Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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sábado, 16 de abril de 2011

As cousas do "feicebuque"...

O sossego de uma pacata tarde de Sábado... Interrompido pela voracidade de uma ligação ao mundo. De súbito, o chapéu se lhe tire, no mural de um dos muitos amigos "feicebuquianos", um incessante vómito de fotogramas. Não umas reproduções quaisquer, tingidas a digitais modernidades, antes um desfilar de marcas do tempo, de um pretérito tempo em que a minha "vila" ainda não se tinha prostituído à infâmia do betão. Largos sorrisos, numa estranha simbiose com nostálgicos espasmos, como se um paradoxo do tempo me tivesse amputado o presente, resgatando-me numa temporal regressão a tardes de encanto, manhãs também, onde o garoto de arregalado olhar abandonou o ventre da Escola do Toural para ingressar na balbúrdia do "Ciclo". O "Ciclo" é que era! Por lá circulavam os "grandes", impalpável conceito em cujas entranhas me incluiria, seria "grande" também! Numa amálgama de gritarias muitas, algazarras constantes, sonoras derivações de proveniências várias. Já não eram só as familiares vozes dos "putos do Toural", afinidades tamanhas nascidas no regaço da professora Maria Cândida. Era o choque do mundo real, como se o "Ciclo" fosse um lá fora qualquer, num corrupio de gente que vinha das Escolas da Praça, do Trinta, e de todas aquelas aldeias das quais, em relação à maioria, só lhes reconhecia a familiaridade dos nomes, imaginando-as povoados de outro reino. Hoje reconheço-lhes o abandono, o esqueleto de xisto, as fantasmagóricas escolas de peculiar arquitectura, um dia preenchidas de vida, hoje exalando putrefactos aromas a morte, da perfídia nascidos... Era o Solar dos Vasconcelos, pátria do Externato Trindade Coelho de idos tempos, Escola Preparatória Eng. Moura Pegado de revolucionários anos 70, ou a simplicidade do "Ciclo" para uma horda de "putos". Era o degrau para a "Escola Técnica", que Liceu ou Secundária não tinham ainda conquistado o direito a vocábulos correntes. Era a conquista de um mundo que soava a inacessível enquanto duraram os quatro anos de desconfortáveis carteiras de madeira, reguadas de quando em vez, castigos por não se saber na ponta da língua os nomes dos rios de Portugal, e o conforto gerado pela segurança da mesma sala, da mesma professora, das mesmas caras, do mesmo recreio. Hoje soa a incoerência do crescimento da infância. Afinal, imaginava-me "grande", "puto" sendo...
Mas permanecem irremediavelmente gravados os aromas da inglória "grandeza", as imagens desse ritual de dúbia penetração na adolescência. O fascínio da "escola grande", com um recreio "grande", com gente "grande". E com imensos professores, incomparavelmente mais que a singularidade da professora Maria Cândida! De repente, tenho as memórias tomadas de assalto por um rol de nomes que me marcaram os dias, a formação, a educação: a prof. Iria, o prof. Campos, a prof. Inês, o prof. Seabra, o padre Nélson e outros tantos de que recordo os traços faciais mas não os nomes. E o Sr. "Maxmino", sempre pronto a dar umas traulitadas aos mais traquinas... A D. Maria sempre disponível... Ou a inesquecível simpatia das senhoras do Bar... Aquele Bar, o inconfundível cheiro do Bar! E porque menção a aromas fiz... Indómita vontade de um efémero regresso, breve apenas, na fugacidade de sessenta segundos, às salas da insurreição da (in)segurança, onde o monóxido de carbono desenhava uma atmosfera manchada a névoa de cascas de amêndoa queimadas em improvisados fogareiros. Oh, se hoje fosse! Estariam, precocemente, finados os imberbes! Ressuscitaram, quem sabe, emergindo de um qualquer "carambelo", subtraindo-se ao gume de um qualquer "candiólo". Eram frios os tempos, geadas tamanhas, "sbaraba-se" numa mal amanhada calçada de lisas pedras, "scatchaba-se" a camada de gelo que cobria as poças com "uas lapadas" ou com "uas biqueiradas"... E aquele ar impregnado a fumo de invólucros de frutos secos, aquecidas as extremidades que luvas usam, temperadas hostis forças... «Meninos, todos sentados, que agora temos que começar a aula!»... Enregelados pés, olhares atentos... Era o "Ciclo"... Hoje é, tão só, um pedaço de recordação transfigurado em aborto arquitectónico... Como era linda a minha "bila"... "Bá, berdade, berdadinha, ind'ó é... Dizi-o o coração... Mas aparece-se mais´c'ua abantesma injaldrada por uns aldrúbias quaisqueras... Dixu-mu o Ti Tonho Manco, o da Ti Maria Birolha, que bibe ó cimo do pobo... Bô, cmu m'indromino co estas cousas im que crece o natcho... É que regas! Que mintiroso m'assaiste! Bem m'ou finto! E frias-te no crutcho"!...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Novo amigo na rede social: "Turismo Macedo de Cavaleiros"

Vasculha-se uma qualquer rede social, no mural os suspeitos do costume, músicas partilhadas, partilhas outras, conivências ou polémicas, cumplicidades na leitura, demais beneplácitos ou censuras. Partilha-se, gosta-se, reconhece-se gente, desconhece-se, por vezes, ou faz-se simplesmente de conta que o planeta deixou de girar por instantes, e toda a cósmica energia se concentra num pedaço de teclas agrupadas que, por magia, transformam um monitor em corrente de vida. Virtual a dizem, a imensamente real se assemelha. Repousa o mundo num pedaço de processadores e memórias RAM... Mesmo que haja mundo lá fora, mundo de benfazejas irradiações de calor para lá do emanado pela digestão da máquina que processa informação. Humano calor... Mas esse não extirpa informação e a reduz ao mundo global. E, irrefutáveis verdades, há "amigos" na social rede que se resumem à impalpabilidade... Não se tocam, mas tocam. Tenho um novo "amigo" na rede social: "TURISMO MACEDO DE CAVALEIROS"! Em boa hora!!! Louvores ao imberbe!!! Talvez pouco minore o esquecimento de turísticas rotas, que entesourados areais repousam em meridionais terras, assim o ditam os interesses. Talvez seja um pequeno e inaudível espirro, mas é indubitavelmente melhor que espirro nenhum. E, mais não seja, "arrebunha-me os pur dentros e fico tchêo de proa"! Reduzindo a saudade que acumulando se vai nos intervalos de incursões à terra-mãe. Louvores ao imberbe, voz dando a repetitivos encómios!!! De repente, a infame gula dos olhos... Vêm-se e revêm-se as fotos publicadas pelo novo "amigo", num extasiante arrepio dos sentidos que dota o espírito de aliformes membros. E voa-se, ou deixa-se voar, supersónico voo de renovado Concorde, ou a concórdia com aladas formas de montes e vales. Estou lá, pressentindo-lhe o âmago, sugando-lhe a essência, provando-lhe o néctar. Lá, onde mora a ancestralidade, onde reside a alma, onde habitam as pedras de que sou feito. Lá, onde sou percorrido por incontidas emoções, geradas sabe-se lá por qual pedaço de xisto, como se o orgulho fizesse parte da prole de incógnito pai e desconhecida mãe. Sou filho da terra, pronto, do pó talvez, de uma fugaz magia do tempo, subtilezas de um esquecido fraguedo ou de uma abrupta escarpa, como se de uma qualquer poção de água do Azibo tivesse brotado. E arrepio-me com isso. Cada "tchotcho com a sua tchalotice"... Ainda que os receptores auditivos e oculares vão sendo fustigados pela informação de que Macedo está sem vida, persisto em sentir-lhe o pulsar, mesmo à distância. Parcialidades do coração, talvez... Ou imparcialidades brotadas de vivências muitas em terra que dizem moribunda ou prestes a finar. Cego serei de obstinada paixão, assim o dizem os sensatos, ou chatos direi, que se danem, que em intestinas lutas prefiro ser helvético... A neutralidade afaga-me as entranhas do gostar e gosto de gostar, pronto! Dizem os antigos (seja lá qual for o conceito de antiguidade) que quem a feio ama bonito lhe parece. Irrefutável argumento, não gosto de contrariar a sapiência dos anciãos (quando conveniente me é, confesso)... Fique a feia beleza, assim seja, amanhem-se os contestatários com a fealdade, contente-se o céptico com a ingenuidade, sublinhe-se a abstracção de uma qualquer irrealidade. Porque, afinal, Macedo de Cavaleiros não é um concelho qualquer: é o MEU! E o de tantos outros que "meu" o consideram, egoísta visão contrária que o faz, apenas, "deles" ou "teu". Porque meu há só um, estranha confusão, e o que é meu é assustadoramente belo! Lógica conclusão de pretenso ilogismo: Macedo é assustadoramente belo, então! Porque é MEU... Se dúvidas houver, fica o prévio agradecimento pelo tratamento da obstinação no terapeuta mais próximo. Sem garantias... Acrescido da garantia pela profusão de uma estranha volúpia que conduz ao ensandecimento dos sentidos a cada invasão ao mundo que assistiu ao meu primeiro lacrimejar. Basta olhar para a "vila" com outro periscópio da alma. Ou perscrutar-lhe as entranhas com lentes distintas. Pressente-se-lhe o sopro do passado, sente-se-lhe o fôlego do presente, adivinha-se-lhe a respiração do futuro...

NOTA: AS FOTOS (À EXCEPÇÃO DA PRIMEIRA) FORAM RETIRADAS DA PÁGINA DO "TURISMO MACEDO DE CAVALEIROS"...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

DJ CHARLES B - Essências de musicalidade macedense

Tudo o que provenha da terra parideira "arrebunha-me" os sentidos, deixa-me o sistema neuronal "mêo spritado", e fico num transe em que "se me botum o caralhitchas dos genes ós pintchos"... Especialmente, se os "pintchos" forem provocados por sonoridades que, não fazendo parte do meu habitual cardápio musical, me seduzem pelo encantamento de terem a mesma pétrea génese que eu. Mas não só... Porque, "berdade das berdadinhas", uns breves instantes dedicados às misturas e re-misturas do Carlos Borges, macedense como eu, instigam uma estranha volúpia musical. Como se, para este Cavaleiro, tivesse representação a antítese da melomania que lhe afaga os dias. Porque, a bem da verdade, as minhas influências musicais estão a léguas daquilo que é produzido pelo DJ Charles B. Na certeza, porém, de que não me remeto a uma perpétua quarentena no que a novas influências diz respeito, como se vivesse num inexpugnável castelo musical. Há sempre uma qualquer porta entreaberta, aguardando pacientemente a chegada de algo que me arrepie os sentidos, me seduza esta irreprimível vontade de conhecer o desconhecido. Foi isso que, humildemente, aconteceu com esse macedense residente na Madeira que, sabe-se lá porque artes mágicas, teve o dom de me fazer abstrair do universo em que a minha amplitude musical navega habitualmente. E, quase desordeiramente, os meus neurónios musicais foram penetrados por uma batida à qual só estavam habituados em certas idas noites de etílicos vapores, quando a disposição ainda dava permissão para aventuras e desventuras noctívagas, noctívagos amigos por companhia. É essa batida que me vai fazendo companhia enquanto o teclado procura servir, sem o conseguir, de percussão... Num paradoxo de permanência na irrequietude, como se um qualquer rejuvenescimento me tivesse invadido a ementa de sonoridades mais calmas...

http://www.letsmix.com/mix/71093/dj_charles_b_spain_2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Variações de fim-de-semana

Todos temos que fazer opções... Neste fim-de-semana que se aproxima gostaria de repetir aventuras de outros anos. No entanto, confesso que fico com um ligeiro amargo de boca. Apenas porque me apetecia reviver o pretérito fim-de-samana... O mesmo frio cortante, o mesmo vento gélido, o mesmo céu azul... As mesmas imagens, as árvores desprovidas de folhagem, os lameiros, os montes, as gentes. E, já agora, caso não fosse ser demasiado exigente, a neve. E a Feira da Caça e do Turismo... Sugestões...

sábado, 8 de janeiro de 2011

A improbabilidade provável


Um dos obscuros aspectos da cidade parece ter subido, definitivamente, à província. Enfermidades dos tempos modernos. Hediondas enfermidades, direi... A recusa na crença foi deixando esta publicação a marinar. Prolongou-se a marinada dias a fio, à espera de um qualquer ingrediente que lhe alterasse a excessiva acidez. As consecutivas provas foram revelando que os potenciais receios em vão não eram... Ao invés de condimentos básicos, ao composto foram sendo adicionados, quase diariamente, temperos que lhe diminuíram o pH. A culinária dos dias também tem direito às suas desventuras... Casos há em que as ditas desventuras deixam o acre sabor do fel... Assim, amargo, arrepiante, capaz de ressuscitar finadas papilas gustativas... Assemelhe-se esta "cousa" a uma dúvida existencial, uma daquelas em que se duvida até da própria existência da dúvida. Ter-se-á instalado o crime em Macedo de Cavaleiros? Ou terão chegado os ventos da impunidade? Inocentemente, vou-me debatendo com as novas (velhas) provenientes da terra-mãe. No último mês, as novas transfiguraram-se, inusitadamente, em... novas. Ora são ajustes de contas que incluem uns balázios nocturnos... Ora são simulações de raptos... Passando pelo descaramento do furto, em plena via pública, de uma carrinha de distribuição de pastéis... Ou de uma máquina de lavar de uma loja de electrodomésticos... Terminando no sacrilégio do furto de uma imagem do séc. XVII do Menino Jesus, do interior da Igreja de S. Pedro... Será impressão minha, estarei com algum delírio persecutório, será algum complexo momentâneo? Dirão os mais moderados sectores, aqueles que tratam de depositar as culpas nas desigualdades que eles próprios criam, que esta "cousa" não passará de uma perversão da realidade, levada a cabo por uma cambada de conjurados, numa mediática conspiração para tomar de assalto a pacatez da gente. Mas, entretanto, vamos sendo assaltados... Será por gente do RSI? Será pelos vitimados por xenofobia? Será pelos desgraçados que engrossam as estatísticas? Será pelos que lutam por certas liberalizações? Será por nós próprios? Ou pela santa ironia?... Irrisórias apreensões perante as estéreis querelas diplomáticas entre o Cavaquistão, a Alegrândia, a Nobrânia e afins territórios deste enclave presidencial... Siga a dança que o povo está cá para dançar segundo os acordes que lhe impõem. Como mau dançarino, limito-me à inconveniência de repensar algumas coisas. E, verdade vos digo, começo a pensar se não trocaria, de bom grado, esta merda de liberdade por um pouco mais de segurança... Acidez dixit...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Retalhos natalícios

Consomem-se os derradeiros segundos, malas prontas, aviadas, compostas. Rectificam-se os últimos temperos, provam-se banais ansiedades, agoirentas as dirão os votados a crendices, passageiras de anos tantos, suavizam-se ao primeiro roncar de motor, aliviam-se às iniciais passadas de devorado asfalto, extinguem-se com o vislumbre de anunciadoras ondas de pétreo mar. Vulgaridades de repetições muitas, ano após ano, há anos tantos que, de tão poucos, quiçá, muitos parecem... Inquietações, amenas inquietudes, adensa-se a incerteza de vergastadas no mercúrio, arrepia-se a jornada a cada baforada de nicotina, esbugalham-se os sensoriais receptores a cada invasão de forçada brisa da montanha. É um mundo, reinterprete-se, O MUNDO!, pintado a familiares cores, tonalidades de sempre, ou reinventadas aguarelas de uma imaginação onde em permanência germinam centeio, batatas e castanhas em férteis campos regados a paradoxo de agrestia. Sente-se, explica-se, ou tenta-se, num infindável desfilar de nunca tidas sensações, como se, de repente, a uma algia da alma lhe aprouvesse transfigurar-se em dor do prazer. Conquista-se o Marão, barreira de ancestral ditado, mandam os que lá estão, ou não mandarão. Cala-se o silêncio de uma qualquer balada de ocasião, infunde-se respeito pelo recado do vento, gélido vento da alvura. Abranda-se o andamento, respira-se a cor, absorve-se a momentânea expiração da montanha, pulmonares simbioses de encantos muitos. Está frio. Ao longe, o manto da névoa, redobrados cuidados, montes de sopés tapados, repetidas imagens sempre guardadas. E a angústia da proximidade, filtra-se o espaço, falta muito, pouco falta? Calem-se, prazenteiras vozes!, Murça é já ali, ao virar de uma qualquer próxima curva, e o Tua compassado corre, há-de chegar, indisfarçável desprezo por uma travessia mais, lá longe, ali perto, tão perto. À distância de uma ultrapassagem mais, ou não, dependências de mal paridos itinerários que a terras do olvido conduzem. O Romeu, a outra Jerusalém, terá Saladino efectivado uma conquista mais?, ou será a miragem de um qualquer oásis num deserto que ao paraíso conduz? Macedo está ali, incólume, ao findar da subida, aconchegado entre sentinelas, pacificamente aguardando o culminar de uma epopeia sempre repetida, sempre desejada, de sempre adorada. É o epílogo da jornada, clímax de repetidas façanhas, batalhas tantas de pretenso Quixote, um moinho aqui, outro acolá, sem velas ao vento, apenas a fugaz tenacidade de um desejo que, de cansaços tantos, apenas quer repousar à sombra do protector braço de Montemé. Sorriem os olhos pelo avistar da silhueta do dorso, agora adornado a pirilampos desenformados de eólicas desventuras, venturas talvez. Gradíssimo acolá, Pinhovelo além, Amendoeira ali, a Carvalheira de sempre, Travanca ao lado, a Bela Vista dos arredores, e o Herculano eternizado, equivocadamente eternizado. É chegada a minha "vila"... Emoções repetidas, nunca monótonas, o renovar de um laço mais, aquele abraço, o beijo outro, e outro abraço mais. E um estômago que reclama pela volúpia de refinados paladares, distintas atmosferas que atrofiam os receptores da taciturnidade, ressuscitando memoráveis registos de anestesiados sentidos. "Ora abonda cá mais um cibo de tchitcha, bota-l'um tantinho de molho queimão... E atão, o arrôze de coube e irbanços stá mim amanhadinho, num stá?"... É a pureza em estado puro... Corroborada pelo tamanho encanto a que as gustativas papilas são elevadas, num reencontro com "rijões" que, na simplicidade de um mundo de xisto, sabem a rojões. Ou no clássico bailado de um queijo de ovelha fresco impregnado a compota de abóbora com nozes... Trás-os-Montes sabe-me a mundo distinto... É o restolho da genética, das raízes, da alma! Dele provém a indómita vontade de não resistir ao encantamento do fumeiro. Remete-se a vontade de uma incursão ao café para a gaveta do amanhã, afia-se o querer, desafia-se o comodismo, espanta-se a preguiça. Degola-se o pão, um após outro, metodicamente. Recheia-se o "caldeiro", camada após camada, a paciência por companhia, o trote da máquina por estímulo. Alguém há-de despertar para a cozedura das "tchitchas", num ritual da ancestralidade, potes ao lume, fogo desperto, imensamente desperto, ambiente impregnado de inconfundíveis aromas, saliva em convulsão. Hão-de vir as sopas das alheiras para saciar a gula, efémeros momentos para a eternidade. Não sem presenciar o estranho digladiar num pântano de massa de pão com carne desfiada, onde se entrecruzam mãos ávidas por rechear as tripas que aguardam a sua vez de se transformarem em arte de ourives, quais luzidios pendentes alinhados numa vara à espera de um cliente que não resista aos seus encantos. Já lá estão, soltando lágrimas por se lhes secarem as entranhas, apura-se-lhes o sabor, aquece-se-lhes a alma com a ternura de sábia gente que lhes conhece as manhas, um "strafogueiro" mais, chegam-se-lhes as brasas que lhes afumam o ser. Um dia hão-de estar prontas para saciar desmedidas vontades. Deseja-se o frio que as atormente e lhes amenize a cura. Mas não! Persiste esta urina dos deuses disfarçada de chuva. O disfarce deveria ser outro... Mas é assim, as alheiras estão lá, altivas, aguardando que a impaciência dos que as cobiçam não se eleve cedo demais...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Penhascos brancos

Talvez seja inédito, ou estejam os processos cognitivos atravancados de acumulações de esparsas memórias. Sábio ancião não sou, nem sábio de forma alguma serei, que a absoluta sapiência é omnisciente modo de estar, e gosto de ser burro que nem um tamanco, salutar forma de aspirar a cavalares promoções. E no enredo deste constante limar da ignorância, recurso a pergaminhos da memória, hercúleo esforço por trazer à tona uma qualquer naufragada imagem, não me recordo de nevões em Novembro. E se, acasos do destino, vir ressuscitado um perdido quadro do passado, já não irei a tempo de corrigir o que escrito está. Porque, simplesmente, não me apetece e, bastas vezes, gosto de ver saciados os apetites ou, lexicais variações de um polimento inverso, aprecio a saciedade dos não apetites. Não me vou vergastar por isso. Nem o vou fazer por não me lembrar do que lógico deve ser, que ilógico, ilógico, seria um nevão em Julho. E aguardo, serenamente, a chegada de um tempo que espero distante, onde darei rédea solta a esta sede de partilhar histórias e historietas, Macedo por timbre, Trás-os-Montes por escudo, netos e bisnetos por companhia. Algures num perdido alpendre de uma anunciada coutada, cachimbo de sôfregas aspirações, assim os pulmões o permitam, baforadas de idílicos aromas abaunilhados, entrecortadas por incursões a um pretérito onde a vida ainda reinava em província de amores muitos, Torga o sentiu, outros também. Nesse longínquo dia de um futuro-mais-que-perfeito, traições da memória não corrompam o éden, lembrar-me-ei que nevou nos últimos dias de Novembro do ano da graça de 2010. Não o da "Odisseia no espaço", o outro, o não ficcional, o dos Orçamentos e FMIs, afins e demais, bem me entende quem queira do entendimento fazer armadura para peneiras que já não tapam sóis. 2010, o da odisseia espacial, talvez, especial, também, para os desprevenidos crentes que, como eu, ingredientes são do bolo de massa atónita, num depauperado mundo que sustenta ricos fidalgos a submarinos e atrasados veículos anti-motim, desesperando numa pobre fidalguia de bloqueada gente à primeira mijinha de alvura, porque a desprotegida Protecção Civil se verá privada - diz a minha inocência - de verbas para um básico serviço público de desencarceramento de quem atascado fica à primeira mija dos deuses feita de tresloucados farrapos brancos. E fiquei com inveja, assim me confesso, pecados meus... Quem os não tem, seus também? Que a neve possui os seus encantos, encantos muitos os direi, e a chuva, doseada seja, também os terá. Mas não para quem aterrou no penico de Portugal, Atlântico por vizinho, produtiva terra onde quando não chove, há chuva. E mais chuva, e ainda um pouco mais de chuva, torrencial ou às pinguinhas, pingando torrencialmente, ou torrencialmente pingando. Ainda se pudesse fazer bolas de chuva para me confundir no infantil mundo da descendência! E nem as insanas versões para arquitectar um boneco de chuva resultam... O velho cachecol fica invariavelmente ensopado e são em vão as inúmeras tentativas de recolocar a cenoura a servir de apêndice olfactivo... Por isso fico a ruminar nesta abrutalhada forma de sã inveja. Também queria um "cibo de nebe", um "cibinho", só um "tantinho pra num ficar im augado"...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Associação Potrica - Lapadas, biqueiros e lostras no iletrismo



O maior mal não é o analfabetismo, é o iletrismo das classes dirigentes (Ricardo Jorge)

Para os mais desprevenidos... Há, reconhecidamente, um dialecto de "Tráze duje Monteje", com as suas especificidades regionais, sublinhe-se. Para os que, humildemente, o desconhecem, talvez tivesse sido mais eficaz ter no título "Pedradas, pontapés e estalos" (e para os que, com sobranceria o renegam, fica, simplesmente, "ua lapada, um biqueiro e ua lostra" para a renegação). Já para os afoitos dos neologismos, talvez a substituição do "iletrismo" por "iliteracia" se revelasse mais conveniente. Contudo, não pretendendo ser mais papista que o Papa, procuro - nem sempre conseguindo, é verdade - elevar a desbaratada Língua Portuguesa a um delicioso purismo, temperando a ousadia com um "cibo" de orgulho nas raízes. Conquanto, nos tempos que correm, lhe veja a pureza desvirginada por "atos de corrução" paridos por quem, numa "ação" de desvirtuar o ditado, aceitou que fosse ensinado o Pai-Nosso ao padre. Andarão o Luís, o Fernando, a Florbela, o Ary e outros mais "práguêjando ná séputura", a aviltar semelhante homicídio? Que pensará El-Rei D. Dinis, tresloucado poeta-lavrador que impôs o bárbaro Português como língua oficial dos diplomas? Que se dane, ainda se desconhecia a existência das terras de Vera Cruz e as traulitadas resumiam-se a ser sanadas por Tratados de Alcanices, e Tordesilhas ainda se anunciava longe... E, reconheça-se o factualmente indesmentível: os polegares apenas detinham desenvoltura para manejar espadas, maças e demais artefactos bélicos medievais para "infiar uas catchouçadas" nos do lado de lá, e para se defender das ditas, também. Hoje, dizem os especialistas em genética, o futuro será sorridente para uns tendencialmente mais extensíveis polegares, muito à custa da massiva utilização de novas tecnologias. Nada de anormal, nada de pecaminoso... O pecado mora ao lado, bem ao lado da correcta utilização de um tal de camoniano idioma, adulterado a "kstões de kem axa k ixo d screver é 1a xpriêxia dkls k tb é 1 xpetakulo" transcendente, mesmo que a transcendência se transforme num vocábulo inentendível. Adiante, que o Sabor ainda corre selvagem e o Tua ainda não inundou a linha... E adiante que, ocasionalmente, vão surgindo motivos para sorrir! Como uma tal de "Associação Potrica" ("Axoxiaxão Potrika" em "Portecladês", cabal demonstração de poliglota!), uma infame organização que, pasme-se, quer revigorar hábitos de leitura. Em cafetarias!!! Mas que "dexk/xideraxão" para quem apenas encara determinados locais como um vínculo à cafeína ou a etílicas formas de arejar a mente! Mas que atentado à liberdade de "xprexão"!!! Mas este rapazola, detentor de uma linguística insanidade de Cavaleiro Andante, aplaude, aplaude, e volta a aplaudir, aplaudindo novamente, numa prolongada ovação a mais esta tentativa de não anuir com a ostracização a que a Língua Portuguesa vai sendo votada através de ignominiosas formas de barata prostituição. Amparem-se os superiores membros, rubicundos que estão de tanto aplauso, limitem-se as suas extremidades a transfigurar os signos de um teclado em vocábulos de louvor a tão impagável iniciativa. Todavia, vou sendo assolado por uma inenarrável tristeza... Macedo estará à distância de um pulo, mas a minha dose de cafeína foi deglutida algures num "tasco" à beira mar plantado onde, em substituição do delicioso silêncio de um livro, ecoava pela atmosfera a aculturação de uma pronúncia que, não desmerecedora de crédito pela sua beleza, se inflitrou em forma de "á-cô-ré-dô" desde que uma Sónia de cravo e canela invadiu o mar português. Foi ontem, lá longe, a preto e branco... E foi hoje, bem perto, a cores... Nesse hoje apenas desejei, temporal arrepio dos sentidos, aspirar uma macedense atmosfera, temperada a Torga ou Junqueiro, condimentada a Pires Cabral ou Trindade Coelho, ou adoçada a monstros outros. Limitei-me à leitura da saqueta de sacarose, reli a saudade e tentei decifrar uma forma de aplaudir uma tal de "Associação Potrica", essa tal que convida para uma "Pausa para a leitura" nos cafés macedenses. Bem-haja! Porque o analfabetismo não reside naqueles que não sabem ler; mas sim naqueles que, sabendo-o, não o fazem... Impavidamente extensível ao iletrismo de certas classes...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sobrevivências com rejuvenescimento do espírito

Será a repetição uma apologia à perversidade de insistentemente escutar a surdez alheia? Ou soará a tal… Para lá da potencial catalogação de insanidade, encaro o repetitivo ser como um audaz, mas tenebroso também, violentador do silêncio das massas. As encefálicas, as cinzentas, as corporais e, para que ostracizadas não se sintam, as alimentícias também. Só para compor o ramalhete das massas, dê-se albergue aos hidratos de carbono, momentâneos desvios da atenção ao essencial, fica-se a pensar no amido e segue o baile do silêncio, entrecortado pelo ruído de umas bolhas de água fervente, frutos da convecção que faltando vai à minha resignada gente. Afunda-se a alma e renega-se a física, num desfilar de fluidos em que as moléculas compulsivamente rejeitam o efeito calorífico, apenas por ausência do mesmo. Derivações de uma qualquer densidade pétrea, não a da terra, não a que emana de geológicas entranhas, mas a do betão que insistem em impingir, à força de atoardas orçamentais, expoente máximo da indignidade com que uma cambada de umbigos com excessivo perímetro vai cerceando a milenar constatação de que todos estamos dotados de resquícios de cordão umbilical. «- Or om’zesta! C’um catancho, o Cabaleiro debe-se ter sbarrado contra um candiólo e ficou tchalotinho, o pobre home! Puri, sbarou no carambelo, scarnatchou-se todo e botou-se scaleiras abaitcho. Foi o mou que mu dixo, oubiu-lo no pobo ó Ti Tonho Gago, ma num me spanta que lu tânha intendido ó scontra, q’o home ingalêa-se co’as palabras e dás bezes dize deis e são déze! Mas inda cm’assim, aparecesse-me q’o Cabaleiro já num dize cousa cum cousa»… Não confirmo nem desminto, talvez seja apenas a indumentária com que o dito traja, carapaça como armadura, antídoto à propaganda com que um bando de falsários leva a cabo aquilo que noutras bandas seria apelidado de genocídio, macabras limpezas, redutoras da etnicidade que lavra na alma de um povo, silenciosamente conduzido ao lenocínio. Sim, porque os ímpetos carnais são dotados de várias vertentes! E as formas de exploração da carne resumidas não são ao propriamente dito… Triste sina a de um povo que “s’amoutcha”, vergastado pelo despotismo dos iluminados de beneditinos corredores, amansado pelo marketing de “train à grande vitesse”, depauperado por extintas “Sem Custo para os Utilizadores”, indiferentemente sodomizado por IVA, IRS, IMI e demais paridos verdugos do pouco que lhe resta. Penitência para alheios pecados, dez “políticos-nossos” e cem “avé-confrarias”, jejum por quarenta dias… E uma sorridente auto-flagelação, alegre suplício da alma (e da carteira também), venham de lá campanhas mais, eleitorais umas, estomacais as outras. “Bou-me mas é fitchar a matraca, num me bânha puri um AVC ou, transmontanamente, um ABC - Agonia por Bias das Cousas”. (Mentalmente, confesso que o C me faz derivar insistentemente para uma vernácula forma vocabular que rima com tostões, assim meio a jeito de conotações caprinas, mas não quero ferir susceptibilidades)… E, verdade seja dita, por caprino linguajar, o queijo de cabra que degustei no fim-de-semana fez-me esquecer as agruras temporais. E as espirituais também! Trás-os-Montes regenera-me a alma! Ainda que este fim-de-semana seja apologético de uma fogueira das vaidades, repetidas mostras em tapetes de arranjos florais, reina a hipocrisia por um dia, que bárbaro sou!, iluminada a ceráceas formas que, por efémeras, não desmentem a compostura de ser socialmente correcto uma vez por ano, na procissão de um rebanho que anda tresmalhado na restante dúzia de meses. Que se danem as sepulturas por 364 dias! Pois… Também sou do rebanho, mas sou uma ovelha ranhosa que se dá ao tresmalho no dia primeiro do mês que já foi nono… Na panóplia de opções, prefiro ausentar-me, numa debandada geral do ser, levando a companhia dos que já companhia me fizeram, relembrando-os numa privada cerimónia, algures num paraíso a que chamam Azibo, onde apascento as recordações a chamas de redescoberta de um mítico chão de onde brotam pedras, sobreiros, cogumelos, castanheiros e outras coisas mais. E onde as agora gélidas águas me aquecem numa orgia de inacabados sentidos, sou capaz de ver o som de um grasnar e ouvir imagens de um sol que se apresta a entregar-se a Morfeu, cheirar a textura da rugosidade das pedras e tocar os aromas que se desprendem da terra, provando a essência de nunca inventados sabores. É tão só um aconchego entre tantos outros que emanam de uma curta estadia pela terra que me esculpiu o ser. Fogueiras outras, que não as da vaidade, umas que aquecem a alma, o coração outras. Moram naquele abraço, num sorriso mais, tantas vezes repetido, na suave sonoridade de palavras traçadas a distinta pronúncia, vozes do povo, vozes da alma, vozes do querer. Residem naquele “capão” que se vai buscar para fazer o “magosto”, nos “stourotes” das castanhas que saltitam no velho assador, nos “bilhós” regados com jeropiga, nas gargalhadas que vão povoando o ambiente com o desfilar de histórias mil vezes repetidas e mil vezes aplaudidas a “risa”. Não cansam, reconfortam, embriagam o espírito sem etílicos vapores. E aliviam o fardo de um Dia de Todos os Santos onde, nos dias que correm, por de todos os santos ser, cabe também um qualquer Dia de São Nunca, padroeiro dos orçamentos, ou, controversas verdades “infurretadas” a inverdade, passou a caber também o Dia de São Pinóquio, incontestado padroeiro e defensor de “boys” ou, instância última, de “jobs” para os ditos… Perdoe-se o Geppetto, que não sabia o que fazia…

sábado, 30 de outubro de 2010

Compensações por coisas simples e banais

Sair da Invicta a uma Sexta-feira ao final da tarde, através da A4, é um exercício próprio para transfigurar a salutar paciência em atroz demência. Sabedor de tal, passei a aproveitar o comodismo da VRI e primas A-Quarentas e qualquer coisa. Não perderam o epíteto de cómodas, mas ganharam o incómodo de, nuns míseros quilómetros, ver a minha carteira sequestrada por uns artefactos metálicos, obras de arte suburbana erigidas por desgorvernados artistas, não plásticos, mas cada vez mais de plástico, ao sabor de disparates cuja culpa é atribuída, invariavelmente, à mediática crise. Mas fui apanhado desprevenido pelo hábito... Quando dei por mim, mal refeito do equívoco de ter renegado a promessa de não circular pelas novas artérias cleptómanas, já as ditas me tinham surripiado três euros e meio, sem apelo nem agravo. Nada como passar por uma experiência traumática para não desejar repeti-la... Circunstancialmente, apeteceu-me cantar o fado, não o popular do trinta e um, mas o da A-Quarenta e um. «Aaaaiiiii.... Ó-la-ri-lo-lela, Como estes não há nenhum, Segue o roubo em Portugal, Até na A-Quarenta e um!»... Repentinamente, fui acossado por um inexplicável saudosismo da velhinha Nacional Quinze. As viagens eram tormentosas, curva e contracurva, intermináveis filas por vezes, um autocarro da extinta Cabanelas que parava a cada cem metros e servia de guia ao extenso formigueiro automóvel, pára, arranca, primeira, segunda e dali não saía até me afastar do perímetro distrital da Invicta. Mas não me sentia roubado! Cousas da Cleptocracia... Adiante, que a A4 está perto, ao virar da portagem. E Amarante, um pouco à frente, logo ali, onde se descortina um acumular de traseiras luzes encarnadas, prévio sinal da exaltação do espírito por pressentimentos de viagem demorada. Sorte danada! A paragem forçada ocorre antes da saída que anuncia o tortuoso itinerário para Marco de Canaveses. Conheço-lhe as entranhas de outras fugas, desvios de tormentos outros. «- Pode ser que resulte»... Resultou, felizmente, resultou, mas fez tardar a hora do repasto que sábias e ancestrais mãos iam preparando. Chegou tarde o desbravar dos sentidos, mas chegou, por entre um breve abraço mais, que a fome ia mutilando as paredes estomacais e multiplicando a ansiedade de degustar o sabor a terra. Cheira a frio, não um aterrador frio invernal, antes aquele frio que arrepia a espinha ao sair da amena temperatura do companheiro de jornada, um leve choque térmico apenas, doce, saboroso, distinto. E cheira, também, a lenha queimada, freixo talvez, oliveira quiçá, carvalho provavelmente, ou qualquer outra, que "mai fai", elimina uns arrepios, seduz com outros. A estranha agradabilidade de adornar os sentidos com os aromas a fumo que passam a decorar a roupa... Sentidos outros que absorvem o desenho de umas alcaparras (as de azeitona, não as outras), temperadas, numa simbiose dourada a azeite e vinagre, uma pitada de sal e um "cibo" de cebola picada, chamariz para a exaltação de gostos perdidos. Ou outros pitéus mais, só para entrada, só para compor o estômago dos «mous filhinhos, que bindes tchêinhos de fome!»... Venha de lá a satisfação do prévio pedido, mimo do inigualável frango caseiro, suculentas coxas que invalidam receios da gula. Reconfortado estômago, divina marmelada, só para adoçar, supremo queijo de cabra, para compensar o doce, nada de mais, delicioso anúnico de sobremesa apenas. Porque a aletria, aquela cremosa aletria aguardava, escondida de gulosos olhares, "grand finale", último aplauso antes da entrada em cena da "volta dos tristes". Só para descontrair, só para desgastar os excessos, só para matar saudades da "vila". E que saudades! Quase deserta, como quase deserta estará em cada noite de tardios repastos, exceptue-se o alarido de académicos festejos, aqui e acolá, lá longe, de passagem. Como de passagem aqui estou, instantes breves na brevidade do retrato de uma noite com coisas simples e banais. As últimas brasas, trémulas, moribundas, anunciam a morte de um dia que já aconteceu, num sempre ansiado retorno a este frio ar que me aquece. Inexplicáveis compensações... Velhinha fisga por testemunha...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Consolos do desconsolo

Anualmente repete-se este misto de sentimentos. Estranha forma de vida esta! A proximidade de mais uma incursão às raízes faz balançar a alma. De um lado, a excitação pela adrenalina gerada pelo aproximar da partida para mais uma fusão com o Marão, calcorreando um mal parido IP4, num dia em que a chuva fustigou anormalmente a terra. E a deliciosa ansiedade pelo reencontro com o ar que regenera, com a família que aconchega, com as serras de Bornes e da Nogueira que amparam a "pátria-mãe", com o Azibo de mil e um encantos, com o xisto e as pedras que com ele se irmanam. Do outro, a saudade, ou a áspera forma como nos dedicamos a relembrar a saudade. E a triste constatação de que, num ano mais, se irão repetir abraços da virtualidade a imagens de gente de quem já sentimos o calor e hoje apenas sentimos o trinar da recordação. Este ano terei mais uns abraços virtuais, daqueles que desejaríamos fossem reais, e muitas vezes repetimos numa realidade passada, mas que ficam sempre por dar quando alguém que nos é próximo é atingido pelo natural ciclo da vida. Esta semana partiu mais um... Ficam as imagens do caçador sorridente, daquele sotaque único, da hospitalidade com que sempre recebia, dos longos jogos de damas com o patriarca, sentados num velho escano com a lareira por companhia... E fica uma singela homenagem... Nada mais... Agora, é hora de zarpar, Macedo espera-me! Não é hora de fado, é tempo de ouvir as castanhas a estourar, num bailado acompanhado por imaginárias gaitas-de-foles onde os paulitos são substituídos por uns "copetchos de girupiga"! "- Bota lá mais um, c'um catano!"...

domingo, 26 de setembro de 2010

A variabilidade das conveniências

Cada mortal confunde a sua existência, invariavelmente, com os locais que lhe vão rasgando as folhas do calendário. É um agradável paradoxo, como se víssemos o privado santuário profanado pelas experiências. Mas afinal são elas que lhe dão vida, se encarregam de lhe esfregar o soalho, encerando-o de seguida. Por vezes, mais que as desejáveis, as experiências transformam-se em estrofes de uma perna só, conduzindo o poema ao desamparo, desequilibrando-lhe as formas, adulterando-lhe a essência. Particularmente quando cedemos à tentação de as reviver, esquecendo-nos que os momentos são irrepetíveis. Nas minhas aleatórias deambulações por terras macedenses, vou revisitando locais que, em maior ou menor grau, serviram de adubo ao meu crescimento. Por vezes, dou por mim a fazer um desvio em direcção à Barragem da Carvalheira. Está bem, é verdade... Agora o paraíso mora para os lados de Santa Combinha, é inquestionável. Mas tempos houve, lá para os desejos de eterna infância, em que a Carvalheira era o oásis, tempero do estio, destino de eleição para um qualquer ajuntamento familiar, um velhinho Kadett por companhia, uma Dyane em alternativa. Ou, tempos outros, pêlos nas pernas, a "ginga", a inseparável "pedaleira" de Voltas a Portugal imaginárias, prémio de montanha na Corvaceira, meta-volante na Carvalheira, só para refrescar um pouco, antes da passagem por Pinhovelo, Vale Pradinhos, Sezulfe, Gradíssimo... E o fôlego recuperado pela ingestão excessiva de adrenalina, vertiginosa descida até ao Pontão de Lamas. Entretanto, sinais dos tempos, esbranquiçaram os pêlos, esvaiu-se em definitivo o fôlego, a "ginga" repousa os seus pedais num velho encosto de betão. E a Barragem da Carvalheira transformou-se, amputada da magia de espelho de água, pessoal e iconograficamente reduzida a um reflexo do país sem escrúpulos em que nos deixámos mergulhar. Somos, cada vez mais, um país dominado por necrófagos, sempre à espreita, vilmente aguardando que um qualquer afoito predador tome a iniciativa de perseguir a presa, afugentando-o de seguida, para sugar o tutano a ambos. Esta proliferação de espécimes cleptómanos não me surpreende. A estupefacção reside na forma resignada como presas e predadores, que a presas passam, se permitem ser sodomizados, sem um queixume sequer, efusivamente aplaudindo esta forma de prostituição compulsiva, onde o proxenetismo é exclusivo de bestas, primos de bestas, afilhados de bestas, e afins de bestas, que são tratados como bestiais sempre que se lembram que em Trás-os-Montes há alheiras e posta à mirandesa. Este bestiário, conhecido de todos, com uma atroz ligeireza escondido de todos, vai estendendo a sua teia, num eterno entrelaçar de viúva-negra, anestesiando as vítimas, enquanto as faz sorrir com uma seiva que tresanda a morte lenta. E as vítimas parecem apreciar... Será isto uma cabal demonstração de latente masoquismo? Talvez... Especialmente para a gente que se viu parida para lá do Marão, naquela saudável agrestia de Torga, num algures a Nordeste de Pires Cabral. Excepção feita ao residual, a gente do mar de pedras vai-se dividindo entre aqueles que aplaudem cegamente um transmontano homónimo do filósofo barbudo que assumiu a sua ignorância, e os outros que, de olhos vendados, aclamam o homónimo do santo das chaves, conotações cinegéticas por apelido, cuja diferença para o primeiro reside no facto de ter nascido em Trás-os-Montes. "Num é trampa, mas cagou-ó gato"... As vozes residuais, não menos importantes que a maioria, provêm de gente afectada, alternadamente, por miopia, estrabismo ou hipermetropia. Navegam nas incongruências do protesto enquanto não são aliciados para um qualquer cargo na junta de freguesia mais próxima. Umas vezes vê-se melhor à distância, outras na proximidade, e outras ainda há em que a focagem vai derivando ao sabor dos favores. Entretanto, uns e outros, mais os outros que os uns, vão-se digladiando por metafóricas casapianas formas de violação sem recurso a parafina líquida. Estranha forma de vida, estranhos conluios estes que geram corrupios de gente que abocanha qualquer migalha, desde que generosamente com proveniência nas esferas onde impera a podridão, a corrupção, o clientelismo e a impunidade. E onde a responsabilidade, apenas porque a culpa é uma forma vocabular ausente do meu dicionário, morre sempre solteira. Por isso a Barragem da Carvalheira serviu de mote a mais estas "Cousas"... Desconheço se corresponde integralmente à verdade a notícia que li. No entanto, tipifica esta doentia forma de estar que nos vai levando ao abismo. Esta pequena albufeira, construída nos finais dos anos 60, inícios dos 70, do século passado, ao abrigo de dinheiros públicos e, julgo, da vontade de Camilo Mendonça, serviu durante muitos anos para abastecimento da rede pública de água. O nascimento da albufeira do Azibo veio, obviamente, retirar-lhe protagonismo, metamorfoseando-a numa trivial passagem de bestial a besta. Nada de anormal... Afinal, neste bacanal à beira-mar plantado, o amigo conveniente de ontem rapidamente se transfigura no inconveniente do amanhã. Todavia, o seu a seu dono, a César o que é de César, caso haja, obviamente, César. E, neste caso, parece não haver César. Oficialmente, a Barragem da Carvalheira parece ser propriedade da Cooperativa Agrícola. Oficiosamente, a detentora dos seus direitos parece ser a Câmara Municipal. Oficial e oficiosamente, o INAG, um tal de instituto que pretensamente serve de autoridade nacional da água, deveria ser o gestor da dita barragem. Porém, oficialmente não há registo oficioso, ou o inverso, sobre a propriedade e direitos sobre um ser que interessa ver moribundo. Entretanto, neste jogo do empurra, oficioso mas não oficial, os empreiteiros que andam a rasgar as entranhas da terra para umas sempre bem vindas vias de comunicação, parecem ter aproveitado, oficiosamente, as reservas de água que, oficialmente, ninguém sabe a quem pertencem. Temperando a eufemismo uma aparente vernácula forma linguística que me adoça os tímpanos nas minhas incursões à terra do olvido, "num sei que bus diga, ma no tempo dus mous abós era d'aixada e seitoura, já tinh'hábido uas cabeças abertas ó berde e uas tripas de fora c'ua peliqueira, ma racontracosa ó carbalho se num é berdadinha! O carbalho ou... A Carbalheira!"

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (III) - Tertúlias na Interioridade Literária

Talvez se tratasse de uma alucinação... Uma daquelas aparições fantasmagóricas saídas de profundos e enraizados desejos, recônditos da alma onde persiste em morar a crença de que, na minha eterna "vila", reside algo mais que a útil banalidade, sempre útil banalidade, reforce-se, de manifestações banais ("pleonasme-se" um pouco, precioso auxiliar de composição, banalize-se a banalidade... banal)... Talvez se tratasse, ainda, e em alternativa, de um estarrecimento ocular por precoces deturpações dos periscópios da alma. Conduzi as extremidades de superiores membros ao par de componentes que filtram as cores do mundo, numa desesperada tentativa de me vincular à realidade. Esfreguei denodadamente, revolvendo pálpebras e pestanas, breve escuridão de irresponsabilidade, efémero acto de presentear os globos com alguma conjuntivite... Porém, de volta ao planeta, alucinação não era, e de metafísicas formas, nem sinal. Era real, intensamente real, pasme-se! Ali estava, bem à frente das "bistinhas c'a terra há-de cumer", um quadro de intrepidez, arrojo de um duo de almas a querer lançar sementes de abcedário na pretensão de inóspito solo. Talvez essas fossem as dores, algias de braços trémulos pela lavra, desconfortos de suor brotado de uma fonte de incerto porvir. Talvez os prazeres fossem outros, a adrenalina da incógnita, a inviolabilidade do querer. Na dúvida, ficou a agenda rasgada a traços de "TERTÚLIA" em folha de dia de aniversário da progenitora. Mais não fosse, a incomum tentativa não morreria sem assistência, sedentos genes loucos em busca de um oásis distinto de oásis outros que povoando vão terras onde cheira a prenúncio de morte. Mas isso são contas de ocultos rosários, sub-reptícias formas de ermar o que ermado nunca foi... No dia, lá estaria, orgulhoso de ver a minha terra num literário gemido. Grito de Ipiranga, diria, num assomo de inusitada coragem, desvairadas melancolias livrescas, dirão os mais atentos a qualquer sinopse de brejeiro sentir. "Anyway"... Viradas as folhas do calendário, assentados arraiais no macedense primo do de Belém, encantamentos pela pureza do desbravar de trechos, inquietantes formas de encarar o público por uma magnífica decifradora de vocábulos da alma, sorriso aberto, escudo incapaz de disfarçar o excesso de nervosismo, deliciosos enganos geradores de arrepios, uma voz que ecoou pelo âmago de macedense sentir, inesquecível gravação neste xisto interior de uma privacidade que só eu sinto e não partilho. Desfilem as ideias, prestem-se auditivos sensores ao entorpecimento da palavra, mágicos torpores, diria, num acervo de vozes e retratos de distinto sentir. Cale-se a poesia que a prosa vai falar. Silencie-se esta, honra à crónica seja dada. Escute-se, agora, a chama de indecifráveis, vezes muitas, poéticas chamas. Clamem as letras históricas pelo seu heróico lugar, deixem-se fundir, também, na ficção de romanceadas histórias, ou verta a sabedoria de acumulada vivência por macedenses ruas. Inebriem-se os sentidos, somente, portas escancaradas ao pingue-pongue entre a veterana escrita e o imberbe escrever. Permissão seja dada ao deambular por entre prismas de tons de unicidade, verdades muitas, verdades outras, cúmplices seres que aram a pena, miscelânea de ingredientes de uma estranha confecção, pastelaria dos sentidos, bolo da alma. Aconteceu, irremediavelmente aconteceu, algures onde o setentrião se cruza com o sol nascente, parando, escutando e olhando, talvez tenha finado o enterro, ou tenha belzebu deixado de lhe querer assistir. Ou tenha o futuro renascido das cinzas, milagre das têmporas de algum padroeiro ibérico, Martim de Macedo, quiçá, segredos desvendados, de queimados fontanários ou do primeiro da de Borgonha. Desviou-se o tiro, a bruma o cegou, a noite dos tempos lhe serviu de aconchego. Ausentou-se o fresco sabor da marmelada fresca, descansos de época, da cafeína, também. No final, sei e sinto que persistem chávenas de negro líquido, em "solo" pedido do lado de lá da fronteira, "cargado" de preferência, transmontana paixão de irreprimível sentir. Como alguém que serve de cavalgadura ao "Cavaleiro" terá dito, num sentido mas breve adeus, ressuscitando palavras de meio século, voltarei eu também. Singela e grata homenagem desenhada a V de vitória & a P de persistência...