Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



sábado, 26 de setembro de 2009

Esquissos histórico-toponímicos de Lamas (a que já foi de Podence)

Caso algum conterrâneo me questione acerca da antiguidade de uma povoação que já pertenceu a 4 distintos concelhos e que, em 40 anos, perdeu 35% da população residente, digo que… É consideravelmente mais velha que eu… Em termos meramente comparativos, eu nunca fiz parte de “totam Braganciam et Lampazas cum suis terminis” e Lamas terá, quase seguramente, tido enquadramento no “suis terminis”. Fazendo parte, dessa forma, da Terra de Bragança e Lampaças, nos primitivos tempos da nacionalidade. A existência da vetusta Lamas é atestada pelas Inquirições de 1258, mandadas tirar pelo Bolonhês, de forma a tapar, no caso transmontano, os caminhos usurpadores dos senhores da estirpe dos Braganções (mesmo que por via bastarda) e das “pobres” ordens clericais constituídas pelos Beneditinos de Castro de Avelãs, mais os Hospitalários, Templários e outros parceiros do lado de lá da fronteira. Contudo, a antiguidade do povoado deve remontar a outras eras. Não que o mesmo possa ser confirmado arqueologicamente, mas eu sou um crente nos factos históricos oriundos de outras disciplinas que não a Arqueologia (mesmo que esta tenha a última palavra…). Caso contrário, não arranjaria justificação para a existência do topónimo “Cristelos”, ainda hoje vigente entre os habitantes lamacenses, e local onde já andei a experimentar veículos agrícolas. Mesmo que o dito topónimo tenha proveniência na desaparecida “villa de Crastelos”, lugar pertencente à “Parrochia Sancte Marie de Lamis”, onde morariam os senhores Durandus Roderici e Ffernandus Froyle, à altura das Inquirições Afonsinas. Predecessoras das homónimas Dionisinas, 32 anos após, onde a “aldeya de Crastelos” faria parte da “freguesia de Santa Maria de Lamas”. Esta “aldeya” terá subsistido, pelo menos, até ao séc. XV, já que, num documento do reinado da “Ínclita Geração”, “Crastellos” surge como fazendo parte do espólio dos “paupérrimos” monges da terra que terá servido de sede à Civitas Zoelarum. Isto leva-me à associação aos povos pré-romanos, decisores do empoleiramento no alto dos montes, dando origem à proliferação de castros, cujas ruínas preenchem algumas elevações nortenhas. Pois “Crastelos” ou “Cristelos” têm origem, precisamente, em castro! Localizando-se a actual “Cristelos” numa zona elevada, não é difícil levantar a suposição da remota existência de um antigo castro no local, que lhe tenha servido de baptismo, mesmo que assassinados os seus eventuais vestígios pelos arroteamentos feitos ao longo dos séculos. É certo que, ao contrário de outros exemplos, como a Terronha de Pinhovelo, não existem testemunhos arqueológicos da existência de tal povoado. Mas, que eu saiba, também não os há relativamente à documentalmente comprovada “aldeya” de Crastelos (a não ser, talvez, na obscura menção ao topónimo “Casinhas” - que, dizem-me os aldeões, já entra nas contas do termo de Gradíssimo). Assim como só conheço as capelas de S. Sebastião e da Sra. do Campo e já ninguém se lembra da existência da capela dedicada a Sto. André, mencionada nas “Memórias Paroquiais de 1758”. No entanto, subsiste a memória da “Eira de Santo André”. Um destes dias, tenho que acompanhar o “mou Ti João” a Cristelos e às resistentes lajes da tal eira comunal… “P’ra bêre se me chaldra algua cousa, armadu im Indiana Jouneze”… Abandonando, por agora, a “Banrezes” da terra da Sra. do Campo, detenhamo-nos na dita terra de Lamas. A qual, ao longo dos séculos, adoptou diversas designações. A começar pela já mencionada “Sancte Marie de Lamis” em 1258. Quase 30 anos após, o Arcebispo de Braga, num documento sobre os direitos do Mosteiro de Castro de Avelãs, troca um “i” por um “a”, e surge “Lamas”. Algo que haveria de subsistir até meados do séc. XV, período até ao qual a povoação surge como “Santa Maria de Lamas”, como são exemplo as Inquirições de D. Dinis de 1290 ou o Catálogo de Todas as Igrejas de 1320 (ainda que a lista seja do séc. XVII). Numa sentença de D. Afonso IV, aparece-nos com uma pequena derivação, voltando ao “Sancta”, para, numa confirmação do pároco apresentado pelo Abade de Castro de Avelãs por parte de D. Gonçalo, Arcebispo de Braga, vir referenciada somente como “Lamas”. Em 1435 surge, no rol das aldeias com bens pertencentes ao já citado Mosteiro Beneditino, com a nova designação de “Lamas de Podence”. De novo, 27 anos volvidos, surge como “Lamas”, numa nova confirmação de nomeação de pároco pelo arcebispado bracarense para, já no séc. XVI vir mencionada, numa Bula do Papa Leão X, como “Lamas em Terra de Lampaças”. No final deste mesmo século, a propósito das Comendas da Ordem de Cristo, vem mencionada como “Lamas” e “Santa Maria de Lamas”. A partir do “Tombo dos Bens da Comenda de Algoso”, a finalizar o séc. XVII, assume, definitivamente, a nomenclatura de “Lamas de Podence”. Assim vem designada, sucessivamente, na lista dos “Bens do Cabido de Miranda” de 1691, numa sentença que a iliba do pagamento do foro das oitavas ao concelho de Bragança em 1698, na “Corografia Portugueza” de 1706, no “Diccionario Geographico” de 1862 ou na “Chorographia Moderna” de 1879. Curiosamente, no “Portugal Sacro-Profano” de 1768, surge com a grafia “Lamas de Podense“, sendo que, no início do séc. XVIII aparece já a designação de “Nossa Senhora da Assumpção” associada à povoação lamacense. Uma nota mais para as “Memórias Paroquiais” de 1758, onde o reverendo a designa como “Lugar de Lamas, Freguesia de Nossa Senhora da Assumpção”, sendo donatário da povoação o Conde de Avintes. Diz o dito reverendo que “tem em abundância de pão e vinho; castanha, maçãs e peras de tudo isto medianamente”. E que se cultiva centeio e castanha na Serra do Facho, onde há coelhos, perdizes e lebres. Entrados no séc. XIX, vêm as sucessivas alterações administrativas sobre o território, fazendo com que a freguesia de Lamas de Podence se inclua no concelho de Bragança, até à sua passagem para o concelho dos Cortiços em 1842. Neste haveria de perdurar até transitar para o novíssimo concelho de Macedo de Cavaleiros em 1855. Nova alteração haveria de surgir em 1867, transformando Lamas de Podence numa Paróquia Eclesiástica, da Paróquia Civil de Macedo de Cavaleiros, do concelho de Chacim. A partir de 1890 passa, definitivamente, a constituir uma freguesia do concelho da qual, na actualidade, faz parte. O epílogo, por enquanto, da história do nome da freguesia, reside no ano de 2003, quando se vê, finalmente, amputada do “de Podence”, passando a ser dona de si própria… AH! E a onomástica? Qual será o tortuoso caminho etimológico de “Lamas”? E, já agora, e “Podence”?… Como isto é uma intricada teia que envolve Geografia, Religião, Linguística, Antroponímia e… suposições q.b… Voltamos à história do “garnizo do b’zinho, mêmo q’ámanhã num seija dia de satcho”…

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Derivações de umas Lamas que já foram de Podence

O presente jamais poderá ter a incumbência de apagar o passado. Poderá, quando muito, reescrevê-lo na forma de um assomo de orgulho, transmissível às gerações vindouras. Uma enorme fatia da reedição dos meus pretéritos tempos traz subjacente o que foi alterado pela Lei 55 de 2003: a designação de Lamas de Podence, retirando-lhe o agente possessivo. Para um “lamo-macedense“, nada mais se fez que transpor para a legalidade o que já legal era, pelo menos para os filhos de Lamas, desejosos de se verem livres dos grilhões de serem da freguesia vizinha. Isso não tinha jeito nenhum e passei a ser um descendente de Lamas de Lamas e “mai nada”! Tal como os de Grijó deram uma vassourada na pretensa vassalagem à freguesia limítrofe. E ainda bem que não há nenhuma freguesia vizinha que se chame Cavaleiros. Caso contrário, lutaria determinadamente de forma a ser apenas de Macedo!… Mas, sendo “apenas” de Macedo de Cavaleiros, não posso ter a veleidade de trocar, simplesmente, de raízes. Não renegando a vertente genética com proveniência na “Imbernia Lamacense do Bernardo” e salvaguardando a memória do Dr. Urze Pires, que me arrancou artificialmente do ventre materno no Hospital da Misericórdia, julgo pretensioso ser um “filho de Lamas”, considerando-me, antes, um genuíno “neto” de Lamas. E um “cibinho” de “neto” de Corujas… e de Vinhais. “Filho, filho, sou filho de Macedo”… Só para enquadrar as “cousas”… Retornando a Lamas de Podence… Quando ainda dava os primeiros passos em arte nanomicro (agora está na moda) parietal, através de traços figurativo-esquemáticos em lousas, convenci-me de dois disparates (os primeiros de muitos…). O primeiro deles relacionava-se com o “pontapé na bola”: acreditava que o Clube de Futebol União de Lamas, nos seus tempos áureos, mesmo desconhecendo em que recinto jogava, era o representante máximo do desporto da minha “segunda terra”. E tentava convencer os meus primos e amigos lamacenses da veracidade de tal facto… Santa ingenuidade… E santo isolamento… O segundo dos disparates possui uma ligação umbilical com o que aqui me traz hoje: a toponímia e a etimologia de Lamas de Podence. Versava o dito disparate sobre a dificuldade que a invernia trazia para transpor o percurso entre o Pontão e a casa da Avó. Como não havia carro que subisse, por entre frondosos carvalhais, pela enlameada vereda, era fácil perceber o porquê “daquilo” se chamar Lamas. Ficava, contudo, confuso na época estival, altura em que a dita vereda tomava o nome de estrada. Como, de igual forma, me remetia para a confusão o facto “daquilo” ser dos vizinhos do lado, ou seja, de Podence. Para colmatar o estado confusional, cheguei a sugerir, julgando ter descoberto a pólvora, que nos três meses de inferno, o “povo” deveria adoptar a designação de “Poeiras de Verão” e nos restantes nove meses, “Lamas de Inverno”. Como os adultos se riam em forma de icterícia e eu só concebia um conceito de sorriso, julgava a proposta aceite por unanimidade e aclamação e ia jogar “ó rou-rou” outra vez… Entretanto, cresci, deixei de acreditar no Pai Natal, comecei a ler “A Bola” e asfaltaram o caminho que alternava entre lama e pó. Assim como o Vasco Santana me ensinou que “chapéus há muitos”, os jornais desportivos ajudaram-me a sair do gatinhar geográfico, demonstrando-me que “Lamas há muitas”. Por isso sou capaz de levar com espírito positivo o estiramento do esternocleidomastoideu que me massacra vai para dois anos e persisto em incluir a literatura de cordel desportiva na minha ementa cultural diária… Só não percebi porque Lamas se manteve Lamas depois de pintarem a estrada de negro… Até que a curiosidade, leituras para lá do universo desportivo e outros valores me conduziram, entre outras “cousas raras“, a Herculano e aos PMH, a Hübner e ao CIL… “E prontos, mai loguinho hai puri mais, q‘agora já stou pr’áqui mêo a caniar e daqui a um cibo tanho o catancho do garnizo do b‘zinho, armado im Zé Cabra, a smoucar-me az'urêlhaze”…

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Será isto o resultado de alguma aberração cromossómica?

O “Portugal Farm” de hoje não é um exclusivo dos tempos modernos. Longe disso, muito longe disso… Começo a suspeitar que haverá, algures, um conluio cósmico, que terá tido o seu início quando fomos bombardeados há 65 milhões de anos, reinando Sua Majestade D. T-Rex. Bem investigada a cratera de Yucatán, ainda se descobre algum resíduo que explicará porque terá razão uma das minhas “discórdias de estimação”, um “tal” de Nietzsche, quando afirmou que encontrou sede de poder, sempre que encontrou seres vivos. Tivesse ele encontrado “tugas” e acentuaria ainda mais a coisa… Os “tugas”, não numa forma depreciativa, já que neles me incluo com todo o orgulho, resultam da epopeia de um punhado de heróis que os manuais escolares e séries televisivas tratam de nos impingir como um conjunto de desenfreados seres com sede de independência, que fizeram apelo à sua faceta guerreira e ao seu espírito conquistador para correr à espada galegos, leoneses, castelhanos e mouros. E, terminadas as “turras” em território peninsular, haveria que encontrar noutros continentes uso para o gume… Tudo resulta bem quando acaba bem e ninguém mandou à D. Teresa envolver-se com quem não devia. Dessa forma não teríamos a traulitada de S. Mamede… De igual forma, ninguém disse aos mouros para se aproveitarem das dissenções entre os visigodos. Não teriam apanhado nenhuma lição em Ourique… E tivesse D. Fernando apontado para outro lado e não haveria necessidade de um bastardo andar em correrias por Aljubarrota… Bem, aqui outro galo canta, porque teríamos perdido um herói macedense… Todavia, esta exaltação ao ego nacional, bem ao jeito do espírito vigente num tempo a que hoje chamam “da velha senhora” (não a “outra senhora” que as hostes rosadas afirmam ainda por cá andar, mas aquela onde vigorava, efectivamente, o “orgulhosamente sós”), pareceu-me, desde muito novo, como desprovida de toda a verdade… Mesmo que se tenham metido desastres de Badajoz pelo meio, para dourar a pílula… E se tenha antecipado o espírito da nacionalidade ao caudilho Viriato, desafiado no seu espírito belicoso por umas tréguas traiçoeiras. Já nessa altura a palavra lealdade tinha umas deturpações no dicionário lusitano, acrescentando-se-lhe, como possível significado, “traição dos melhores amigos por uns trocos romanos”… Quando olho para os “Afonso Henriques” dos tempos modernos, não fico espantado. E chego sempre à mesma conclusão: é genético, só pode ser genético! É só andarmos por cá daqui por uns mil anitos e recorrer à forma como serão cantadas as conquistas de Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates (só para citar os três últimos PM) e demais políticos dos séc. XX-XXI… Não será preciso tanto… Afinal, só ainda passaram 35 anos sobre uma determinada data e já toda a gente se esqueceu das atrocidades levadas a cabo para reconquistar a “independência”… Mas, recuando, de novo, no tempo… E regressando ao vocábulo lealdade… O que dizer da fratricida luta entre o secundogénito Bolonhês com o primogénito Capelo? Ou do Lavrador com as suas “manas” e com o seu próprio filho, o Bravo? Carga que já lhe viria do trisavô quando andou em refrega com a tetravó?… Conclusão: poder, apenas poder! Onde reside a diferença com os actuais “reinantes”? Nos utensílios… Já ninguém anda de espada em riste. Substituiu-se a dita pelo gume das estatísticas. E, em vez de um cavalo só, alimentado a feno, andam os ditos “reinantes” em vários cavalos de uma vez só, apaparicados a combustível fóssil. Já não há fossados, nem anúduvas, nem eirádigos… Mas há IRC, IRS, IMI… Bem… E também não é tão descarada a protecção aos da mesma igualha, já não há honras nem coutos e tão pouco se assiste à simbiose entre a aristocracia e o clero. Mas há “tachismo”, “corrupção”, “favores políticos”… O que, mais excomunhão, menos repúdio, vai dar ao mesmo. Tal como ao mesmo vai dar o isolamento do distrito bragançano… Já não há Braganções, ou descendentes seus a exercer funções na corte. Mas haverá, a partir de agora, três deputados a defenderem, mais que provavelmente, a terceira auto-estrada entre Lisboa e Porto, o TGV e a OTA… Donde virá esta forma de estar em que o inimigo político de hoje será o parceiro de coligação de amanhã? Subsistirá algum gene fugitivo, fruto de alguma deleção ou inversão? Será o célebre “gene luso”? Não queria ir tão ironicamente longe, mas seremos nós o elo perdido para o polémico Sahelanthropus? De certeza que deveremos ter FOXP2 a mais… Coloco sérias dúvidas sobre se seremos detentores da quantidade correcta de ASPM e MYH16... Para lá das dúvidas, e passe o pleonasmo, não há dúvida que não somos os melhores, mas também não somos os piores… Somos, apenas, orgulhosamente diferentes… Digo eu…

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Portugal Farm

Certo dia, fazia ainda parte dos recenseados na lisboeta freguesia de Santa Isabel, resolvi efectuar uma visita aos meus vizinhos de S. Bento. Os verdes anos de luta política na guelra ainda estavam bem presentes, e conhecer, in loco, as caras daqueles que contribuíra para eleger, representava uma espécie de troféu e uma divisa mais para apresentar aos companheiros de algazarras e comícios nocturnos. Terá sido nessa longínqua tarde que começou a derrocada da minha ingenuidade política… Dois deputados, em lados opostos da barricada, digladiaram-se verbalmente, até atingirem a fronteira da obscenidade, tal o tom atingido naquilo que se assemelhava mais a ataques pessoais que a uma refrega de ideais políticos. Não fosse a queda um obstáculo de respeito e teria saltado para as bancadas em defesa de um dos meus ídolos. A idolatria, entretanto, haveria de desvanecer-se… Porque as minhas expectativas saíram goradas, por uma espécie de “ignis fatuus” parlamentar. Os dois seres, que pareciam estar nos preliminares do que seria um duelo exterior, resolveram arrecadar a hipocrisia para as massas e, num assomo de bom senso de salvaguarda de interesses pessoais, foram detectados, por esta alma penada, em amena cavaqueira, acompanhada de gargalhadas que roçavam a histeria, num dos espaços públicos confinantes com a Assembleia. Local onde, momentos antes, tinham presenteado os assistentes com uma das mais degradantes manifestações a que tive o “privilégio” de assistir… Senti apossar-se de mim um sentimento de humilhação, nascido da fraude, combustível para a quase indomável vontade de desafiar, eu próprio, os senhores para um duelo. Esta encenação fez-me repensar a postura que tinha na defesa dos meus ideais. Persisti na crença dos mesmos, desligando-me, no entanto, de qualquer força política e desvinculando-me daquela à qual tinha dado tantas das minhas noites de descanso e pela qual me tinha transformado, inúmeras vezes, num ser afónico. Os anos tratariam de refinar, ainda mais, as consequências do episódio. Ainda que possa provocar acusações de inconstância, a verdade é que, ao longo dos anos de cumpridor dos direito e dever cívicos, já coloquei a cruzinha em cinco organizações partidárias diferentes. Mas, pela primeira vez, a pouco menos de uma semana das Legislativas, encontro-me integrado no pelotão dos PI. Não o dos números irracionais… Nem o dos irracionais seres… Mas o dos que fazem parte do Partido dos Indecisos… Nunca, como hoje, a minha memória foi assaltada por Orwell e o seu “Animal Farm”. Não pela versão do título na língua camoniana… Ainda que o mesmo possa ser identificado pelos mais radicais como uma adequação à realidade que vivemos, parece-me saído daquele rol de traduções descabidas com que se vai fazendo a nomenclatura literária e cinematográfica. E nada tenho contra os “laregos cebados”, particularmente no que ao presunto diz respeito… Mas tenho contra os Snowball e Napoleon que infestam este país… Mais contra os segundos… Ora se ouve bradar aos céus pelo apoio aos agricultores, brado efectuado pelos senhores que “submarinizaram” montados em proveito próprio… Ora ouvimos falar de “coesão nacional” e “redução da diferença entre litoral e interior” - e por isso percebo agora as vantagens de um deputado do Douro Litoral pelo interior círculo de Bragança… Ora se desanca nos PPR’s e se defende a nacionalização, por aqueles que são detentores dos PPR’s propriamente ditos e de acções, nomeadamente na PT… Ora se luta pelas classes e pela eleição de um deputado por Bragança oriundo da vereação de Almeirim… Ora se tenta afogar a Linha do Tua, provavelmente para aproveitamento de carris para o TGV, se fecham serviços, provavelmente para financiar a OTA, ou se constroem “Portos Livres” em reservas naturais, lá para as bandas da margem esquerda do Tejo … E já não acredito na boa vontade de PRD’s e PSN’s… Daí a indecisão… Como ainda não existe o PT (não o Trabalhista, mas o Transmontano)… E como continuo a assistir ao nomadismo dos frequentadores de comícios, resgatados das suas terrinhas para, em autocarros fretados com o nosso dinheiro, irem em excursão até ao local de onde sairá uma proclamação de vitória porque, a título exemplificativo, “4000 pessoas no Palácio de Cristal mostram a vitalidade do partido na cidade do Porto” (e arredores, e arredores, e arredores…). Entendo agora o porquê de uma marca de refrigerantes ter lançado o slogan “não sejas ovelha, bebe «qualquer coisa» groselha“! Porque nem só dos repetidores de lemas de Orwell vive este país, continuam a existir os leais “cavalos”, incansáveis lutadores pela causa até serem, como Sansão, atirados ao covil quando as forças se lhe esvaíram… As “galinhas” que se dispersam nos seus cacarejos… Os “cães” que, fanaticamente, guardam os seus “Napoleon”… E os “burros” e as suas verdades… O Burro Benjamim é o meu personagem favorito, por isso me devo incluir nos “burros“… Quando instigado a falar, pelos outros animais da quinta, limita-se a um “quando não tenho nada para dizer, prefiro ficar calado”. Da minha parte, quando tenho algo para dizer, prefiro não manter o silêncio… Já que peguei em Orwell, pego também em Huxley e no seu “Admirável Mundo Novo”. Sinto-me cada vez mais integrado numa sociedade de castas, onde os valores familiares e de moral vão sendo erradicados e onde somos manipulados através das subtilezas de outras versões de “Soma”, a droga descrita por Huxley para manter os humanos na ilusão de felicidade. Regressando ao Burro Benjamim de Orwell, diz o dito ser asinino: “Deus deu-me uma cauda para enxotar as moscas, mas preferia não ter cauda nem moscas”. Como eu gostaria também de não ter “cauda” nem “moscas” para enxotar… Isso leva-me à utopia… Esta, por sua vez, conduz-me a Eduardo Galeano… “A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos… Por mais que caminhe jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar”…

Há outras coisas assim...

As novas tecnologias têm destas coisas... A dieta macedense vai mesmo perdurar por mais duas semanas. Uma chamada matinal equivaleu a planos alterados. Tentando reverter a alteração para um sentido positivo: que os desvios que ocorressem na vida se resumissem a isto... Andaria tudo de faces sorridentes... Vou carpir mágoas para outro lado... E já não vou visitar a "Genoveva", nem a horta... "Pacência"...

domingo, 20 de setembro de 2009

Há cousas assim...

Quando tudo apontava para a agrestia de mais duas semanas de dieta macedense, eis que compromissos profissionais me obrigam a um pulo a Bragança. Bem vistas as coisas, há-de dar tempo para matar saudades de uma refeição preparada pela mais velha representante do clã. E para saudar o meu novo afilhado! Mais a afilhada que já o é há muitos anos... E para verificar em que modas pára o distrito que vai ter um deputado de Penafiel (é mesmo verdade - esta está-me atravessada na garganta)... Um distrito em que uma autarquia faculta, gratuitamente, os manuais escolares aos alunos do primeiro ciclo do ensino básico. Esta é de aplaudir! Mesmo que ocorra num concelho que não é o meu (ah! refiro-me a Miranda do Douro). Já que encerram escolas que compensem os alunos (e as bolsas dos encarregados de educação). E o "mou club'atlético" perdeu o derby nordestino... Será por isso que estou parco em palavras? E em ideias... Deve ser das atoardas e contra-atoardas da campanha...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Sonhos de sondador das miúças dos Felis fetidu

“Ridiamo e rideremo perché la serietà fu sempre amica degli impostori” - Ugo Foscolo

Sonhei com um mundo em que a reincarnação é uma possibilidade. E senti o renascimento, dando corpo a um ser cujo nome assumia a pompa de “Ric Hard Argueiro Pear-tree”… A aterragem decorreu num ambiente de euforia generalizada… Logo suspeitei de algo inusual… O cartaz de boas-vindas, à saída do aeroporto, era sugestivo: «BEM VINDO A LOLILÂNDIA, ONDE UM RISO SATISFEITO VALE MAIS QUE CEM GEMIDOS». Logo me lembrei que, na minha paralela vida real, havia um saudoso Raul que apelava a um “Façam favor de ser felizes”. E que esse apelo caía, maioritariamente, em saco roto… Estranhei as faces dos seres circulantes, descontraidamente em forma de “smile”, que se abeiravam de mim numa postura anormalmente amigável e repetiam, incessantemente, uma frase de um homem dado a escrever sobre os “misérables“ do meu outro mundo: “O riso é a distância mais curta entre duas pessoas”. Rapidamente obtive uma resposta para a minha estranheza. Os écrans espalhados pelo recinto aeroportuário passavam excertos de uma entrevista em que eu próprio era o entrevistador. Era isso impossível! Tinha acabado de aterrar num país estranho! Bem… No universo dos sonhos não há espaço para impossibilidades… Facto indesmentível, atestado pelo rodapé televisivo que debitava informações acerca do “share” de audiências das sequenciais entrevistas, inauguradas pela presença do P.-M. de Lolilândia, Pepe Filósofo. Homem bem disposto, acabado de receber um prémio que fez roer de inveja um tal de Bad Pito, cheio de eloquência, boa disposição e que responde com rasgados sorrisos às minhas provocações sobre a sua grande amiga Nelly Blacksmith Milk. A mesma postura é assumida quando retiro da cartola um “Magellan”, uma espécie híbrida provocadora de contagiosos ataques de riso pelos conteúdos lexicais anedóticos, mas que pode provocar sensações de miopia. Afinal, tudo se passa no decurso de um sonho na Lolilândia… Contudo, algo me soava a familiar… Quase jurava que aquele Pepe Filósofo era um sósia de alguém que conheço, diametralmente oposto… Esqueci por completo a dúvida existencial, já que estava a gostar de me sentir percorrido pelo hormonal universo “endorfínico“… Algo semelhante ocorreu quando as imagens foram substituídas pela incontornável figura da Nelly, a já referida amiga de Pepe. Os músculos faciais não resistiram, perante o atrevimento de questionar a senhora (a que Yohanan Soeiro, da família dos Alone-Airs, apelidou, carinhosamente, de “a outra“) acerca do seu candidato a alqadi de al-Lixbûnâ, para além do já conhecido Petrus Sanct’Hannah Lupus. Também neste caso fui acossado por arreliadores calafrios, provocados pelas semelhanças que a sorridente Nelly possuía com uma dama-de-ferro que, no meu mundo, impôs um cabeça-de-lista do Douro Litoral pelo círculo de Bragança… Coincidências… Afastado o torpor mental, seguiram-se os amicíssimos Paul McDoors (o bravo Market’s Little Paul) e Paco Anacleto (o lutador Franco Vaisselle, parceiro de lutas de outro McDoors), na sua titânica luta de classes dos com ou sem gravata, com ou sem taxas sobre telemóveis empresariais… Como o despertador tocou, fiquei sem saber se o Apache de Pirescoxe será esmiuçado por Ric Hard A. Pear-tree… Estou ansioso por adormecer de novo… E afastar-me, ainda que utopicamente, da Linha do Tua, dos repuxos e mastodontes do Jardim, da “falta de democracia”, das “Bocas Verrinosas”… E do helicóptero do INEM, dos Jardins de Infância e Centros de Saúde que encerram serviços, dos acidentes no IP4, da sub-região mais pobre da União Europeia, da agricultura abandonada, do envelhecimento da população transmontana…
«A IMAGINAÇÃO CONSOLA OS HOMENS DO QUE NÃO PODEM SER. O HUMOR CONSOLA-OS DO QUE SÃO.» Winston Churchill