Bem Vindo às Cousas
Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com
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sábado, 19 de novembro de 2011
Francolino Gonçalves - Purificações de alma nordestina
Vão influindo os vitupérios à génese nesta singular forma de colocar os periscópios da alma a vasculhar o cromossoma das pedras, estranhos degraus de expiação dos pecados, paulatinos dias de vergastadas na crença, inexpugnabilidade de xísticas muralhas atrofiada. Dobra o costado do orgulho com ignominiosas afrontas dos que, fé na ingenuidade, deveriam ter a epiderme sulcada a arribas do Douro, a neve de Montesinho ou a estio do Tua.
Onde residirá a aberração cromossómica? Constará do mapa genético a existência de um novo haplogrupo nunca anunciado? Terá tido o Sahelanthropus uma paralela evolução? Quase inadvertidamente "scamoutchei as fuças" contra esta opacidade infame de ver processos de "bentas a jogar ó rou-rou" onde os protagonistas são, tal como eu, descendentes do reino pétreo. E não me conformo com a resignação de ver o meu Nordeste afrontado por grotescas piadas da razão... «Entom, pareuce que os bãodidos som quaise tuodos da tua terra, carago!»... Lá vou dizendo que a degeneração se terá devido a uma qualquer distracção, um mergulho no Mar da Palha talvez, ou terão os corredores de al-Lixbûnâ estranhos efeitos na translocação genética de alguns... "Racosam-se" os anéis e fiquem os dedos, apetece-me panegiricar, soltar loas ao vento, glorificar a excelência abafando a mediocridade. Afinal, neste assalto às paredes do orgulho, parece que o indigenismo macedense permanece em imaculado estado, o berço de tentáculos de fiscais fraudes, traficadas influências ou alvos capitais lá mais para o setentrião, oriente e ocidente irmanados, ficam meridionais principados entregues à bastardia. Desvirginados nunca sejam os filhos do concelho em forma de bota...
Honra ao Gonçalves de Macedo, ao Martins de Chacim, ao Campos Vergueiro, ao Rocha Cabral, ao Almeida Pessanha, ao Pereira do Lago, ao Moura Pegado, ao Valfredo Pires, ao Figueiredo Sarmento, ao Pimenta Rêgo. Honra a tantos outros, os vivos, nados por inestimável fecundação do xisto pela brisa de Bornes, Pires Cabral à cabeça. Nesta exaltação da proveniência, olhe-se com redobrado interesse para o prestígio que flutua neste mar de indignadas águas. De repente, a Academia Pedro Hispano lavrou o impensável, na curta existência da sua anual decisão de premiar a excelência de culturais figuras, impalpável geminação de Grijó e Corujas, par de consecutivos anos com a conterraneidade em destaque.
No ano transacto foi Adriano Moreira o galardoado, ímpar figura que apresentações dispensa, Grijó no mapa, ocultem-se controversas posturas, desvalorizem-se discordâncias, menosprezem-se concordâncias também, em sinopse de filho da terra, bailem apenas os genes das pedras. Segue-se-lhe Frei Francolino José Gonçalves, Corujas em alta por filho seu, Homem de religiosas letras, incontornável figura de bíblicas interpretações, insigne exegeta da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, membro da Comissão Bíblica Pontifícia. Creia-se nos louváveis encómios da crítica, alvoroço dos genes, e o mundial perito-mor no Profeta Isaías é filho de fornada de macedense ascendência. E acabou de ser galardoado com invulgar reconhecimento pátrio... É pouco? É muito? A este filho da terra, também, nesta convulsão de errantes personagens que desvirtuam a essência, doce compensação para a amargura, irradiado orgulho com proveniência no centro de Nordestina Pátria-Mãe, fica esta desmesurada algazarra dos genes, estranho bailado este de passos trocados, imaginária gaita-de-foles a compassar a dança em ritmos da ancestralidade...
domingo, 13 de novembro de 2011
Fermento da essência
domingo, 6 de novembro de 2011
Paradoxos da interioridade
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Tesouros de Arte Sacra, a alheira de Mirandela e o vinho do Porto...
... o poder do marketing ou a sua ausência... Um dia, numa dessas passagens em relação às quais apenas nos recordamos da sua ocorrência, sem precisar datas, horas ou locais, apenas sabemos que aconteceram, algures, talvez no séc. XX ou, quem sabe, provavelmente já no XXI... Um dia, como dizia, visitei uma Feira do Fumeiro, não o impingido com selos de qualidade industrial, mas o nascido do artesanal, proveniente do acumular de empirismo de sábias mãos. Para estarrecimento da minha ignorância, no sector dedicado às alheiras, honra mirandesa às tabafeias, os espécimes que se alcandoravam ao patamar do nem sempre apelativo "mais caros" não tinham a sua origem em Mirandela! Denotando atroz desconhecimento, percorri o chamariz dos sentidos, enquanto me interrogava sobre o aparente paradoxo: as alheiras mais caras eram provenientes de Macedo de Cavaleiros! Seguiam-se-lhes no pódio as de Bragança, sendo acometido de amnésia no que respeita às detentoras do bronze. Mas não eram, seguramente, as de Mirandela... Porque essas, recordo-me, não sendo as mais baratas, ocupavam um lugar nas cercanias da cauda do pelotão.
Dizem os mesmos que, no decurso dos anos em que Mirandela era detentora da estação de caminho-de-ferro mais setentrional da província, aí afluiam os produtores da tão sublime alheira para que a mesma chegasse aos exigentes paladares das extremidades litorais do reino. Não tardou muito a associação do topónimo aos exemplares de fumeiro... Louve-se o empenho dos da Princesa do Tua, aplauda-se o marketing associado à elevação da alheira a maravilha gastronómica. E aplauda-se, em simultâneo, o salpicão de Vinhais, o folar de Valpaços, as amêndoas de Moncorvo, o cordeiro de Bragança, a castanha da Padrela, o azeite de Murça, a posta Mirandesa, as cerejas de Afândega, o vinho de Carrazeda, a batata de Chaves... Há, até, "alóctones" Confrarias do Butelo e das Casulas merecedoras de aplausos!!! "Chlap-chlap" ao "tudo que é doutro lado", DOP, IGP, IPP (e, porque não, PQP) e Macedo tendo, efectivamente não tem... Mas, já agora, à laia dos que pouco têm por onde escolher, eleve-se a ícone gastronómico macedense o Lúcio de Escabeche, sem indicação de PPAA, que a dita Paisagem Protegida, condicionalismos geoestratégicos, vai sendo conotada - marketing dixit - com a sede distrital (diga-se, em abono da verdade, que os glóbulos macedenses se "gumitum" ao invés de darem voz a náuseas)... Quedos e mudos não ficando, deveríamos, em contingentismo, aproveitar as lacunas de preenchimento gastronómico-geográfico e elevar, em conjunto com o supracitado Lúcio de Escabeche, a "tchouriça-doce" a património da Humanidade Macedense, criando em concomitância, a "Confraria dos Tchítcharos e dos Erbanços" com a homónima do "Tchouriço da Língua e da Butcheira". Mais não fosse, dignificar-se-iam os proscritos da gastronomia "strasmuntana"... E seriam proclamados os omissos tesouros...
Por menção a tesouros fazer, infâmia da alma, lembrei-me do jornal Público (afianço aos que fazem da má-língua modo de vida que não auferi um cêntimo que seja pela gratuita publicidade). O acossar da mente pelo dito periódico surgiu apenas como reflexo do muito que temos e do pouco que fazemos por esse muito que temos (será isto um pleonasmo?). Diz a publicidade que encabeça esta "sfoura scrita" que haverá 100 Tesouros da Arte Sacra Nacional. "Atão, s'há 7 Marabilhas d'Intcher o Bandulho, pur u que caralhitchas - No'Snhor me perdô - num habia d'haber 100 d'Intcher a Alma"? Neste delapidar do orgulho que grassando vai ao abrigo sabe-se lá de que vilipêndios, o tesouro que teve honras de abertura da centúria só poderá ser uma "cousa" insignificante. Será que os responsáveis do Público e do SNBCI (Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja) ensandeceram de vez? Lá é forma de inaugurar o desfile jornalístico dos ditos 100 Tesouros com uma peça proveniente do concelho macedense??? Diz a separata do Público a 22-08-2011: «O P2 inicia hoje uma série dedicada aos Tesouros da Arte Sacra Nacional»... Legenda acompanhada de uma figura familiar: a de São Miguel Arcanjo, ímpar representação do séc. XIV proveniente da Igreja de São Martinho de Vilar do Monte! Como se a heresia bastante não fosse, a 13-09-2011 é repetida a graça de proveniência no concelho macedense: é publicada uma imagem de Santo António dos Pães, do séc. XVIII, originária de Travanca! Heresia por heresia, "spitarum-se-me" os meus hereges genes macedense-trasmontanos...
Não porque tenha visto algum "bitcho do outro mundo", mas tão somente porque, estranheza para alguns, das 18 digníssimas entidades que participação têm neste desfilar de distinção, uma delas é a Diocese de Bragança-Miranda, representada através do labor do inventário histórico-artístico conduzido por uma entidade demonstrativa do que melhor se faz por Macedo de Cavaleiros: a Associação Terras Quentes. Quer dizer... Apresento as minhas mais sinceras, honestas e demais "eras" e "estas" desculpas aos contestatários da distinção do parido por terras elevadas a concelho há pouco mais de 15 décadas. Tive um breve, mas intenso, colapso da alma (se é que possuidor sou da dita)... Penitencio-me pela tentativa de elevação da terra detentora dos calhaus onde fui orgulhosamente parido. Se "de Espanha nem bom vento nem bom casamento" (ainda que nutra uma certa inveja por "nuestros hermanos"), parodie-se em alternativo léxico e parece que "de Macedo nem boa brisa nem boa boda, parece tudo uma f... coisa e tal que rima com roda"... "E que fai uns indêzes de bez'im quando que se botum mim contchos e tchêos de prôa só pur u causa de terim nacido nua bila que num é milhor q'as outras mas, carbalhos que m'a racontracosum, bem m'ou finto que seija pior do q'elas"!... sábado, 27 de agosto de 2011
As partículas da impunidade
Ocasiões há que potenciam esta, pejorativa para uns, irreprimível vontade de imergir nas saudades do saudosismo, redundâncias da alma. Não é traje a nostalgia, trata-se apenas de uma desequilibrada balança de três pratos. Na incapacidade narrativa de desenhar o espécime, pelo esquisso da irrealidade me fico, flua o imaginário num esboço de regressão temporal. Tempos houve, idos tempos não muito recuados, de despertar a respeito, e a respeito adormecer. Era injectado à nascença, como se, independentemente do género, a prole tivesse o lóbulo auricular adornado a invisível pendente. Era uma inapagável marca dos dias, subtil sinalética, entre coisas outras, de humilde vénia ao que propriedade alheia era. As parcas viaturas que circulavam por, poierentas algumas, artérias da minha "vila", detentoras não eram de alarmes, supérfluos acessórios para a pacatez.
Estacionava-se o veículo, de antemão sabendo que, arcaicas manivelas rodadas, os vidros abertos seriam apenas um convite à invasão de moscas, ou outros alados seres. Sairiam com o andamento... Invariavelmente, não havia o peso do porta-chaves a corroer a algibeira: a chave de casa incrustada ficava, em diurna permanência, à vista de todos, na respectiva fechadura. E raramente, mas muito raramente, os tímpanos eram obsequiados com novas de "amigos do alheio". Hoje, melancolia da inversão proporcional, "rest in peace" ao respeito, ou "sit tibi terra levis", louvores à impunidade ou, instância última, razão tinha Lavoisier. Omitiu o químico francês o parágrafo único ao seu princípio de conservação da matéria: aplicado a humana essência, sérios riscos corre de deturpação por envenenamento dos costumes. É a corrupção dos dias, importação de sabe-se lá o quê, ou saber-se-á, será a globalização, ou desmesurado incremento de egocêntricos umbigos? É o capitalismo! - vocifera uma ala! É a anarquia! - protesta outra. É a sociedade! - outra clamará... Entretanto, incriminem-se policiais forças... "- Atão o sacana do polícia infiou ua lostra no bandido"? PONHA-SE A FERROS O POLÍCIA!!! "- Bô, e o bandido o que fezu"? NADA, SEGURAMENTE, PARA LÁ DE SER VÍTIMA DA SOCIEDADE... "- Roubou-l'o ouro à Ti Maria Miquinhas, indrominou o Ti Tonho Mouco, racoseu-le a reforminha e inda le botou as manápulas às goelas, q'o home stá tchêo de maçaduras no p'zcoço. E pra mangar co a gente inda se pôsu a méjar no adro da igreja"... COISA POUCA... "- E já foi acaçado"? TALVEZ...
"- Dixo-mo o mou q'era o Tchico Aldrúbias, queitado. Tamém, o que querium? O pai obrigabó a ir prá escola pra ber se se fazia home. Dás bezes inda le punha ua aixada nas mãos pra q'aprendesse a num andar à boa baiela. Munto sofreu o indêze. Era um bô rapaze, nunc'às minhas bistinhas o birum trabucar, morreu-l'o pai quando l'sbarou a carroça das burras pur'a ribanceira abaixo. Foi a sorte do Tchico! Depeis do enterro num boltou a alapar o sim-senhôre nos motchos da scola. A malbada da mãe ind'ó queria botar áprender ua arte... Queitadinho do Tchico, depeis d'ua bida álombar co d'zprezo da sociedade, ind'ó querim infiar nos Corrécios! Sim uas mines ou uas cigarradas, sequera! E aparecesse-me que nim têm trabisão, nim intrenet nos quartos"... Entretanto, nesta metamorfose dos dias, prostituição de costumes, os "Tchico Aldrúbias" têm consciência dos "queitadinhos" que são, vítimas da sociedade, despudor dos tempos que correm. Sabem que navegam em águas de impunidade. Por isso não espanta a sucessão de vandalismo que vai assolando o que um dia era terreno sagrado, inexpugnável, inatingível, respeitável. Desta vez foi o Santuário de Santo Ambrósio, profanado, vandalizado, assaltado. Amanhã será outro, o nosso próprio santuário, quem sabe... E num qualquer depois de amanhã, ou tarde será, ou "dixo-mo o mou bruxo q'inda boltemos ós tempos de cabeças abertas ó berde"...
(NOTA: Primeira foto, autoria de Paulo Patoleia (captada no recinto de Santo Ambrósio) ; Última foto, autoria de Vale da Porca Digital)
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Reticências de abafada grandeza
Pouco dado sou a públicas homenagens. Creio na voz dos actos, acredito na sonoridade das obras. Finjo, por vezes, alhear-me da proliferação de súbitos encantamentos emoldurados a momentânea falsidade. Mas quedo-me pelo limbo do fingimento, fragrâncias de névoa, cachimbo inerte, prolongamento de tabaco com aroma a carácter (não existe à venda em tabacarias - banido de comerciais circuitos)... De privadas manifestações a subtil exteriorização sem recurso a festival, decorativos efeitos ou musical banda em alvorada, retrocedo ao degredo de um prosélito pintalgado a anátema. Por vezes, porém, não me contenho e, de exaltação em exaltação, provimento dou a esta quase vulcânica forma de enaltecimento ao que parido é por terras que deverão, um dia, ter sido calcorreadas por desenfreados Zoelas, antepassados da essência elevados a relíquia do esquecimento... Cousas outras, o direi... Chamem-se-lhes os descendentes, ou seguidores de passos, lhes chamem, que de certezas não é o mundo feito. Ou será, conveniências de passagem na esquina dos proscritos, vingue a modéstia, drenagem de terrenos aparentemente desprovidos de humidade, ou secas gotas de um estranho composto liquefeito. Abençoada abominação ao desperdício da sublimação da diferença! Perdoem-me os destinatários desta afronta aos princípios de remetimento à sobriedade. Ventos da montanha, não me contenho! É o gosto pela diferença, controverso gosto talvez, o duvido porém, que a unanimidade vai decorando almas outras, e silenciar não faço a esta súbita vontade de publicidade dar às reticências de abafada grandeza. Tem nome, duplo nome, distintos seres emparelhados a arte, pura, divina, abençoada a terra, temperada a distinta agrestia, vales e montes assolados por aroma a Trás-os-Montes, genes enraizados em xísticos solos. Cousas de inimitável voz, Kamané se proclama, Carlos Baptista o é, tela de som, catálogo de infindável arrepio... E cousas de quadros pintados a pincel de dedicação, apontadas objectivas, cores da essência, Cavaleiro, andante também, mas de caminhos com trauteadas músicas com pegadas de Valter... A voz e a imagem... Únicas... "Made in Macedo de Cavaleiros city"... http://www.youtube.com/watch?v=HEVPaUjXwaE
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
"Bô era! Atão Macedo é ua merda?"...
Aprecio particularmente os risos adornados a sarcasmo sempre que regurgito este sublime conduto com sabor a orgulho trasmontano. Soa-me a altivez decorada a hastes bovídeas ou, frequente-se a diplomacia, a mais elaborados e presunçosos chifres cervídeos. Depurações do espírito, talvez sirvam para disfarçar a impotência ou, instância última, "ignis fatuus" de proclamado pedantismo em pedestal com epígrafe "Amicos pecuniae faciunt"... Não que verdade não seja, que os euros íman são para as amizades, para degraus outros, quiçá, folga o carácter enquanto transpira a hipocrisia. Amanhã substitui-se a palmada lombar por afiado gume, que "mai fai", entretanto agucem-se viperinas estocadas de ofídeos, descanse o ego pela exaltação de pretensa maldade alheia. Oculte-se a própria inépcia na simultaneidade da vociferação da imbecilidade dos ausentes, há-de chegar o dia de vassalagem prestar aos que presenteados são com desdém. Sintomas dos dias... quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Lampejos de ansiedade por Trás-os-Montes
Há locais assim, entranham-se, provocam um permanente regurgitar de saudade. Por vezes fazemos deles lana-caprina, mas é só na aparência de um quotidiano emoldurado a afazeres outros, contingências de migrante, edições diárias de acumular de uma fome que ganha proporções de monstruosidade. "Stou tchêinho de saudades de Macedo e dus mous ares stransmuntanos, c'um caralhitchas"!!! Foi só um efémero desabafo em forma de gargarejo da alma... Alivia, por instantes, o quase insuportável peso da distância, mas acalmar não faz a ânsia. Permanece o verdugo, qual atroz cumprimento de pena, sentença contra esta pregada impunidade de ter "botado tchôros ó mundo no mêo dos calhaus".
E valha-me esta aversão ao crescimento, muralha contranatura, numa volúpia dos sentidos de eterno retorno a infância nunca perdida. "Já le sinto o tcheiro ó Azibo, já se m'arregalum nas bistas co a Serra de Montemé, já se me botum os pur dentros desinquietos co a merenda na baranda do Ti Inberno, peliqueira a postos pra mais um carólo e um cibo de tchithco, ua pinga pur as goelas, um tantinho de queijo queimão e uns intremóços, seladinha de tomatos e pupinos, e tchítcharos puri, ua talhada de melão pra desinfastiar"... São os sons da terra parideira, desafinações de encantos tantos, orquestra em sinfonia de jamais inventados acordes. domingo, 10 de julho de 2011
A sustentável riqueza do ser
Devaneios à parte, pinceladas de acidificação da alma, reconheço esta embriaguez pela absorção de culturais vapores com proveniência na Casa Falcão. Olha-se uma vez, duas, ou a infinidade de um permanente olhar, refreia-se o exacerbado ciúme da Maria da Fonte, paixão de anos muitos, sente-se o transtorno do eriçar da pelagem. Irremediavelmente, surge este invulgar apelo de entronização da génese. Parece não haver regressão possível nesta inusual atracção que parece corroer os dias de fora para dentro. Paradoxalmente, aprecia-se a corrosão... "Cada tchotcho co'a sua panca"... Haverá sempre um qualquer abafado grito da crítica, mais não seja pela possibilidade de a mesma fazer parte de um inatismo como filosófica corrente, mas sinto uma irreprimível vontade de aplaudir a visita de Francisco José Viegas, Secretário de Estado da Cultura.
Não exclusivamente pela cultura em si. Afinal, as navegações pelas injustiças ao desterrado povo encravado atrás de serras e penedias têm tributos destes. Efémeros, é certo, mas cheira a sublimação de migalhas para quem faminto está. Honra seja prestada a esta espécie de vénia aos representados, sublinhe-se o invulgar, louve-se a pedrada no charco. Mesmo que a heterogeneidade dos representados se resuma a uma singular homogeneidade... Subtilezas de "cancelos cerrados c'um carabelho qualquera", ou um "guitcho ólhar pur cima do scano"... « - Fetcha lá a matraca, atão num bês que stás a ser mim lorpinha? Inda te racoses cum esse'strejeitos de quem sprita lacraus»... « - Bai-t'ós poulos! E frias-te no crutcho, q'ou num m'acagaço s'o feitor s'imbutchinar! Nos'Senhor num me dou miólos só prós bitchinhos os cumerim!»... Folga o vilipêndio, entretanto, e exalta-se a essência. Ou tenta-se... Revivescências do pretérito, ressuscitações do que parece moribundear. Serão vãs tentativas de vida dar ao que finado parece estar? Ou paliativos cuidados brotados desta inexplicável sedução pela terra que deve o nome às maçãs.
Fosse a excepção do solar uma regra e visibilidades outras ressumariam. Intransigências do ser, a distinção da terra-mãe resumida não está à excepcionalidade de um soberbo reaproveitamento de um solar condenado ao cadafalso. Ainda que visibilidade outra tivesse com original acesso, deslumbramentos de alpendre precedido de aristocráticos degraus. Mas isso são contas de rosários meus, afinidades com a beleza em detrimento da operacionalidade... Não será obstrução a renovações de investidas, tal o encanto. As paixões explicação não têm, deixam-se fluir ao abrigo de repetidas catarses da alma. São arrepios que se fundem no âmago, vivências que penetram no impenetrável, abalos de metafísica justificação. O Museu de Arte Sacra é detentor desse encanto. Está lá, brilhante, ao virar da esquina do abandono, baú de memórias, depósito de luzidios e inanimados seres contadores de histórias, resgatados ao desprezo de atrozes adulterações pela obstinação de um punhado de gente que lê a herança a indecifráveis símbolos. Tiro-lhes o chapéu... À Autarquia, porque em boa hora adquiriu um imóvel e o iluminou a orgulho; à Diocese, porque incentivou a inventariação e o restauro das peças; e à Associação Terras Quentes, inexcedível parceiro na empreitada de rejuvenescer a moribundez. E a Francisco José Viegas porque, interpretações de leituras várias, homenagem prestando à municipalidade museológica, mediatizou o que mais mediatizado poderia estar. Mesmo na fugacidade de digna passagem de périplo que transfigurou este pedaço de terra assemelhado a enclave... Na brevidade de umas horas reassumimos o papel de efectivo território do soberano país parido pela pertinácia da afronta do Afonso à progenitora. E vergo-me perante esta obstinação de repudiar a insustentável pobreza do ser que me tentam impor os vendilhões do templo...
domingo, 26 de junho de 2011
Fai um calor do caralhitchas!
sábado, 14 de maio de 2011
Balada das rugas tristes
Gemem os velhos, de farrapos tratados, encostados a indistintas memórias de um refulgente passado, num "escano" carcomido pelos anos ou num "motcho" corroído nas articulações de que desprovido está. Sozinhos, preferencialmente sozinhos, no remanso de uma eterna solidão, esquecida gente que um dia gente foi. Vivem à sombra do tempo, abrigo possível no lento esganar, roendo a agonia em sepulcral silêncio, na rapidez de ponteiros que tardam na sua inexorável marcha. O futuro, o indesmentível futuro que a todos toca, servir-se-á em caminhos cravados a ervas daninhas, quem as limpe não há, haja quem sobreviva para as calcar a carpir de despedida última. Se gente sobrar de "companha" para derradeiras viagens...
São os velhos, impiedosas rugas rasgadas a vida, dura e tormentosa vida, testemunhos de um pretérito sulcado a arados feitos de "candiólos", epiderme engelhada a "carambina", "scarabanadas" de trabalhos muitos, faces traçadas a pregas do estio. E merecem tanto carinho os velhos, os nossos velhos, odores de ancestralidade, aromas a genes de pedra. Mas são morbidamente apagados, absorvidos pela esponja de um atroz esquecimento, empurrados de encontro a paredes de xisto, também elas a aguardar um lento finar, verticalmente enfileiradas, quando calha, moribundo silêncio entrecortado pela brisa de uma estatística que lhe desperta o torpor.
O "Retrato Territorial 2009" trouxe-me a evidência do que evidente já era: demograficamente, estamos a definhar de forma lenta e penosa. Em apenas uma década, tão somente um mísero par de lustros, diminuímos a densidade populacional, coisa pouca para o que pouco já era. Veja-se o decréscimo a linguajar trajado a política e descortinar-se-á o positivo: afinal, semelhante fenómeno é visível em cerca de 50% dos concelhos do território português, na sua grande maioria situados no lit... ops... interior. "Co mal dos outros bem m'ou bêjo"! Segue a procissão dos estatísticos indicadores, antes da chegada do "Censos 2011"... O concelho macedense, no período 2000-2009, viu a sua taxa de variação de crescimento natural enquadrada no fabuloso grupo dos que decresceram entre -10 e -4% (há piores)... Coisa medianamente compensada pela equivalente da componente migratória: situamo-nos no pelotão dos que cresceram entre 0 e 3,5%...
A voracidade vai devorando os quadros e mapas, em busca de algo que atenue este triste sentir. Mas nada, nada de nada! A taxa de fecundidade diminuiu, o índice de envelhecimento incrementou... A proporção da população entre 0 e 14 anos teve uma variação negativa, em apenas 10 anos, situada no intervalo de -4,9 a -2,9%. Em contrapartida, a homóloga da população com idade superior a 65 anos teve uma variação positiva entre 2,6 e 4,8%. Oh inclemência dos deuses! Graves actos devem ter sido os desta humilde gente que, como todos, envelhece. Mas não assiste a rejuvenescimento, senta-se, apenas, aguardando na pacatez de uma soalheira tarde, ou amansando o tormento invernal na companhia de um "strafogueiro e uns guiços". Um dia, num não muito longínquo futuro, talvez surjam mais Banreses, frutos em bolorenta compota, vestígios de albergues de vida.
Olhe-se, exemplo extremo, para os destemidos 60 habitantes que os "Censos 2001" apontavam para a excelsa freguesia de Soutelo Mourisco, "ajuntada" com Cabanas e Vilar d'Ouro. Sinta-se, na efemeridade de uma incursão vespertina, o pulsar do silêncio da serra, prenúncio de morte do qual um felino não consegue fazer-nos abstrair, pressintam-se os abutres a sobrevoar a carcaça. Estão lá, ao longe, em sádico sorriso de necrófago que aguarda pacientemente pelo concretizar da coutada... Entretanto, louvem-se os velhos, os nossos velhos, na sua silenciosa e ineficaz contestação do abandono...
(Com uma enorme gratidão ao Paulo Patoleia e ao Valter Cavaleiro pela cedência dos magníficos registos fotográficos)
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