Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Ruminações na essência

A sério que me apavora a essência rejeitada. Como uma paciência em permanência desafiada, pela "comida da vizinha", ou por qualquer outra coisa que more para lá das fronteiras concelhias. "Será chuva, será gente", vergonha será, certamente? Vulgarize-se o tempo, venda-se a própria alma, se necessário for, ruboresça a face direita e permaneça a simétrica em alva postura. E aqueça-se o forno nesta invernia de contrastes, onde surge o sol obnubilado por máscaras aquiescentes da sombra. Agarro-me, a silvas o afogado, agouros estes de enfrentar as pétalas a ameaças de espinhos. Pairam as tempestades, e somem-se na efemeridade de um sopro divino, torpor este libertado pela sucessão dos dias... E dos eventos... E da vida... Sim, porque há vida para lá da crónica de uma moribundez selvaticamente anunciada, morrinha esta de molha-papalvos, não mata, mas mói... E molha, até os ossos praguejarem contra o enregelar de um sol da Islândia... Pois, a Islândia... E o Valter Hugo Mãe...
Que, pasme-se, visitou Macedo de Cavaleiros. Mas é lá terra para se visitar?...Já não vem cá ninguém, apologistas da desertificação dixit, terra de dois tostões, enclausurada entre o nada e o vazio, desprovida de interesse, povoada a desconforto... E mais um rol de pouca coisa que, de tão pouca não ser, indigna os que pululam, de conjectura em conjectura, em vãs tentativas de esvaziar o que, afinal, cheio parece estar. Mas isso, foi o "Ti Tonho que mo dixo"... E "bá, há que le dar um dezeconto, q'o home debe de ser mêo tchaloto"... Mas o Valter Hugo Mãe esteve cá, como outros já cá estiveram, e outros hão-de estar. Mesmo que, do Restelo as vozes, estes confins onde o sol parece não nascer, ocasos em sucessão a ocasos, permanentes trevas de um nunca acabado entristecer, não mereça a visita de tão ilustres figuras literárias. Louve-se o encanto da determinação, ou a permanência da crença. Mas o "tsunami literário", epíteto de Nobel prémio, esteve cá... Azares de uns, sorte de outros...
E poderia, tempo tivesse, para uma sublimação dos sentidos numa breve incursão a mais um local onde nada se passa, tudo se passando. Tempo houvesse... Ou esternutações com odor a sarcástico mundo onde... Nada se passa... De passagem, apenas. Só de passagem, ilustra-se a calçada a passos esguios, fome de ser, a solarenga em sorriso aberto de esperança. Está lá, ao virar dos "segadores", olhar espalmado por ruminações nesta não renegada essência, opípara degustação dos sentidos, e os rostos de Cristo desenhados a outros voos. Vá lá... Mas vá mesmo... Ou "o rosto que mudou o mundo"...
Em tempo de abelhas e conversas apícolas, "rais'parta que num se passa nadinha", unção de vetustas vozes em juvenis poses, da opulência de nadas feito o eco... E ecoa, inúmeras vezes ecoa, num buraco escavado à disparidade de ver a sublime essência a residir do lado de lá, sempre do lado de lá, obtusamente do lado de lá. Porém, a mim dá-me jeito vê-la do lado de cá. Mas só porque me dá jeito... Há mais de quatro décadas... "Catantcho pró Cabaleiro Andante que s'aputou co'esta terra!"... São as "Cousas", inexorabilidade dos dias, são as "Cousas"...

 
 
    

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Encantamentos... Feira da Caça e outras coisas...


Interregnos, buscas de uma interioridade nem sempre lembrada, a festa exaltada na passagem dos dias, algures, num algures de encantamentos tantos, nem sempre bebidos com a mesma intensidade com que se degusta uma qualquer ginjinha no pavilhão de entrada, ou nos que se lhe seguem. Ruminam-se os dias, incessantes buscas da alma das pedras, bem no âmago de um qualquer dentro nunca auscultado, trocas de conversas de circunstância, aqui e ali uma paragem mais, lábios ressequidos pela espera da excelência que sabemos existir. Mora na crença profunda do xisto, ou da originalidade que dela resta...
Depois, são as tentativas de exaltação da essência, produto nem sempre vendável, ou os vendilhões de um qualquer inexpugnável templo em incessantes assaltos ao inatacável. Um salpicão há-de sempre ser um salpicão ou, verborreias tantas, um "tchouriço" só é um "tchouriço" nas agrestes terras dos... "tchouriços". O resto são imitações, caras por vezes, travestidas a industriais invólucros desprovidos do suave aroma a terra. Viva a heterogeneidade, ou o que sobra "d'intchidos" povoados a compostos gaseificados que epitetam a originalidade a arrogância da essência. A essência não se adorna a epítetos... É adornada pela própria natureza de que se reveste, desentendida ao sabor das vagas da conveniência, aspirada em incessantes inspirações do não inspirável. Está cá, não há osmose que lhe valha... O fiolho nunca há-de ser funcho pelas "terras de trás do sol posto"...
Mas há-de ser chá de hepáticas inconveniências, ou de estomacais desarranjos, junte-se-lhe um "cibo" de cidreira, ou "uas folhecas de sálbia, qu'é mim boa pr'ázia". Seguidamente, é só tomar, em breves tragos de aromáticos perfis a pedaços de raízes. Mais uma ginjinha e amansa a densidade...
Recruta-se uma qualquer de rapina, sonha-se com alados voos de inalcançáveis horizontes. Olha-se, olhos nos olhos, penetrante olhar impenetrável, desvios contrários de opostas direcções. Prossegue-se, depois, rumo ao interior, apreços tantos pelo êxito da diferença, sorrisos em riste, e jogos inversos também. Revivem-se, antecipadamente, os Caretos, acariciam-se mucosas com hidromel, olha-se com esperança para um qualquer futuro desenhado a painéis, antes de prosseguir por ambientes decorados a festa, internamento em atmosfera embriagada a sabores de fumeiro, queijos, pão, bolos, e demais exemplares que não deixam adormecer o pecado. E bebe-se mais uma ginjinha, "rais'partam" as ginjinhas, sempre a desafiar os incautos para mais uma rodada de amigos, ou pretensos, ou ocasiões para saldar dívidas antigas a bandeira branca. Mais não seja, abafa-se o som do troar dos canhões, pacíficas meditações pintadas a inusitados chapéus e a canos amaciados a brilho de silêncio. 
E conhecem-se mais pedras paridas em pétreo reino, trocam-se galhardetes de apreço pela terra, partilham-se histórias ao som de um sempre inspirador toque de gaitas-de-foles, um petisco mais, «prefere alheira de caça ou normal?», venham de lá umas linguiças bem temperadas, ou o complemento de uma inigualável posta à mirandesa, condimentada a "Valle Pradinhos" ou "Quinta do Lombo", néctares da terra, ou saia o vinho da casa em jarro. De sobremesa? Sorrisos... Apenas sorrisos...


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ideias Natalícias



O Natal, ainda que destituído do universo mágico que carimbou a infância, persiste no encantamento dos sentidos. Mesmo que não seja fácil "botar" explicações acerca deste estado hipnótico, luzinhas para um lado, enfeites para outro, músicas de embalar o espírito, aculturações em forma de "oh, oh, oh" a partir do refrigerante que não fez voodoo ao mal parido sósia do mal amado candidato ao "balon d'or"...
Adaptações dos tempos, tinha mais apreço pelo "M'nino Jasus", cuja omnipresença deixava prendas em todos os sapatinhos do mundo e arredores. Porém, Natal é Natal, nem que as contingências obriguem a naturais contenções de bolsas e almas. E, de facto, sou um crente da época natalícia... Serei sempre um crente, não obstante o massacre de troikas que me constranjam a deixar de acreditar em trenós. O São Nicolau deverá saber como vir montado em renas, desconforto dos dias. Não continuarão as renas com invisíveis asas? "Que mai fai"! 
Como  me dizia um amigo, quando não se podem fazer omeletes com ovos, façam-se com cascas. E, inúmeras vezes, há omeletes com cascas que surpreendem o paladar, exaltam os sentidos, petrificam o olhar. Divagações gastronómicas à parte, aplaudam-se os empreendedores de ideias! Agrada-me esta ideia da "Cidade Natal". A sério que agrada! Porque, repetições muitas, sou um crente. Obstinadamente crente, descaradamente crente... E confesso que gosto desmesuradamente das decorações natalícias. Afagam-me as agruras, retemperam-me a escuridão, moldam-me o carácter para a persistência. E renovam-me! Pelo tempo que duram os efeitos, mais não seja, até à chegada do fogo dos Caretos... 
Hão-de vir os do costume, os que não "coisam nim saim de cima", descrentes de coisa nenhuma, crentes em coisa alguma. Estarão lá, à espera, afoitos por soltar impropérios à geada, que no tempo dela deveria estar o sol no zénite, e nos trópicos é que se estava bem, ou na Lua, que vento não tem e está sempre virada para o Sol... "Quem mo dixo foi um belho do Restelo, ou lá o q'staba scrito por o poeta birolho q'era mim guitcho pra botar uas ideias de doutore im forma de strofeze"... 
"Ma sim, q'a nha bila tchêa de luzinhas fica mim pimpona! Or sim? Digo ou, bá, que fico tchêo de proa mesmo quando se m'ingaranh'ó narize pra bêr'a câmbera co as jinelas á'lumiar a neite"... 
Dizia eu que me agrada esta ideia da "Cidade Natal". E, convictamente, vou tentar participar, ainda que tenha reservas relativamente ao meu (des)apurado gosto para enfeites. Sejam eles de que âmbito forem... E gosto de ver os segadores com vida renovada, mesmo que alguns insistam em apelidá-los de "cegadores", saiba eu que as "seitouras" também serviriam para tirar olhos quando "s'ingaliabam" uns tantos... Mas Natal não é tempo de "bulhas". Até o burrinho e a vaquinha permanecem em sossego no presépio. E por falar em presépio... Que tal um pequeno desvio até ao Museu de Arte Sacra?...
     

terça-feira, 26 de novembro de 2013

De regresso... Porque dizem que em Macedo não há nada para fazer...

Há fins-de semana que nos despertam da letargia, como se um qualquer relâmpago nos trespassasse a alma, penetrando em todas as latitudes e longitudes do ser. Talvez a rosa-dos-ventos traga, agora, um ponto cardeal chamado Renascente... Pode assemelhar-se a um efémero murro no estômago, e tudo volte à "normalidade", à tão apregoada "normalidade" dos dias que correm. Porque dizem que em Macedo não há nada para fazer... E talvez não haja...
A não ser que que se passe uma agradável noite de Sexta-feira a divagar sobre coisas tão desinteressantes como as marcas da presença dos cristãos-novos, tão nossos marranos, por terras de "trás-do-sol-posto". Envolvendo, pelo meio da tertúlia, coisas tão básicas como o orgulho de ser detentor de hemoglobina xística, ou granítica, "bá", ou coisa que o valha proveniente deste reino pétreo. Como não havia nada para fazer, fui a uma tertúlia literária... Mas poderia ter ficado a fazer coisas muito mais interessantes... Protestar num qualquer café acerca de não haver nada para fazer... Por exemplo...Mas fui a uma desinteressantíssima tertúlia literária... E, azar de um "rais'ma partam", ainda tive o privilégio de rever um grande amigo. Rever grandes amigos é não ter mais nada para fazer..
Desbaratada a essência do ser, gravidade dos factos, o Sábado seria preenchido por um percurso fotográfico, indelével marca Alustro, às entranhas da Linha do Tua, essa coisa mal amada por onde, um dia, de barba rija os homens, se dinamitou a pedra para passagem dar ao cavalo a vapor. Mas não havia nada de mais interessante para fazer... E não havendo nada de mais interessante para fazer, verguem as solas do calçado, reúna-se um grupo de "tchalotecos", arrase-se com o gelo matinal, vontades tantas estas, as de nada ter para fazer. Calcorrear o silêncio, onde um dia reinaram silvos que esventraram a terra, olhar para o vazio preenchido a memórias, escutar cada silva a ranger sempre que pisada era para dar passagem. E os risos, aquela coisa pecaminosa de quem nada tem para fazer. Haverá pior forma de ultrapassar um lúdico Sábado? "Tchotchos", estes Alustros são mesmo "tchotchos"...
Após um mais que insípido matinal e vespertino Sábado, e nada mais havendo para fazer, energias balofas essas, rumo às "Memórias da Maria Castanha", preferível é o colapso de um "bilhó" entalado na garganta ao engasgar do nada haver para fazer... Ouvidos cansados pelo estridente disparo de obturadores, escutam-se histórias da "Maria Castanha", esse tão nosso fruto, batata dos soutos. E ficamos encantados por nada haver para fazer... Porque, de seguida, haverá que rumar a outras paragens. Dizem que a Companhia de Dança do Norte terá um espectáculo no Centro Cultural. Centro quê? Blheargh!... Não têm mais nada para fazer?...
De repente, uma alucinante viagem que nos transporta, paralelismos outros, ao "The Wall"... Corpos em movimento, entrelaçar de coreografias, dança das emoções. Bailar de vontades, encanta-se o olhar em trepidantes sonoridades. Termina a sessão com um natural e unânime aplauso, de pé a gente, mãos aquecidas pela alegria de nada haver para fazer. São assim os dias, malfadados ponteiros de um tempo em que, nada havendo para fazer em Macedo, se fecham brevemente os minutos num desperdício de acordes em forma de teclas. Monótono, muito monótono... Agora, regresso feito, apetece-me ir fazer alguma coisa... Nesta terra em que, dizem os crentes, não há nada para fazer... E não haverá... Até ao próximo fim-de-semana em que nada farei...

 


  


domingo, 16 de setembro de 2012

Um helicóptero do INEM como causa - a vida saiu à rua


Não desdenharia da possibilidade de enveredar por um desfilar de simbioses vocabulares eruditas. Dotado de uma parafernália de dicionários, enciclopédias, gramáticas e demais acessórios livrescos como leais conselheiros, dúvidas não me assistem acerca da capacidade de vomitar um bolo alimentar desenhado a algo que se assemelhasse a erudição. Mas não me apetece... Pelo contrário, surge-me uma irreprimível apetência para vernaculizar. Descansadas fiquem puritanas almas, apelo não farei à brejeirice, mas esforços não regatearei para alcançar a pureza da mais recôndita essência. Depois, plagiando o que insistentemente circulando vai por sociais redes, "Vão-se foder!"... Porque é assim, basta recorrer a um tasco perdido numa qualquer aldeia perdida deste perdido Nordeste e, salve-me Nosso Senhor, uma "manilha" mal jogada azo dará a um soltar de língua que, desmedidas palavras, executará um indomável "caralho'sta racontrafoda atão num te fize sinal q'o áze num no tinha ou". Assim mesmo, sem vírgulas ou demais pontuações, expelido com toda a força que os "botches" permissão derem, vozes entrelaçadas num "abonda di mais uas mines, q'o mou parceiro já num faze ztinção entre um baléte e ua sóta". Entretanto, descontroladas emoções, algum dos comparsas poderá sentir um aperto no peito, dor atroz que polui o discernimento, sente-se a vida a esvair-se, atrapalhações muitas, "tchamim o cent'i doze, q'o home se pintcha pró lado, que mim branco stá!". É assim no "fim do mundo", ficcionais âmbitos à parte, que de ficções está o mundo "tchêo", e de realidades "tchêo" está este "cibo" de terra confinado a geomorfológicas condições de Trás-os-Montes. Caros senhores à beira Tagus sentados: os mares nunca dantes navegados não se confinam a Atlânticos, Índicos ou Pacíficos; há também um Mar de Pedras, enviesado entre a Estrela Polar e o Sol Nascente, onde marinhos monstros não há, monstros os haverá, quando cá vêm tentando convencer as gentes que os calhaus à beira-mar paridos são de suprema casta, comparados sejam com ígneos ou metamórficos calhaus neste paraíso nascidos. Por isso ontem saí à rua! Confesso que desvirginei o meu comodismo, apenas porque me habituei à salutar santidade de um Pedro Hispano, de um Santo António ou de um São João, ali mesmo, quase ao virar da esquina, à mão de semear, sem necessidade de recurso a helitransporte que me garantisse uma chegada em 30 minutos (!!!!). Por isso ontem saí à rua!!! Porque viver em Soutelo Mourisco, em Vilar Seco de Lomba ou em Peredo de Bemposta é de uma distinção que deveria fazer roer de inveja aqueles que, recheadas contas bancárias, lustrosos gabinetes, se reduzem à imbecilidade de me tratar como um número. Por isso ontem saí à rua!!! E senti uma emoção nunca sentida ao ver a minha gente testemunhar a importância de umas hélices, ao olhar para a inocência de uma criança salva pela eficácia do que pretendem, agora, retirar-lhe. E emocionei-me ainda mais, ouvindo esta gente exposta à gatunagem de gabinete a entoar o Hino do país que lhe quer vilipendiar a pouca saúde que lhe resta. Paradoxos dos dias, descendentes das estirpes dos que infiéis acossaram, filhos dos que este pedaço ao reino agregaram, vergastadas sofreram para pertença terem a este flato lusitano que agora os quer ver morrer agarrados a giestas e castanheiros... Por isso saí à rua!!! Calma e pacificamente, trajado a luto, de palavras de ordem não abusando, coisas de feitio (ou defeito), palmas das mãos aquecendo para ânimo dar a muitas faces talhadas a esquecimento. E, excelentíssimo reverendíssimo senhor presidente do INEM, minhas faço as palavras de quem, gentilmente, lhe endereçou o convite para um pitoresco percurso de ambulância (pode ser uma VMER, uma SIV ou qualquer outra coisa de quatro rodas) entre Miranda do Douro e Bragança. Se tem os "arraiolos" no sítio, bem presos "ó meringalho", "bote cá buber ua pinga"!
No tempo em que decorrer a confortável viagem, para que não sinta a angústia de curvas e contracurvas, sua ilustríssima excelência terá à disposição um inexcedível serviço de tradução, não só do sentir de um povo, mas também do significado de "arraiolos" e "meringalho" (com versão extendida para eunucos), assim como, enquanto "enfarda o bandulho" com umas agradáveis alheiras (ou tabafeias, se aceitar a sugestão de partida), lhe será gentilmente explicado o significado de "alombar", "stadulho", "seitoura", "aixada" e, especialmente, "mangar". Porque, "mangação" é algo pelo qual os Nordestinos têm pouco apreço... Por isso ontem saí à rua!!! Junto do Heliporto Municipal, local onde, a troco de um digno serviço que a actual ladroagem quer retirar, foram gastos uns parcos milhares do erário público, enquanto se me embargava a voz ao som da união de um Hino, lembrava-me dos tempos que passei por "Al-Lixbuna". Um dia, alguém da sua estirpe, com toda a certeza, mandou-me calar em termos menos próprios, dignos de uma certa e característica altivez: «- Cale-se lá, Sr. Trasmontano! Acaso não sabe que Lisboa é Portugal e o resto é paisagem?»... Nesta humildade de calhau parido atrás dos montes, afectuosamente respondi: «- Não, Senhora Professora! O Norte é que é Portugal! O resto são conquistas»... A História tem sempre a particularidade de poder repetir-se... Por isso ontem saí à rua!!!

  

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Umas hélices como simbologia

Por vezes, o burro cansa-se de vergastadas. O verdugo que maneja o chicote, habituado à mansidão do jumento, vai imprimindo ascendentes movimentos, logo seguidos dos contrários descendentes, silvo a irromper na pacatez e, zás!, sem que conste dos manuais do despotismo a desfaçatez da indignação, soltam-se amarras e voam uns cascos que atordoam o abutre. Logo virão outros, crentes na efemeridade do processo de levantamento de ferraduras... A não ser que a persistência dos indómitos resista à afronta... Mas já o dizia o grande Torga nos seus Diários, lá por tempos de passado século: «É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.» De quando em vez, agitam-se as águas, muito de quando em vez... Cumprida a revolta, hão-de suceder-se as pastas da Saúde (ou doutro qualquer Ministério), numa prolongada odisseia que, Homero por cá andasse, azo daria a mais uns quantos volumes. Vão os cleptómanos acicatando a soberba, apenas pela inevitabilidade de, fenómenos da geomorfologia, ter ficado um Reino Maravilhoso empoleirado no alto de Portugal. Episodicamente, serve o dito Reino para completar os manuais de estatística ou, eleitorais alternativas, cumpra-se ufana obrigação, alheiras e demais acepipes à disposição, caravanas de promessas do não esquecimento. Depois, apresse-se a retirada de medalhas e retorne-se ao oficial Reino do Olvido. Após o desmembramento das linhas estreitas, estreite-se ainda mais a gente, ampute-se o Reino de básicos serviços, definhe-se a saúde, a educação também, esvazie-se a alma que, de alma desprovido, o povo, essa cambada de anónimos energúmenos, povo deixa de ser. Até um dia... Os Filipes também por cá andaram 60 anos... Talvez precisemos de uma nova Restauração, à traulitada não diria... Mas é premente restaurar a crença, o orgulho, a pertença, esta estranha forma distinta de estar, exuberantemente retratada por Torga: «Onde estiver um Trasmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível... Corre-lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora». Prometeram-nos um helicóptero em troca do desassossego, querem retirar-nos o dito para incrementar o mesmo desassossego. Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome... Por isso, a 15 de Setembro, lá estarei num fraternal abraço ao veículo das hélices. Ainda que seja simbólico... Porque do pouco se faz muito e muitos não farão, seguramente, pouco.         

domingo, 26 de agosto de 2012

Alustrar em 24 Horas Non-Stop, ou a paixão pela fotografia

As paixões são como um alustro, surgem de um inexplicável nada, atormentam-nos o racional e, osmoses dos dias, transferem-se para o âmago até que o desmesurado palpitar se esvaia através de uma qualquer substituição. Aos amantes da fotografia sucede algo semelhante. São tomados de assalto pela insanidade de captar a mais simplória singularidade, transformando-a em mais uma obra de arte, sua, apenas sua, partilhada, por vezes, mas nem sempre detentora de predicados que a elevem ao Olimpo dos registos de luz. Mas, crédito ao pleonasmo, são suas, apenas suas... E a paixão, tormento das almas, contrariamente a outras paixões, avoluma-se, instala-se em contraponto ao efémero, cristaliza-se em forma de perenidade. Os anos avançam e não esmorece o fogo. Por vezes, raras vezes, os solitários amantes, ocultados por detrás de uma objectiva, lógica contrariada, desvendam a intimidade de anómalas fusões, partilhas de momentos de êxtase, fulgores de uma pecaminosa luxúria de encantamentos por uma artefacto, artilhado com "pixels" e adornado, inúmeras vezes, a próteses de culto. Vezes outras, evoluções dos tempos, serve um qualquer telemóvel, ou fermenta-se o momento a rudimentar descartável, adquirido no quiosque da esquina. O resultado final, não raras vezes, ludibria o que os olhos viram... Mas isso são coisas para a Física, variações da Óptica, e não meto a foice em alheias searas... Um dia, quais FA (Fotógrafos Anónimos), na quietude de uma tarde de estio, revela-se a paixão quase remetida ao secretismo, exaltam-se valores de objectivas e momentos, elevam-se os sonhos numa catarse que impulsiona entusiasmos atraiçoados pela rotina. Congregam-se esforços, contam-se os soldados e, enquanto esfrega o demo as pálpebras, já se está a alinhavar o evento. Vontades reunidas, avance o batalhão, armas em riste ou, bem vistas as coisas, tire-se-lhe bélico sentido, de máquina em punho. Dança e contradança, rodopios de fulgor, sigam desencontrados passos em busca da alma perdida de uma cidade do interior. Prolonga-se a noite, cruzamentos vários, acumulações de bocejos, pesam as pernas num solitário bailado acolitado, de longe, convenientemente bastante longe, pela incontornável figura de Morfeu. Mantém-se a distância com cafeínicas deambulações, regista-se mais um momento, troca-se uma impressão mais com noctívagos seres, a sobriedade em contraponto à embriaguez, por vezes, anima-se o espírito com a jovialidade de gente trajada a noite em eclipses de cerebrais amígdalas. De repente, valorosa gente outra, a do anonimato, vassoura a postos, reflectores em oposição a goradas tentativas, artérias amansadas por rítmico coçar de asfalto, detritos em acumulação, pás e carrinhos de mão a postos. Ao longe, o silêncio do amanhecer, entrecortado, aqui e ali, por afoitos manobradores de volantes ou por discussões de seres alados em desentendimento no resguardo arbóreo. Vai reinando, de paulatina forma, a inércia, circulam os resistentes em contramão nesta autoestrada nocturna, enquanto a esmagadora maioria da cidade dorme. O peso da madrugada vai-se sentindo nos ossos, reclamam os músculos por descanso, dizem que o cansaço não vem aos que por gosto correm. Mas vem, se vem! Apela-se à presença dos substitutos, em estranhas poses de exposição que, dia fosse, talvez coragem não houvesse. Há-de surgir a salvação, hora de almoço pequeno e de breve refrega com a almofada. Um retrato mais, pormenor esquecido por consecutivas horas de intromissão na noite, abale-se para o lar que tarde se faz. Outros companheiros de luta virão, diurnas captações, não muda a orquestra, só os intérpretes. Decorrem as horas, intrépidos seres, "click" aqui, "click" acolá, Macedo para a vida, ou a vida em Macedo. Não será tão deserta quanto pintada é, nem tão viva quanto desenhada, vezes outras, será. É apenas um pedaço de Nordeste, enfermando dos mesmos males de outros Nordestinos pedaços, captado com alma e fervor por um grupo de apaixonados que o quis eternizar. Tomam o estranho nome de Alustro, um tal de Clube de Fotografia A. M. Pires Cabral, ilustre patrono da terra que, em humildade alustrando, apadrinhou a ilusão de um grupo de aficionados pela fotografia que metamorfosearam o sonho em realidade. Num qualquer futuro, distante se espera, prenúncios de moribudez, hora nunca seja chegada de toque a finados, ir-se-ão os anéis, ficarão os registos. Aos 18 de Agosto de 2012, era assim a vida Macedense durante 24 horas...           

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Rumando a Nordeste - II Encontro de Escritores Trasmontanos

Desdobra-se o tempo vagueando pelas vielas, sob um sol escaldante, a insanidade de correrias tantas em busca de um qualquer éden. O batimento dos ponteiros a acabrunhar-se perante adrenalínicos ritmos respiratórios, a expiração lançando atoardas à inspiração, desregulam-se os passos num vai e vem, sobe e desce de invisíveis degraus. Os sonhos são, inúmeras vezes, dotados de crença... É lançado o repto, fasquia de intransponíveis altitudes, alterna-se o "rewind" com o "forward", entra-se em "pause" vezes outras, sustém-se o inadiável em incursões de querer, monte acima, monte abaixo, param os grãos de areia numa inventada ampulheta redesenhada a xisto e granito. Ao longe, o paraíso, ondulação pétrea entrecortada por vales de um qualquer esquecimento - mas vale a pena o olvido! É só mais um cheirinho a vento, uma pitada de rajadas no escalpe, aspira-se o pó das nuvens, o Encontro é já ao virar do próximo fraguedo. Incrementa a intensidade dos dias, há aquele pormenor a não esquecer - «- Aponta aí na "check list"!» - fugacidade de instantes sobrepostos a instantes, vulgarizam-se pegadas da memória, amontoam-se pausas de fé, lá dizia o poeta dos heterónimos aquela coisa sobre o sonho e a obra... E a dita nasce!    
Apruma-se literário adro, mais para a esquerda, desvia à direita, graves e agudos afinados, inunda-se o espaço a vocalizações de ensaio, prenúncio de imagens de um Reino, espanta-se a gente com azáfama tanta, vai a noite alta, que amanhã é dia de "satcho"... «- Bá, bou-m'à deita q'amanhã tânho que star guitcho!»... Soam os últimos impropérios às bruxas, saem figas de bom comportamento, despedidas de breve trecho, que o dia há-de começar a energias de letras, contos, ditos e... feito! A suave ânsia de ansiado dia, tudo a postos, alinham-se as mentes para o inusitado. Venha a envolvência dos dias, revejam-se velhos amigos, saúdem-se desconhecidas faces, surpreenda-se a alma com o inesperado. Abafa-se o burburinho com o trovão, repentina entrada com o Reino Maravilhoso a aplacar a sede de pertença, toma a emoção conta do aglomerado, faces em desalinho de sorrisos, preenche-se a alma a tonalidades de encanto. De súbito, "Trás-os-Montes", na versão de Teodoro & Cia., incursões à inocência da malvadez do estranho ritual de passagem da infância à adolescência. Memórias de um tempo aldeão readaptado a pena de Tiago Patrício, solenidade de um préstimo a um pretérito futuro. Correm os instantes ao sabor da essência, molda-se a atmosfera a conversa, sente-se o intimismo do espaço, agruras do âmago temperadas a gosto. Mais prosa, menos prosa, saia da ementa um "Alustro", sequências de retratos de um sentir trasmontano, seja lá o que isso for, sente-se, não se explica, corre nas veias, eritrócitos moldados a hemoglobina dos penhascos. Ressuma a seiva, o dizia Torga. Parada e resposta, cheira a uma qualquer transplantação para cá do Marão, a capital do Reino em genética translocação. Sai mais uma Posta à Cavaleiro, condimentada a ancestrais sopros, o António não deixa o dedilhar na gaita-de-foles apagar a memória de idas jornadas acolitadas a sons de arrepio. Entretanto, contam-se as espingardas, o fulgor das horas amansado por amena batalha de um inexplicável querer, talvez tenha sido reinventada uma forma de estar. Afinal, Macedo está vivo, não o Martim de estocadas outras, rejubilam os crentes de ousadia tamanha. E Trás-os-Montes vivo está, juntem-se as pedras que castelos se erguem... Tempos haverá para toque a finados... Por enquanto, siga o cortejo de um estranho sentir, é uma doença que se pega e apega, por contágio, quiçá, o dizem os adoptados, que não basta nas pedras parido ser para o Reino engrandecer. "Trallosmontes" é assim, entranha-se, insondável genótipo talvez. Clamores do crepúsculo, vêm "os anjos nus", pirilaus na amálgama, abafam-se pudores com o mágico comunicar da mestria do inigualável A. M. Pires Cabral, metamorfoses em "anjas nuas", navegam indisfarçáveis sorrisos por ilustre assistência. Venham de lá os autógrafos, lavra para a posteridade, revelam-se sons outros, a Sara e a Helena, violino em desafio ao piano, cumplicidades de clássica euforia, adultere-se o adágio, que filhas de escritor sabem tocar, não fora a pauta rabiscada a uma qualquer demanda do ideal. Terminem literárias incursões, folguem os costados de tertulianos debates, hora da descompressão, brinde-se à vivência numa harmonia esquissada a sabores da terra. Dizem-no "mata-bitcho", deslocado, certo é, mas isto de matar o dito que rói estomacais paredes é quando um homem quer ou, para radical não ser, quando o cerebral centro de controlo se estabelece de armas e bagagens no local onde prolifera clorídrico ácido. Reconforte-se o troar do "butcho" a alheira, tempere-se a um "cibo" de presunto, um "carólo" por companhia, um "tantinho" de divinal queijo. Excitem-se gustativas papilas a incomparáveis doces da Lu, anime-se a gula a inesquecíveis bolachas de Lu outra, acomode-se alimentar bolo a néctar dos deuses, reconforte-se a alma a verdes caldos. Assim, na simplicidade de um inimitável espaço, na intimidade de gente com quem se gosta de estar. Poderia ter-se passado numa livraria. Mas não... Passou-se na Poética...         


domingo, 1 de julho de 2012

Poetizar a província...


De mansinho, somos sonegados à pacatez da Pereira Charula. Uma estranha e profética visão apodera-se dos sentidos, rumores da diferença, apega-se a alma a imagens outras, vulgarizam-se memórias de românticas varandas de um romântico tempo em que a Rua da Praça ir desembocar na Praça. Tempo de desencarcerar os pleonasmos, soltando eufemismos, e vivas dando a figuras de estilo sem estilo algum. São os recursos expressivos, ou coisa que o valha... Divorciei-me da gramática, separei-me da morfologia das letras, etimologicamente desprovido de sintaxe, peremptoriamente afirmam os iluminados que regressões tive a idos tempos de iluminações outras, a petróleo talvez, ou às avessas candeias. O candeeiro é, hoje, outro, furtem-me a comida, que a fome não roubam. Porque os livros estão lá, à passagem da esquina da difamação, penetra-se num mundo de ilusões, aspira-se a inebriante voz das letras. De repente, um idílico mundo em que as cepas se vêem adornadas a cachos de letras, doces ou amargas, verdes ou maduras, folheia-se o tempo que pára subitamente, à medida que um quadro de negra tela se vai ofuscando por detrás de pinceladas de giz, aquele mesmo que preenchia lousas em recuadas épocas em que os pais, ingénuos seres de outrora, amputados não eram da prole.
Por entre umas baforadas de capas e contra-capas, entorta o olhar para a esquerda, alterne-se com a direita, a fermentação de fonemas interrompida pela embriaguez de sorrisos, recatadas faces, a Alice, disponibilidade do ser, a Virgínia, mestre de letras, encantadora de serpentes da escrita, no seu mundo pintado a alvinegro, colorido pela inefável, por vezes, magnânime presença da contagiante D. Ana. Solitário remador na presença de navegadores em barcos de papel... Ou o universo traçado a pena, indecifráveis tintas, da China, ou doutro lado qualquer. Folga o costado de quotidianos sentires, aplaca-se a sede de indizíveis vazios, sorve-se o tempo num alienígena espaço, que a Física tudo não explica, venham o Hawking ou o Albert, conceptualize-se a relatividade da quântica, relativizem-se livrescos quasares, quantifiquem-se negros buracos literários. Opte-se, então, por descer a telúrico planeta, percorram-se os meridianos, pausa para simpático e reconfortante café, duas de letra o dizem, o conforto de uma troca, voam ideias. De tempos a tempos, poéticos saraus, afinidades na partilha ou, novos autores, consagrados outros, preencha-se o serão a velas, luminosidades de encanto, intimista, familiar, na proximidade de um circo de letras, sopa de feras de signos conjugados a sentir.
Vezes outras, empreendedorismo o clamam, ganha o ambiente nobres aromas, excitam-se estomacais fluídos, revisitem-se Isabel ou Laura, venere-se Afrodite ou retempere-se a alma a chocolate, cocktails de excêntricos sabores, ou o sabor das compotas da Lu. Tempera-se a noite a espasmos de gulodice, condimentos do exotismo da D.Virgínia, ou da descendente Joana, uma deglutição mais, poetiza-se a comida, como uma sequência de estrofes do paladar, saliva em ebulição, versos de sabor e alma. Encontram-se anormais rimas entre framboesa e maçã, nêsperas de outra galáxia, gustativas papilas em reboliço, funde-se a amálgama num vulcão rodeado de livros. 
Há espaços assim por Trás-os-Montes, bem no coração do Nordeste, ponto oitavo de Pires Cabral, Terras de Cavaleiros, no despovoamento povoada por locais de eleição, louvores ao sonho em realidade transfigurado. Há simbioses dos sentidos que valem a pena...                        

quarta-feira, 30 de maio de 2012

História, figuras e génese

É destemido ler nas pedras. Penetrar-lhes nas entranhas, sugar-lhes o endógeno, vulgarizar-lhes a seiva, num sistema de excelência. Ocasionalmente, revelam-se as leituras. Na intimidade, recatados momentos, senso anestesiado pelo anseio do "que tudo corra bem". E corre, na eloquência de uns seixos rolados bafejados pelo abraço do Azibo, pelo afago do Sabor ou, simplesmente, pelas suaves carícias de um qualquer regato que desbrava montes e descansa em vales. Por vezes, sublimam-se distantes cronologias, incisas decorações, penteadas o sejam, lá para o tempo de metalurgias primeiras, seriam corvídeos donos da Fraga, o Vilar no sopé do Monte. Já por lá se andou, ao sabor do estio, encantos na sapiência dos que no pó lêem, partilhas que movem os genes, ancestralidade feita culto, ressuma a génese. Sobra espaço para ouvir os que estocadas dão à nossa ignorância. Sentinelas do tempo, resgatado ao som da protecção do "Monte Mellis", dorso de Bornes a clamam modernos tempos. De modernos o são pinceladas da excelência...
Há oficinas que restauro dão à negligência, à excelência, ocasiões outras, sacros rumores na Casa Falcão, ex-libris de um centro inúmeras vezes pouco central. É ali ao lado, na esquina da passagem, ignorâncias de pedras da calçada, fugas de compromissos outros, ou seja o conformismo de mirar, causais fenómenos da interioridade, para museus outros ao alcance de uma qualquer incongruência de definhar o que autóctone é. Mas mora a igualdade, ou supremacia da herança das pedras, lá para os recantos de um Museu de Arte Sacra pintado a querer, simbioses mal entendidas por heróis do escárnio (será?), ou a impureza do desinteresse (será também?). Ou uma qualquer outra coisa estacionada para lá de visível entendimento...
Excitam-se os genes da pertença, figuras muitas de elevação, ganham-se prémios de Academias, Pedro Hispano uma, lá para as bandas de Corujas, grandezas da humildade, imita-se o ilustre de Grijó, raras elevações em duo de anos, fica Frei Francolino registado nas memórias dos conterrâneos, temos um Macedense a dar cartas na exégese bíblica, Pontifícias Comissões, e o Profeta Isaías descodificado pela herança da terra. Figuras outras, idas, ressequidas por cronológico bafo, releituras do cronista, intensas, envolventes, Fernão revisitado, temporais regressões aos tempos do Sandoval, terá prostrado o Mestre, rótulas em desespero, auxílio do de Macedo, o Martim toponimicamente omisso, Aljubarrota revisitada e revista. Para quem quer, para quem pode, para quem sorve...
E fala-se de um linguajar, requiem pelas almas, salvem-se fonológicos processos do purgatório, exalte-se a ancestralide absorta em cumprida penitência, louvem-se os que incentivam. Dizem que o Dialecto Trasmontano é raro caso, híbrido o alcunham, influências do que a artificialidade criou. São as Histórias de Macedo, reveladas pelas bibliotecas do pó, ilustradas pela excelência da recuperação de sacro património, motivadas pela distinção de humildes seres, regadas a envolventes ressuscitações da causa do de Avis, emolduradas a imaterial património da oralidade. Foram as Jornadas da Primavera, antítese do Inverno do esquecimento, prenúncio do fulgor do estio. É a Terra, é a Gente, é o Património... São as histórias com História... São os resultados... É Macedo na estranha e invulgar distinção que tem para dar... Um "bô cibu" está aqui...

                 
 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Feira da Caça e Turismo - Retornos à essência

Numa época de contenções, vorazes apetites e mordazes recomendações para "troikar" de pátria, semblantes carregados pelo imaterial património do destino, trinam invisíveis guitarras num prenúncio de morte não desejada, verga o costado dos fortes, triste sina esta a de marinheiros de seco mar pétreo... No entanto, rompe-se a inexpugnabilidade de inviolável cerca, da putrefacção se faz inebriante aroma, volatilização do antes, o após antecedendo o agora, contrastes do finar feito vida. A realização da efemeridade quebra até pretensas sagacidades, fumo na ausência de fogo, paciência, "que me botim na culpa de num ser do scontra ou q'ande d'a cabalo dó pa trás, que mai fai, daqui num alquino ou, agora que m'afize ó strafogueiro, à tchitcha tenrinha e ó scano"... Devaneios à parte, tem a vida composições destas, "bota-se-m'o curação pró pé das guelas e as manápulas dão-le bóze", quem sofre as agruras da penitência são as teclas, massacradas num compasso de "screbe e safa", sequência de "tchic-tchic-tchic, bolta pa tráze, tchega pra diante, tchamum-le o dilite ou o béque-speice, ou lá o que caralhitchas me dixo o home dus cumputadores". Mas começou a Feira da Caça e do Turismo 2012!!! E não há cheiro a terra que não me alivie as ânsias, que não amanse as angústias, que não aplaque a ira - mesmo que a ira não passe de uma conjunção de três letras para embelezar a prosa... Enfrenta-se a ameaça que paira da abóbada privada de estrelas, priva-se a descendência do conforto de quatro rodas, conforta-se a dita com a previsibilidade de um nocturno passeio sem a presença de abençoada chuva, ruma-se ao recinto da feira, sorridentes faces desvirginando o silêncio do "Prad'Cabaleiros", repetidas saudações à alva e imóvel Maria, intrépidos seres corruptores da calma da Praça Central, a das Eiras é quase ali, deslumbram-se os sentidos com luminosa fonte, comenta-se a fachada do hotel de passagem, ouvir-se-iam as moscas se tempo fosse delas, adiante, é já ali depois das recordações do escolar edifício que relembra a segregação dos sexos. É o fascínio de um regresso, anunciado há um par de anos, atravessa-se o recinto ornitológico, captam-se desconfiados olhares de rapina, apetece tocar, afagar as penas, acalmar os protestos em forma de estridência. Arregala-se o olhar, segue o trio em procissão de deslumbramento, excitam-se salivares glândulas com o desfilar de sabores a terra, alheiras e outros enchidos em exposição, cheira a queijo, diz a descendência, mas cheira a miscelânea de terra e gente, sente-se a volúpia dos sentidos, apetece desencadear um descontrolado ataque às guloseimas. Por fim, saudações muitas, circunstanciais conversas, troca-se "ua mãozada" aqui, um "tchi" acolá, soltam-se uns beijos "n'uas botchetchas" ali, detêm-se as almas para a degustação de uma ginginha, "dá-s'um cibo à língua", revêm-se velhos conhecidos e amigos, demora um pouco mais o intercâmbio quando surge o "mou Binhó", soberba irmandade desprovida de genética, imobiliza-se o cortejo quando os xísticos glóbulos se amotinam pela presença dos longínquos acordes da voz das raízes, familiar e arrepiante choro da gaita-de-foles. É inexplicável esta música que me petrifica, talvez sejam ancestrais genes a clamarem pela injustiça do ostracismo, talvez seja apenas este indisfarçável orgulho nas pedras que me deram vida. Ou seja o gosto pela essência que me consome a dança dos ponteiros. Amanhã sentirei o mesmo, agitar-se-á a alma neste estranho bailado de quietude, revivescências de um tempo que tempo foi em tempos idos. A verdade reside nas portas da memória que teimam em não se fechar, talvez me tenha esquecido do "carabelho", propositadamente me tenha esquecido, porque pretensão não tenho de "cerrar o cancelo até que me tchame o home da gadanha". Quiçá sofra da demência de uma "macedite" crónica ou, instância última, seja o sofrimento derivado de "trasmontanite" aguda. Ou tenha sido a excessiva exposição à monotonia - essa sim!, monotonia - de telas de betão adulteradas por monóxido de carbono ou, alternativas coloridas, corrompidas a grafitti, inúmeras vezes elo constituinte de automobilístico ofídeo, serpenteante VCI ou Segunda Circular decoradas a sucessão de intermitentes luzes encarnadas... Prefiro a pacatez do virtual abraço da imponência de uma árvore, vastos horizontes ondulantes que castram a noção de tempo. Prefiro as terras da Feira da Caça... Podia ser pior... Plagiando uma certa campanha publicitária: "TERRA DOCE, VENHA CÁ!"...          

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Contra-corrente

Seguisse a pança atulhada em rabanadas o normal processo digestivo e estariam as Cousas a regurgitar votos de próspero ano novo, pleno de felicidade, saúde e quejandos. Subitamente, o enternecedor crepitar da lenha que vai amansando as agruras da geada exterior relembra ao "Cousador" que ainda decorrerá mais um movimento de rotação, mesmo que o cu nada tenha a ver com as calças... Afinal, só amanhã termina o ano do "roubar, scut e tolhe"... Dadas as circunstâncias, não me apetece enveredar pela retrospectividade. Mais não seja, rima a coisa com idade e a cabeleira tingida aqui e acolá por alvos sinais faz questão de relembrar que a trintena do milénio já lá vai. Dê-se eufemística preferência à visão da alvura como apelo a uma subjectiva visão de charme... Adiante, que se interrompeu o dislate com precoces acordes de Cantares das Janeiras, grupo de venturosos resistentes à descida do mercúrio.
O aperitivo suplantou o tempero do voraz apetite de quem se aprestava para deglutir um azedo acompanhado por batatas e grelos. Agregada a fome com a vontade de comer, fustigada a presença com ramos de essência a terra, arrepiou-se a alma, certo é, que isto de revivescências tem que se lhe diga, e os lacrimais quase soltaram um grito húmido que se ficou pela lubrificação das pálpebras. De repente, esqueci-me da barragem do Tua, do helicóptero do INEM, da fantasmagórica imagem do "pouca-terra", das estações que definham, da saúde que não temos, do orçamento que - também - não temos. E senti o afago deste incomensurável abraço do Mar de Pedras que reprime as ténues saudades dos finais de tarde Atlânticos. Há retornos assim, manchados a inocuidade, talvez seja a demência em contraponto ao despovoamento, a crença na terra da oportunidade, onde gente vê as pedras em depauperação, impropérios do tempo, vêem os loucos a seiva da vida. E está o "bandulho" empanturrado a desejo, estava o azedo às portas da sublimação e os grelos de "cancelos" abertos à gula. O azeite, "tralhado" no seu repouso de Inverno, áureas gotas que perfumam os frutos da terra, uma pincelada de "binagre caseirinho" para enfeitar o gosto, e a excitação dos sentidos pelas coisas simples. É hora de descer as "scaleiras", a prole em alvoroço, talvez a "bila" esteja desperta para a última "bolta dos tristeze" do ano, luvas a postos, "garruços" a amansar o escalpe, "bota a samarra pur o lombo que t'ingaranhas"... No exterior o ar está impregnado a lareiras em erupção, gelam-se as extremidades olfactivas, sinto-me um alienígena em busca de vida acompanhado de um trio de resistentes, ao longe ainda ecoam as vozes dos Cantadores das Janeiras... E relembro tempos idos em que os forretas eram presenteados com "Estes barbas de farelos... Não têm nada pra nos dar... Só têm uma arquinha velha... Onde os ratos vão cagar"... Efeitos da contra-corrente...

domingo, 27 de novembro de 2011

O arroz da D. Joaquina - Volúpias de dominicais pretéritos

Despertava o franzino imberbe, alheado ainda de lipídicas acumulações, vulgar pau de virar tripas, atlético porém, sublinhe-se, envolto em estremunhado olhar, destro óculo dessintonizado com oposto sestro, e o quase irreprimível desejo de permanecer no aconchego do ninho, embrulhado em ásperos, mas reconfortantes, lençóis de flanela. A atmosfera tresandava a Inverno nessas dominicais alvoradas, o bafo pulmonar decorava o feixe de luz que o candeeiro irradiava, infantis jogos fantasmagóricos da ingenuidade. Do exterior chegavam rumores da agrestia de Bornes, galinácea algazarra omissa e os suídeos em inusitado silêncio. Estranheza pela ausência de animal azáfama, tomava o petiz de assalto a varanda, perscrutar de horizontes com a velhinha figueira vergada pelo peso dos anos e as oliveiras do "Patchalica" em ranger de dentes, amparando com invulgar estoicismo a fina película de "carambelo" que lhes enrugava o fruto. Fugaz arrepio da espinha, extremidades enregeladas, era Domingo! Era dia de enfarruscar o sossego do patriarca, camuflava-se o moço enquanto desatava em heróica correria direccionando a voracidade de mimos para o quarto no lado oposto. Invariavelmente, era recebido com incomparável sorriso, malícia de confronto com a progenitora, cúmplice abraço protector. De soslaio, emboscado no leito paterno, espreitava as figuras do "Comércio do Porto" ou do semanário "Tempo", enquanto o aparelho debitava aquela estridência de imaterialidade patrimonial da humanidade ou, alternativas outras, sentia uma náusea provocada por alienígenas musicalidades de não menos alienígenas autores - "Berdi", "Putchini", "Mozarte" ou "Betoben" - cujos nomes esquisitos não conseguira ainda decifrar. O desfilar orquestral feria uns tímpanos mais habituados ao "Atirei com o pau ao gato" ou, épocas obliquamente douradas, heroicizada era a conterraneidade do "Arrebita", do "Carimbó Português" ou do "Bate o pé"... Tempos outros em que o país parava para deglutir os "Festivais" da Tonicha, do Mendes, do Carvalho ou do Tordo... A matriarcal voz de comando interrompia o efémero éden, anunciando o "mata-bitcho" servido, inesquecíveis "carólos" de pão centeio atormentados pelas brasas, afagados pela textura de lácteo derivado que os amansava com gordurosa relíquia. Era hora de transferência para o vetusto "scano", pendente mesa do improviso, pratos recheados a inconfundíveis e eternos aromas a torrada, o café do pote de ferro a contribuir para aromática orgia. Dispensava o leite - ah pois!, dispensava o leite - até os protestos confundirem a irredutibilidade do rapaz. E, abono da verdade, a espessa camada que preenchia a superfície da leiteira era irresistível! Emoldurava-se o alvo líquido a pó de cacau, incessante rodopio de frustradas tentativas de provocar o desaparecimento da nata. Soava a estranha magia, talvez fossem efeitos de calor emanado pelo "strafogueiro", ou contivesse alguma druídica poção o "caldeiro da bianda" pendurado nos "lares". Viriam as pressas, afinal era Domingo, dia do Senhor. Empertigado em domingueiro traje, "proa" da mãe, botas aprumadas com a verticalidade dos plátanos que engalanavam o terreiro, duo em procissão, talvez ao cortejo aportassem a D. Marquinhas, a D. Deolinda, o Sr. Pinheiro, ou ocasional vulto de dominical romaria à Igreja de S. Pedro. Na serenidade da Avenida das Flautas - jocosa corrupção de idos tempos da toponimicamente intragável Alexandre Herculano - era o centro transposto, a farmácia do Dr. Bento Marques a um lado, a sapataria do "Fernandico" a outro, a tabacaria do "Maldonado" de seguida. Mentais trajectos, não sem antes cumprir o ritual de verificação do termómetro da "Singer", haveria de chegar a "Casa do Pobo", a "Albertina Mendonça", o "Armando Mendes" e a saudosa "Cobrinha", respeitável senhora de infatigáveis respostas a impropérios da miudagem. Pecaminosas composturas em compensação, seria medalha de bom comportamento acolitar o sacerdote, velhas batalhas de correrias outras, fita da meta cortada muito antes do incontornável "Litcha" se digladiar com os sinos. Talvez um dia o S. Pedro tenha em consideração as manifestações do "puto" em eucarísticas celebrações... Culto finalizado, cumprimentos de circunstância, geral debandada, estômagos em aflitivos acordes, retrocedia o passo por idênticos caminhos em inverso percurso. Algures, lá pelo centro, haveria de estar o patriarca em solene espera, que o homem era pouco dado a públicas manifestações. Traçados destinos, escalava-se o "Monte-Mel", inebriante atmosfera de culinários efeitos, haveria a mesa de adornada ser por inconfundíveis iguarias, irrepetível arroz como só a D. Joaquina sabia confeccionar. O "arroz da D. Joaquina"... A estupefacção de assistir à aspiração de suculentos grãos, "tchitcha" quase esquecida, o rapaz entrava em indómito processo de voraz apetite apenas na presença dos vapores emanados daquela travessa de arroz, o "arroz da D. Joaquina"... Alternativas outras a risco de culinárias monotonias, avesso era o "puto" às ditas, ficava por vezes o "Pica-Pau" com as graças, glândulas salivares em desalinho pelo aspecto do magnífico "Bife na Caçarola". E havia sempre uma incursão ao "Café Central", parietais pinturas irrepreensíveis, ficava o petiz deslumbrado pela recriação da lavoura, figuras que o tempo e a modernidade apagaram e a memória não obliterou. Depois, a cadência de futebolístico calendário o permitisse, chegaria a hora de rumar ao velhinho campo pelado. Era a euforia das correrias do "Manel Fininho" ou das defesas do "Pardal", das bolas que perdiam o tino e voavam para as casas dos juízes, do desfilar de insultos às mães dos jogadores adversários e ao árbitro, os incessantes gritos de "Macedo, Macedo"... E a inesquecível figura do "Sô Capela" sempre "en garde" com o seu inseparável guarda-chuva... Eram volúpias de dominicais pretéritos...