens sapiens... Diminui a gente, aumentam os incultos... Estes, por sua vez, favorecem os herbívoros, os quais hão-de servir de "pasto" aos predadores. Incluindo-me eu entre a espécie supra-predadora, vou começar a ter mais atenção nas minhas incursões ao mundo natural. Ainda bem recentemente tive a grata surpresa de avistar, bem perto, por sinal, um exemplar de Vulpes vulpes. Mas, como a esquiva raposa faz jus ao epíteto e não representa ameaça de monta, fiquei quieto e sossegado. Ao descer pela encosta onde pasmam os quantos sobreiros que fui verificar, por entre a vegetação que nada tem a ver com o facto de sermos os maiores produtores mundiais de cortiça, comecei a reparar nuns quantos remeximentos que não faziam parte da paisagem à qual estava habituado em anteriores visitas. Analisados, visualmente, os dejectos deixados como presente, mais a "hiroximização" do terreno, a coisa era obra de Sus scrofa, vulgo javali. Confirmadas as provas documentais junto do meu inseparável amigo de aventuras agrícolas, foi-me transmitida a vulgarização de vida selvagem por estas bandas. «Atão, já num há quim queira amanhar a terra. Fica pr'áqui tudo ó Deus dará, prós bitchos cumerim. Um destes dias inda m'entra um porco-espinho pur casa adentro a pedir-me um cibo de caldo!»... E foi numa outra conversa, com outro amigo de lides agrícolas que fiquei a saber do ressurgimento de texugos (santa ignorância, pensei que os "teitchugos" fossem histórias de outros tempos). Se juntar a tudo isto a já conhecida presença de corços, mais as notícias que dão conta da saída dos Ursos-pardos da restrita Cantábria, surgindo relatos de avistamentos do lado de lá da fronteira galega, um destes dias voltaremos ao tempo em que os monarcas, nas cartas de foro, incluíam alíneas de lhes serem ofertadas mãos de urso, na eventualidade de um ser abatido numa caçada. Para quem possa eventualmente estranhar, sim, já tivemos Ursus arctos na nossa região (pelo menos, provavelmente, até meados do séc. XIX). Dentro desta euforia, pela proliferação de vida selvagem, amenizada pela tristeza da desertificação humana, o que, para mim, era sublime, seria a detecção de algum lince ibérico. Seria sinal que os coelhos e as lebres abundariam e que, provavelmente, voltaria a tomar um café na Estalagem do Caçador. Até lá, vão-nos diminuindo o número de deputados, vai-se nascendo em ambulâncias e vão avariando aparelhos de TAC que demoram uma eternidade a ser reparados. Mas já temos "Magalhães pós putos", o início das obras no túnel do Marão, rede de fibra óptica e novos serviços hospitalares. Mas vamos começando a não ter gente, a ter taxas de mortalidade que são o dobro das de natalidade, freguesias que vão a Plenário e deputados por Penafiel. Porque é que há balanças? Ainda por cima, desequilibradas? Um destes dias voltaremos à "terra-tenência" de Zamora... A não ser que se vão levantando umas vozes. Acalma-me o espírito saber que as há...

sábado, 17 de outubro de 2009

Um cibinho de saudades de Lamas


Poderá soar estranho aos lamacenses de nascimento, aos apaixonadamente lamacenses (como eu) ou aos simples conhecedores da encantadora terra da Senhora do Campo. Mas os registos que acompanham esta "declaração de saudades" nada mais são que exemplares da pureza que ainda mora nalguns recantos de Lamas. São "amontoados" de pedras, testemunhas do suor brotado das faces de todos os "bós" de chapéu e fato domingueiro, ou de todas as "bós" com a sua indumentária negra (que, por aqui, a genuinidade da pronúncia ainda não inventou os "bôs" - é "bó", independentemente do género e tenho pena só ter conhecido a minha "bó" e não ter feito o mesmo ao meu "bó"). São restos da Lamas cheia de lama, do ribeiro que dividia a aldeia em duas, do tempo das "cacadas" e das "madamas", das tabernas do "Sô Luís" e do "Sô Zé Pinto", da Missa do Galo e da reunião sacralizada em volta da fogueira de Natal. Restos cujo destino está traçado por lápis de tijolo e cimento, enquanto as silvas não devoram de vez o xisto e não se apagam, definitivamente, os sons melancólicos das rodas dos "carrus dus beis". São pedaços que resistem ao tempo mas que o tempo apagará. Calhaus empilhados por arquitectos que faziam nascer pedra do chão, entremeada por aberturas que mal permitiam ao sol abeirar-se das espartanas mesas para iluminar projectos de engenharia transmitida pela tradição. Ainda bem que a "nebe furaqueira" já não pode penetrar através de arestas não limadas e de junções amanhadas ao sabor do equilíbrio. Ainda bem que já não há fogueira de Inverno sem "tchupão", com uma abertura no tecto que se tapava quando "tchubia que Dous a daba". Já não seria capaz de trocar o conforto do sofá pelo "motcho" onde me sentava para "ciar", instalado à beira da lareira, apoiando o prato num armário que servia para "arrecadar o pão-centêo". «Ó mou filho, puruqué que num te sentas à mesa?», perguntava-me, inúmeras vezes, a "bó". Definitivamente, adorava comer rodeado dos aromas dos "guiços", do "capão" e da "gabela" que se iam queimando enquanto a noite caía, impune, sobre uma aldeia onde a electricidade não era um bem de primeira necessidade. E onde uma casa-de-banho mais não era que uma utopia substituída, quando a coisa apertava, por uma incursão ao monte ou, noite caída, por uma descida pelas "scaleiras" à "loje das burras". Até que um dia, o meu "velhote", mal habituado ao conforto proporcionado pela vivência na "vila", decidiu transformar um dos extremos da "casa dá'bó" numa moderna instalação sanitária. Acrescentando, já não me recordo se antes ou após, a, ao que julgo saber, primeira instalação eléctrica caseira na aldeia. Hoje, pouco mais de três décadas volvidas, fala-se em instalações de fibra óptica. Ainda bem... Todavia, ainda sinto as minhas narinas percorridas pelos aromas libertados pela fantástica sopa elaborada em potes de ferro ao lume, pelas torradas de pão centeio acompanhadas pelo café feito, também ao lume, e no qual era depositada uma brasa incandescente "pra le dar sabor e prá'ssentar". Estou a salivar... A sério que estou... Esta viagem ao passado está a trazer-me à memória imagens que julgava apagadas. Como o fascínio que me provocava olhar para a sequência de potes luzidios, empoleirados em cima do armário, questionando-me como era possível tal brilho depois de os terem obrigado a suportar as agruras das brasas. Ou os talheres que me eram reservados sempre que comia em casa da "bó", ornados a simplicidade, metade madeira, metade ferro, num arcaísmo artesanal de que já não encontro exemplares. Ou o púcaro de esmalte que era o meu objecto ritualizado e do qual não prescindia mesmo após as insistências "pra que bubesse nos de bidro". Era a minha Lamas... Felizmente, hoje ainda o é... Com outros contornos, com outra gente, com outras pinturas... Mas o "São Sabastião" ainda está lá, a Senhora do Campo também, e a Igreja, mesmo com muros renovados e já sem o coreto a fazer companhia ao adro por lá há-de continuar. E os "castinheiros" hã-de continuar a pintar a subida ao Facho e "ou hei-de ficar sempre contcho pur ser imberno"...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Visão agridoce dos tempos que correm

Passada a euforia dos resultados eleitorais é tempo de regressar à normalidade dos dias na desenfreada busca da essência da "terra-mãe" (a minha, a dita, a sublime - coração dixit - Macedo de Cavaleiros). Assente a poeira, começo a vislumbrar melhor os efeitos da torrente que conduziu a algo anormal: só um dirigente nacional assumiu a derrota eleitoral autárquica da sua força partidária. Julguei, por momentos, ter sido bafejado pelo dom da ubiquidade. E acreditei, por instantes, ser detentor de quatro nacionalidades distintas. Deixa ver se me entendo... O PSD, na voz da sua, por enquanto, líder, ganhou as eleições porque manteve a maioria das Câmaras Municipais e, consequentemente, a presidência da Associação Nacional de Municípios. Contudo, o PS assume-se como claro vencedor, por ter obtido a maioria dos votos e por ter recuperado, em termos absolutos, algumas Câmaras Municipais. Por sua vez, o líder do CDS-PP, na sua declaração de vitória, salienta a manutenção da Câmara de Ponte de Lima e o aumento de mandatos autárquicos. Já o secretário-geral da CDU reafirma o poder autárquico com o incremento de votos, mesmo tendo perdido Câmaras emblemáticas. Como o auto-proclamado líder da esquerda alternativa reconheceu (estranhamente) uma derrota eleitoral, contra quatro vitoriosos, acrescendo que não tenho mesmo o dom da ubiquidade e que só sou Português... Como já me debrucei sobre os resultados eleitorais e a minha inteligência não me permite ir mais além que só ver um país... E como posso ser tudo menos analista político... Facilitou-me a vida a criação da "Federação Tuga". Dessa forma, já consigo entender que o PSD venceu, de forma clara, em REPÚ e o PS, inequivocamente, em BLICA. Já o CDS-PP alcançou o poder em PORTU, deixando para a CDU a vitória em GUESA. Irmanados na senda da vitória... Tal como num concelho (que por sinal é o meu). A coligação PSD-CDS teve o maior número de votos, ficando com maioria absoluta, mas perdeu as eleições. Perdeu as eleições em 5 das 38 freguesias e... Perdeu... "Prontos"... Leio a imprensa e... "Beraldino Pinto mantém a presidência da Câmara com maioria, mas... PERDEU UM VEREADOR"... Quase ninguém votou BE, mas o BE ganhou... "um representante na Assembleia Municipal". PSD-CDS ganharam a Junta de Freguesia de Salselas... Não! O PS é que perdeu porque o BE não tinha nada que entrar na corrida! A CDU teve uma votação residual, mas ganhou! Ganhou uma representante à Assembleia Municipal. A única coisa que parece consensual é que só houve um vencedor para a Junta de Freguesia de Macedo de Cavaleiros. Pela mesma ordem de ideias, outro houve, porque conseguiu um mandato inédito para a dita Junta. Lidas e relidas as notícias, o PS ganhou em MACEDO, a CDU em DE e o BE em CAVALEIROS. Pelos vistos, existindo três vitoriosos e não conseguindo entendimento, decidiram atribuir, numa inédita manifestação de altruísmo político, a presidência camarária ao único verdadeiro perdedor destas eleições autárquicas: a coligação PSD-CDS. Isto faz-me lembrar as Legislativas: José Sócrates é o vencedor inequívoco das ditas. No entanto, são as restantes forças partidárias a reclamar vitória porque retiraram a maioria absoluta... Extrapolando para o mundo do futebol... A Dinamarca foi a vencedora incontestável do grupo onde estava incluído Portugal. Obteve mais pontos, foi apurada directamente para o Mundial da África do Sul, mas... A grande vencedora foi a Hungria!!! Porque conseguiu impor a única derrota à Dinamarca, no último jogo! Estão a perceber? Não? Ok... Usain Bolt, talvez o maior velocista da história do atletismo é, afinal, um grande perdedor: na última corrida, apesar de ter ficado, monotonamente, em primeiro, não conseguiu bater, de novo, o recorde do mundo... Os restantes 7 adversários é que foram os vencedores, porque conseguiram evitar mais uma sequência de fotos para a história à beira de um marcador electrónico... É ou não é fácil perceber esta história de o segundo não ser, afinal, o primeiro dos últimos, mas sim o primeiro que vem logo a seguir ao grande perdedor que ficou à frente do primeiro dos últimos?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Esmifrando as Autárquicas – Freguesia de Macedo

Finalizando o périplo… A freguesia de Macedo foi palco de um tsunami eleitoral: a Junta de Freguesia foi parar às mãos do PS. Sem apelo nem agravo, os socialistas arrebataram a maioria na Junta, terminando com um longo reinado “laranja”. Cousas da democracia… Assim como venceram as eleições, nesta freguesia, com 47,34%, contra os 44,51% da coligação PSD-CDS. A diferença de 94 votos não foi, contudo, suficiente para completarem o dois em um, já que PSD-CDS, nas restantes regiões já analisadas, venceram, respectivamente, com diferenças de votos de 483, 755 e 591, mostrando, de forma clarividente, que o poder autárquico não reside apenas na sede concelhia. A CDU, não obstante ter conseguido apenas 3,7% de votos na “vila”, é aqui que consegue 36,38% do total de votos amealhados. A abstenção cifrou-se nos 41%, resultado de terem votado 3327 dos 5639 eleitores recenseados. De notar que a “vila” contribui com quase 30% dos votantes no concelho. Número semelhante foi representado pela sua contribuição nestas Autárquicas. Contrariando um pouco a leitura relativamente à tendência de voto nas Europeias e nas Legislativas, que apontava para uma diminuição de votos na “direita” à medida que se caminha de norte para sul e do centro para leste, com o consequente incremento de votos na “esquerda”, as Autárquicas dão uma leitura ligeiramente diferente. Há um aumento evidente da votação na “direita” quando se sai da área englobada pelas freguesias a norte para a região centro-sul, aquela que se encontra mais próxima da freguesia da sede concelhia. Em sentido inverso, a votação no PS diminui quando se passa de norte para sul. Nas freguesias do Centro-Leste ocorre fenómeno semelhante: à medida que se caminha para nascente, diminui a votação no PSD-CDS, incrementando a equivalente no PS. Esta observação denota uma cultura democrática que contraria um pouco a tendência de voto no “partido”, demonstrando que a proximidade do centro de poder influencia, de sobremaneira, o sentido de voto. Deixa de se verificar, de forma tão marcada, a dicotomia conservadorismo-liberalismo, no sentido norte-sul-leste, que se infere das votações que influem em resultados nacionais. Ao invés, salta à vista um fenómeno concêntrico, que gira à volta da maior ou menor proximidade do centro de decisão. Quanto mais afastada a freguesia, maior a tendência para fazer derivar o voto para o contra-poder. Já em relação á freguesia- sede, a mesma deixa transparecer algum cansaço em relação ao poder exercido ao longo de dois mandatos sucessivos. Isso mesmo se infere da vitória do PS, ainda que por margem mínima, na maior freguesia do concelho, aquela onde está situada a Câmara Municipal. À gestão dos destinos da autarquia, por dois períodos consecutivos, foi dada uma sinalética de desgaste e de eventual desagrado. O conjunto dos resultados eleitorais autárquicos, se comparados com os verificados há 15 dias nas Legislativas, deveria ter o condão de colocar o poder autárquico em reflexão. Particularmente no que às tendências de voto diz respeito…