Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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sexta-feira, 11 de março de 2011

O espírito da alma, "si u hai"...

..."Ou lá o que caraltchas sprita um home. Boa jeira, pró catano co as almas do outro mundo! Bem m'ou finto q'andim puri ó Deus dará, bôs aldrúbias se m'assaírum os lorpinhas que bêim cousas a boar à neitinha. São mim piores os lapouços alapados que nos racosim cos impostos"!... E era uma vez mais um Entrudo, lá, onde o País Merdoso (que merecemos) acaba e o Reino Maravilhoso (que temos) começa. Algures num encantamento dos sentidos, onde, por terra do olvido ser, nos esquecemos efemeramente das agruras de Fê-Mê-Is, Merqueles, U-És e Dói-techelandes. E como dói!!! Não propriamente a "techelande" (não está incluída n' "a cor do horto gráfico")... Esta algia que consome provém da visão da "tachalândia", variação em "dor maior" para um país onde a grande maioria vai afinando pelo acorde de "réu menor"... Enquanto a pena não se agrava, desagrave-se a coisa, recorra-se a mágicas poções embrulhadas a saber, aliviem-se neuronais sistemas atrofiados por recurso a gustativas papilas excitadas por atmosferas adornadas a ancestrais aromas. "Bota-s'um butelo por as goelas abaitcho, infia-s'um azedo de companha, mama-s'ua pinga" e ficam anestesiados os sentidos por breves instantes. Como se o sistema filosófico passasse a ter a omipresença de Platão em detrimento de Sócrates... "Ou cousa que se l'apareça, digo ou"... E digere-se o fausto banquete em incursões a "Tchucalheiros Intrudos", lá para os lados das terras que de D.Podêncio devem ter sido. Amealham-se uns trocados de folia, amputam-se as invisíveis extremidades que nos decoram a alma, como se fôssemos gado miúdo permanentemente encornado pelo graúdo gado do leme, e... Esquecemo-nos. Da vilipendiada gente que somos, escondendo o atrofiamento por detrás de uma ancestral máscara, Caretos somos, ou Caretos queremos ser, numa emocional descarga de chocalhos, secretamente desejando que as artérias de Podence ou Macedo se metamorfoseiem, mágicas encenações de Entrudo, e se pintem a corredores de S. Bento... Ilusões, insanas ilusões... Lenitivo desejo... E espantem-se os espíritos, ou casem-se os vivos! Apregoem-se os casamenteiros e desça-se em procissão de deslumbramento, traje-se a face a incontidos sorrisos, extasiem-se os ouvidos com admiráveis choros das de foles, arregalem-se os olhos que se queima o boneco. E aqueçam-se os "pur dentros" com uma queimada, aperitivo para outras sonoridades. Revejam-se velhos amigos, encante-se a alma de xisto com acordes outros, afague-se a noite na festiva tenda, fundam-se os glóbulos de pedra nas raízes dos sons. E baile-se, num baile que se deseja eterno, infantis regressões, mundos outros onde a percussão nos invade a nostalgia e a gaita-de-foles nos rega as memórias. Deixamo-nos encantar pela euforia de gente que contagia, roncos, do diabo os dizem, di-los-ei eu celestiais, se é que por lá aceitam musicais derivações de belzebu. Por cá, por este pedaço de terra à beira Azibo plantada, foi o céu. Estrelado também, nocturna pintura de indescritível sabor, galeria de arte de pétreo mar. Olhos pregados na hipnose da noite, silêncio quebrado pela sinfonia que vem do interior da tenda de todos os encantos, arrepios da alma, a maldade de um cigarro por companhia no frio exterior. E ao longe, lá onde repousa a albufeira, pirilampos da noite de aldeia esquecida, olhar perdido em horizontes de vasta escuridão, sonhos quebrados pelo chamamento de mais uma melodia que relembra anciãos seres, Zoelas quiçá, infâmes desejos de ancestralidade perdida, ou de distinção esquecida. É a gente, as pedras, os aromas, os gostos... É a terra... A minha... A minha terra...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Martinhadas e Castanhadas


"Ou cousa que se l'apareça"! Havia algo de místico, sobrenatural até. Seria um dia como qualquer outro dia, não ditasse o calendário situar-se na vizinhança de meados de Novembro, algures onde apregoava a tradição haver uma sinopse do estio, dizem-na Verão de um cavaleiro romano que virou bispo por ter corrompido a profecia de vigésimo primeiro século: uma tal de centúria em que são os pobres que desafiam a gravidade, não a do Isaac, que essa é coisa de maçãs, assim a dizem, mas a outra, a da situação! Assim de mansinho, para não ser rotulado de reaccionário, aquela que vem sendo madre de todas as cousas, cousas essas que incluem, a título meramente exemplificativo, nada de transcendente, juros da dívida pública no limiar da entrada em cena de Santo FMI (para os mais desatentos, o dito Santo é o padroeiro da Fome Mascarada Iminente, santidade meio a jeito de deturpação do globalmente parodiado por infiltrados agentes mediáticos). Ou a maléfica forma de impor ao mendigo que ceda metade da sua capa ao eminente cavaleiro... Apenas um prolongar da ausência de tréguas na milenar luta entre Sua Eminência e Nossa Iminência... Destravado espírito o meu que se deixa agrilhoar pela viperina condução de extremidades superiores de encontro a um teclado! "Atão, c'um lecença de Bosselências, ou juro pur estas bistinhas q'a terra e os bitchinhos hádim cumêre e inda juro tamém pur'us mous pecadinhos, que são mim pouquetchos, que fui dezbiado das nhas intenções pur estes malditos tóros das manápulas, que debium mas era star imbarrados pra que num s'apusessim desinquietos. Olha pró que l'habia de dar ó diatcho dos dedos! Ind'ós mando pró caralhitchas d'Antártida, pra ber s'amoutch'um tantinho, que bus-jiu digo ou. Dixu-m'u aldrúbias do Tonho Lingrinhas, o que s'amigou co'a galdéria da Miquinhas da Ti Alzira dos Poulos, que por lá num s'amanham homes ingrabatados q'indrominim o pobo cum IBAs de bint'i deis ou bint'i três pur cento, nim nos cobrum IMI se nos der na catchimónia de nos botarmos a fazer um ou deis iglus. E aparece-se q'os postes prás SECUTES num se sigurum no gelo... Peis, é berdade, num há batatas nim castinheiros, nim recos pra cebar, mas inda s'amanhum uns pinguins, que tânho que préguntar à minha se num ficum munto rijos si us strugir mim strugidinhos"! Entretanto, após este fogacho desviante, estou de regresso ao Planeta Europa, aqui bem perto da extremidade a que uns rapazolas colonizadores apelidaram de Finis Terrae... Não será a dita, porque o Colombo e o Álvares decidiram dar voz à sua obstinação, mas Finisterra não sendo, assemelha-se, cada vez mais, a "Cu do Mundo", desconhecendo-se se ficará no nadegueiro hemisfério ocidental ou oriental, porque andam por aí uns países a reclamar o epíteto, atente-se em privações de pátrias de verdadeiros filósofos. Ainda há filósofos? Pois... Terá derivado esta efémera cedência do controlo à hipnose por um teclado para uma agonizante filosofia barata? Um momento, que vou armadilhar os fusíveis que energia providenciam a este desregrado impulso de escrevinhar filosofando acerca do "infilosofável"... ... ... Dizia eu, quando o curto-circuito mental ainda não tinha ocorrido, que havia algo de místico, sobrenatural até (sim, logo no início desta "martinhada", antes da verborreia que incluiu pinguins e afins - ops, rimou...). O Dia de S. Martinho, o do "baiádêguipróbóbinho", era detentor daquele trágico ritual de apenas providenciar a extrema unção às castanhas após a degola das ditas, e depois do inferno a que eram submetidas numa enorme fogueira no terreiro, num qualquer comunitário terreiro, dos que possuem imensos donos sem terem donatário algum. Era grande o ajuntamento! Vinha o Zé Povinho, e o Povão Zé, estranhas simbioses geradoras de um simples Zé Povo, ou Povo Zé, onde cabiam a Senhora, a Dona, o Senhor e o Doutor. Nada de estratificações, nada de obsoletas ramificações de instituídos feudalismos, "népias"! Nesse dia vulgarizava-se a igualdade de classes, num hilariante disparate histórico em que, por um dia, reinava a utopia de direitos e deveres semelhantes, igualitárias neblinas que obliteravam milenares realidades. Era o Magusto, o "Magnus Ustus", a grande fogueira, ou reminiscências de um "Magus Ustus", ancestralidades de sementes celtas de um qualquer Samhain. Era a pureza vingadora das distinções, soturnas faces que soçobravam perante os enternecedores sorrisos que desenhavam caras "infurretadas" pela cinza, se desinibiam por gargantas acariciadas a jeropiga ou outro qualquer líquido alento para melhor digestão dos "bilhós". E provava-se o vinho, o novo, o velho, garrafões envoltos em vime em breve esvaziados ou, ternurenta tradição, as pipas transformadas em alcoólicas bicas, num desenfreado corrupio de provas em copo único. Que se danassem os micróbios! Aliás, a microbiana vida devia alhear-se da potencial mortandade em vespertinos finais de algazarras muitas, espíritos à solta, num atmosférico escambo de etílicos vapores, desenfreados diabos invasores de alheias adegas, contínuos ecos de desencontradas gargalhadas, ao sabor de mais "ua pinga", um "cibo" de presunto, quando o havia, um "tantinho" de queijo curado, do duro, daquele que se solta em finas lascas, lascando, de igual forma os dedos dos mais incautos. E voavam "carabunhas", resquícios de deglutidas azeitonas, imaginárias guerras sem baixas, onde as bestas eram braçais forças arremessadoras de salivados projécteis. Foi ontem, num pretérito algures perdido no tempo, resgatado de uma qualquer memória futura. E ninguém se "imbutchinaba" nessas batalhas onde toldados cérebros se aglomeravam num pequeno mundo de xisto...

domingo, 25 de julho de 2010

Renascimentos do espírito em Morais

Mais que um alívio à nostalgia, a revivescência de ancestrais tradições poderá ser um sinal de vitalidade de um povo. Por algumas aldeias transmontanas vai-se assistindo a regressões temporais, breves recuos a épocas em que a força braçal comandava o destino agrícola. Vão proliferando, aqui e ali, recriações do que marcava o calendário do campo, a partir de alturas do S. João. A aldeia de Morais tem representado a pedrada no charco no concelho macedense. O teatro vivo, de gente que segue um guião empírico, naturalmente descurando o decorar de deixas, mostrando a faceta de gente rude e simples, simpática e bela, que conquistou uma terra áspera e bravia, rasgando-lhe as entranhas a suor. Era assim a segada… A acarreja…. A malha… Tempos outros, em que o mar doirado era o chamariz para bandos de segadores, gente que descia para laminar o pão que a terra dava. Era a dureza, o tórrido escaldar, a poeira, a sede… Mas também a alegre algazarra dos cantos, o espírito comunitário do “torna-jeira”, as sopas da segada, de pão amolecido em água de bacalhau, lascas do dito, alho “rijado”… E a “cabaça” do precioso néctar que circulava de boca em boca, sem receios de transmissões de Influenza… Não havia H1N1, nem H5N1… Havia, apenas, sede, muita sede, de corpos desgastados pelas braçadas nesse doirado mar, gente que nadava munida de “seitouras” e “dedeiras” (“dedaleiras”, chamam-lhe, também), amputando as ondas do seu balançar, testemunho no restolho. E uma poeira cerealífera que se entranhava no corpo… Nada que evitasse, chegado o tempo, infantis viagens empoleirado em veículos de tracção animal, “estadulhos” por companhia, ao som de melancólico ranger, triste e profunda pretérita canção saída de artesanais rodados, numa aguda cadência de nunca inventados acordes. Isto não passa de uma “espalhadoura” do tempo, tempo que mudou, felizmente, que a evolução de conceitos e técnicas é humana marca. Mas há delícias intemporais, visões de um passado não muito distante, imagens de marca de um povo. De um povo que, no meio da agrestia, ainda sabe sorrir… NOTA: As imagens que acompanham este texto foram gentilmente cedidas pela Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cousas Pascais

A incontornável passagem das Estações é implacável. Traduz-se no fenómeno de um constante regresso ao passado, como se a nostalgia tomasse conta dos dias, qual exterminadora do presente. Um presente que cada vez mais se afasta do passado, sem retorno possível, sem regressão que se fareje no horizonte. Já não sei se a Páscoa perdeu os seus encantos ou se o encanto da Páscoa se esfumou ao sabor da modernidade. Mas, afinal, falar da Páscoa é o mesmo que falar do Natal… Ou talvez seja uma simbiose de defeitos meus com feitio meu, também. Quem sabe se perdi a capacidade de camaleão? A verdade é que já não sinto a Páscoa transmontana como a sentia há uns anos atrás. E não é pela ausência do Coelhinho da dita, assim como o espírito natalício não sofreu uma metamorfose por eliminação do Pai Natal. Desadaptações… Ou uma incessante luta contra o consumismo reinante, num revolucionário espírito pró recuperação dos valores tradicionais, da identidade perdida, do transmontano coração que se vai esvaindo ao sabor de estradas que não existem… Talvez as mentalidades tenham sofrido uma inexplicável corrosão. Ou explicável, quiçá… Seja lá qual for o nome do réu, o juiz não se encontra desprovido do seu. A espada de Dâmocles resume-se ao gume que amputou a doçura da tradição, substituindo-a pela agrura dos valores do fantasma de um depauperado fidalgo que dá pelo nome de consumismo. Ou, na sua mais abominável versão, galopante usurpador de direitos da tradição, de familiares valores: o dinheiro, mais o seu séquito de vassalos que guarida lhe dão. Hoje, já não se fazem folares, já não se oferecem amêndoas. Assemelha-se tudo a um fenómeno materialista, onde a pureza de uma oferta foi usurpada pela monstruosidade das contingências dos modernos tempos. Tempos em que a Visita Pascal, aquele acontecimento que fazia da Segunda-feira de Páscoa um dia distinto, com acessos decorados ao colorido primaveril, se transformou numa efémera ocorrência com o supremo objectivo de recolher um envelope… E já nem a sineta desperta as mentes…

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ramos de Domingo

Noutros tempos não era assim... Imbuídos de um qualquer comunitário espírito, embrulhados na tradição do espírito pascal, impulsionados pela infantil alegria que não se explica. Um ramo de oliveira, temperado a rosmaninho e, na aldeia estando, decorado a "doces" e bolachas... Afinal, para um puto, o que se sobrepunha a qualquer benzimento do ramo, eram os "doces", sacralizados numa boca que os saboreava sem se deter na benta água que regado os tinha. Nos dias que antecediam o Domingo de Ramos esboçava, mentalmente, o desenho do ramo. Teria que ser distinto... A realidade, porém, é que a distinção não ultrapassava a banalidade de anteriores anos. Invadia o olival que se situava nas traseiras de casa, amputava as oliveiras de pequenos pedaços seus e olhava-as com tristeza, desculpando-me de tal acto por restarem imensos ramos ainda. Acomodava-os junto ao muro e descia até aos lados da Chenop. Onde hoje existe proliferação de marca humana, existia um quase selvagem estado de arbustivas formas, no meio das quais se encontrava, aqui e ali, rosmaninho. E outras flores silvestres mais... A casa chegado, chegava, de igual forma, o habitual "raspanete": «Para que é que queres as flores? Não te disse já que o ramo não leva essas flores?». Mas eu insistia... Poderia ser que algum ano a coisa passasse despercebida. Nunca passou...
Entretanto, cresci. Com o crescimento, surgiu outra visão e, com esta, outra consciência. Que para aqui chamada não é... Hoje, já não vou entregar o ramo aos padrinhos. Aliás, desconheço se ainda tenho padrinhos. Mas tenho afilhadas e afilhados! Que persistem no inigualável sorriso da tradição. E, como não devo ser um mau diabo, continuo a ser presenteado com o "ramo", ainda que o dito, em algumas circunstâncias, não seja em formas florais. Talvez seja um utópico, mas os meus afilhados não são uma qualquer "coisa" que ajudamos a baptizar. Nem são o motivo para mais um mega almoço que, com o decorrer dos anos, se esquece. São, mesmo!, aquilo que deveriam ser: os meus segundos filhos. Por encarar a coisa dessa forma, ganho-lhes a amizade e, com sorte, ainda faço uma equipa de futebol. De andebol, já tenho... Os tempos modernos trouxeram o alheamento. Perdem-se as tradições, ocultamo-nos por detrás de materialistas contingências de vida. Mas há gente que persiste na manutenção de ancestrais formas de ligação. Será por isso que continuo a ter os meus Ramos de Domingo?

sexta-feira, 5 de março de 2010

A safra do az-zait

“Olea prima omnium arborum est”

A adversidade carrega consigo, por vezes, a surpresa. O ano não correu de feição a uma das grandes culturas mediterrânicas que herdámos: o olival. Surpreendentemente, ainda que com condições climatéricas aziagas, a colheita de azeitona da última campanha superou, a crer nas notícias provenientes da Cooperativa Agrícola, o expectável para oliveiras expostas ao rigor de um Inverno anómalo (se atentarmos que, no último decénio, tivemos 6 dos anos mais quentes do último século). Ao olhar, em pleno séc. XXI, para esta árvore pela qual nutro uma estranha paixão, não resisto a uns breves apontamentos sobre este ser vegetal híbrido, Olea europaea para os entendidos. Um híbrido ser que, ainda que cantado desde imemoriais tempos («E com um ramo de oliveira o homem se purifica totalmente.» Eneida de Virgílio), com vestígios neste recanto luso desde a vetustez das épocas, elevado ao Olimpo por Gregos, idolatrado por Romanos, popularizado por Árabes, só na história recente teve o seu auge por transmontanas terras. É difícil imaginar a Terra Quente privada de olivais, nas suas cotas abaixo dos 700m. Contudo, os apreciadores do aurífero líquido gratos devem estar à filoxera do séc. XIX. A dita praga da vinha foi o mote para um revestimento distinto das encostas da Terra Quente. Não que já em pleno séc. XVIII não existissem freguesias, como a dos Cortiços, referidas como terras que produziam «azeite em abundância». Não que, na primeira metade do séc. XVI, surjam as primeiras efectivas referências à nobre oliveira por terras transmontanas. Basta crer em João de Barros quando diz «…e muito pouco tempo há que ali se plantàrão as primeiras oliueiras, e agora há muito azeite na terra», referindo-se ao termo de Mirandela. Ou no Contrato dos Maninhos relativo ao termo de Miranda, de 1532, «nos lugares onde isso possa ser, plantar dentro de quatro annos quarenta oliveiras». Contudo, se recuarmos à época medieval, a economia rural estava despida de olivais. Pode dizer-se, sem relutância, que a ementa desses nossos antepassados estava desprovida do tão apreciado azeite. Os diplomas e documentação medieval são quase omissos em referências à oliveira e ao azeite. Predominam as relativas à vinha e aos cereais, nomeadamente no que aos textos das Inquirições diz respeito. E, mais dúvidas houvesse, em nenhum exemplar de forais transmontanos surge o azeite como produto passível de pagamento de portagem. É-me difícil imaginar a vida sem “ua seladinha” temperada com azeite, o de “berdade”, não aquele que nos impõem com galináceos de duplo L. Mais difícil é tragar o obscurantismo em que vive o Azeite DOP Trás-os-Montes. Nada de exclusivo… Não me apetece falar de Terrincho, de Churra Badana, de Batata, de Castanha… Mas apetece-me dizer uma verdade irrefutável: somos incomensuravelmente bons e negamos a exploração do bom que temos!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O dia da Carne Vai

É um dia como outro qualquer... O céu assumiu a apatia do nem chove nem deixa chover (malandrices, apesar do espírito carnavalesco, não são para aqui chamadas)... Dia amorfo este, sem chama, sem o colorido de outros tempos. É por estas alturas que a omissão da fanfarronice me arrefece o espírito. Socorro-me das memórias, e de imagens surripiadas, com a devida autorização do "excelente fotógrafo". Poderia ter descido uns poucos de quilómetros. Mas não há Caretos e "Madamas"... E não há Podence, nem Lamas, nem Macedo, sequer. E não há frio cortante, por muito gélido que esteja o ar marítimo. Faça-se um recuo no tempo... A um tempo em que o Carnaval ainda era Entrudo. Os já por aqui mencionados "peidinhos engarrafados" faziam as delícias dos empertigados narizes. Vem-me à memória o velhinho "Ciclo" onde, numa das suas espartanas salas, um rapazola, hoje verdadeiro senhor macedense, resolveu que haveria de boicotar uma aula de Inglês. O nauseabundo aroma que premiou a atmosfera deixou a professora indiferente, por orgulho, ou por narinas entupidas. Cumprida a ordem de fecho das minúsculas janelas, os meus sensores olfactivos ainda se arrepiam com aqueles 50 minutos de degredo. E a minha memória visual regista aquela imponente figura que, ironicamente, ia repetindo: "What a pleasant smell! Don't you like it?"... A solidariedade fez com que ninguém o tivesse acusado... Cousas de outros tempos... Era um tempo em que os "stourotes" e os "rasca-paredes" mais não eram que uma inofensiva brincadeira que hoje transformaram em algo semelhante a um qualquer campo minado do Afeganistão. Tempo em que o Jardim era transformado no culminar de preparativos de um arsenal único representado pelas "bombinhas de Carnaval". Que eu saiba, nunca ninguém se "friu". Nem quando duas pessoas que eu bem conheço resolveram abafar o som da sequência de "bombinhas" com uma craterazinha aberta em pleno Jardim com recurso a dinamite... Não morreu ninguém, não se registaram feridos e não houve necessidade de chamar o helicóptero do INEM... Já se sabia que o dito das hélices não passava de uma brincadeira de Carnaval... Havia as "caretas" vendidas na Tabacaria, na Livraria, no "Snhô'Iduardo" ou no "Snhô'rmando". De um qualquer polímero que tresandava a plástico e que obrigava a destapar o anonimato de quando em vez. Os "disfraces" eram arrancados de esquecidos baús onde repousavam velhas lendas, mistura de rendilhados ocultados pelo tempo, trapos ultrapassados, "tchanatos" com histórias para contar. No final, ganhava o mais garrido e o mais esteriotipado. E dava a "risa" a todos... Especialmente quando não havia susceptibilidades feridas por ficar "imbuligado" com um cocktail onde entravam farinha, farelos, cinza e água. Parecia que a "sostrice" se assemelhava a medalhas de guerra. Quanto mais "côtras" houvesse para limpar ao final do dia, mais intensa tinha sido a jornada. E havia o terror dos Caretos, nada de etnográfico, nada de manutenção de tradições. Era o terror puro, em versão ligeiramente mais pacífica que uma guerra. Mas havia uma batalha de chocalhos que aterrorizava as raparigas que se refugiavam no primeiro esconderijo que encontrassem. E houve histórias de violência. Como aquela em que alguém despejou água a ferver em dois ousados que subiam pelas paredes de xisto... O que eu gostava era do pânico por que eram tomadas as mulheres. "Fuge, fuge, que já'i bãim!!!"... O fascínio por aqueles seres diabólicos que vinham em desenfreada correria em busca de vítimas superava qualquer medo. Ficava atónito, assistindo ao alvoroço da gente, enquanto aquelas figuras pintalgadas a lã colorida desciam a partir da eira, onde terminava o caminho vindo de Podence. Os chocalhos anunciavam o apocalipse! Um qualquer fim do mundo que eu não entendia muito bem. Tal como não entendia porque o mulherio se agarrava, em suplício, aos putos que circulavam pelas imediações do Cruzeiro. Ou porque, em última instância, se enclausuravam, horas a fio, dentro de perímetro marcado pelo adro. Respeitinho pela infância e pelo sagrado... No final, zarpavam os demónios de volta a Podence e contavam-se macabras histórias de indefesas donzelas que "ium ficar thchêinhas de maçaduras"... Haveriam de ter que dar o chá ao bafejado pela sorte dos casamentos anunciados a partir dum mega-funil, lá para os lados do cemitério... Com sorte, poderiam ter como retribuição uma "cacada", elaborada a partir de telhas velhas, do que se encontrasse, acompanhadas dos meus tão adorados "bulharacos"... Era Entrudo...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Intrudo intrado

Stou mim triste!... Ásti'ano num bou ber os carêtoze. Peis ó que se m'aparece, bierum eis a ber-m'a mim... Ou cousa q'sapareça. Bô, tamém c'o frio que fai, quim quer galderice? As que se botum mêas couratchas im cima dos atrelados é milhor que se cubrum c'ua samarra, c'os homes do tempo dizim que bem puri ua nubada. Num m'spanta, c'até aqui fai um fiazco, que já tibu q'ir pur uns toros pra pôr de strafogueiro, que num há alminha c'aguente. Ó q'm'ássim, inda bem q'inda há uns tchabascos que num s'importum de fazer o bailo. Bá, a berdade é que s'ou stibesse no mêo deis, num m'ingaranhaba. Um copetcho prá'qui, um tantinho de côdea pr'áli, cum cibeco de pita assada ou doutra cousa qualquera, amanhaba-se bem a cousa. Ó depeis era só pintchar prá'zquerda ou prá dreita, c'uas pintcha-carneiras pur'u mêo, acmudaba-se bem o intrudo. À neitinha inda nos astrebíamos a fazê uas cacadas, mas tínhamos q'nos amarrar, pra num nos berim. Mas, cmu'ou dezia, stou mim triste... Ma num é só pur num ber as madamas e os carêtoze! C'aqui tamém hai uas que sa põim mêas couratchas... Pra dezer a berdade, berdadinha, inté s'm'aparece q'stou mêo imbutchinado. E puruquê? Tinha terminado d'ir ber o entrudo à nha terra e num fui. Num s'amanhou a cousa e já num bou botar abaixo o butélo e as casulas secas. Mas já tibu a proba das alheiras, que mim bem me soube o cornitcho e o carólo de trigo do Ti Luís. Ma num é mesma cousa... Tânho cá os mous, mas é cmu se fôsse um caldo desinsaibido, c'o ar num é nada q's'apareça e num tânho carambelo pra'sbarar. Q'sa cosa, hei-d'adbertir-me na mesma! Num há butélo, hadim haber outras cousas mim sabrosas. Q'intrudo é und'um home quer!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Ninguém escreve ao Coronel Porco

Coronel morto, coronel "deporco"... O arraial da matança não terminava pela imposição cruel, mas necessária, de um ferro no pescoço do animal. Tinha seguimento no ritual do desmembrar de um corpo, mesmo que tudo isto se assemelhe a algo macabro. Era assim, é assim, um culminar da lei da sobrevivência, ainda que impressione pela frieza das palavras. E, respeitem-se castradores das tradições ou defensores dos direitos dos animais, o "mata-porco" é um pedaço vivo de transmontanas ancestralidades. Tão ancestrais como retirar a vida a uma alface... Vida que alimenta vida. Difere o processo porque a alface é temperada com sal, azeite e vinagre. A reservada fatia suína para o fumeiro tem outros temperos mais. Resumidos na vinha de alhos para alguns, "adôbo" para os puristas, coisa de somenos para quem não entende patavina do amor dedicado à prévia elaboração de umas raras coisas que aparecem em feiras de fumeiro a preços exorbitantes. Mesmo que aparentem mau aspecto inicial. Mas nem tudo o que tem bom aspecto correspondência tem no inigualável sabor final...
« - Abonda'di o baldu grande! E tchêga-me a bacia d'smalte. Ora probe lá! Tchisq'lo dedo!»
« - Aparece-me-se um cibinho insosso... E ou punha-le mais um tantinho de pimento queimão...»
« - E ó depeis num fica munto picante, or não?»
« - Num s'm'aparece, c'o mou gosta de l'sentir o paladar a tchamar um copito pr'ápagar o fogo.»
Uns dias passados de seleccionadas carnes em banhos, era hora de passar ao manusear das "entchedeiras", um manusear único, sem prévios diplomas para lá do foi "a nha mãe q'mu insinoue". As tripas vão ganhando forma, num arredondado colorido pintado ao sabor das conversas de fazer passar o tempo. Iam surgindo linguíças, o salpicão da língua, os ditos salpicões, as "butcheiras" e os afamados "butélos". E as piadas de ocasião, brejeirices próprias dos distintos formatos que vão adquirindo as obras de arte.
« - Este tem-nu grande! Que mim desimbaraçado debria ser!»
« - Bô, mas quem o'intcheu num le fezu as festas todas...»
« - Bá, bamos lá falar im termos, c'os indezes podim star puri a'oubir à porta...»
Um a um, os exemplares iam enchendo os alguidares, aguardando, pacientemente, a sua vez de entrar na "bara", enquanto se pedia mais um "tóro pra se pôr de strafogueiro". Eram tempos em que os "nob'meses d'imberno" ainda cantavam num desafinado tom equilibrado pelo calor das conversas e pela melancólica protecção de paredes de xisto. Entretanto, haveria de chegar a hora de comer os "ossos da suã" e, num qualquer especial dia, o "cibo" de lombo e as costelas. E que "mim bôs erum"! Acompanhados de umas batatinhas e grelos cozidos "ó lume" no pote.
« - Tchega-te pra lá, c'as tchouriças stão a pingar!»
Depois era tempo das alheiras. A começar pelo ritual de escolher o melhor pão, aquele pão que já só tem existência nas memórias gustativas. Aquele que era amassado ao sabor de um descomunal esforço braçal, levedado sabe-se lá porque artes do benzimento precoce, rezas esquecidas no tempo. Sabia a lenha, a verdadeira lenha alimentada a neve e geadas, seca pelo estio dos três meses de inferno. E era meticulosamente cortado, "nabalhas" afiadas pelo empírico saber de décadas. Descansava nos alguidares, enquanto as mentes se preparavam para madrugar, prontas para a ritualização dos potes aquecidos a lume forte. Coziam-se as carnes, não uma carne qualquer, mas sim as que anónima gente ia deixando, em dias de feira, em forma de gratidão, numa anómala decoração da escadaria de acesso à casa. Coelho e lebre do monte, perú e galinha caseiros, pato e perdiz caçados e, aqui e ali, fruto da exiguidade, um faisão para temperar melhor a calda. Como era reconfortante aspirar aqueles aromas a vida selvagem. As narinas expandiam-se ininterruptamente em busca da melhor recepção daquela orgia aromática. Haveria de se ingerir a sopa das alheiras, um anormal caldo feito de pão regado a inenarráveis sabores. Estômagos recompostos, hora de rechear as tripas, umas compradas no "Snhô'rmando", outras não. Começava-se, invariavelmente, pelos "azedos". Seguia-se aquela mistura desagradável à vista, onde uma pasta com um aspecto a roçar o incómodo ia sendo manuseada pela arte de pares de mãos que se digladiavam numa arena de saboroso lodo de pão e carnes desfiadas. O resultado final haveria de ser compensador. Especialmente pela nova decoração assumida pelo tecto fronteiro à lareira. Quase que religiosamente, um vara de alheiras era reservada para as patuscadas com os amigos do Pai. Uma outra teria como destino o amigo de sempre, o homem que ajudou a retirar-me, artificialmente, do ventre materno, Urze Pires de seu nome. As outras eram para quando apetecesse presentear as papilas gustativas. No meu caso particular, naquelas frias manhãs de Inverno em que aprendi a degustá-las, assadas na brasa, na companhia do calor da lareira e de um café como só a tradição transmontana sabe fazer. E quase me esquecia do ritual da salgadeira. Aquela artesanal arca onde eram espalhados sacos de sal grosso para resguardar os presuntos antes da sua exibição num canto da cozinha. Essa era a única tarefa reservada para o patriarca. Eu olhava, estupefacto, para a forma metódica como ele alinhava aqueles pedaços de carne naquilo que a minha imaginação identificava com um branco e minúsculo lago salgado. Suspeitava que os presuntos e as espáduas estariam a dormir e que, um dia, despertariam de novo, quando fossem encaminhadas para aquele banho feito de uma pasta que incluía pimentão, vinagre e sabe-se lá mais o quê. Haveriam de permanecer, numa espécie de enforcamento, ao calor e ao fumo da lareira. Um dia, estariam prontos para serem lascados e devorados com um naco de pão. E, lá para o Carnaval, haveria de ressuscitar o "butelo", fruto raro numa floresta de "casulas secas"... Um dia, como já pouca gente escreve ao Coronel Porco, houve uns doidos que resolveram reviver o que morto vai estando... "Inda bãe q'inda há alguns tchabascos. É q'um lombinho d'adôbo inda sabe mim bem"...

sábado, 23 de janeiro de 2010

Crónica de uma matança anunciada

“Das carnes, o carneiro; das aves, a perdiz e, sobretudo, a codorniz; mas se o porco voara, não havia carne que lhe chegara.”

Era uma vez… Uma qualquer Sexta-feira, num qualquer mês de Janeiro (ou de Dezembro, dependia das agruras do termómetro). Uma daquelas Sexta-feiras que a memória soube preservar sem precisar o ano. Memórias de uma infância regada a momentos inolvidáveis, merecedores da eternidade das letras. Era o culminar de um ano de “biandas”, de guardar religiosamente as cascas das batatas e outros restos mais, iguarias dos seres porcinos que aguardavam na “loje dus porcos”, na impaciência dos seus inconfundíveis roncos, pela chegada de uma “galdromada” mais. Por detrás do “cancelo”, ficava a apreciar aquele frenesim, assistindo à forma pouco ortodoxa como “imbuligabum” os narizes, peculiar forma de tomada eléctrica, naquele preparado com mau aspecto mas que, afinal, até emitia uns aromas nada desagradáveis. O mesmo já não poderia dizer-se dos restos digestivos dos “laregos”. De vez em quando, era necessário calçar as “galotchas” e pegar numa “bassoura de gestas” e, à “mangueirada”, privar o habitáculo dos dejectos. Sabe-se lá se por sensibilidade em demasia, ganhava amizade aos “recos”. Via-os crescer até estarem “cebados”, ia-lhes dando umas palmadas nos costados e, quando me incomodavam enquanto ajudava a proceder à higiene do seu lar, dava-lhe uns “piparotes” nas orelhas. Só para lhes mostrar quem mandava na pocilga… Depois, chegava a fatídica Sexta-feira. Passava o dia a despedir-me dos bichos, numa incessante romaria que me fazia descer a escadaria das traseiras, num percurso até à “loje”. E, por vezes, dava por mim a “spremer a lágrima” porque pensava que, no dia seguinte, àquela hora, os “roncos” já estariam silenciados, os narizes de tomada ao avesso. Depois, resignava-me, começando a pensar nas alheiras, nos salpicões, nas linguiças, no presunto. Enxugava a face e pensava que “pró an’há mais”… Nessa Sexta-feira, já se sentia a azáfama que, no Sábado, revolucionaria o quotidiano caseiro. A única coisa que contrastava era a calma do meu Pai perante o insistente questionário da Mãe, sempre eléctrica, sempre a anunciar a calamidade de não estar tudo pronto para a degola.
«- Sim… O banco para matar o porco já está lá em baixo… E a escada para o pendurar também… Sim… Já está tudo combinado com o matador» …
E era hora da deita, que era preciso madrugar. O dia acordava como acordavam os dias da época. A saudação matinal era de um frio cortante, com o testemunho branco das baixas temperaturas nocturnas num apelo a um retorno ao quente dos lençóis. Havia a compensação da enorme lareira, acompanhada de potes. Mas era o dia do “mata-porco”… Qual D. Sebastião surgido do nevoeiro, lá vinha o “Sôr Ablino”, munido do seu facalhão, com aquele sorriso maroto de quem se apresta para mais uma tarefa banal. Bem cá no íntimo, desejava que ele não aparecesse. Mas aparecia sempre… E eu voltava a pensar nas "alheirazinhas"… A sua aparição era o sinal de partida para o ritual. Os “homes” atavam uma corda à pata do suíno e arrastavam-no através da adega até ao exterior, enquanto ele se debatia para que o não retirassem do seu mundo. Emitia uns guinchos que me constrangiam a recolher-me a um qualquer local onde pudesse obter um pouco de silêncio. Era difícil, porque aquele som ensurdecedor ecoava pela vizinhança. Deve ter sido o meu trauma de infância… Quando a paz regressava, saía da minha momentânea clausura para assistir ao desenrolar do longo dia que se avizinhava. A começar por aquele rodopiar de um braço, qual fenómeno vampiresco, no interior de um alguidar cheio de sangue do animal, misturado com o indispensável vinagre, para não “tralhar”. Cumpridas as formalidades de confirmação do óbito, através do saber empírico do “Sôr Ablino”, chegava a hora de impregnar o ar com os aromas provindos do chamuscar da pelagem do animal. Inicialmente, ainda se usava a palha. A evolução trouxe o maçarico e a tarefa ficou mais facilitada. Especialmente quando tinham que se arrancar as unhas ao porco. Mais tranquilo, assumia as despesas de ajudar, munido de uma pedra, ou de um pedaço de cortiça, à raspagem da pele queimada e à posterior lavagem. Interminável, parecia-me, até ver aquele ser prostrado em cima de um banco, quase alvo como a geada matinal. E as mãos geladas, tão geladas, que passava por um breve desconhecimento acerca de serem as mesmas uma extensão do meu corpo ou daqueloutro que jazia em exposição pública. Era chegada a hora de uma outra exposição, a das entranhas. Aquela faca de gume afiadíssimo deslizava, cirurgicamente, através do ventre, libertando uma neblina animal, cheiro a morte, ou a podridão, à medida que mais fundo penetrava. As mãos iam-se misturando na gordura, aproveitando o momento para as trazer de volta à vida, tal o gelo que delas se tinha apoderado. Era tudo metódico, bem gizado, tripas para um lado, vísceras para outro. As que não serviam, eram atiradas aos biltres, a “canzaria”, vadios e nobres, que se aglomerava à espera do melhor pedaço. Que, nesse tempo, a anormalidade era não ver cães a vaguear pela rua, donos do seu território, amigos de brincadeira. Todos tínhamos o nosso rafeiro, todos eram rafeiros, de raça ou não. Eram cães… O “Sôr Ablino” era um tipo às direitas. Sem excessos de gordura, um pouco pau de virar tripas, até. Mas era “rijo cmó aço”! Transmontanamente rijo… Até no vocabulário… Especialmente aquele com que brindava os atrevimentos caninos.
«- Starrafoda ó cutcho! Infio-te já o nabalho pur’as goelas!»
«- Ó Sôr Ablino, olhe a linguagem, que estão aqui garotos!»
«- Atão que caralhitchu quer? De piquenino é que se troce o pipino! Bá, num mo diga que num oubim uas caralhadas de bez im quando?»
A indignação, particularmente a com proveniência na religiosidade e bons costumes femininos, não obstava à insistência naquele vocabulário por parte do “Sôr Ablino”. E eu divertia-me, com aquele aparente vulgar linguajar, fruto de alguma genuinidade transmontana. Afinal, quando ia à aldeia, a cada cinco palavras, ouvia seis “starrafoda” e afins… Entretanto, o mulherio aguardava, impacientemente, pela oportunidade de zarpar até ao ribeiro, lá para os lados de Nogueirinha, à saída de Macedo, onde iriam, nas límpidas águas que hoje não são, lavar tripa e tripa virar. Os “homes” ficavam a pendurar o “reco”, a discutir as qualidades do dito.
«- Mim bô bitcho c’aqui botou! Boas biandas debe ter mamado, o reco»”…
Aproveitando o interregno para o respectivo aquecer de goelas com um copito. E os putos, os putos como eu era puto, limitavam-se a ser putos, como um puto deveria ser. Olhavam, atónitos, para o cadáver suíno, sentiam um arrepio na pele e rapidamente regressavam às corridas de carrinhos de rolamentos, ou a qualquer outra brincadeira, que podia incluir uns “biqueiros nas canelas” atrás de uma bola ou um “índios e cobóis” com “uas lapadas nas bentas” de permeio. E a avó, a omnipresente figura da avó, a ancestral tratadora dos “rijões” e dos potes, dos “strafogueiros” e “gabelas de lanha”…
«- Andadi, mou filho, que já bã’im aí as mulheres de labá’as tripas, queitadinhas, tchêas de frio. Laba lá as mãos pra ires prá mesa!» …
E a mesa, nesse dia, tornava-se pequena. Pela quantidade de comensais e por igual quantidade de conversas imperceptíveis para um puto. Conversas cruzadas, travessas e pratos cruzados também, corrupio de gente misturada com os aromas próprios do “mata-porco”, cheiro de “rijões” irmanados com aromas de vísceras assadas na brasa, calor humano incrementado pelo emanado da indescritível fogueira, estridente gritaria.
«- Trai’í maiz’um cibo de batatas!»
«- Abondá’í maiz’um tantinho de binho!»
«- Pintchou-s’o copo do Senhô’rmando. Amanha-l’outro!» …
E “amanhaba-se” o estômago enquanto se combinava o “desfazer do porco” no dia seguinte. Dia seguinte? Amanhã continua a epopeia, que já vai a matança longa…