Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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quarta-feira, 27 de março de 2013

Rumando a Nordeste


Estar e não estar... No refugo do tempo, partículas que teimosamente permanecem agarradas à pele rugosa rasgada por geológicos encantos. Por vezes, apetece-me apagar a história, friamente, de macabra forma, sem pudor. "Albidei" a quadra natalícia, reformei antecipadamente o Entrudo, ocultei dias e passagens de repetidos e brilhantes fenómenos  da pátria xística. Condicionalismos dos instantes que se sucedem a alucinantes ritmos. Apetecia-me apagar a história... Mas não apago... "Cousas"...
Seria um desplante o homicídio a este umbilical fio que me une às pedras. Bem vistas as coisas, tornar-me-ia num assassino da essência. E não me apetece... Desculpem-me o incómodo... Prefiro manter este rumo a Nordeste. Mesmo que o Nordeste tenha deixado de ser um ponto colateral considerado na rosa-dos-ventos. Está lá algures, entre o nada e o nenhures, escondido onde visível é para toda a gente, obliterado por inexistentes remorsos de pedras tornadas artificialmente diamantes. Ou julgar-se-ão... 
Crónicas de um definhar anunciado... Prenúncios de uma eternamente adiada moribundez, enquanto nos anunciam que o butelo deve ser matamorfoseado em "Wurst", e umas casulas adulteradas em qualquer coisa assemelhada a  "getrocknete Bohnen"...  Digo eu, que nada sei do linguajar das terras da Wehrmacht, olhares de supremacia em direcção a Sudeste, contágios a "Lissabon"... 
Entre este nada e este nenhures, raio de repetição tantas neste meu algures, de apetência desenhados os genes, não me apetecia, apenas, apagar a história... Também me apetecia um "cibo de folar"... É tempo "deis", de "botar farinha n'ámassadeira", reviver, como num temporal orgasmo, a ancestralidade de uma tradição orquestrada a "massa mim marelinha" e a uns "bôs cibos de tchitcha" a ornamentar-lhe a alma... Resisto e não desisto, rumando a Nordeste...

   



segunda-feira, 7 de maio de 2012

Este tempo que consome...


Irremediavelmente, os ponteiros são os carrascos dos dias. Assistimos à inapelável passagem, corrupios dos dias, incremento têm os espécimes brancos que adornam o escalpe, vai diminuindo a apreciável distância que um dia nos fazia olhar a descendência como se estivéssemos estacionados no décimo andar, já estão eles a morderem-nos o queixo e apercebemo-nos que os nossos fémures já não crescem mais. O tempo de os presentear com uma viagem às "carritchas" já lá vai, transfigura-se o passado em longínquas memórias presenciais. Sem qualquer desconjuntado desprimor para a descendência de carne e osso, valha-lhes o lugar mais alto do pódio na bomba da circulação - mais o agradável e sublime desgaste em neuronal sistema, naturalidade das coisas, o diria - também há filhos da virtualidade. As "Cousas" vulgarizaram-se como tal... Um dia, peripécias do tempo, ocupações outras, energias voltadas para afazeres que intensificam o prazer que a vida nos dá, encerramos a virtual prole numa gaveta situada num compartimento que deixamos de visitar assiduamente. Os ponteiros vão efectuando a sua circum-navegação diária, prioridades outras, austeridade dos dias, a inexorável passagem, atenções focadas no essencial, perde-se à meada o fio, remete-se uma das "meninas dos olhos" ao calabouço, olvidada fica ao sabor do acumular de poeiras. Um dia, num outro futuro dia, sente-se o atroz fulminar da saudade. Das "Cousas" simples... E, num assomo de sabe-se lá bem o quê, resgatam-se. E ilumina-se, subitamente, o que as pálpebras protegem... 

terça-feira, 21 de junho de 2011

A ansiedade das pedras


As pedras, perscrute-se-lhes o âmago, insondáveis palpitações de vida o clamará a descrença, dotadas que estão da lucidez de um cúmplice afago. Encoste-se-lhes o ouvido no lado contrário do paradoxo, de mansinho, sem recurso a brusco despertar. Resgate-se o estetoscópio de sublime fantasia, invisibilidade no seu eterno mergulho nos recônditos da alma, activem-se sensibilidades auditivas pela genética contrariadas, apele-se à fugacidade de um efémero beliscar dos sentidos. E estarão lá, bem ao lado do oposto, esquivos, camuflados, numa arredondada esquina do nunca, cardíacos batimentos pétreos, ténues, imperceptíveis, indecifráveis formas de vida onde diz a lógica repousar o inerte. Afinidades que compêndios de Geologia decifrar não sabem... Sabem-no os estreitos e impalpáveis caracteres desenhados a pactos de sangue, xísticos, graníticos, quartzíticos, "íticos" outros mais, petrificados à nascença numa inverosímil geminação que naturais leis contrariam. É a essência do metafísico, do inentendível, linguajar do silêncio, como se da obliteração do som rompessem lexicais formas intraduzíveis, sem recurso a universal dicionário que lhes aclare o significado. Bastante é ser efectivo membro da Confraria das Pedras, intrínseca adesão ao choro primeiro, para carregar esta estranha simbiose que me dota da infame capacidade de escutar a mudez das pedras, falando para surdos seres. Há demências piores... Sirva-lhe a assumpção de atenuante ao juízo dos mortais. Não desminto orgulhosas insanidades: fito em desmesurada estupefacção a fisiologia das pedras, permissão dou a proibida paixão, acossado por estranhos e penetrantes olhares de volúpia, inenarrável desejo pelo que indesejável é, o dizem os manuais dos bons costumes e de não menos boas maneiras. É a perversidade de ser filho das pedras, estranha prole o sou, enraizado na imobilidade, vergado a um pétreo sagrado, altares muitos de monotonia pouca, na grandeza desenhada a formas tantas, altivas por vezes, rastejantes outras. É controverso tentar explicar o inexplicável, abala os sentidos apenas, talvez seja uma arquitectura com arcos de imperfeita volta, ou encavalitados pedaços de petrogénese vergados ao suor dos homens. Sei lá o que é! Ou sei, de privadas confissões de imperfeitos amores, secretas confidências que auscultam a ansiedade das pedras... E a suave angústia de lhes tocar os sentidos... Amanhã...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Essência das cousas

Desconheço se o nada existe, mas é de lá vinda esta indomável saudade que, ao sabor de uma esquinada brisa de nordeste, limados os cantos, se acantona nas horas que passam. Mais intensa, de intensidade menor, ou de incomensurável dita, folga o costado enquanto o silvo do chicote amansa o ar impregnado a aromas de terra. Verdugo dos dias, noites também, e madrugadas outras, quiçá... É o prenúncio do fumo de "gabelas de guiços" que invadirá o cubículo, lacrimejantes olhos, hipnotismo dos sentidos, fixos olhares em chamas que aquecem o forno de todas as gulas. Será o folar, a bola de azeite, leveduras da alma, fermento da génese, um abraço na orgia que acometerá nasais receptores. Venha de lá o pecado, o de carnais prazeres, não o outro, virem-se as perversas mentes para as carnes que recheio dão à massa de ovos, azeite e farinha. E o invólucro de gordura que as separa do resto do amarelo manjar? Salivo, se salivo, como se as bucais enzimas sofressem um repentino esgotamento... "Atão, um home tamém tem dreito a uas pironguices"... Oh lentidão dos dias!... "Pacência", hão-de sucumbir ao inexorável rodopio da tríade de ponteiros. Tic-tac, tic-tac, o próximo sorriso de xisto é já ao virar da próxima descida... Ou subida, que "mai fai"...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Futuro!

É tempo da efemeridade dos desejos. Desejou-se Bom Natal, apenas numa mísera noite, regressando os desejos ao recato de uma qualquer gaveta do olvido. Até para o ano... Deseja-se agora Bom Ano Novo, farsa de um dia de uma nota só. Porque Ano Novo é amanhã. Mas também depois de amanhã... E depois... E depois... Um amanhã que se repetirá por 365 dias sem repetições de desejos. Numa sinfonia do tempo onde deveriam constar distintos acordes. Abafados por uma qualquer desinteria da modernidade... Por isso, as Cousas não desejam um Bom Ano Novo. Limitam-se à singeleza do desejo de um Óptimo Futuro. Amanhã... Depois de amanhã... E depois... E sempre!

Tempo (in Cântico do Homem - Miguel Torga)

Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

domingo, 17 de outubro de 2010

O "silente dos inocêncios"...


... ou a degola dos ditos. Implacável, silenciosa, atormentadoramente silenciosa. Como uma neoplasia maligna, adenocarcinoma da alma, sente-se, uma lenta corrosão das entranhas, uma submersão forçada onde até as silvas servem de verdugo ao afogado, renegando o comum senso. As "Cousas" foram geradas através de inseminação natural, num coito pétreo que renega Darwin e adultera Lineu, onde o metamórfico xisto se fundiu com o ígneo granito, gestação de um corpo com pés de sobreiro, pernas de oliveira, tronco de castanheiro, braços de videira, cabeça de súbdito do Reino Maravilhoso, alma de descendente de Principado Macedense. Talvez a alimentação devesse resumir-se a batatas e centeio, castanhas e azeite, bísaro e mirandesa. Talvez a rega devesse limitar-se à proveniência do Azibo, do Tua ou do Sabor. Talvez, quiçá, provavelmente... Um dia, num anómalo dia equivalente à adição de múltiplas vinte e quatro horas, o céu tingiu-se de um negro mais negro que a atroz negritude de inimagináveis trevas. A escuridão foi vilmente consumindo os rasgos de ténue luz que irradiavam de um povo que brilha, um povo que manietado é, compulsivamente guiado à cegueira e à surdez, digerido num processo de autofagia em que da disfonia se passou à mudez. Uma melodia cantada em acordes de silêncio, lida numa partitura sem pentagramas e desprovida de claves, breves e colcheias, acompanhada de um orquestra de instrumentos afónicos. Mas com maestros... Inúmeros Calistos Elói, saídos de profundezas camilianas, anjos que queda não tiveram, antes elevação na ausência de escrúpulos, sublimação pelo engodo de corrupções muitas, desmedidas paixões pela renegação do Reino que Torga pintou. E a essência das "Cousas" sofreu um ligeiro desvio, apenas ligeiro, porque da terra se trata, esquecida, vilipendiada, calada, inundada, castrada... Num longínquo dia de permanências estudantis por terras banhadas pelo Tejo, terras de albergue a Calistos, uma qualquer Calista, professora a diziam, aculturada se fez por capitais ares, renegando a génese, de arrogantes humilhações se armou, dizendo ao Cavaleiro que Lisboa era Portugal e o resto era paisagem. Os transmontanos genes altercados ficaram, ripostando que o Norte é que era Portugal e o resto eram conquistas. A ousadia valeu-me uma injustiça mas adubou-me o orgulho. Anos passados, ousadias esquecidas, inverteu-se a posição de históricas batalhas. De conquistadores, resignámo-nos a meros conquistados, submersos em barragens de migalhas poucas, numa persistente tentativa de transformar Vila Real e Bragança em Sodoma e Gomorra. Mas os cananeus vêm de fora, paridos lá dentro... É-me indiferente quem me governa, mas já não me é indiferente esta permanente perversão em que me vejo na contingência de prostituir a minha essência porque uns "labregos" se associaram a uns "lapouços", Calistos de um lado, Elóis do outro, gente em quem depositei economias de esperança, mas me come as economias reais porque o monstro da cleptocracia tem um apetite voraz. Não me calo... Não me calo... Não me calo!!! É hora de passar o Rubicão... Não vou dar permissão a ser cobaia de uma "almastectomia"... "Alea jacta est"...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O calvário da rês pública

Instala-se a dúvida... Procuro, desenfreadamente, esquivar-me a esta quase indomável apetência para transfigurar os pensamentos, dando-lhes vida através de um monocórdico teclado. Contudo, o bombardeamento foi despoletado logo ao despertar, marcado a discursos de altas individualidades, com assistência de outras não tão altas, mas de semelhante dimensão, mantendo-se as incógnitas e baixas individualidades remetidas a uma reclusão para lá do perímetro de segurança... Como convém... Ao longo do dia, o troar persistiu através dos três canais informativos, numa panóplia de monotonia comemorativa... Decido remeter-me à leitura, enquanto o leitor de CDs debita uma qualquer selecção musical. Para temperar melhor a chuva que se abate sobre o arvoredo, dou vida àquela coisa que nos faculta uma ligação ao mundo exterior, auscultando através da virtualidade aquilo a que o tempo cinzento não convida. Para colmatar esta embriaguez de pouco mais que nada, vou partilhando saudades do Azibo, de Macedo, das gentes, do xisto. Partilhando, de igual forma, umas amostras daquilo que me vai adoçando os melómanos tímpanos. Sucedem-se as tentativas de me alhear deste estado de hipnose comemorativa a necessitar de uma catarse. Que me perdoem o Relvas, o Arriaga, o Buiça e os Carbonários, mas nada tenho para comemorar, num Centenário que rima com Calvário e onde, por não ser uma alta individualidade, me sinto tratado como uma Rês Pública da República. E não vou tratar esta cefaleia da alma com nenhuma decapitação... Mas o que tem isto a ver com Macedo ou com Trás-os-Montes, afinal, a génese da amálgama das "Cousas"? Nada ou quase nada... É, apenas, indesmentível que esse território encravado entre montes e rasgado a sul pelo Douro faz parte, oficialmente, desta República que hoje se comemora. Como inegável é que existe gente que carrega esse metamorfismo ígneo desenhado a xisto e granito. De um desses magníficos exemplares, ao que parece rês pública como eu, proveio um dos rastilhos para estar por aqui a efectuar esta transposição de ideias, quiçá polémicas, quiçá desconexas. «Um cidadão que não questione o regime não merece viver numa democracia»... O outro teve origem em semelhante proveniente... «Hoje, em Dia da República, devíamos DESPEDIR os politicos profissionais e colocar os profissionas na politica»... Silêncio, um inusitado e prolongado silêncio, lenta deglutição dos rastilhos, uma quase maratona de conexões neuronais, um agonizante torpor que quase possui o condão de desencravar este nó górdio... Apetece-me ripostar ao bombardeamento. Todavia, reprime-me a consciência alertando-me para o facto de eu não ser papel higiénico. É um facto que o não sou, mas não me livro de fazer parte dos comuns instigados a limpar a merda que os que discursam foram distribuindo(para os mais sensíveis, podem regredir uns vocábulos e trocar, figurativamente, o termo por "caca"). Tenho vivido na ilusão de morar num país onde impera, segundo as sábias palavras de Churchill, «a pior forma de governo, excepto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos». Uma tal a que os Gregos epitetaram de Democracia, aquela a quem o irreverente Shaw designou como algo que «é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes». Reflectindo bem na irreverência percebo, afinal, porque não me sinto motivado para comemorar o Centenário. Que República é esta que começou de tal forma anarquicamente, que só na I República, entre 1911 e 1926, teve oito mandatos presidenciais? E que atravessou uma famigerada II República em que vingou um tal de Estado Novo? Finado por um dia em que o cravo foi elevado a ícone, num nascimento da III República na qual o poder deveria provir do "demos", o povo, mas que esse mesmo povo foi entregando, paulatinamente, a "demos". Demónios que adulteraram o sistema democrático, metamorfoseando-o numa oligarquia que, nos dias de hoje, já chegou ao patamar da cleptocracia. Este malfadado sistema em que nos convidam para ir ao restaurante, constrangendo-nos à limitação ao prato do dia, enquanto assistimos, impavidamente, ao delapidar das parcas poupanças de rês pública, porque somos compulsivamente obrigados a pagar a factura da fausta refeição que o compincha se julga merecedor. Como digestivo, ainda temos que assistir com deleite às queixas do desgraçado... Esta não é a "minha" República, nem definitivamente é a "minha" Democracia. Talvez seja hora de substituir, mesmo, estes políticos profissionais por profissionais na política. Talvez seja hora de adornar a democracia com uns adereços de meritocracia. Talvez seja hora de colocar em prática um dos lemas que me acompanha: «Podem roubar-me a comida, mas jamais me roubarão a fome». Talvez seja hora de gritarmos bem alto o Artigo 1º da Constituição da República Portuguesa... Talvez seja hora...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A impavidez da impunidade

Ao lusco-fusco, o horizonte apareceu carregado a homicídio. Uma negra coluna de fumo erguia-se assustadoramente, impregnando o ar daquele putrefacto aroma a vida queimada. E as televisões regozijam... Neste país de profecia da desgraça, interessa preencher os telejornais com situações catastróficas, forma acabada de manipular as mentes através do medo. Anestesie-se a gente, bloqueie-se a capacidade de pensar e castre-se a segurança. Porque é isso que interessa... Ao olhar para mais um exemplo da impunidade que permite que continuemos a arder, lembrei-me de Bornes, do verde da serra e dos momentos que por lá passei a percorrer-lhe as entranhas. E fiquei impaciente, anormalmente impaciente. Atrevi-me a emoldurar os arrepios numa qualquer meditação que me afastasse os maus pensamentos. Mas os ditos persistiram até ter resolvido colmatar a angústia revendo as muitas fotos através das quais fui captando o tutano da serra. Serviram de bálsamo ao tormento de fazer futurologia catastrófica... Afinal de contas, a "minha" serra ainda está (por enquanto) virgem no que respeita aos malfadados incêndios. Até quando? Na minha pacata forma de estar até consigo compreender a existência de pirómanos. Para o que não tenho compreensão é para aqueles que revelam uma atroz incapacidade de deter o monstro. Interesses paralelos... Eu só não quero que queimem a "minha" serra, nem as serras dos outros... E, já agora, caso não seja pedir muito, apanhem os incendiários e mandem-nos para umas prolongadas férias nas Berlengas... Ou nas Desertas... De preferênica com as mãos amputadas. Assim mesmo!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sufocos da impunidade

Talvez seja o restolho da penitência de almas que vagueiam por pecados nunca tidos. Ou a impunidade reduzida a um nevoeiro assassino onde mal se vislumbra o negro de morte. Mas cheira! A homicídio, a declarado homicídio! Por enquanto, por nobres terras aconchegadas a Bornes e a Nogueira, o atroz inferno tem-se resumido à aspereza dos três do ditado. E à efemeridade de uns fogachos que apenas chamuscam a terra sedenta. Por enquanto... Não sei quanto mais haverá para arder no Gerês ou na Estrela. Os ventos da morte virar-se-ão, mais dia menos dia, para o reino olvidado. Não são as mediáticas imagens televisivas que me alimentam a angústia. Este tormento da alma tem causas que residem muito para lá das mãos assassinas de quem queima o meu país. O pão bolorento que dá alimento a esta estranha ansiedade é fermentado em inacessíveis corredores onde se cozinha fósforo e rastilho, fervilhantes mentes que ainda hão-de legislar contra os lobos que fumam de madrugada, contra coelhos em algazarra por patuscadas nocturnas com javalis por companhia, contra veados que ateiam fogos para suavizar a digestão das herbáceas... O que me sufoca não é a atmosfera pintada a cinza, nem o intragável cheiro a pulmão verde queimado. O que verdadeiramente me sufoca é a política de terra queimada, onde sobrevivem iluminados seres que não têm os "armazéns genéticos" no sítio para pôr cobro a uma calamidade anunciada. Viva a política do "termo de identidade e residência"! Entretanto, pode ser que vejamos mais ministros em hipócritas condolências por bravos que tombam assassinados por obscuros interesses que não me obscurecem o discernimento. Incendiárias formas de não deixar prostrar a voz que ecoa da revolta das cinzas...

domingo, 4 de julho de 2010

Estranha paz, eternas viagens

O inexpectável da vida é feito do expectável. Um dia, sem prévia marcação, todos sabemos que faremos a derradeira viagem, aquela que deixará um vazio difícil de preencher naqueles que aguardam na lista de espera. O insofismável desfecho da vida... Desígnios da criação, o luto que nos esforçamos por adiar. Um dia, ainda que acreditando que enganamos a lógica, apercebemo-nos da ilógica do engano. Os suspiros do espírito vão amainando a dura e cruel realidade. E só acordamos, efectivamente, quando se torna irreversível a viagem de alguém... Não um qualquer alguém... Um ser que nos habituamos a admirar, mesmo que tenhamos que reforçar a aprendizagem de formas de comunicação por erros paridos pela medicina. E admiramo-lo, não como por muitos terá sido admirado, porque, simplesmente, nasce uma estranha amizade. Solidificada em memoráveis noites de acesa cavaqueira num não menos memorável ícone macedense. Daquelas imperdíveis noites em que a conversa se prolongava até a impaciência começar a surgir em irrepreensíveis sinais, provenientes do senhor de casaco cinza, prostrado de cansaço, diligente, por detrás do balcão. Gostava de o provocar, não pela provocação em si, mas porque a minha sede de aprendizagem falava mais alto. E, extasiado, deixava-o falar, gesticular, bradar aos céus, praguejar. Por vezes, saía desaustinado em direcção à sala em frente. Era hora de acalmar os vapores da sapiência, refresco da alma para quem eu admirava pelo poço de cultura que era. E tanto que aprendi nessas inolvidáveis noites! E tanto que absorvi desse desfiar de acumulados anos de devorador de mundo, de letras, de notas! Hoje, fechou-se definitivamente o livro. Ficaram as sementes, as raízes e as imagens. Particularmente a do seu inseparável cachimbo... Por isso, em jeito de póstuma homenagem, impregno o ar desses inigualáveis aromas provenientes do "pipe". Fechando os olhos, não escondo uma tímida lágrima de saudade, enquanto o "Peterson" me transporta para aquele banco em forma de sela, onde as horas se transformavam em minutos e o tempo parecia não passar. Não me despeço, porque há pessoas das quais nunca nos despedimos. Ou faço apenas aquilo que ele fazia na hora do "até amanhã": ergo o polegar em sinal de aprovação e digo-lhe o que, invariavelmente, me dizia do alto da alva cabeleira e daquele enigmático sorriso... "Bebe mais um copo"... Hoje bebo mais um, amigo João...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poção mágica

Tudo não passaria de um favor… Um daqueles favores que se fazem às pessoas que nos alimentam a alma a carinho e disponibilidade.
- Não queres ser meu vizinho?...
- Não quero o quê???
Mas, então, como assim?... Vizinho? Mas agora a amizade vai necessitar de andar de mãos dadas com a vizinhança? E, viperina língua a minha, ainda há vizinhos? Essa espécie não está no mesmo catálogo do lince ibérico? Pelos vistos, não… Quer dizer, em termos práticos, de vivência real, está. No mundo em que a gente se esconde por detrás de um monitor, onde as cordas vocais são substituídas pelo monocórdico tom de um teclado e os afectos se manifestam por “dois pontos, parêntesis”, há vizinhos, imensos vizinhos. Solidários, sorridentes, disponíveis… Desconhecidamente desconhecidos… Agradavelmente agradáveis…
Estranhos amigos estranhamente amigáveis… Como dizia, tudo não passaria de um favor… Depois, o contagiante entusiasmo de alguém que leva metade da minha existência fez o resto. Foi um pequeníssimo passo até à adesão a algo que me provocava incontáveis pruridos. As redes sociais… E, particularmente neste caso, um tal jogo de agricultura e pecuária virtuais… A coisa começou com aquele olhar de soslaio, sobrancelhas franzidas, desconfiança à deriva. Prosseguiu com uma postura de petulância, tipo “isto não é para mim”, desprezo a roçar o absoluto. Entretanto, a intriga apossou-se de mim: o que terá algo para deter a capacidade de já ter contagiado 76 milhões de pessoas? Resolvi baixar do meu pedestal e investigar o âmago, entender o umbigo, percepcionar a abrangência. E surpreendi-me… Mais que um jogo, relativamente bem elaborado, utópico porque se colhem morangos 4 horas após a sementeira e convivem pinguins com bananeiras, é um fenómeno sociológico. Que deveria ser passível de uma leitura profunda a uma certa realidade social em que vivemos mergulhados. A dependência do estatuto e dos conceitos materialistas ao mesmo associados conduziu ao isolamento social. Cada um por si e fé em Deus… Como adepto incondicional da pureza das emoções, da amizade, da entreajuda, da solidariedade… - ok… pausa… sei que sou lírico, mas gosto deste lirismo - … espantou-me, e espanta-me, aquilo a que venho assistindo ao abrigo de um simples jogo e de uma rede social. Recebo e envio pedidos de amizade a desconhecidos (simplesmente porque são amigos de amigos de amigos…). É anómalo, porque a amizade não se constrói a pedido, mas é real… Como se a gente vivesse numa incessante sede de contactos. E, pelo que posso apurar, vive! Em pouco tempo, sem saber muito bem como, tenho quase 200 amigos!!! Desses, cerca de 5% são meus Amigos na real vida que levo. Outros tantos, são pessoas que me “desconhecem” e às quais “desconheço” nas minhas incursões macedenses. As restantes, simplesmente foram aparecendo. Contudo, na vida virtual são meus amigos e vizinhos… Pedem-me ajuda, peço-a eu igualmente. E há sorrisos, conversas, comentários… E a insignificância de uns e outros reduz-se, de forma quase mágica, a um valor residual. Os seres com os quais me cruzo por Macedo, carrancudos, isolados, entregues a si próprios, surgem, invariavelmente, dotados de sorrisos nas suas imagens de perfil. Haverá alguma proibição que iniba as pessoas de sorrir pessoalmente? Que raio de medo colectivo este que se apoderou da gente, que a leva a recear expor-se quando incarnam um personagem real! E que, quando fazem de conta que são o “Zé da rede social”, se transfiguram, enviam presentes, sorriem de “dois pontos parêntesis”, são solidários, dizem “olá!”, partilham pontos de vista, geram cumplicidades! E, no que respeito me diz, nada como recorrer ao chicote da auto-flagelação, porque, a bem da verdade, também não fujo propriamente à regra. Outra coisa mais me espanta… Numa época de progressivo abandono das actividades agrícolas e pecuárias, o que conduz toda esta gente (eu incluído) a transformar-se em “agricultores virtuais”? Serão as afinidades pela terra? Serão estas conjugadas com o isolamento? O que conduzirá milhões de pessoas a “criar” galinhas, patos, porcos, coelhos, cavalos e outros animais mais? O que as levará a “lavrar”, “semear” e efectuar a respectiva “colheita”, quando o sector primário está votado ao abandono? O que motiva tanta gente a passar horas, por vezes, a “catar ovos” e “mugir vacas”? E, se um dia, a abandonada província transmontana se transformasse numa “farmville”? Poção mágica…

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O sopro da existência

Em termos meramente práticos, a morte tem supremacia sobre a vida. Na batalha da existência, a segunda acaba sempre por ceder. Resignação absoluta, não há volta a dar... Porém, enquanto nos mantemos em oposição ao sono eterno, vão surgindo figuras que se atravessam na empreitada e dão um pouco de luz à passagem. Infelizmente, as contingências da vida constrangem-nos a relegarmos para o esquecimento algumas delas. E só nos lembramos das suas marcas quando se torna impossível partilhá-las pessoalmente. É o caso da incontornável figura do Padre Neto. Ao ler a notícia do seu desaparecimento, mais que recordar-me da sua inconfundível figura de professor e das histórias a ele associadas, a minha memória foi instantaneamente acometida por uma sensação de injustiça. Não exclusivamente direccionada à figura daquele professor de Português que, do alto da sua sobranceria, nos massacrava com actividades embrionárias das, hoje, extra-curriculares. Foi a minha fonte para os meus parcos conhecimentos de Latim... A sensação de injustiça referida provém, antes, de algum (aparente) esquecimento de todos aqueles que marcaram a minha educação macedense. Há sempre um tempo para tudo, ainda que o mesmo provenha de uma ausência para a eternidade... Seria impossível listar todos os que acrescentaram um pouco àquilo que hoje sou. Dentro desse universo, há quatro pessoas às quais tenho que demonstrar a minha profunda gratidão por tudo o que me deram, enquanto aluno e enquanto pessoa. A primeira delas, a que me acompanhou nos meus primeiros passos, a inestimável Professora Maria Cândida. Segue-se-lhe a pessoa que, pela paixão com que me transmitiu a História, deixou a semente para semelhante sentimento que hoje nutro pela dita, o Prof. Fundo Ferreira. Finalmente, duas pessoas que me ajudaram a ver o mundo com cores distintas das que, habitualmente, um adolescente vê. Muito, muitíssimo obrigado, Prof. Jacinta e Prof. Clara!!! Um agradecimento extensível a todos os que aqui são omissos...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Cousas míticas

Há cousas cujo início é movido por uma qualquer paixão inexplicável. Explicável, talvez, no âmago da intimidade, onde moinhos são movidos a luz solar e células fotovoltaicas são alimentadas a vento. Contrariedades do ser ou ser contrário... As Cousas nasceram da sede de um objectivo muito pessoal, não transmissível publicamente (daí o anonimato do Cavaleiro Andante). Deveriam ter ficado na privacidade de dois seres que carregam a minha carga genética, como memória futura. Em pouco menos de dois anos transfiguraram-se e operaram uma reviravolta na minha forma de olhar um diário de bordo. As Cousas deixaram de ser um universo privado, onde, afinal, o mundo entra, e bem, sem pedir licença. Aconteceu o que desejado não era e o que agradecido hoje é. Caso em Abril de 2008 um qualquer mago previsse que, em Fevereiro de 2010, as Cousas teriam ultrapassado a barreira dos 20000 visitantes, dir-lhe-ia para ingerir menos alucinógenos... No presente, sinto-me lisonjeado pelo interesse dos que as visitam, macedenses, transmontanos, gente do mundo. Como tal, cumpre-me agradecer a todos os que têm dado vida às Cousas. Confesso que persisto em interrogar-me como tal foi possível. Não passo de um anónimo ser brotado de um mar de pedras, carrego o xisto nos genes e, quiçá, tenha sido a paixão que fez nascer as Cousas que impeliu as mesmas a ultrapassarem o restrito universo de quem tem conhecimento do mentor da sua existência. Fico grato, a sério que fico grato. Há cousas que nos fazem sentir que vale a pena ser macedense e, por inerência, transmontano. E há sempre um qualquer "Villar de Masaedo" ou "Tralosmontes" que detêm a capacidade de fazer mover um teclado... Obrigado!!!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

É mal, ninguém leva a Carnaval

Apetece-me trocar as voltas ao mundo, empurrar o Equador para os Pólos, inverter a rotação da Terra, deixar de vez o heliocentrismo e colocar o Sol... Ops!... Esperem lá... Sol? Escrevi "Sol"??? Rotação? Rotação, rotativas... Hummm... Tenho uma leve, levíssima, aliás, impressão que em menos de cinco minutos, qual teoria da conspiração, tenho à porta das Cousas aquela coisa que me faz lembrar a Lotaria, só por causa do cautelar... Como cautelas e caldos de galinha blá, blá, blá, blá, blá, blá, vou fazer uma pequena pausa para ir lá em baixo pedir ao segurança que se disfarce de jornalista. Afinal, estamos mal e ninguém leva a Carnaval... De regresso desta pequena metamorfose democrática, não me vou disfarçar de historiador e desatar para aqui a narrar a saga do aio de Afonso Henriques, nem a probabilidade de um qualquer presumível descendente Moniz... Também não me dedicarei a tratar o primeiro rei por Ibn Errik, ou uma qualquer outra forma de tratamento Moura, seja ela na versão sarracena ou numa mais moderna provável portadora da carga genética de Gueda, o Velho, mítico personagem do séc. XI. Caso o fizesse, seria enCrespar em demasia as águas ou, quem sabe, um desalmado vento que tomasse de assalto uma folha de jornal, saísse o dito para as bancas diariamente ou tivesse o mesmo honras de dia precedente do Sábado... Afinal, é Carnaval... Andará por aí algum "Facanito" à solta, de escuta em punho? É melhor precaver-me, disfarçando-me de Careto... Imporei respeito ao pretendente e os chocalhos abafarão a conversa... E ganharei na preservação das tradições. Umas tais que, não nos "pônhamus guitchos", serão carcomidas pela castração a que vamos sendo votados, ainda que, miseravelmente, votemos, e os nossos miseráveis votos nos "botem" na miséria... Um voto transmontano é um voto no desprezo... E, dizem os antigos, quem não se sente, não é filho de boa gente. Não terei a presunção de dizer que sou filho de boa gente, ainda que o seja, mas deixo espaço aberto para a discordância. Mas sinto-me! E aí, não há discórdia que pegue. E cada vez mais sinto que as migalhas que, subservientemente, acolhemos ao abrigo de um "samaritanismo" que nos compele a regurgitá-las de seguida, mais não são que evidentes tentativas que vão provando a nossa ineficácia como povo distinto. Por mencionar migalhas, sabe-se lá porque via, lembrei-me do PIDDAC. Como estamos em época carnavalesca, queria disfarçá-lo com qualquer coisa que rimasse. Um autarca transmontano antecipou-se, estranhamente afirmando que não estava interessado nem no PIDDAC nem no Mandrake. Como me retirou a potencial veia poética, sinto-me constrangido a buscar alternativas no aceitável espírito folião. Retomando a normalidade, é Carnaval, ninguém leva a mal... Lembrei-me dos "peidinhos engarrafados" da minha irrequieta juventude. Lembrei-me, ainda, de um termo que ficou mediaticamente famoso, a propósito de felinos: fedorento. Mas o que tem isto a ver com as migalhas do PIDDAC? Ah! Procurava uma rima e tinha pensado numa utilizada por antecipação... Como não sou autarca, como está este país mergulhado num retrocesso a lápis e carimbos, e como é mesmo Carnaval... Como já não disponho de "peidinhos engarrafados" e à disposição não tenho rima que me valha... Isto não é um PIDDAC, é um "TRAQUE"! Fedorento, mal cheiroso, bafiento, execrável... Um "traque" que merecemos, por tudo aquilo que não fazemos...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Voos do tempo

«Nunca serei velho; a velhice terá sempre mais 15 anos que eu»... E eu terei sempre mais uns quantos que o meu "Campeão". E nunca seremos velhos, os dois. Porque desde há 11 anos que aprendemos a rebolar juntos, a gritar em uníssono pelos golos da nossa equipa, a partilhar as aventuras de escola, mesmo que as minhas já se encontrem a alguma distância. E nunca se esquece a melhor forma de atirar uma pedra, de usar uma fisga, de dar uns pontapés na bola... Mesmo que o peso dos anos já tenha transfigurado a arte dos braços ou das pernas e saiam, por vezes, movimentos desajeitados. A recompensa do brilho de uns olhos azuis é bastante, num sorriso único de alguém sempre disposto a aprender mais uns truques com o "Daddy". E o "Daddy" também aprende, ou reaprende. A ser criança, a sonhar, a sofrer mutações na seriedade de um adulto. Há amizades assim... Há coisas valiosas que o dinheiro não pode comprar... Há tesouros assim... Eu tenho dois, corre-lhes Macedo nas veias, só para contrariar o que os papéis assinalam... E um deles cumpre hoje mais um voo do tempo...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Dores de alma

Pode parecer obsceno, à luz de certos conceitos instituídos, mas perdi um pedaço da minha alma macedense. Há paixões assim, que nos acompanham, anormalmente, durante 16 anos das nossas vidas. Surgem da loucura da paixão canina, pequenos, indefesos, aguardando impacientemente pelos cuidados dos donos. E crescem, ao sabor de loucas brincadeiras, na quase insanidade de idiotices infantis, corridas desenfreadas atrás de uma bola, lutas simuladas. E nunca nos preparamos convenientemente para a partida. Mesmo que o calendário vá sendo rasgado de forma inexorável. Enganamo-nos, pensando que haverá sempre uma nova ida a Macedo, com a paixão canina, ainda que debilitada pelo peso dos anos, aguardando impacientemente o inconfundível assobio do dono. No Natal, tinha-lhe dado um beijo sentido, daqueles que dizem não dever dar-se a um cão, agradecendo-lhe a paciência por, mesmo doente, ter acedido ao meu pedido de aguardar a passagem de mais umas Festas. Tinha-lhe dito para esperar uma semana mais, que o dono por lá estaria outra vez. Esperou, mas a neve não deixou o dono passar... E ele cansou-se da espera, ou não quis que o dono o visse sem vida... Talvez pela tanta vida que me deu... Há dores inexplicáveis, vazios difíceis de preencher... Não era um cão, era uma parte de mim...

sábado, 2 de janeiro de 2010

2010, Panaceia do Bagaço

Só para entreter e chamar a atenção. Não, obviamente, pelo bagaço, nem pela pretensa panaceia, ainda que um e outro servissem para curar alguns males de que enferma este país. Mais não fosse, pelo poder do bagaço para desinfestação interior. "Ó menos, queima e mát'ó bitcho"... Escuso-me à nomeação dos "bitchos"... Ainda que a mesma possa estar subentendida por associações a beneditinos... S. Bento?... Assembleia?... República?... Desgoverno?... De(s)putados?... Valha-me a originalidade, que nem Kubrick nem o Artur, não o da Távola Redonda, mas o Clarke de seu nome, se lembrariam de tamanha odisseia... Ainda que a mesma decorresse no espaço, invertendo posições dos algarismos. Mas fica bem ou, pelo menos, fica a piada de mau gosto, caso o alambique não tenha facultado o esperado "taste". "Anyway", fica a sugestão de um qualquer abade transmontano que elevou o bagaço a cura de todos os males e a poção da longevidade. Inquisição, chamem a Inquisição!... Quem? O Santo Ofício já não existe! "Quem tu dixo?"... A Fogueira das Verdades apenas foi ultrapassada pela das Vaidades (já sei, párem com as acusações de pseudo-versado em Sétima Arte... isto é só Fogueira de Vista, deriva de conhecimento ocasional acumulado por umas ocasionais consultas à enciclopédia livre... pleonasmos à parte...). "Unde é q'ia?"... "Imburratchei-me, de certo, q'isto já num bate a cara cum a trombeta, careta, digo ou, que já se m'im inrolum os dizeres"... "Bem mou finto, q'inda te saim as palabras dreitas"... "Bô, já num injaldras nada, inté parece que esbaras nessa cousa que s'aparece c'um teclado"... "Prontos, páro já d'injoujar que já m'apareço c'um aldrúbias a fazer mangação"... Isto tudo para dizer o quê?................................. Saudades da terra, orgulho na mesma, saudades de novo e repetido orgulho. Nota-se pouco, é certo. Mas não tenho culpa de ser feito de xisto... Podia ter nascido nas Berlengas, nas Desertas ou nas Selvagens, mas... Há "gajos" com sorte: nasceram "ó pé" da do Fidalgo ainda antes de a dita existir. "E ó depeis?"... "Ó depeis", ser de Macedo é fazer parte da seiva. É melhor ou pior que ser de outro lado qualquer? É apenas tão diferente como ser desse outro lado qualquer. Sente-se, na ambiguidade do ser. Mesmo que a Maria da Fonte seja uma fonte do acaso. E que o acaso tenha brindado a Maria com duas "fontes abantesmas" de mau gosto no lado de lá do Jardim. E que já estejamos em 2010... E que ainda esteja a digerir a forçada ausência das terras que serviram de alicerce à minha existência... "Cum licença, tânho q'ir"...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Partidas do tempo

"Ele há cousas lubadas da breca"! Então não é que ia, todo satisfeito, de malas aviadas para Macedo e a meteorologia resolveu pregar-me a partida? Cousa rara, nevou a pouco mais de 40 km da terra adoptiva! E as informações que me chegavam do Alvão não eram nada animadoras... Lá terei que me aguentar com as trovoadas, chuvadas e demais adas que por aqui vão abundando, tendo que prescindir dos mimos que a progenitora já tinha à espera... Amanhã há mais... Neve? UM ÓPTIMO 2010 PARA TODOS OS QUE POR AQUI VÃO COUSANDO UNS DEVANEIOS!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Quando a genética é substituída pelo coração

Hoje não é, propriamente, um dia de gratas recordações. O tempo é carrasco que rapidamente transforma o ontem num passado longínquo. Há aniversários que deixam um sabor agridoce. Já não choro a perda porque prefiro encher o baú de memórias com imagens de estéreis discussões políticas, sociais, religiosas. É mais salutar sentir o calor da voz, naquele expectável telefonema sempre que o nosso clube ganhava. E ouvir a forma carinhosa como os genros-filhos eram tratados: “Ó Mingas, bebe lá mais um copetcho! Ó Dumas, então vai mais uma pinga?”… Ou a mais carinhosa ainda como os netos, em fins-de-semana ou breves férias, eram a “Pirzeta”, a “Pirulita” e o “Saquenito”. Havia sempre aquele inconfundível brilhozinho no olhar a cada recepção, mesmo que as emoções ficassem escondidas por detrás das agruras da vida. Uma incursão à horta era sempre motivo para um orgulhoso sorriso pela qualidade da terra, pelos produtos únicos que dela brotavam. Sentia-se uma melódica sequência de palavras naquele pedaço de terreno ancestral, legado de gerações, veículo para um renascimento quando a reforma chegou. E havia a pesca, aquela actividade que nunca me cativou, mas na qual participei, mais não fosse para partilhar a merenda devorada debaixo de uma qualquer ponte à beira do Tuela ou do Sabor. E para gerar aquele pinguinho de orgulho ao trio de mosqueteiros que levavam o “puto” atrás. O “puto” não tinha jeito para a pescaria, estava mais virado para sentir a regeneração que se antevia a cada sorriso daqueles três inseparáveis amigos por terem um “jovem” com paciência para ouvir as suas lições sobre canas e minhocas. Sorver um pouco de vinho através de um cantil que o mantinha fresco é memorável. Enquanto se deglutia um naco de pão trigo, acompanhado a um qualquer petisco, olhando o infinito e absorvendo o som da corrente que, mesmo ao lado, mostrava a beleza única de rios selvagens. Hoje sorrio através das memórias… Mas doeu, como nenhuma outra perda tinha feito doer.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Imperfeições

O Pai Natal passou de rompante, renas esbaforidas, motores do trenó gripados por excesso de nada. Ou um pedaço de tudo regado a ausência a sabe-se lá o quê. Talvez seja a magia que ande arredia. Ou talvez seja uma qualquer coisa que, por obra e graça de magias nunca inventadas, tenha operado uma inversão e passe a surgir uma cartola do coelho. Das orelhas, abas, ou a suprema negação de Darwin… Não é frustração, não é desilusão, é um qualquer híbrido assemelhado a “frustrilusão”, fusão de conceitos, simbiose de vazios num universo cheio. Pareceu Natal, soube a Natal, mas as semelhanças não estavam lá e os sabores tão pouco. O comodismo tem destas coisas. Fecham-se as torneiras da tradição, corta-se a corrente do ser. Provoca-se um curto-circuito nos dias e os dias sancionam com um interruptor numa posição ininteligível, não se descortinando se a luz está meio ligada ou meio desligada. Contingências de uma semana que está a terminar sem nunca ter começado. Foi estranho este Natal. Houve de tudo, preenchido com tonalidades de nada. Excesso de repetições? Talvez… Excesso de comodismo? Talvez, também… Excessos? Nem por isso… Houve família, desejou-se mais família. Surgiu a neve e as sensações do manto branco agudizaram o desejo de uma repetição nunca repetida. Veio a chuva e desejou-se o frio. Hoje o frio bateu à porta, veículos manchados a brilhante branco, e deseja-se a contradição da amenidade do termómetro. Que raio?!?! Vou-me embora e desejo ficar, ainda cá estou e sinto a ansiedade do regresso à terra adoptiva… Estarei a desligar-me de Macedo? Ou estará Macedo a pregar-me a partida de mostrar o lado obscuro ao filho pródigo? Ou não terei dado liberdade à rebeldia? Ter-me-ei rebelado contra a liberdade? Soa a insanidade, provinda de mente sã. Contradições ou imperfeições… Ambas ou nenhuma delas, ou apenas um devaneio momentâneo de quem se apresta para abandonar, uma vez mais, as raízes desejando ficar. Mais não fosse, para cumprir planos não cumpridos. Não me soube a tradição porque, estranhamente, ausentei-me da familiaridade da aldeia, neguei a vontade por excesso de zelo manifestado pelo aparente conforto. Vou amanhã, num qualquer amanhã sempre substituído pelo cadeirão onde agora me sento. Cousas do ser ou o ser das Cousas… Adorar os tons, detestar os sons. Idolatrar percursos locais, fugir de contactos pessoais. Sorrir à gente, fugindo de repente, num breve esgar de quem não quer estar, negando o mundo num abraço profundo. O paradoxo de amar não querendo estar, raízes quebradas por cavalgadas inacabadas. E um mundo proximamente distante, onde o sonho alado perdeu as asas na imensa vontade de voar, Ícaro dos dias onde o alto foi baixo, o grande foi pequeno, o tudo foi nada. Queimaram-se as asas, não ardeu o desejo de voar. Há sempre uma próxima vez, Quinta-feira, talvez. E um regresso ao velho mundo dos sonhos, onde as negações incentivam a arte de sonhar, sem as correntes do mundo exterior, sem as guilhotinas da vontade alheia, com o horizonte de um novo dia, repleto de pequenos nadas construtores de grandes tudos. Não foi um pesadelo, foi apenas uma forma arcaica de demonstrar que Macedo pode ter o gosto de sempre, se o sempre for desenhado a lápis do gosto. Desta vez, os traços surgiram grosseiros, sem nexo ou sentido, como se um risco à esquerda saisse impulsionado à direita, desenhando círculos esquinados e quadrados sem ângulos. Porquê? Cousas minhas, cumplicidades do ser, desvendadas em aromas a geada quente. Ou chuva em excesso numa terra de frio... Outras cores...