Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tradições com atraso...

(Antes de ouvir, e caso ainda não o tenha feito, desligue, p.f., o som da Cousas Rádio...)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Juventude irrequieta

Um pouco de revivalismo... De um tempo em que o país ainda parava para assistir ao Festival da Eurovisão ou para ver os Jogos sem Fronteiras. As ansiedades e desejos da passagem de ano esmoreciam ao sabor do estômago cheio, combinações feitas, ar gélido por companhia, instrumentos artesanais preparados no arcaísmo do tempo... E vozes convencidamente afinadas. O encontro não tinha hora marcada, os gorros e cachecóis iam pintalgando o parque infantil à medida que os deveres do jantar iam finando. Não se contavam cabeças, sabia-se instintivamente que já estavam todos. Caso não estivessem, haveriam de encontrar os restantes. Quando o cansaço se apoderava da visão do bafo quente que desenhava efémeras nuvens na atmosfera fria, era hora de olhar em redor, tentando descortinar as casas que apresentavam vestígios de gente. Não se sabia por onde começar, mas o início tinha sempre lugar. "Ainda agora aqui cheguei, pus o pé nesta escada...". Os improvisados ferrinhos, o tambor desajeitado, e outras coisas mais, inventos de ocasião da preciosidade infanto-juvenil. E as vozes... Ah, as vozes! Aquelas certinhas mas desafinadas vozes, interrompidas por ocasionais risadas a cada engano. Como ainda não havia o conceito de júris, importava apenas o resultado final, depois de mais um "Quem diremos nós que viva; Por cima de uma azeiteira; Viva lá a dona da casa; Que é uma boa cozinheira"... "Quem diremos nós que viva; Nós não queremos ficar mal; Vivam os patrões desta casa; Vivam todos em geral"... Viesse de lá o sorriso dos moradores, acompanhado da preciosa moedita de "cincroas" ou "cinco paus". "Quanto é que já temos?"... Paradoxalmente, a suprema experiência advinha de não recebermos nada pelo esforço, para lá de uma porta que se mantinha fechada. Era motivo mais que justificável para a vingança... "Estes barbas de farelos; Não têm nada para nos dar; Só têm uma arquinha velha; Onde os ratos vão...(coisas fisiológicas, entende-se)"... Acompanhada de estridentes gritos e arremessos contra a dita porta que não se abria. E um "pernas, para que te quero". Ajudava a aquecer a noite fria... No final da jornada, qual miudagem do "Once upon a time in America", secretas reuniões de partilha do bolo, munidos de vontade que o dia seguinte chegasse, orgulhosos da receita nocturna. Eram as Janeiras, os Reis, ou o que quer que fosse. Era uma forma de partilha de um conceito de amizade que se esfumou, cumplicidades geradas num materialismo imberbe... Aquela mesma cumplicidade com que vou sendo presenteado, à distância de um telefonema... "Meninos, venham! É a avó! Vai-nos cantar os Reis!" E canta, naquela pureza encontrada em voz de avó. Inolvidáveis minutos de emoção transmontana...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cousas transmontanamente sentidas

A D. Aldina exala a simplicidade do ser. Transmite muito mais que a imagem da transmontana trabalhadora, atinge o patamar da genuinidade, deixando transparecer um universo distinto que vai muito para além das suas mãos privadas de impressões digitais por excesso de labor. A generosidade que se esconde por detrás de um sorriso tímido deixa-nos mergulhados num mar de orgulho transmontano. A D. Aldina representa muito mais que a mulher da Amendoeira que luta pela preservação das tradições. É a própria tradição em si! Bendita MULHER! Hoje, tal como prometido, na passagem pela cidade adoptiva, desviei um pouco o trajecto para recolher aquele que haveria de ser um divinal lanche, mimoseado com um soberbo folar fora de época, quentinho, fofo, delicioso, manjar dos deuses. Não com um sabor qualquer... Sabe a terra, a suor, a tradição, a pedras, a neve, a frio, a lareira... Sabe a abandono, a esquecimento, a helicópteros que não vêm, a urgências que fecham, a auto-estradas atrasadas... Sabe a pureza, a genuinidade, a único, a autêntico, a saudade... Cada pedaço exterior tostado sabe à canícula dos três meses de inferno, os nove de Inverno estão lá desenhados a suculentos círculos e rectângulos do mais puro fumeiro. É raro sentir o estômago ligado à alma... Ou a própria alma, ressuscitada por breves instantes num ambiente de excesso de ácido clorídrico. Como se a cada movimento dos músculos faciais, maxilares de encontro a sabores únicos, surgisse um inverosímil super-poder de teletransporte, expressão máxima de sonhos de pálpebras cerradas com suspiros de permeio. E à noitinha, repasto concluído, renovação de visita no húmido frio porque as "bolas sem carne" ainda estavam no forno na primeira incursão. Inundaram-me o carro de aromas exóticos, provenientes de uma qualquer ilha, talvez a do Fidalgo, perdida nas gélidas águas do Azibo. Há mundos assim... Por lá estarei mais logo, assim espero. No reconforto de um fim-de-semana que se prevê polar. É dessa atmosfera que cura as carnes do mata-porco que tenho saudades. Sair da cama e deparar-me com o choque térmico, remeter-me à restrita área em redor da fogueira, o vestuário impregnado de aromas a lenha queimada. Calcar a terra dura, fruto da agrestia nocturna. Ver o tanque transformado numa improvisada pista de patinagem lilliputiana. Recusar-me, inocentemente, a deslocar-me 50 metros para repor um "strafogueiro". Mas sair, sentindo o paradoxal prazer de me internar numa arca frigorífica externa, só para tomar o cafezinho que poderia tomar em casa... E, quem sabe, ainda não sei como param as modas, talvez se repita uma apanha da azeitona. Saída madrugadora, olhar perturbado pela alvura matinal, sonos mal dormidos, despertados pela brusca queda do gelo acumulado na ramagem das oliveiras enquanto as fustigamos com umas "varejadelas". Saem os músculos doridos, sai a mente enrijecida. E saem também os frutos que hão-de facultar aquele tempero único, companheiro inseparável de batatas, saladas e filiais cozinhados. Frutos não haverá de outras tentativas de manutenção de tradições cerceadas por normas provindas da anormalidade de quem desconhece o genuíno sabor da terra. Não pelas instituições, mas porque, simplesmente, este ano não há... Mas há-de haver de novo, faço parte de um grupo de tolos que apreciam o que é bom. Noutro qualquer ano, com mais disponibilidade... Ficam as saudades... E o desejo de que alguém se lembre de me convidar para um "mata-porco"... E para a "sopa das alheiras"...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crónicas do espírito natalício

Era uma vez... Um mundo onde a existência de grandes superfícies comerciais era uma utopia. Onde o marketing agressivo se resumia a umas "imbutchinices" entre os proprietários dos "sótos" onde se vendia de tudo, bens perecíveis numa anómala e harmónica combinação com combinações têxteis. Quando passo no "sóto" do "Sô'rmando Mendes" ainda consigo descortinar imagens apagadas pela corrosão do tempo... Entretanto, numa das mais arrojadas estratégias de merchandising de que há memória, uma marca que, no seu país de origem é suplantada largamente pela concorrência, acabou por constranger o mundo ocidental e, paralelamente, banir da memória "tuga" o "Maninu Jasus". Fomos na onda de acreditar na miscigenação da lenda de um benfeitor bispo "turco" com uma tradição pagã de origem nórdica. Juntaram-se-lhes uns pozinhos da imaginação de um professor de literatura oriental e grega que se lembrou de escrever "A visita de São Nicolau". Temperou-se o cozinhado com a genialidade de um publicitário dos anos 30 do século passado, que decidiu fazer um "remix" onde entrou o velhote de barbas brancas da lenda nórdica com o homólogo bispo de Mira, vestindo o híbrido ser daí resultante com as cores do tal refrigerante. Estava germinado o tal ser que acabou por substituir o "Manino Jasus" que me trazia as prendas na madrugada de 24 para 25 de Dezembro: o "Santa Claus" da mesma latitude do lado de lá do Atlântico, "Père Noël" francófono ou aquele que ainda nos hão-de impor por via de "acórredus ôrtuôgrráficuôs", um tal de "Papai Noéu". Não discuto a simpática figura, mais as Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Blitzen e Donder que "gramam" com o peso do trenó. A mais conhecida rena, "Rodolfo do Nariz Vermelho", não passa de um êxito musical do "cóboi" cantador dos filmes "Faroeste B" que antecederam o sucesso de "Roy Rogers"... Não me vou imiscuir no imaginário infantil... Mal ou bem, fui cúmplice, nos tempos em que a ingenuidade dos meus "pirralhos" tinha que ser alimentada... Ainda que me questionassem como é que um ser com excessos lipídicos cabia pelo orifício da chaminé. E porque não apagávamos a lareira... Lá lhes dizia que era a magia do Natal e que a barriga proeminente não era problema. Está bem, está... Então o Obelix também poderia entrar pela chaminé? Não!!! Porque o Pai Natal trazia prendas e o inseparável amigo do Asterix ainda nos deixava cair um menir em cima da "tola"... E depois, um dia, numa época em que estava a crescer lateralmente, achei que poderia incarnar (ou encarnar, dependendo dos dicionários, sigo a derivação latina) a mítica figura do ser que vestia da cor do emblema representado pelo Rafael Corujo. Fiquei frustrado porque, por muito que tenha treinado o "ôh, ôh, ôh", a minha bailarina sobrinha, ainda na sua tenra idade, achou que os olhos do "parvo" vestido de encarnado eram parecidos com os do "Ti Ula" (a forma carinhosa pela qual o "Cavaleiro Andante" é tratado pela "sobrinhagem" e da qual não prescindo, epíteto inventado pelo linguajar precoce da minha "Benanes"). Ainda pensei em fazer de "Manino Jasus" mas já não havia palhas que suportassem o excessivo peso, e o simpático velhote de barbas brancas já o tinha, definitivamente, substituído como portador de prendas natalícias. E hoje está tudo adulterado pelo consumismo galopante. Aparece agora uma publicidade que sugere que facultemos umas férias ao Pai Natal, feita de imagens com espírito veraneante. Pelo andar da carruagem, tal a precocidade temporal com que as "compras de Natal" começam a invadir-nos os lares, não me admiro que, mais ano, menos ano, enquanto aprecio o tostar das praias "tchêinhas" de iodo, me apareça um "ôh, ôh, ôh" a invadir-me o sossego... Tenho saudades do espírito natalício que reinava na época em que as montras só eram decoradas uma semana antes da Consoada. E das incursões que, invariavelmente, me conduziam à aldeia, para junto dos do "mou sangue". Reinava uma atmosfera onde o gélido ar era compensado pelo calor do ambiente que, sabe-se lá porque artes mágicas, pairava no ar. Havia efusividade a cada esquina, a cada invasão ao monte em busca dos "tóros" para a fogueira de Natal. Bastava a simplicidade das tabernas-vende-tudo do "Ti Luís" e do "Sô Zé Pinto" e dispensavam-se miscelâneas publicitárias de "Continentes-Jumbos-Pingo Doces-Intermarchés"... Da mesma forma que, em Macedo, mais à esquerda, mais à direita, ia dar-se ao "Manel Mascarenhas", ao "Armando Correia", ao "Eduardo Velhinho" ou à "Tabacaria do Maldonado". Ou, mais tarde, à "Libraria"... O mais barato estava ali à mão de semear, e o mais caro também. E havia sempre um sorriso de troco a cada compra. O dia de Consoada ainda não era o tal que serve para a exaltação do poder da carteira. Mesmo que, por uma questão de sobriedade, me deixassem as melhores prendas em Macedo, adorava os presentes que o "Manino Jasus" me deixava ficar, em Lamas, no sapatinho (o dito ficava, religiosamente, repousado durante a noite à espera dos encantos da manhã do dia de Natal). Só nunca percebia muito bem porque apareciam uns papéis do Santo António, da Rainha Santa Isabel ou do Camilo Castelo Branco no sapato. Especialmente porque nunca constaram da lista que, com a devida antecedência, elaborava, não fossem os "correios" atrasar-se na entrega. Por mais que tentassem explicar-me a coisa, acabava sempre por questionar o facto da indisponibilidade temporal do "Manino Jasus" para gastar, em prendas, o dinheiro que me deixava no sapato. Preferia "bombokas" a um estúpido papel esverdeado-alaranjado-azulado que não me deixavam ir esturricar em laranjadas, gasosas e partidas de matraquilhos. Imposições dos progenitores à parte, fica a lembrança de uma semana mágica (não de umas largas semanas desprovidas de magia, invadidas por uma atroz publicidade que, chegados ao Natal propriamente dito, já vomitamos o "bolo-rei mais barato" das redondezas, arredores e limítrofes). Uma semana que tinha o seu epílogo numa celebrada reunião familiar (com espírito familiar propriamente dito), onde o bacalhau, os rábanos, a couve e as batatas sabiam a... bacalhau, rábanos, couves e batatas. Onde havia lugar à degustação daquelas coisas doces que iam enchendo os receptores nasais no decorrer da tarde, enquanto se fazia uma pausa no "rou-rou", na "macaca" ou no "arranca-cebada". E onde, após uma ceia feita de ancestrais histórias e piadas repetidas vezes sem conta, se passavam uns inesquecíveis momentos, em família, a jogar ao "raspa", com uma artesanal "piúsca" feita com a dedicação do "Ti Fanano". E depois havia a ida à Missa do Galo, rezada com devoção pelo Padre Quina e acompanhada pela desafinação encantadora de um "neite f'liz, neite f'liz". E o ritual de, terminada a celebração, se dar o ajuntamento da comunidade em volta da fogueira, antes da recolha ao aconchego. E à "tchigada do Manino Jasus que trai as prendas"... Maldito consumismo...

domingo, 29 de novembro de 2009

Nim d'aprupósito!

Muito recentemente, ao abrigo da pesquisa de outras "cousas", fui dar de caras com uma dissertação apresentada como Tese de Mestrado em Linguística à Universidade do Minho. Versava a dita sobre o "falar da região da Terra Quente" e a "cousa" despertou-me, naturalmente, a atenção. Como somos um concelho com umas especificidades muito próprias, caso a Tese remetesse para o "falar da região da Terra Fria", a "cousa" geraria idêntico fenómeno. Penso que já por aqui disse que o concelho de Macedo é um género de hermafrodita edafoclimático, parte Terra Fria, parte Terra Quente, parte Zona de Transição. E ainda temos um "umbigo do mundo" e duas serras acima dos 1000m, uma a norte e outra a sul, para confundir mais a coisa. E um microclima encravado na freguesia de Sesulfe que origina uma "pinga" de se lhe tirar o chapéu (ou, neste, caso, a rolha) e outro, lá para os lados do noroeste concelhio, de onde sairia a rima "De onde são as uvas que tão bons vinhos dão? Arcas, Nozelos e Vilarinho de Agrochão". Acrescentando-lhes a ilha ambiental que representa o tão nosso Azibo ("tão nosso" porque vou ouvindo e lendo "alguas cousas" que o fazem derivar para um concelho do setentrião). Como em termos geográficos, ou se cai para um lado, ou para outro, estamos incluídos na Terra Quente, e não há discussão. Mesmo que, fazendo uso do conterrâneo Pires Cabral, nem que o diabo viesse ao enterro um habitante de Soutelo Mourisco, Bousende ou Murçós ficaria convencido que faz parte da Terra Quente. Mais não fosse, pela "carambina", pelos "candiólos" ou pelas "scarabanadas". Mas pronto... Também temos Pauliteiros e não fazemos parte da Terra de Miranda... Retomando a Tese e o falar... Vem agora a Associação Portuguesa de Linguística a atribuir o prémio de Melhor Trabalho de Português a um tal «Unidades e Processos Fonológicos da Região da Terra Quente: contributos para a Linguística Forense». Soou-me a familiar... E não é que é a dita Tese que tanto tinha enchido de orgulho o meu pulsar transmontano? E que, para lá dessa particularidade, ainda me facultou a possibilidade de diminuir um pouco mais a minha ignorância? Particularmente no que respeita a algo que, há cerca de três meses, transmitia com paixão ao grupo no qual estava inserido, numa "tertúlia de copos e lembranças de velhos tempos": vamos preservar o "Dialecto Transmontano"? Fui olhado como se tivesse descoberto, casualmente, a pólvora. Mas não... Já no séc. XVII, o emigrado Manuel Faria e Sousa dizia, na sua «Epitome de las Historias Portuguesas», que «Los transmontanos hablan nuestro idioma con grande corrupción». Não sei o que o "Manel" queria dizer com "corrupción" mas, com ou sem a dita, o que os transmontanos falam é Português escorreito, com umas derivações que não se restringem à fonética. Já o grande Leite de Vasconcellos, a finalizar o séc.XIX, nos legava, no seu "Mapa dialectológico", as diferenças que representam o falar transmontano (e ainda lhe acrescentava um subdialecto, ao qual apelidava de "Falar de Macedo e Mogadouro"!). Caso algum interessado pretenda perceber o alcance da existência de um dialecto transmontano, basta fazer uma incursão a algumas aldeias e abeirar-se de algum ancião. Ou, caso não se queira dar ao trabalho, poderá dedicar uns parcos minutos às boas-vindas das Cousas... Caso opte por esta alternativa, perderá, contudo, a oportunidade de provar, in loco, os frutos das tradições transmontanas. Algo que, a manterem-se as tendências dos últimos anos, há-de ter o mesmo destino que teve a tradição da cultura da seda. Já não hão-de ficar nenhumas ruínas de um qualquer "Real Filatório", mas hão-de restar outro género de vestígios, mais não seja por via das novas tecnologias digitais. A génese das "Cousas" está, precisamente, aí. Nasceu "pra botar ó mundo as cousas que bão sendo albidadas". "Pra q'num s'albidim"... Mesmo que, por qualquer eventualidade em que a persistência finasse, finassem por inerência as "Cousas", vai surgindo quem aprecie a falta de "erudição" na forma de um "parolo" falar para que a mortalha não surja... Particularmente para o tal Dialecto Transmontano ou, como dizem os meus descendentes, de forma orgulhosa, quando me apanham com expressões que me brotam dos genes: «- Estás a falarE à MacedUE!!!». «- Cum munto gostoE!». O mesmo gosto que me adveio do incentivo que representou um recente mail: «Para mim sem dúvida o uso daquelas palavras que eram a expressão dos nossos antepassados deixam-me fascinada». Com "compensação" infeliz no desgosto dos autóctones que me dizem não perceber metade das boas-vindas... Entre "mortos e feridos", se não se salvar o Dialecto Transmontano, que se salve, "ó menos", o Fumeiro Transmontano. "Caralhitchas, q'mim bôs stão o butelo e as casulas secas!" P.S. - Já quase me esquecia de duas "cousas"... Dar os parabéns à Joana Aguiar (Escola Superior de Educação do IPB) pela magnífica Tese! E agradecer à "minh'ábó" por me ter ensinado o que era uma "gabela de guiços", um "carólo de centêo", um "cibo d'áuga", e um "assenta-t'aqui nu mou colo que te quero intcher de mimos". E pelas "cincrôas" que me dava para "ua chicla" ou "prós doces", pela paciência com que aturava as perguntas da impaciência de menino enquanto íamos "prá Canêlha". E agradecer, de igual forma, ao "Ti Guardiano", que sempre vi como o "bó" que nunca tive, por ter tentado ensinar-me a diferença entre "ua aixada e um satcho, entre ua fouce e ua seitoura", "cmu se botaba um baraço n'ua saca de batatas" e, já que menciono batatas, por me ter mostrado o prazer de substituir um copo de refrigerante por "ua pinga no mata-bitcho d'árranca"... E que, seja lá o que isso for, descansem em paz dos trabalhos que tiveram em vida. E dos ensinamentos do Dialecto Transmontano, também...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"O Recordar das Tradições"

Longe vão os tempos das "ranchadas" de segadores que se acumulavam pelas ruas da então vila, a partir, sensivelmente, do S. Pedro. Em forma de equívoco espacial, foi-lhes dedicada uma praça. Antes esta dedicatória que serem votados ao esquecimento... Afinal, eram estes forasteiros que davam vida e um colorido diferente à vila, com a sua algazarra de cantares, entoados ao som de concertinas e demais instrumentos musicais alheios à pacatez macedense de então. Mesmo que a sua acumulação se desse noutras praças que não aquela onde lhe foi prestada homenagem, nomeadamente a das Eiras, a Agostinho Valente ou a Manuel Pinto de Azevedo. Vem isto a propósito da persistência das gentes de Morais na recriação de uma tradição que foi substituída pela maquinaria, pela baixa rentabilidade e pela consequente deserção de gente para outras paragens. Tenho pena de não poder dar a minha contribuição presencial. Mas não deixo de me congratular por esta batalha do "recordar das tradições". Porque o sangue transmontano só continuará a correr nas veias caso se mantenha a unicidade e os traços distintivos de um povo e das suas tradições. Como escreveu Barroso da Fonte no Notícias do Douro, «Ser Transmontano é, verdadeiramente, sinónimo de qualidade certificada.» Essa qualidade é atestada por todas as manifestações de um sentir diferente, de um pulsar distinto e de um carácter único, desenhado a séculos de isolamento. Por isso é tão importante este resgatar de tempos esquecidos. Para que os que constituem a descendência deste carácter marcado a xisto e granito não esqueçam que os calos deixados hoje por uso excessivo de "gameboys", "playstations" e "x-boxs", eram dantes fruto de actividades como a segada, a acarreja e a malha. Os comandos eram desenhados a outras cores, com ausência de botões e fios para ligação a consolas ou computadores. E, para os que podiam, não fosse o diabo tecê-las, havia umas coisas semelhantes a luvas de boxe arcaicas, às quais davam o sugestivo nome de dedeiras. Mas já existia, então, uma espécie ancestral de "transformers": os carros dos bois ou das burras. Podiam alterar-se, consoante precisassem de "estadulhos" ou não. Não tinham portas, nem motores, nem estofos em pele. Também não possuíam travões de disco nem correias de distribuição. E o único equipamento de som com que vinham equipados era a saudosa canção melancólica do chiar das suas rodas, que se ouvia ao sabor da ausência de ar condicionado, enquanto o ar forçado a calor estival percorria a face e o tronco desejosos de um mergulho fresco...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Cousas sanjoaninas na terra adoptiva

Mesmo não estando presente a alegria de outros anos (por motivos ligados, infelizmente, a ausências familiares para a eternidade), ainda assim a catraiada deve manter-se alheia ao infortúnio e há que manter a tradição (pelo menos) do jantar de S. João, inundado pelos aromas oriundos da selvajaria anual contra os cardumes ricos em Omega 3. Ou, dito de forma mais simples, as sardinhas. Não há rua ou beco onde as brasas não fomentem a elevação da fumarada que há-de deixar as vestes impregnadas de um bombástico perfume, onde se misturam essências de pimentos, febras e sardinhas. As ditas, frescas e gordinhas, vão assando ao ritmo dos sons que divergem dos diversos bailaricos que inundam a noite sanjoanina, intercalados pela aparente disputa pela supremacia numa espécie de batalha aérea, onde foguetes vão, aqui e acolá, confundindo bandos de aves aturdidas. A confecção não tarda muito, iluminada pela quantidade de balões que se elevam, como que a quererem fazer inveja à Ursa Menor e restantes acompanhantes na esfera celeste. Alguns deles precipitam-se numa abrupta queda, depois de um fenómeno de auto-combustão, mergulhando aleatoriamente, não deixando de gerar alguma apreensão sobre a sua capacidade de apelar à presença de um qualquer corpo de bombeiros... Ontem vi, pelo menos, três deles nesse mergulho vertiginoso. O primeiro, aterrou violentamente num campo de milho, tendo o segundo assustado os que na rua passavam. Quanto ao terceiro, não consegui descortinar se finou antes do impacto terrestre... Podem representar algum perigo, mas a verdade é que dão um colorido diferente a uma noite diferente... Após o repasto, devidamente regado para melhor digestão, é hora de colocar a conversa em dia e deixar a miudagem divertir-se um pouco. Como manda a tradição, não pode haver S. João sem caldo verde a horas tardias e sem uma ceia onde a carne substitui o peixe do jantar. Apenas e tão só, para mais um copo... Estômagos acomodados, é hora de regressar ao leito, com os neurónios ligeiramente atordoados pelo consumo excessivo de sardinhas... Ops...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Resquícios Pascais mais Pascais

Mesmo que a descaracterização de Macedo me influencie negativamente, não resisto a aventurar-me pelo IP4, especialmente em datas marcantes. Afinal, as origens são sempre as origens e é nelas que me revejo sempre que sinto necessidade de repor energias. Não só as que facultam um aliviar das vicissitudes da vida no litoral, mas também as que confortam o estômago com os mimos que só em Trás-os-Montes é possível obter (está bem, isto é um transmontano a "botar faladura")... A começar pela ceia de Quinta-feira, confortavelmente instalado à lareira, na companhia de um folar quentinho como aperitivo, seguido de um saboroso cabrito grelhado, devidamente regado com uma pomada aconchegante. Por respeito pelas tradições, a Sexta-feira Santa foi dia sem "tchitcha". Ainda assim, o bacalhauzinho assado na brasa pela avó e o arrozinho de marisco fantasticamente elaborado pela cunhada constituiram uma ementa que fez esquecer a "penitência". Para melhor digerir os abusos, nada como rejuvenescer com uma incursão à Serra de Bornes, mesmo que no seu dorso já tenha uma nova plantação de "mega-vegetação branca dotada de apenas três ramos". Quem deve ficar possesso com a proliferação de "ventoinhas gigantes" são os incendiários. Caso a saga continue, pegam fogo a quê?... Pode quebrar-se um pouco a estética mas o resultado final até não destoa em demasia do ambiente único da serra. Ficaram a ganhar as acessibilidades, pelo melhoramento que tornou o estradão numa pista onde não se sente muito o desconforto de uma via em terra batida. O único óbice foi a repentina queda de neve acompanhada por um vento feroz. Não fosse o diabo tecê-las, o mais prudente foi efectuar uma inversão de marcha e regressar ao local de partida, onde ainda era possível vislumbrar algum sol. Sábado foi dia de reunião familiar e de alterações profundas na rotina de silêncio. Para fugir ao tradicional em época pascal, o jantar teve a surpresa de umas "casulas secas" com butelo, trazidos da raia pelo mais velho do clã. Com os gritos dos mais novos a entrecortar as conversas dos "tios", renovaram-se votos de continuidade da coesão familiar e formularam-se desejos de sucesso e todas aquelas coisas bonitas que trazem as reuniões familiares. Devidamente acompanhados pela novidade da prova de um vinho elaborado no país latino mais a leste. A noite prolongou-se, entre conversas e "mais um copo" até à hora em que os pássaros iniciam o seu concerto matinal. Obviamente, o Domingo de Páscoa teve direito a almoço tardio e a alguma indisposição (coisas da idade e dos fantásticos - enquanto duram - abusos nocturnos). Nada que obstasse a uns reconfortantes nacos de posta na brasa... Ou a uma posterior merenda em casa do compadre, marcada por umas costelas e um lombo de "adôbo". Recomposta a ressaca, foi hora de repor os níveis de descanso para a viagem de regresso. Descanso esse que se prolongou de tal forma que, este ano, a única recordação da Visita Pascal se resume à audição do sino que anuncia a chegada dos visitantes que vêm recolher o envelope...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Páscoa Macedense

E "prontos"... Está a terminar mais um período de abstinência e estou certo que o coelho, após a entrega dos ovos, passará a dedicar-se, de novo, à "má vida". Não vou encharcar o blog com o significado da Páscoa, seja ele numa perspectiva religiosa, seja numa outra qualquer mundana. A verdade é que o período pascal de três dias que se aproxima representa mais uma oportunidade para regressar às origens, rever o meu mundo e repor os níveis de "açucar e gorduras" no sangue. Há uns largos anos, este dia representava uma azáfama na vida caseira. Era preciso "partir as carnes pró folar"... Soltava-se a "espádua" para se partir em pedaços, resgatavam-se os salpicões e as linguiças e não se podia esquecer o "cibo de tchitcha gorda". A Sexta-feira Santa era dia de madrugar. Acendia-se o forno a lenha, amassava-se a farinha, os ovos e o azeite, deixavam-se a levedar, devidamente tapados com cobertores velhos, daqueles que, na cama, possuíam a capacidade de picar até a mais insensível das peles. Por enorme que fosse a tentação, não se podia petiscar nenhum dos apetitosos pedaços de carne... Era dia de abstinência... Mas valia a pena a espera. O resultado final era sempre apetitoso. Sei que este exemplar é uma repetição das aventuras do ano passado, mas não tenho outra para aguçar o apetite... E como este ano não fomos afectados pela "panca" das "amassadeiras"... De qualquer forma, sei que hoje anda alguém às voltas da folarada e que, mais logo à noitinha, quando chegar à casa materna, hei-de ter à espera a minhas "bolas", cozidas no interior de umas velhas latas de atum, reaproveitadas, há longos anos, para o efeito. Nos tempos em que o dito atum foi consumido, era obrigado a ir à Missa de Páscoa. Por "incompatibilidades clericais", há imensos anos que não repito essa manifestação da mais pura religiosidade. Mas não deixo de recordar, com bastante agrado, a representatividade que essa rotina detinha para o agregado familiar. O que não apreciava muito era a ementa que se seguia à Missa, invariavelmente composta por um fantástico (actualmente) cabrito assado. Na altura, não passava de um massacre, compensado posteriormente, pelas amêndoas e pelo folar. A Segunda-feira de Páscoa era outro dia cheio de tradição. Desde as primeiras horas matinais que o sino da igreja iniciava o seu concerto, anunciando a visita do "Senhô Padre". Recorria-se à proliferação de flores que pintalgavam o olival para decorar o acesso às escadas, desenhando no chão (ou tentando) alguns motivos religiosos. Era efémera a visita da Cruz. Repetia-se uma oração previamente preparada, dava-se o beijo nos pés do Senhor e, acima de tudo, que era o que mais interessava aos visitantes, recolhia-se o envelope... Depois... Depois era "até pró ano"... Com mais dinheirinho no envelope, "se faxavor"... BOA PÁSCOA!

quinta-feira, 19 de março de 2009

Dia do Pai

Neste dia recebo as melhores prendas do ano! Qual aniversário, qual Natal, qual outra celebração qualquer! Isto de acordar pela manhã e ter dois pirralhos a encherem-nos de beijos é do mais saboroso que há! Para lá desse acumular de "beijoquice" quando ainda mal abrimos os olhos (deve ser o único dia do ano em que não resmungo quando acordo...), é fantástica e indescritível a sensação de apreciar a libertação da sua ansiedade por presentearem o "cota" com os presentinhos que, com toda a dedicação, elaboraram na escola. Este ano tive direito a um jogo de dominó. Caso fosse um filho desnaturado e não me lembrasse do meu próprio "velhote", o dominó far-me-ia lembrar dele. Mais não fosse pelas célebres noites passadas no Café Central a olhar para aquelas peças rectangulares cheias de pintarolas numa das faces. Mas este dia de S. José era marcado por uma das coisas que mais me intrigou durante alguns anos. Por tradição, repetia-se a mesma conversa, nos poucos anos que tive oportunidade de privar com ele. " - Oh Mãe! O Pai não vem almoçar?" "- Não! Já sabes que hoje vai almoçar à serração do Sr. Carlos." "Ah! Já não me lembrava..." Até ao dia em que tive o privilégio de satisfazer a minha curiosidade. E lá me levou a almoçar no meio de tábuas, pranchas, serras e demais utensílios de carpinteiro. E só aí percebi a ligação com o carpinteiro S. José... E que a comida não vinha acompanhada de "serrim"...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Mascaradas

Gaius Suetonius Tranquillus, ao relatar as Saturnálias Romanas, menciona a forma como aos participantes, entre os quais escravos, lhes era permitido dizer as verdades inconvenientes aos seus senhores, bem como chegar ao extremo de os ridicularizar publicamente. Na abrangência destas festas de carácter hedonístico, onde se honrava Saturno, o deus romano da agricultura, era colocada em prática uma das ideias que, diziam, o mesmo pregava, ou seja, a igualdade entre todos os homens. Pelos vistos, encontramos reminiscências de hipocrisia social em tempos longínquos... Este culto agrário, com eco em tempos anteriores, desde as festas em honra de Dionísio na antiga Grécia até aos cultos pagãos celtas como o Beltane ou o oposto Samhain, celebrando os solstícios e a fertilidade, pode ser considerado o "facanito" ancestral das manifestações ritualizadas que ocorrem, por estes dias, em Podence. Talvez, como antigamente, se celebre o triunfo da luz sobre a escuridão... O que hoje parece desconhecer-se é de que lado está a luz e de que lado estará a escuridão... Esta parece ter-se dissipado um pouco por meados dos anos 70 quando, numa abordagem antropológica sem precedentes, Noémia Delgado resolveu realizar "Máscaras". Talvez tenha despertado uma tradição adormecida... Como para mim já é bastante a máscara que uso durante todo o ano, o "carne vale" ou o "carne levamen" não representa o início de uma pausa de 40 dias relativamente aos excessos cometidos durante o ano e muito menos a abstinência de carne. Sou mais virado "prá tchitcha" e ponto... Nesse aspecto, devo ter ascendência dos Teutões e sou mais adepto dos seus "carrus navalis" e das diversões a eles associadas...Mesmo que não metam subidas até à minha varanda... "Tamém", não tinha salpicões e chouriços para dar... "Bota lá um copo" e longa vida aos Caretos e às tradições transmontanas!