Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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domingo, 25 de novembro de 2012

Pelas bandas da terra das "Cousas"










Talvez há uns anos o programa não fosse apelativo. Em recuados tempos, ouvir a banda seria sinónimo de retrogradação, antítese para evoluídas mentes, avultariam desejos de sons que se sobrepusessem às "modinhas" que os bisavós aproveitavam para se aproximar de oposto sexo. Com o advento das tecnologias, em festa que fosse festa eram obrigatórios abundanciais decibeis debitados pela "aparelhaige" ou, apanágio de fartas terras, "bô, bô, er'ó cunjunto". Recordo com agradável nostalgia os preparativos para a subida ao coreto, difusos acordes abafados pela debandada geral em direcção à taberna... Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, lá o dizia o poeta de gloriosos cantos. 
O cartaz anunciava o "Concerto de Natal" da Associação Filarmónica do Brinço e da Banda 25 de Março. A um mês da noite de todos os encantos, espírito natalício em estágio de pré-época, artimanhas de progenitor, convence-se a prole a companhia fazer, salutar caminhada pelo escasso frio nocturno em direccção ao Centro Cultural, ameaças não concretizadas de aquáticos derrames da abóbada decorada a tons de cinza. Em cima da hora, como convém, debandada familiar pelas artérias da "vila", não haveria de estar o auditório de lotação esgotada. E não estava! Mas estava quase... Macedo - e arredores - sairam à rua e, contingências da anomalia, fomos em degredo para a fila K, lá bem perto das saídas, assuma-se o positivo de estar na "pole-position" quando o espectáculo terminasse. E, bem vistas as coisas, sempre houve permissão para, contas de cabeça à antiga moda, verificar que os assentos continham qualquer coisa que ia para lá de um cento de homólogas. Inflado ego pela adesão da conterraneidade, ouvem-se as últimas afinações nos bastidores, aguarda-se pacientemente pela entrada dos intérpretes enquanto se trocam algumas impressões com a descendência, apenas para passar o tempo e lhe acicatar o espírito. 
Primeiros aplausos! Clarinetes para um lado, saxofones para outro, flautas para aqui, os trombones para ali, ficam na retaguarda as percussões, venha o mestre e siga a banda! Bem cá no âmago, digladia-se o orgulho com a "proa", vencem ambos a contenda, eleva-se uma pontinha de emoção. Afinal, naquele iluminado palco, perfila-se a Banda de Lamas, terra do coração, gente que me acolhe como se fosse efectivamente deles, até a genética por lá tem marca, ao fundo, dando ritmo aos acordes em tons estranhamente latinos. "Atão num m'habia d'intcher de proa?"...
O reportório inflama-me o espírito, os pés não sossegam enquanto a sala se enche com uma atmosfera de sonoridades latinas, inusitadas danças e contradanças ao ritmo de salsa ou cha-cha-cha. Aplaudo, se aplaudo! Depois, arrepia-se-me a alma, percebem os receptores auditivos inusuais acordes para uma filarmónica, mas que raio, isto soa-me a familiar! Retrocesso na descrença, é mesmo um "medley" de temas da banda de Carlos Moisés!
Quase sem dar por isso, desafinada voz abafada pelos metais e pela percussão, vou alegremente cantarolando o "Se te amo", "Quando eu era pequenino" ou o incontornável "Os filhos da nação", dos Quinta do Bill. Nesta altura, quebra-se a apatia, responde o público ao som de acompanhamento de palmas, apoteótico momento antes da despedida. Pausa na emoção, esvazia-se o palco, aproveita-se a deixa para uma conveniente reposição nicotínica. Há-de a Banda do Brinço iluminar de novo a silenciosa sala. Paulatinamente, vão entrando os músicos, ovacionados enquanto se acomodam nos seus lugares. Breve apresentação, avolumam-se outros ritmos na sala, menos ousados, mas não de menor qualidade. Obras em cinco andamentos, a roçar a perfeição, calmas, bastante calmas, fugaz melancolia, por vezes, na agradabilidade de inolvidáveis momentos. Compreensíveis coisas da genética e do apego, absorvo a profusão de ritmos da Banda do Brinço sem o "ruído" causado pela emoção anterior. Mais frio, menos emocional... Por fim, ecoa uma marcha militar, intensa, profunda. Sentem-se os genes a fervilhar, solta-se um acompanhamento de palmas ao ritmo da marcha, olha, orgulhoso, o "mestre" para a audiência, ter-lhes-á despertado uma qualquer intensidade escondida. Finaliza uma noite, a repetir, seguramente, haja mais eventos semelhantes. Provada ficou a qualidade do que se vai fazendo por "Terras de Cavaleiros". Provado ficou, ainda, que afinal há gente por essas mesmas"Terras", contrariando viperinos tons da desertificação. E, para o próximo Sábado será a vez da Orquestra do Norte. Lá procurarei estar, de novo... E hoje, despertei ao som de foguetes... É dia de Festa na Santa Catarina...

               

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dias de Festa


Repete-se o fenómeno, ano após ano. Avivam-se memórias em desconcertados Domingos temperados a bafo do estio, Agosto no seu auge, vielas inundadas a "voitures", valorosa gente da labuta além-fronteiras que regressa ao cantinho da infância. Por instantes, perde-se o sentido de Nordeste quando um «- Atão, stás bô?» é substituído pela simplicidade de um «- Ça va?». Mas a genuinidade não é renegada, "coffres", "poubelles" ou "vitesses" em sentido quando se solta um sorriso na companhia de um inenarrável «- Ah car.... ma rafo..!», "carbalho ma racosa" em eufemística versão, que este equivalência não tem para lá das fronteiras do rectângulo. Juntem-se-lhe uns "intremóços" e "ua pinga" e "desentorna-se" o caldo da essência. É só aliviar o momentâneo entorpecimento da alma com um "ricardo" ou um "martine c'ua mine", solta-se a voracidade de momentos idos, relembram-se aventuras tidas e nunca tidas e «- Anda di buber um copo!»... Já não há alvoradas marcadas a ritmo de silvos de "barelas", mas persiste a banda nos seus acordes de eterno marco de raízes. Largos engalanados a bandeiras e bandeirolas, coloridas a modernidade, já lá vai o tempo de artesanais irmandades decoradas ao sabor de triângulos e demais geométricas figuras, apresta-se a gente para a solenidade anunciada pelas badaladas. Alguém "imbarrado" na torre sineira, pernas "scarnantchadas", alterna a sinalética do ritual ora massacrando o sino da direita, ora alvejando o da esquerda. Os menos afoitos a religiosidades, escapolem-se para o tasco mais próximo, sacralizaçóes cervejeiras, alcoólicos compostos outros por vezes, ou lavagem à adega com "auga" gaseificada dos lados de Sampaio. Duas de treta, "bota-se" um olhar de soslaio à aperaltada com excessivo decote, olhos esbugalhados pela infâmia de largos centímetros de perna "ó léu", trocam-se mais umas desconversas de ocasião e, ressequidas gargantas de matinais conversas - e de nocturnas lembranças - "bota" lá mais um encosto labial a "ua mine". Vai soando a homilia, elevações da alma, apresta-se a gente para homenagem prestar à padroeira, anormal ajuntamento defronte do adro. Distribuem-se mais uns "bacalhaus", um "tchi" acolá, sorrisos e um burburinho de encontros de gente da terra. Segue o cortejo processional pelas ruelas da ancestralidade, devoção de muitos, olha-se o abandono com irreprimíveis dores de nostalgia enquanto a banda vai devorando pautas e os passos vão percorrendo, vagarosamente, o que foram trilhos desenhados a pó. Ainda restam alguns exemplares de encavalitamento de xisto, testemunhos de outrora, imóveis seres que a inexorável modernidade ainda não digeriu. Percurso de recordações de um imberbe mundo, expelem-se memórias com acompanhante descendência, saúda-se os que por perto partilhando vão a breve peregrinação. Estará o repasto pronto, tempos outros em que melhorado era, vão felizes os tempos de diferenças poucas para o quotidiano dos dias. Já não se fica para a arrematação das flores, vai clamando o "bandulho" por atenções, redundâncias da espécie, esperam os assados por salivares excitações. Crescem as mesas mais de palmo e meio, acomoda-se a gente ao redor, parecem as salas diminuir com a afluência. Vão alternando os sorrisos com olhares embrenhados na tristeza proporcionada pela saudade, os que não estão e poderiam estar, os que já estiveram e deixaram o legado de uma gravação na retina, e o coração a palpitar pela memória de sublimes tempos. Principia o repasto, desembucham as almas enquanto os espíritos se soltam, as línguas também, cruzam-se conversas e alimentam-se, em simultâneo, os estômagos e os canais auditivos. Há sempre uma história nunca contada ou, se contada já foi, de ponto um acrescento, a novidade se assemelha. Vociferem os descrentes, mas aqui a carne sabe a "tchitcha", o feijão verde tem o sabor de "casulas" e a alface tem o encanto de "selada". Junte-se-lhes o "pupino" e "ua talhada" de melão, por cima o de tostão, desliza o encantamento e fica um "home cm'um tchintcho". Depois, os caminhos não vão dar a Roma. Tropelias do hedonismo, "pança tchêa", os carreiros de gente afluem ao digestivo e à retoma de cafeínicas poções. Renovam-se saudações, conversas de ocasião, "bota mais ua q'agora pago ou". A efémera felicidade ou o êxtase de frustrações encarceradas por um dia. Paira no ar uma certa libertinagem, como se um qualquer comando tivesse ateado um fogo que não arde. Berram os putos em loucas correrias, rosadas faces de adulto em algazarra, parece o tempo fluir em desenfreados paradoxos de ida ao futuro com retorno ao pretérito sem percepção do presente. "Que sa racosa a crise, ou lá o que carbalhitchas dixo aquela que s'aparece c'um home e que dize uas bajoujices quaisquera n'ua língua que num se percebe nadinha!"... Energias repostas, galgue-se a distância que separa o campo da bola, tractores a postos para inusitadas corridas, banho de pó à espera. Há-de chegar o sorteio da vitela, dependência de vontades da dita de o campo estrumar.
Um "finito" para aliviar a acumulação de poeira, sente-se um estranho apelo para "mastruquir", alianças entre a fome e a vontade de comer, regressa-se "ó pobo" onde, artesanais desvios, já soa a preparativos de arraial. Geram-se acumulações lipídicas e demais compostos contraproducentes, recuperar-se-á amanhã dos abusos, que em dia de festa não há quem morra de hipoglicemia. Estreitam-se os laços, selados a etílicas partilhas por vezes, enquanto vão afinando os acordes da banda. O "conjunto" há-de tocar a seguir, ecoarão sonoridades de popular âmbito, aglomerar-se-á a gente defronte do palco, passo para aqui, outro para acolá, siga o bailarico até que as pernas doam. Amanhã é já ali ao lado e será outro dia... Normal...            

sábado, 25 de junho de 2011

Gula, amizades e ar puro

Há reinos onde o tempo parece correr ao sabor da mansidão dos montes. Ouve-se a balada da serra, num inquietante sossego que espevita um sorriso que nos abre a alma de par em par, exposições de abertura zero, filtros ausentes, apenas esta hipnose de um arrepio forçado pelo toque de imagens que embriagam os sentidos. Há tesouros assim, na aparência de um esconderijo, despertados em singelas conversas de uma tradição perdida. Ou quase... Revivescências do pretérito, tempero de seculares amizades nascidas debaixo de sagrados calhaus, descontextualizações em modernos tempos onde conceitos se prostituem ao sabor de (in)conveniências tantas. Há purezas assim, equilíbrio do dar recebendo, num qualquer sentido abraço, fraternidade sem cláusulas, gente das pedras, nas pedras criado, nas pedras parido. Simples, despojada de adereços da aparência, feições esboçadas a carácter da serra, completa, que a vida não é para ser levada a prestações. Retome-se a tradição... Há sempre um tempo para retomar a tradição. Relembrem-se as velhas aventuras dos tolos, guerreiros numa qualquer noite do estio, assados à luz da Lua, repetidos convívios de anos a fio, provisoriamente esquecidos numa gaveta da lembrança. Era o "pito assado na Siôra do Campo". Eram os tolos, somente os tolos, providos da vontade de salutar convívio, pactos celebrados a brasas de giesta, ruidosos lampejos a acordar vidas que dormem, inebriantes aromas da gula, talvez se aproximem os lobos, ou lupinos espíritos da ancestralidade. Quebre-se estabelecida ordem, renovem-se os pactos, adornados a perdido javali, estufadas batalhas, um "carólo" por companhia, abra-se o apetite com salgadas azeitonas, guerreie-se com "carabunhas", abram-se hostilidades da gula. Algures, a lenha, restos de amputados carvalhos, renovada vida lhes deram. E acenda-se a fogueira, deslumbrado olhar, é o fascínio do fogo, é o receio também, por entre um copo mais, controladas chamas que ofuscam, por breves instantes, o calor de seladas amizades. Chegam opíparas convidadas, de Judeus nascidas, folgam nasais receptores da magnificência do cheiro a natureza, inunda-se o ar de névoa do fumeiro, excitam-se gustativas papilas pelo prenúncio a sabor a terra. Um copo mais para atenuar a espera, "aparece-se que stão mim boas, bota cá mais um cibo de jabali"... Rotula-se o ar a conversas de "pança tchêa", provam-se os primeiros exemplares, tostados, saborosos, "ou quero o cornitcho". Celebra-se o momento a perdidos olhares no horizonte, o Azibo ali ao fundo, eterna busca de uma distinção mais, Bornes a um lado, Nogueira a outro, dorsos de guardião iluminados por alaranjada luz de final de tarde. "E atão num s'ass'ó pito? Ah peis que num s'assa! Abonda di a grelha que já o racosemos!"... Ide comer erva a um lameiro, ou palha ao palheiro, melhor o diria a matriarca, ainda por cá andasse! Degusta-se o galináceo, como se vez primeira fosse, saborosa carne curada a grão e couves, e a petiscos que a terra dá. Reacendem-se velhos episódios de noites tantas regadas a infâmia do vinho, soltem-se os espíritos, maniete-se a inibição, avance-se destemido para a gargalhada geral. "Atão num t'alembras daquela neite im que quase te mejaste pra cima do assado? Bô, isso foi quando um biu um jabali a racoser-nos o presunto... Catantcho, o que fai o binho!"... A noite cai, de mansinho, distinta prole estelar a abençoar os esparsos pirilampos em que as aldeias se transformam. Levanta-se o arraial, contam-se as armas e os soldados, apagam-se os vestígios da refrega. É hora de descer ao "pobo", acalmem-se excessos com cafeínica dose, ou exacerbem-se, há sempre um digestivo mais à espreita. Ou um javali que se atravesse no caminho... E na ressaca dos dias, hoje começa o São Pedro... Com o inferno do estio lá fora...

sábado, 4 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (II) - Refulgências de pele lamacense


A Festa... Era no Domingo. Pretérito futuro, perfeito ou imperfeito, num envolvimento mais que perfeito. Eram as cores, garridas, até, trajes de gala que engalanavam o âmago de um qualquer orgulho que parecia irremediavelmente perdido, no quotidiano de "gadanhas", "seitouras" e "aixadas". Sujas roupas, desajeitadas vestes amparadas pelas Sortes, o Moral, Cristelos, Cedelais ou uma Canelha qualquer. Nesse dia ocultava-se a gente "imbuligada" da terra, excepção aos garotos, irrequietos "cmó catancho", desenfreadas correrias pelo aglomerado de gente com roupa "striada de nóbo". E não se ouvia o melancólico ranger dos veículos de tracções outras, alaranjadas formas calcorreantes de caminhos ornados a pó, onde me empoleirava, vezes sem fim, "stadulhos" por segurança, infância doirada por companhia. Nesse Domingo, o despertar era decorado a sonoridades distintas, troavam os sons da alvorada a ritmo de canhão, acordava atordoado com a sequência de "pum-pum-catrapum", tímpanos em algazarra, que os céus pintavam-se a trajectórias de um inconfundível "fiiiiiuuuuu", rastilhos acesos, elevações fumegantes, ficava no ar o rasto de efémeras nuvens artificiais. Era uma cadência de estouros, contra-estouros e re-contra-estouros que me atazanava o espírito, numa melodia que se assemelhava a um concerto de martelos que me vergastavam os receptores auditivos. Até a compensação chegar em forma de sonhos de arcaicos heróis de recolha de "barelas". Ou até descortinar os primeiros acordes da banda 25 de Março, alinhadinha, com o "mestre" na vanguarda, secundado pela rapaziada que fazia da carolice aprendizagem musical. Desafinavam, por vezes, mas ficava siderado com aquele "pó-ró-ró-ró", orgulhosamente extasiado por ver o "Ti Demingos" a debitar umas notas musicais. Era o melhor músico do mundo e arredores, projecto de ídolo de infância do sobrinho. «É u mou tio q'ali bai na banda!»... E já me tinha dado "deis e quinhentos prós doces»... Imaginava-me, crescido, a manusear dourados botões de trompete ou saxofone, percussão talvez, pratos poderia ser, apenas sonhava fazer parte daquele grupo dos "grandes", fardado e de chapéu de polícia na cabeça. Não hesitava em segui-los, marchando ao seu compasso, empunhando, numa mão, a melhor "barela" que havia encontrado no lameiro, na outra munido da artesanal bandeira de papel, encarnada de preferência, que carinhosamente o "Ti Demingos" me tinha deixado surripiar da varanda. Seguia-os, religiosamente, num estranho culto, simbióticas formas onde me via como um imaginário soldado, guardião do rebanho musical. Talvez a minha bandeira de papel fosse o estandarte do exército e a "barela" fosse a espada ou a espingarda dotada de baioneta. Não me recordo de recontros com o inimigo, probabilidades de não existência, ou incompatibilidades da memória. Quem sabe, o inimigo daria tréguas naquele dia especial, aquartelando-se à distância, receios de ser trespassado e esquartejado por aquele indomável general de truta e meia. Apareceria o "Squina", perdão, hábitos não perdidos de tardios baptismos, professor que meu foi. Que por religioso ser, excepções não havia para juvenis epítetos de classe docente. Dizia, apareceria o Quina, perdão de novo, Padre Quina, se faz favor, homem que a sua existência confunde com o pulsar de Lamas. Queira-se ou "desqueira-se", inebriadas vozes de pecados muitos... Com essa inesquecível figura de batina, chegava a solenidade, aproximava-se a "santa hipocrisia" também, que as viperinas linguas amansadas ficavam, que quem ali estava agora era o "S'nhô Pá'dre". E mandava, se mandava! Punha tudo em reboliço. Chapéus desenterrados da cabeça, para "eis", negros lenços desviados, capilares plumagens femininas à vista. E excomunhão para desafios à tradição e ao respeito, ostracizem-se adoradoras de Mary Quant ou expositoras de antepassados de Wonderbra. O "Ti Fanano" punha os sinos em desassossego, "imbarrando-se, dás bezes" na torre da igreja, num desafio ao precipício, inigualável sorriso de oponente do perigo. Silêncio agora, se faz favor, era hora da missa. Missa cantada, mal cantada, encantadoramente mal cantada. Que delicioso era subir a escadaria ao fundo da igreja, ascender ao alpendre, abafar as constantes risadas quando uma voz se descontextualizava do canto, porque havia sempre um mais atrevido que deixava escapar um «Ulha! Aquela aparece-se c'ua pita zeganiçada!». O privado espectáculo da "ganapada" não evoluía para o descalabro porque havia sempre uma respeitável voz que, em surdina, lançava o aviso: «Se num fitchais a matraca, infiu-bos puri ua lostra!». Por entre vernáculas expressões que, por decoro, e por respeito à solenidade, não devem ultrapassar a barreira do irreproduzível. Devotamente, seguia-se a procissão, não sem antes rebentarem mais uns petardos aéreos, anunciantes da saída do pálio, dos andores e do povo que os seguia, cumprimentos de promessas, caras lavradas pela amargura, artificialismo em casos muitos, mostras de social solidariedade, ou dever cumprido, simplesmente. Ia disfarçado de "Cruzado", alva faixa conquistada a custo junto das catequistas, afinal só era "mêo" de Lamas, por causa da costela "imberna". Confesso que preferia não estar dependente do andamento, mas caso assim não fosse outras seriam as memórias. Regredindo no tempo, reconheço que havia um tormento que superava aquele sacrifício da independência e a exposição do escalpe ao tórrido sol de Agosto. Terminada a "pecissão", a minha vontade de desentorpecimento de mente infantil era castrada por uma nova procissão, a do desfilar de gente à qual tinha, quase compulsivamente, de agradar com um sorriso, cedendo ao "bota cá ua mãozada", enquanto olhava esse qualquer desconhecido familiar afastado como executor da minha pena de reclusão às imediações do adro. Cumprida a sentença, prémio de horas muitas, recebia a honra, impagável honra, de ser portador do chapéu do "Ti Demingos". E que "contcho ficaba, tchêinho de proa". Breves mas memoráveis instantes até ouvir a voz da imponente figura da "bó", bradando aos céus, que o "jantar" já estava na mesa. Hora de saciar apetites, laranjada ou gasosa por companhia, que bebidas do Tio Sam ainda eram uma miragem. A azáfama de assados e afins continuava, sequências de éden do paladar, apressadas deglutições para zarpar em direcção à irreprimível tendência consumista de catraio. Com início nos encantos da sorte do bazar, fugazes rasgos de tentativas de recolha de um papelinho premiado. Quando, finalmente era bafejado pelo carimbo da Comissão de Festas, advinha a frustração. Ganhava um "tareco" que, sabe-se lá porque mágicas artes, haveria de aparecer na quermesse do ano seguinte... Inspirado pelo desalento, refugiava-me nos refrigerantes da taberna do "Ti Zé Pinto" ou nos "matraquilhos" da homónima do "Ti Luís". E pedia "ua tchicla d'ua croa" para relaxar a musculatura facial, antes do massacre a pedras esferificadas e gastas pelo tempo, imóveis e desfigurados seres pétreos trajados a jogadores de futebol como carrascos. Por vezes, um dedo exterior ao elenco levava uma "biqueirada" da distracção, trocava-se o parceiro por outro qualquer ansioso em lista de espera. E sujava-se a mão, a vestimenta até, com o óleo que impregnava o suporte dos mudos jogadores equipados à Benfica, Porto ou Sporting. Era tarefa ingrata, depois, justificar os negros resquícios que precisavam de dose extra de "RenaMatic". Se o dito, ou uma boa esfrega com sabão azul não devolvessem a original cor do tecido, era provável que a epiderme facial apresentasse resquícios, de igual forma. Esses rejeitavam qualquer aplicação de tensioactivos... Folgava, com sorte, a carne. Como folga era dada à autofagia que, chegada à hora da "cêa", ia afligindo as entranhas. Nada que um "cibo de tchithca com tantinho arroz" não resolvesse. Culinárias artes da ancestralidade prévias à exteriorização do nocturno espírito festivo. Arrumava-se a banda no velhinho coreto, soava o arranque das primeiras "modas", perfilavam-se arautos conquistadores de donzelas, timidamente apregoando dotes dançarinos. Terminada a dança, voltava tudo ao lugar, nada de exageros, progenitores-sentinela à espreita por entre um copo mais. A inovação dos "cunjuntos" chegaria mais tarde, mas chegou. Dias em que o "Pontão" passava a registar um inusual movimento automóvel, caóticas formas de alterar a fisionomia do "povo", itinerantes mostras de alienígenas matrículas. Um dia veio o cheiro a morte, sinais dos tempos, hipnotizou-se a vergonha e invadiu-se o pretenso privado couto da concelhia sede. Revés de uma inadiável aculturação, paralelos interesses, quiçá, finou a tradicional entrega da bandeira aos novos mordomos. Recusas, incapacidades, desinteresses, estranhas causas muitas, de inentendíveis que são. De resistentes saíu nova prole de mordomos, louváveis guerreiros de moribunda tradição. Cuidados paliativos, tão só... Visíveis na lenta agonia de uma Festa que é prima afastada da Festa que conheci. Mas resiste. Tal como resiste a minha sede de revivescência de quase imemoriais tempos, tão longe que parecem ir, tão perto estão aconchegados. A alfinetada neste ser não provém da perda de aura da Festa, a propriamente dita, com foguetes, bandeirinhas e arraial. Essa apenas é importante porque é a Festa da "minha" Lamas, da "minha" aldeia, das raízes. A outras não me recordo de ter ido, exceptuando a da vizinha Podence, por familiares atributos. Os pontiagudos artefactos que me assolam residem no alheamento a que a Festa está hoje votada. E, por nefasta inerência, na representatividade que esse efeito de modernos tempos tem no evoluir da contaminação através do desprezo. Não é só a Festa que está moribunda ou, em instância última, para demasiado grave não ser a acusação, com efusividade reduzida. É a própria essência de uma forma de estar, contágios do chamariz que já provocou desertificação, despovoamento agora é, eufemismos de quem vai promovendo a gestação do abandono. O parto, quando chegar, há-de ser doloroso. Entretanto, vamos tocando pífaro, ou assobiando para o ar, aguardando que a Senhora do Campo faça algum milagre. Serão gémeos? Sócrates e Aristóteles? Coelho e Lebre? Portas e Janelas? Louça e Plástico? Jerónimo e Touro Sentado? Quem sabe, mas já não acredito em milagres, muito menos provenientes de São Bento... Entretanto, deu-me um desvario do ser... Talvez tenha sido de não ter bebido laranjada e gasosa na Festa. Nebulosidade dos tempos... Cousas voláteis, etílicas, dirão as más línguas... "Q'sa contra-racosa quim u dixo, q'ou num imprenho pur os oubidos, nim pur lado nium! Hai bezes que sou mouquinho de todo"...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

E porque no Domingo foi Festa da Senhora do Campo…

A aproximação do fim-de-semana era o mote para mentais desenhos sobre o que desejaria da festa. Por entre despertos sonhos de Capitão América ou Super-Homem, construía heróicas aventuras para partilhar com os compinchas de brincadeira de fim-de-semana. Nunca se concretizava o idealizado. A frenética intempérie de juvenis mentes alcandorava os sonhos ao patamar do irrealizável. Acabava tudo por sair de improviso, situações em que o “E agora?” obtinha sempre uma resposta válida. Mais não fosse, inventava-se um qualquer desacato para precaver a instalação da monotonia. Mas isso era quando já me encontrava em Lamas, despido de preconceitos da polida vizinhança da “vila”, provido de trapos velhos, calças gastas pelo tempo e pelo uso, sapatilhas desnudadas do aspecto com que haviam saído da “Sapataria do Fernandico”… Mesmo olhado de soslaio, procurava integrar-me naquele corrupio de desregrados putos que, terminadas as obrigatórias tarefas agrícolas, desencantavam sempre uma nova aventura para encher o cardápio das memórias futuras. E achavam uma aberração dos deuses que o “puto citadino” apreciasse participar nas ditas tarefas, ainda que as tentativas redundassem sempre em desajeitados gestos, causa lógica de “mangação”. Mas eu gostava na mesma! “É purque num tens q’alombar dia sim, dia sim!”… A verdade é que tinham razão… Uma razão que me permitiu gravar esses momentos, bem como todos aqueles que antecediam a chegada à aldeia. Nesse tempo, Lamas não era mesmo ali ao lado. O fim-de-semana assemelhava-se a uma longínqua viagem, à qual não poderiam faltar os acessórios indispensáveis para a sua passagem com o máximo conforto. A Sexta-feira era invariavelmente preenchida com o massacre materno, relembrando-me das coisas a não esquecer. De pouco adiantava, porque a euforia suplantava qualquer capacidade de retenção. E, afinal, caso me esquecesse de algo, haveria sempre um primo para ma emprestar. Só não podia esquecer-me do traje dominical. Festa ainda era festa e persistia o ritual de “estriare roupa de nóbo”… Terminado o jantar, era hora de zarpar até ao fundo do Jardim para apanhar a “carreira das nóbe”. Uma velhinha “Cabanelas”, pintada a traços verdes e amarelos, motoristas sempre conhecidos. Retenho a associação de que os mesmos eram sempre da Amendoeira, sabe-se lá porquê. Assim como retenho bem gravado na memória o formato dos bancos, desconfortáveis, de cor acastanhada, revestidos a uma qualquer imitação de pele. Não me causavam muito incómodo. Preferia viajar em pé, apoiado no vidro, apreciando o desfilar nocturno e as ténues luzes que anunciavam, sucessivamente, Nogueirinha, Vale de Prados, Arrifana… Parecia longa a viagem, meros 6 km de asfalto ondulante. Era penosa a subida desde o “Pontão até ó pobo”. Não havia vivalma nesse percurso, para lá de uns distantes uivos acompanhados pelos latidos dos seres caninos que garantiam a segurança da aldeia. Aqui e ali, ruídos de aves nocturnas, o céu por companhia, estranhos sombrios bailados do arvoredo que ladeava a estrada de terra batida. E dois seres que desafiavam a noite… Vislumbradas as primeiras casas, abrandava-se o passo, recuperava-se da ofegante respiração, recompunham-se as trémulas mentes dos terrores do breu. E prosseguia-se, com o restante da caminhada até chegar a casa da avó ou, posteriormente, à da tia. Havia sempre um mimo à espera, aconchegos perdidos na memória do tempo… O ribombar dos foguetes anunciava a alvorada. Era hora de uma rápida higiene matinal, pequeno-almoço devorado pela pressa de ver a Banda desfilar. Era espantoso ver a gente do campo “bestida de labado”, aprumada, despojada das agruras de tarefas agrícolas. Era festa! Corria-se desenfreadamente em redor do adro, saltavam-se os muros com o cuidado de não “esfarrapar” as calças novas nem “scamoutchar” os sapatos. Gerava-se uma solidariedade espontânea sempre que algum se “sbarrava” de encontro ao pó. Tínhamos que estar limpos antes da imposição das faixas de “cruzados” ou do arregaçar de mangas para transportar o andor pequeno. E saía a “pecissão”, marcada pelo compasso da Banda, em alternância com o silêncio, a oração ou os cânticos. O Padre Quina encabeçava a manifestação de louvor, marcando o ritmo, porta-voz da gente que, devotamente, elevava as suas preces à Santa Protectora, enquanto, de forma pausada, se debatia com a inclinação do “cabeço”. A chegada ao “Encontro”, mais que apenas um solene momento, representava o alívio do esforço pela subida, especialmente para os cumpridores de promessas, gente simples que onerava o corpo com o pesado fardo de uma saca de farinha ou de grão, com uma criança ao colo ou com a privação de protecção para os pés. Ou, simplesmente, carregando aos ombros os pesados andores… Começada a missa, era tempo de desligar das obrigações religiosas e percorrer o recinto em loucas correrias, apreciando os “homes” que se aglomeravam em torno das improvisadas barracas de “comes-e-bebes”, mais para beber que para comer, é certo. Quando a sede apertava, havia sempre um familiar por perto para me presentear com uma gasosa ou uma laranjada. Em última instância, ia-se à torneira… Reiniciava a correria, olhos fixos no céu em busca das trajectórias dos foguetes. Não estava contemplado no programa da Festa, mas havia uma competição infanto-juvenil à parte. “A ber quim trai mais barelas!”… Eram os nossos despojos da imaginária guerra que se desenrolava nos céus. Todos queríamos ter a melhor “barela”, ainda que parecessem todas iguais… Também queríamos ter as cornetas ou os carrinhos de plástico vendidos em artesanais bancas, delícias da pequenada, juntamente com os coloridos “doces” que por lá se amontoavam sem grandes conceitos de arrumação. Terminadas as celebrações litúrgicas, hora de ajuntamento das tropas familiares, no mesmo sítio de anos, repetindo o mesmo ritual de anos. Mas tinha sempre um sabor diferente… E havia sempre imensa gente em redor das mantas estendidas no chão. Chegava sempre mais alguém “pra buber um copo” ou para debicar uma azeitona. O tardio almoço campal era regado a imperceptíveis conversas de adultos, complementadas pela algazarra dos primos e por risos, estridentes formas de demonstração de harmonia e satisfação. Deixava sempre um cantinho do estômago de prevenção. Sabia que, ao percorrer o recinto, haveria sempre uma cara conhecida que se dirigiria a mim. “Atão num queres um cibo de bolo? Or tomó lá!”… A determinada altura, já com o esófago a suplicar para não o massacrar com a passagem de mais doçaria, aceitava, grato, provava, respondendo afirmativamente à pergunta “Atão, dize lá que num é mim bô?”, esgueirando-me o mais rapidamente possível. Desfazia-me, sorrateiramente, da dádiva, enquanto rogava à Senhora do Campo para que eu já tivesse percorrido as “tasquinhas familiares” todas… Ficava empanturrado de bolos para uma semana. Hoje, tenho pena de não ter guardado algumas fatias…

sexta-feira, 12 de março de 2010

Preciosidades de uma Lamas de encanto

Deixar-me envolver pela singularidade de Lamas é, também, percorrer as restantes 65 aldeias do concelho macedense. Mais castanheiros, menos oliveiras, mais Terra Fria, menos Terra Quente, todas possuem a sua igreja e o seu adro, as suas festas, os seus santos, as suas fontes de mergulho, os seus pombais, os seus cafés. Todas estão desprovidas da monumentalidade encontrada noutros recantos, todas estão desfiguradas pelo isolamento e pela importação de conceitos além-fronteiras. Visitar uma qualquer aldeia, é sentir o desassossego do xisto moribundo, é assistir à agonia da genuinidade. Como se a pureza transmontana fosse uma doença a erradicar… Certo é que somos o legado de uma série de equívocos históricos, políticos e económicos, mas o Alentejo também o será, e não é por isso que deixo de sentir inveja da tipicidade de uma qualquer aldeia alentejana. Ou, para não ir para tão meridionais terras, corrói-me a alma não ter por cá nenhuma Sortelha ou Monsanto. Mas somos assim… Talvez o isolamento e a pobreza a que fomos votados nos tenham toldado o discernimento, talvez os nossos espíritos tenham sido amaldiçoados por lendas de lobos e corujas… Ou de uma qualquer moura encantada, daquelas que, mais que provavelmente, nem tempo tiveram para molhar os pés no Azibo ou no Sabor… Ou talvez o granito das Beiras ou a cal Alentejana possuam mais valor que o nosso xisto… Ou talvez tardiamente se comece a detectar o que arredio andou por muitas décadas: o orgulho de ser transmontano. Como se, agora que a desertificação nos vai tomando de assalto, sentíssemos que temos de preservar o que, envergonhadamente, se escondia sempre que ocorria uma qualquer aventura para além Marão. Não falo disto apenas por saudosismo… Faço-o pelo orgulho com que sempre levei o nome deste mar de pedras aos cantos por onde passei. Presunçosamente, fui passeando o nome de Trás-os-Montes e de Macedo, mesmo que, inúmeras vezes, me confrontasse (e ainda confronte) com conterrâneos que preferem assumir a sua condição de aculturados, como se ser transmontano fosse uma qualquer metástase a necessitar de ser extirpada. Cousas… Esta minha faceta contestatária deve provir de alguma aberração cromossómica gerada pela simbiose de genética vinhaense com a macedense… Nunca se sabe… O que se sabe ou, pelo menos, o que sei eu, é que persisto, dentro de uma qualquer presumível anormalidade, a embrenhar-me pelo que resta da nação transmontana. Sempre que a oportunidade surge, despeço-me do asfalto e de helvéticos telhados que corrompem a paisagem e deixo apagar a minha existência pela sumptuosidade de um dos muitos caminhos que rasgam os montes, abandonando-me ao vento que sopra, ao frio que gela, a inolvidáveis visões do pulsar de uma terra. É um inenarrável prazer olhar o transmontano mundo a partir do alto. Ouvir o diálogo do arvoredo, perscrutar o horizonte em busca das serranias que protegem a Bacia de Macedo, mergulhar nas profundezas do profano, sentindo o sagrado. Ter uma conversa a sós com a Senhora do Campo, enquanto imagino a azáfama que do recinto se apoderará dentro de pouco tempo. Olhar a “minha” Lamas lá do alto, protegida pela Santa e pelo São Sebastião. Sentar-me num dos artesanais bancos de pedra e ouvir o ribeiro que corria por entre o lamaçal, dividindo a aldeia em duas. Beber água na Fonte de São Brás, reposição de forças antes de infantis correrias pela Canelha e por Cristelos, pela Fonte do Pombo e pelo Facho… Ou pelo Mural, Cedelais, Sortes… E pela “Rebei de Côdes”… Mergulhar, em irresponsáveis acrobacias, no poço que havia por cima do campo da bola, “capar” uns melões e umas melancias, comer uma maçã, de caminho… Empoleirar-me num “sardeiro” e subordinar a legalidade à gula… Correr, desenfreadamente, monte abaixo porque a burra se soltou… Tentar perceber o que era a “aixada”, a “agrade” e a “seitoura”… Compreender, quando subia para o carro das burras, porque me chamavam “estadulho”… E ouvir aquele melancólico chiar que ecoava pela aldeia. Enquanto percorria os montes em busca de musgo e de um pinheiro “amanhadinho”para o presépio… Ou colhendo uns agriões para a salada, bebericando da “augueira”… Manhãs frescas em que aprendia a colocar “pescoceiras”, artilhadas de “aludas”, voltas imensas à espreita da melhor caçada… Chegar a casa “imbuligado”, “tchêinho” de fome e debater-me com um “carólo de centêo” e um “cibinho” de presunto, ajudados a escorregar com uma laranjada ou uma gasosa. Ficar inebriado pelos aromas do “caldo ó lume”… Pular o muro de acesso ao pátio da escola, para jogar à macaca, ao prego, ao “rou-rou” ou “ó q’calhasse”… Empertigarmo-nos, andarmos à “bulha” com uns e “ingaliarmo-nos” com outros. Mais “lostra”, menos “lostra”, mais "biqueiro”, menos “biqueiro”, mais “lapada”, menos “lapada”, no fim andávamos às “carritchas” uns dos outros, fazíamos umas “pintcha-carneiras” e com um “arranca-cebada” ficávamos camaradas de novo. E amanhã havia mais… Se houvesse “carambelo, inda daba pra sbarar”, dando-nos “a risa” com os que se “pintchabum”. “Depeis da cêa”, ligava-se a “trabisão” ou, quando a não havia, punha-se o gira-discos a rodar, enquanto nos “imbutchinábamus” uns com os outros porque um queria ouvir, incessantemente, a mesma música. A música… E a mítica banda… Empoleirada no velhinho coreto, enquanto a mocidade rodopiava com mais “ua moda” e os putos corriam pelo meio do arraial numa saudável disputa sobre quem apanhava mais “barelas”. Depois veio o “altofalante”, seguido dos “cunjuntos”… E os novos tempos finaram as “barelas”… Entretanto, o gélido vento fez-me despertar desta nostálgica viagem. O banco de pedra arrefeceu-me até às entranhas e nem o poluidor de ambiente que acendi me presta calorífica ajuda. É hora de descer até “ó pobo”. Não sem fazer a habitual romaria ao último repouso de antepassados e conhecidos. Só para lhes sentir a presença e para um póstumo obrigado. Olho de novo os castanheiros desnudados, pressentindo a presença de um qualquer tocador de gaita-de-foles… É o vento… E uma ave de rapina que sobrevoa o souto em busca de desprevenida presa…

sábado, 17 de outubro de 2009

Um cibinho de saudades de Lamas


Poderá soar estranho aos lamacenses de nascimento, aos apaixonadamente lamacenses (como eu) ou aos simples conhecedores da encantadora terra da Senhora do Campo. Mas os registos que acompanham esta "declaração de saudades" nada mais são que exemplares da pureza que ainda mora nalguns recantos de Lamas. São "amontoados" de pedras, testemunhas do suor brotado das faces de todos os "bós" de chapéu e fato domingueiro, ou de todas as "bós" com a sua indumentária negra (que, por aqui, a genuinidade da pronúncia ainda não inventou os "bôs" - é "bó", independentemente do género e tenho pena só ter conhecido a minha "bó" e não ter feito o mesmo ao meu "bó"). São restos da Lamas cheia de lama, do ribeiro que dividia a aldeia em duas, do tempo das "cacadas" e das "madamas", das tabernas do "Sô Luís" e do "Sô Zé Pinto", da Missa do Galo e da reunião sacralizada em volta da fogueira de Natal. Restos cujo destino está traçado por lápis de tijolo e cimento, enquanto as silvas não devoram de vez o xisto e não se apagam, definitivamente, os sons melancólicos das rodas dos "carrus dus beis". São pedaços que resistem ao tempo mas que o tempo apagará. Calhaus empilhados por arquitectos que faziam nascer pedra do chão, entremeada por aberturas que mal permitiam ao sol abeirar-se das espartanas mesas para iluminar projectos de engenharia transmitida pela tradição. Ainda bem que a "nebe furaqueira" já não pode penetrar através de arestas não limadas e de junções amanhadas ao sabor do equilíbrio. Ainda bem que já não há fogueira de Inverno sem "tchupão", com uma abertura no tecto que se tapava quando "tchubia que Dous a daba". Já não seria capaz de trocar o conforto do sofá pelo "motcho" onde me sentava para "ciar", instalado à beira da lareira, apoiando o prato num armário que servia para "arrecadar o pão-centêo". «Ó mou filho, puruqué que num te sentas à mesa?», perguntava-me, inúmeras vezes, a "bó". Definitivamente, adorava comer rodeado dos aromas dos "guiços", do "capão" e da "gabela" que se iam queimando enquanto a noite caía, impune, sobre uma aldeia onde a electricidade não era um bem de primeira necessidade. E onde uma casa-de-banho mais não era que uma utopia substituída, quando a coisa apertava, por uma incursão ao monte ou, noite caída, por uma descida pelas "scaleiras" à "loje das burras". Até que um dia, o meu "velhote", mal habituado ao conforto proporcionado pela vivência na "vila", decidiu transformar um dos extremos da "casa dá'bó" numa moderna instalação sanitária. Acrescentando, já não me recordo se antes ou após, a, ao que julgo saber, primeira instalação eléctrica caseira na aldeia. Hoje, pouco mais de três décadas volvidas, fala-se em instalações de fibra óptica. Ainda bem... Todavia, ainda sinto as minhas narinas percorridas pelos aromas libertados pela fantástica sopa elaborada em potes de ferro ao lume, pelas torradas de pão centeio acompanhadas pelo café feito, também ao lume, e no qual era depositada uma brasa incandescente "pra le dar sabor e prá'ssentar". Estou a salivar... A sério que estou... Esta viagem ao passado está a trazer-me à memória imagens que julgava apagadas. Como o fascínio que me provocava olhar para a sequência de potes luzidios, empoleirados em cima do armário, questionando-me como era possível tal brilho depois de os terem obrigado a suportar as agruras das brasas. Ou os talheres que me eram reservados sempre que comia em casa da "bó", ornados a simplicidade, metade madeira, metade ferro, num arcaísmo artesanal de que já não encontro exemplares. Ou o púcaro de esmalte que era o meu objecto ritualizado e do qual não prescindia mesmo após as insistências "pra que bubesse nos de bidro". Era a minha Lamas... Felizmente, hoje ainda o é... Com outros contornos, com outra gente, com outras pinturas... Mas o "São Sabastião" ainda está lá, a Senhora do Campo também, e a Igreja, mesmo com muros renovados e já sem o coreto a fazer companhia ao adro por lá há-de continuar. E os "castinheiros" hã-de continuar a pintar a subida ao Facho e "ou hei-de ficar sempre contcho pur ser imberno"...