Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém ai irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as estanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, às bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim us arraiolos ou u meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Andadi, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te nu motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couractcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRANSMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS : cousasdemacedo@gmail.com



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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Algures a Nordeste

«Quem pega na bússola vê
oito direcções de mundo,
oito métodos de estar.
O oitavo é o Nordeste.
ALGURES A NORDESTE - A.M. Pires Cabral

Já por aqui disse que sou feito de xisto. Mas há gente feita de um xisto especial, gerado, quem sabe, por um metamorfismo assistido por um qualquer diabo que veio ao nascimento (ao enterro, logo se verá...). Veio mais um prémio literário para um filho da terra, um filho que sabe, como poucos, gravar na eternidade das pedras o pulsar e o sentir de um povo. Há filhos assim...

«...a vinha está morta e não está:
perdura viva em mim.
Isto, bem entendido, enquanto eu próprio
for algo em que algo possa perdurar.
Depois disso, perdurará naquilo
em que eu mesmo perdure.
E a partir daqui perde-se a conta.»
VINHA MORTA - A.M. Pires Cabral

sábado, 9 de janeiro de 2010

Equívocos históricos de uma futura coutada

Iluminado estaria o grande Torga, padrinho do Reino Maravilhoso. O desentorpecimento dos dias faz-me crer que o seu conceito, mesmo que apaixonadamente transmontano, estará para lá da aparente limpidez superficial. «Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.» Maravilhosos pela beleza, ou maravilhosos pelo imaginário do esquecimento?… No rio do calendário que corre, maravilhosos pelo estremecimento de um sonho, em que um qualquer mítico tesouro mouro repousará nas profundezas do «oceano megalítico»… Trás-os-Montes mantém o maravilhoso, perdeu há muito a categoria de reino. Já nem província é, transformaram-nos num híbrido estatístico. Ser de um mapa apagado, nomenclatura que me remete, irremediavelmente, para frutos de casca dura. Reminiscências de produtores de “chest NUTS”, algumas “wal NUTS” e “hazel NUTS”. Seremos tão penalizados por não produzirmos “coco NUTS”? Ironicamente, limitamo-nos à metade das minúsculas ou, em última instância, a deixarmo-nos ser tratados como tal… Os nossos olhos ainda não perderam «a virgindade original diante da realidade». O nosso mutismo fez-nos seres de “nuts” amolecidas, mesmo que façamos parte de um «mar de pedras». Talvez as pedras sejamos todos nós, pedras brandas, tratados como calhaus, gratos pelas benesses hipocritamente políticas com que somos bafejados pelo livre arbítrio de gente que nunca percebeu o que é viver «no cimo de Portugal». Um cimo desviado para um interior bem consonante com o afirmado pelo primo Aquilino, parente das Beiras, «terras do demo» que também somos. Seremos? Porque o esquecimento parece ser extensível ao dito. Nem o mesmo se lembra de nós… Seremos «como os ninhos», palavras de imortal Torga, que «ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos»? Há «léguas e léguas de chão raivoso»… Sou feito desse chão, áspero e bravio, sou feito de xisto e de intrusões graníticas, corre-me o Azibo nas veias, o Sabor nas artérias e a minha linfa é feita de águas do Tua. A minha hematopoiese é um anómalo processo de onde saem eritrócitos com um volume globular do tamanho de Bornes, disformes leucócitos redesenhados ao sabor da Nogueira… E por desse raivoso chão ser feito, levanta-se a raiva por Alturas de Latães, ou pela Penha Mourisca, que “mai fai”. Ergue-se a dita porque querem fazer da transmontana mulher uma “pedra parideira” e Serra da Freita por cá não temos. Somos «mar de pedras», até as pedras são dignas de não parirem num qualquer IP4, estatísticas mal amanhadas que encerram maternidades por força de números, algarismos mal paridos em gabinetes de adiadas promessas de helicópteros. Proteste a Assembleia Municipal, que nem o demo nos ouve… As hélices estão agora viradas para novo parto numérico. Seremos poucos, é certo, mas cães vadios não somos e até esses merecem tratamento digno. Infiltram-nos com rebuçados embrulhados a esperança, serviços de oncologia, hospital de dia. Afinal, não há requisitos mínimos, disfarce de um tribunal de contas para criar um “hospital de noite”, sem luz para os olhos da gente brotada para lá do Marão. Regressem, Bragançãos! Mendo Alão raptor de princesas, bravos descendentes incomodados por natas escorridas em barba rija… Volta, Nuno Martins de Chacim! Estás perdoado pelos abusos e usurpações ao povo transmontano! Renasce, Sancho I e esquece lá o foral que deste a Bragança e as lutas que tiveste para manter um pedaço de terra onde «não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho»! Ressuscita, João Afonso Pimentel, e luta arduamente, sem convencimentos de Condestável que valham a pena! Ainda que uma nódoa fique no Martim Gonçalves, que de Macedo era… Revivam Zoelas e venham de novo Romanos, inteligentes conquistadores que precocemente perceberam os genes de ancestrais transmontanos, integrando-os no Conventus Asturicensis. Estamos longe de Asturica Augusta, mas temos Ocellum Duri aqui ao lado… Não havia tribunal de contas que adiasse as suas vias, ainda que traçadas num quase inóspito território com entranhas de valor, abertas, explorações mineiras para serem encerradas. Prenúncio de contemporâneos serviços… Poupava-se em promessas eternamente adiadas, e o Marão persistiria em barreira impenetrável. Não teríamos Ministros da Cultura a parodiarem com o enclave leonês linguístico, daríamos livre curso à história. Como temos mais afinidades com o outro lado, já não me importa que nos transformem numa versão neo-Olivença, num qualquer negócio com paralelismo no conhecido Alasca. Afinal, já como “erbanços” e já desço “escaleiras”… Habituar-me-ia a ter um “tren del Tua, sin embalses, com aprovechamiento turistico, añadido de una autovia sin peage”… E, quem sabe, faria parte da “Sanidad de Castilla y Leon”, e seria atendido no “Hospital Virgen de la Concha”… Não me incomodaria fazer parte “del area de los verracos y piedras fincadas, territorio de los Zoelas y de los Vettones”. Talvez tivesse direito a uma “aldea historica recuperada de Banreses”, a uma maior exaltação de uma “Fraga de los Cuervos” ou à preservação da história e da cultura de um povo. E, quem sabe, “el Lago del Azibo” atingisse um patamar de ícone semelhante ao homólogo da Senabria… Talvez aí, sim, “el mar de piedras” fosse um “reino maravilloso”… Sem substanciais alterações no orgulho… Desculpa, Miguel Torga… “El nombre de Transmontano, que quier decir hijo de Trás-os-Montes, pues asi se llama el Reino Maravilloso de que vos he hablado”… Eu seria apenas um filho de “Manzanedo de los Caballeros”…

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Kings Cross, exclusões, Goleman e emoções

Poderá parecer uma aberração a incongruência visível na sequência que titula esta "cousa". E, provavelmente, até é. Ou não... Há dias em que nos apetece estabelecer uma ligação desconexa com o mundo. Como se nesse mundo se tivesse operado uma trancendental reviravolta, qual efeito de uma rápida inversão da tectónica de placas que nos colocasse (de novo) no Gondwana e passássemos, efectivamente, a estar de pernas para o ar. Seria, apenas, a prática aplicação do que já sofremos em teórico-práticas... Mas, afinal, o que tem uma região londrina a ver com esta repentina desconexão? Desfaça-se o nó... Já por aqui trouxe, em duplicado, segundo o que a minha memória me permite alcançar (vá, uma das situações ainda está pintada de fresco...), o nome de Pedro Pires. O tal ex-futuro físico que se transformou num presente coreógrafo e bailarino e que, para lá da excelência de ter nascido no concelho de Macedo, adquiriu uma boa parte das suas capacidades "vagueando" por Kings Cross, facto que o levou a homenagear a dita região londrina através da atribuição da sua nomenclatura ao espectáculo que, actualmente, dirige. Por muito que tenha na família próxima uma promissora futura bailarina (mais virada para voos de cisnes tchaikovskyanos, que para dança contemporânea), e não deixando de considerar a dança uma arte suprema, confesso que o bailado propriamente dito, seja na vertente clássica, seja na contemporânea, não me seduz. Mas não deixo de celebrar as vitórias de quem lhe dedica uma vida, da mesma forma que não deixo de apreciar outras vertentes da dança. Seja isso, ou não, (in)cultura. Bem vistas as coisas, o facto de apreciar mais o Impressionismo que o Cubismo não faz de mim um melhor ou pior apreciador de pintura... Digo eu... Pois o Pedro Pires, para lá de excelente bailarino, revela-se, de igual forma, um excelente crítico. E não posso deixar de aplaudir a denúncia que o mesmo faz ao afirmar que a região do Nordeste Transmontano é a única do país que está excluída da atribuição de incentivos à criação cultural. No entanto, não me importaria que esta fosse a única exclusão. Espero e desejo que a persistência do Pedro seja a força motriz para a sua não desistência. Infelizmente, Pedro, o Nordeste Transmontano é uma coutada de excluídos, excluindo, passe o pleonasmo, os incluídos numa cidade que também fica a Nordeste, mas apenas caso seja olhada a partir de uma das Regiões Autónomas. Mais infelizmente ainda, quando os excluídos passam a auferir dos rendimentos de incluídos, excluem da inclusão os que, através do "poder do povo", os excluíram da exclusão. Estamos excluídos? Queria dizer, estamos entendidos? Porque, a exclusão não se resume à criação cultural representada pela dança. É extensível a muitas outras áreas, num perímetro de tal forma abrangente que perderia o resto da noite a relatar o que o mesmo abarca. O que seria desejável é que, dentro desse perímetro, surgissem mais vozes a denunciar o esquecimento. Mas isso seria atentar contra os bons costumes de quem recebe os excluídos da exclusão com foguetes, bandas de música, alheiras e posta à mirandesa. «São tão hospitaleiros aqueles "tansos" lá de cima... Sugamos-lhes o que têm e ainda nos recebem com palmadinhas nas costas.» Pois este "tanso" que por aqui escreve subscreve as críticas do Pedro Pires e aplaude-o, pela sua arte e pela sua frontalidade. Venham mais "Pedros" a "botar" o dedo na ferida e a exporem o que lhes vai na alma de excluídos. Para isso, é necessário aprender a exteriorizar emoções. Algo que, a meu ver, nao é apanágio dos meus conterrâneos. Não é de admirar: somos um povo enclausurado pelo esquecimento de séculos a fio. Aproveitando o facto de a Escola Superior de Saúde do IPB ter criado uma associação para fazer face à incipiência do desenvolvimento de competências emocionais neste país, deixo o pedido para que a PAIDEIA leve os ensinamentos de Goleman aos cantos e recantos do distrito bragançano. Entre outras coisas, seria uma boa forma de ensinar que um protesto, de vez em quando, efectuado com a devida assertividade, mais não seja, geraria um pouco da auto-estima que parece andar, inúmeras vezes, arredia no "meu" povo transmontano. Porque será que, como um orgulhosamente genuíno transmontano, sinto que aquilo a que, simpaticamente, chamam de hospitalidade transmontana, não passa da manifestação de uma postura subserviente tão do agrado dos que a apelidam de simpática? Porque será?...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um tchizquinho de saudades

A imagem dos algodões sujos que vão passeando a baixa altitude, retirando, aqui e ali, um pouco do brilho ao meio queijo, foi um chamamento para me deslocar até ao exterior. Enquanto cometia o crime de absorver mais umas baforadas de nicotina, intercaladas pelos aromas de brisa marítima, os pensamentos voaram até ao frio que já deveria marcar presença e anda arredio. Rapidamente o voo alcançou a terra-mãe... E soaram as saudades... Do suave e musical crepitar da lenha consumida na lareira... Dos caminhos que não constam dos mapas... Da surpresa de uns flocos brancos como companhia nocturna... Do vento cortante que gela a alma... Do meu gorro, do casacão, do cachecol... Da terra... Da gente... Faltam menos de dois dias... Porque há alturas em que a ampulheta do tempo só deixa passar meio-grão de cada vez? E um dia se traduz na eternidade de horas que se alongam num interminável banquete de minutos... Entretanto, os algodões celestes agruparam-se e deixei de vislumbrar a lua... E lembrei-me do incomparável queijo transmontano... Cousas...

domingo, 18 de outubro de 2009

Coutada transmontana

Já lá vão dois a três anos desde que li uma reportagem, salvo erro no DN, que apontava para a tomada do lugar do homem e das suas marcas, na região transmontana, pelas fauna e flora selvagens. A substituição de terrenos agrícolas por incultos criava a oportunidade para a flora se renovar, ganhando terreno às culturas e criando condições propícias para o rejuvenescimento de espécies animais, favorecendo a cadeia alimentar onde, para haver predadores, é condição essencial a existência de presas. Confesso que, na altura, fiquei possuído por um híbrido "pessioptimismo". Por um lado, nessa notícia encontrava eco para as negras estatísticas demográficas, bem como para o queixume proveniente dos resistentes escritores que fazem do solo pergaminho e do arado caneta. Por outro, retirava conclusões positivas acerca da optimização ambiental e via renascer as possibilidades de observar a fauna transmontana sem o recurso ao cativeiro. Fiquei um pouco como o "touro no meio da ponte"... Depois, esqueci-me da notícia até ter assistido a uma reportagem televisiva sobre a brama dos veados. Afinal, a população de Cervus elaphus estava mesmo a aumentar. Mas Montesinho ficava, mais as suas fantásticas pinturas, lá mais para a região setentrional do distrito... Ficou, desde logo, registada na minha agenda uma próxima e urgente visita aos meus amigos do peito Alípio e Zelinda, lá para os lados de Lomba, uma casa onde um minuto possui sessenta segundos da mais pura e impagável amizade (daquelas amizades que nos enchem o peito de um ar tão distinto, tão distinto, que quase nos sentimos embriagados por excesso de oxigénio). Entretanto, a azáfama quotidiana conduziu, de novo, os ditos Cervus elaphus ao esquecimento. Até ter surgido um espécime perto da minha segunda terra, a já tão celebrada por mim Lamas! É verdade! No pretérito dia 12, Manuel Cardoso, o macedense autor que deu "um tiro na bruma" fantástico e revelou um magnífico "segredo da fonte queimada", registou, para a posteridade, um exemplar que pesará duas vezes e meia mais que eu e terá um quarto da minha idade. Nada mais, nada menos, que perto da sua habitação, lá para os lados de "entre Lamas e Latães" (um local onde os seus guardiães canídeos se aprestaram para fazer tatuagens nos meus membros locomotores - valeram-me os ditos para me transformar em Usain Bolt e para me recordar de deixar um aviso da próxima vez que me aventurar para lá do Facho...). Ora, se há veados numa área excêntrica, significa que têm razão as estatísticas do ICN que apontam para um aumento das populações de veados e do consequente incremento na sua área de dispersão pelo distrito de Bragança (30000 hectares é uma superfície considerável). Inversamente, a leitura sobre a dispersão humana será o que se sabe... Por outro lado, aprecio, como pouca gente o fará, a vida selvagem... E umas costeletazinhas de veado, especialmente quando tenho noção que já não estarei a contribuir para uma qualquer extinção... Percebo agora o porquê da existência de 20 alcateias na região transmontana, descontando daqui o inegável valor das tentativas de preservação do Canis lupus signatus por parte do Homo sapiens sapiens... Diminui a gente, aumentam os incultos... Estes, por sua vez, favorecem os herbívoros, os quais hão-de servir de "pasto" aos predadores. Incluindo-me eu entre a espécie supra-predadora, vou começar a ter mais atenção nas minhas incursões ao mundo natural. Ainda bem recentemente tive a grata surpresa de avistar, bem perto, por sinal, um exemplar de Vulpes vulpes. Mas, como a esquiva raposa faz jus ao epíteto e não representa ameaça de monta, fiquei quieto e sossegado. Ao descer pela encosta onde pasmam os quantos sobreiros que fui verificar, por entre a vegetação que nada tem a ver com o facto de sermos os maiores produtores mundiais de cortiça, comecei a reparar nuns quantos remeximentos que não faziam parte da paisagem à qual estava habituado em anteriores visitas. Analisados, visualmente, os dejectos deixados como presente, mais a "hiroximização" do terreno, a coisa era obra de Sus scrofa, vulgo javali. Confirmadas as provas documentais junto do meu inseparável amigo de aventuras agrícolas, foi-me transmitida a vulgarização de vida selvagem por estas bandas. «Atão, já num há quim queira amanhar a terra. Fica pr'áqui tudo ó Deus dará, prós bitchos cumerim. Um destes dias inda m'entra um porco-espinho pur casa adentro a pedir-me um cibo de caldo!»... E foi numa outra conversa, com outro amigo de lides agrícolas que fiquei a saber do ressurgimento de texugos (santa ignorância, pensei que os "teitchugos" fossem histórias de outros tempos). Se juntar a tudo isto a já conhecida presença de corços, mais as notícias que dão conta da saída dos Ursos-pardos da restrita Cantábria, surgindo relatos de avistamentos do lado de lá da fronteira galega, um destes dias voltaremos ao tempo em que os monarcas, nas cartas de foro, incluíam alíneas de lhes serem ofertadas mãos de urso, na eventualidade de um ser abatido numa caçada. Para quem possa eventualmente estranhar, sim, já tivemos Ursus arctos na nossa região (pelo menos, provavelmente, até meados do séc. XIX). Dentro desta euforia, pela proliferação de vida selvagem, amenizada pela tristeza da desertificação humana, o que, para mim, era sublime, seria a detecção de algum lince ibérico. Seria sinal que os coelhos e as lebres abundariam e que, provavelmente, voltaria a tomar um café na Estalagem do Caçador. Até lá, vão-nos diminuindo o número de deputados, vai-se nascendo em ambulâncias e vão avariando aparelhos de TAC que demoram uma eternidade a ser reparados. Mas já temos "Magalhães pós putos", o início das obras no túnel do Marão, rede de fibra óptica e novos serviços hospitalares. Mas vamos começando a não ter gente, a ter taxas de mortalidade que são o dobro das de natalidade, freguesias que vão a Plenário e deputados por Penafiel. Porque é que há balanças? Ainda por cima, desequilibradas? Um destes dias voltaremos à "terra-tenência" de Zamora... A não ser que se vão levantando umas vozes. Acalma-me o espírito saber que as há...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cousas anómalas da interioridade

É já um hábito instalado ter um dos quaisquer “Jornal da Uma” por companhia, enquanto procedo á deglutição do almoço. Já me resignei a assistir a uma hora de notícias versando sobre desgraças e calamidades, qual política editorial de “velhos do Restelo”. Sendo esse desfile noticioso a antítese da forma como vejo o mundo, começo a ser possuído por dúvidas sobre a essência “carpe diem” da minha base de sustentação. Se chove, fico contente. Caso faça sol, fico contente também. Tenho que rever conceitos, porque começo a sentir-me deslocado… Não significa isto que seja um paciente ser vegetativo, que se limita a assistir à passagem de um dia para o outro, como se, ao invés de um ser vivo, fosse apenas um ser existente. Significa, tão só que, não me enquadrando na classificação de omnipresente e omnisciente, nada posso perante certas adversidades. Não desdenharia, contudo, de ser detentor do poder de evitar secas ou cheias… Em relação a essas, sou vencido pela resignação; em relação a outras, não sou vencido pelo cansaço. Essa é uma das causas das “Cousas”… Um pouco na senda da alcunha que ganhei numa instituição de ensino pautada por um extremo conservadorismo, pela luta que empreendi contra a rigidez de conceitos e comportamentos, ainda que, ideologicamente, muito me afaste do médico argentino que trocou um estetoscópio por outras causas e do qual herdei o efémero cognome. Retornando ao “Jornal da Uma”… Nos raros momentos em que sou obsequiado com relatos provenientes de além Marão, sou percorrido por uma onda eléctrica provocada pelo exacerbar do meu orgulho transmontano. E o tempo pára, por breves instantes… Foi o que hoje aconteceu aos ponteiros do meu relógio biológico, na sequência de uma notícia que, não sendo da minha “vila”, nem do meu distrito, tinha proveniência no vizinho vila-realense, mais concretamente numa aldeia situada no concelho de Boticas. Não fosse a audição prévia do que motivou a reportagem e diria que se tratava de uma qualquer aldeia do meu concelho, tal a familiaridade do sotaque da gente e das rugas desenhadas nos seus rostos. Sensação incrementada pela ausência de entrevistados com idade igual ou inferior à minha. Para que conste, já não tenho vinte anos… Nem trinta… É, por isso, sintomático o redesenho da minha cabeleira, onde os primeiros sinais de alvura me vão avisando para o charme dos “entas” (presunçoso…). Mais sintomático ainda é que todos os que facultaram a sua opinião me ganham aos pontos em sinais de charme. E não há, por aquelas bandas, a moda de ir à cabeleireira efectuar umas nuances da cor da neve… A genuinidade transmontana, marcada pelos já referidos sotaque e rugas, estava, de igual forma, vincada no trajar e nos reflexos da exposição da epiderme facial à intempérie dos “nove meses de Inverno e três de inferno”, contrastes à pureza emanada da cobertura capilar. Infelizmente, não são apenas os caracteres antrópicos a transformarem Trás-os-Montes numa região gemelípara. O envelhecimento gradual da população, a ausência de perspectivas, o abandono por parte do Poder Central, o isolamento a que a região esteve votada no decorrer dos séculos, tudo justificado, maioritariamente, por condicionantes geo-climáticas (não sei de que forma justificar o sucesso no país dos cantões), formam um conjunto de sinais (aos quais poderiam ser acrescentados outros de ordem histórica, sociológica, religiosa e, quiçá, genética) que transformam o tecido das freguesias transmontanas numa cada vez maior manta de retalhos. A proliferação de aldeias gémeas, privadas de faixas etárias reprodutivas, perspectiva um futuro de novas Banrezes, Carvas, Chorense, Paixão, Sta. Cruz da Vilariça, Bronceda… E as novas aldeias desertas não terão como motivo para o seu abandono lendas de ataques de formigas… Tê-lo-ão pela cadência com que o tempo dita as suas leis, fazendo aplicar a todos nós o “na natureza nada se perde, tudo se transforma”. Inevitabilidades… Nessa aldeia de Boticas não haverá acto eleitoral para a Junta de Freguesia. A fazer fé na notícia, existe um expediente legal (do qual era desconhecedor) que permite a uma freguesia com um número inferior a 150 votantes fazer a eleição do seu representante através de uma assembleia popular, especialmente se só se apresentar uma lista a sufrágio. Apanágio de tantas outras aldeias do distrito bragançano (e não é só no “anti-democrático” concelho de Macedo). Já vieram dois deputados pelo distrito, Mota Andrade e Adão Silva, a lamentar a ausência de confronto democrático em diversas freguesias. O única visão positiva que retiro daí é que essas freguesias não são bombardeadas pelo desfile de carros politicamente alegóricos, artilhados com instalações sonoras propiciadoras de eventuais otites. À semelhança do sucedido na minha adoptiva freguesia rural-piscatória na qual, se não estou equivocado, há sete ou oito forças políticas a quererem arrebanhar a Junta, mesmo situando-se a dita freguesia no “coiso de Judas“ do concelho... Ainda bem que a campanha termina hoje. Para lá de me exporem, compulsivamente, a sonoridades que arranham o meu canal auditivo, ainda tenho que efectuar, diariamente e mais que uma vez, a limpeza da minha caixa de correio e áreas adjacentes. Porque, quando o jornal de campanha não cabe, o dito fica à mercê da nortada… Regressando ao par de deputados, mais acrescenta: a manter-se esta conjuntura de primazia de listas únicas, deve ponderar-se o redimensionamento das células do poder local. Até que não discordo, mesmo que isso represente o risco de levantamentos populares em freguesias que eu conheço. Aleatoriamente, seleccionado um trio delas, e só fazendo referência às últimas duas Legislativas, é confrangedor verificar que votaram 47 e 52 eleitores na primeira; 52 e 58 na segunda; 61 e 46 na terceira. Com taxas de abstenção a rondarem, em média, os 50%, qual o custo real de manter um edifício de uma Junta de Freguesia, mais os respectivos honorários dos seus responsáveis, para uma população com pouco mais de 100 habitantes? Dá que pensar… Porém, não deveriam pensar esses mesmos senhores deputados que a sinalética que provém das freguesias já tem, em alguma medida, aplicação no distrito que representam (ou deveriam representar)? Mais que a perda de um deputado no distrito, o Plano de Ordenamento do Território, aquando da sua elaboração provisória, colocava Bragança à margem das cidades regionais… Sintomático… Como sintomático é não prestarem atenção à desertificação crescente, pensando em reordenamentos territoriais, quando deveriam apontar as suas baterias para retemperar as condições que são um óbice à permanência de gente. Por enquanto, tal como sucedeu ainda esta semana, vai-se nascendo em ambulâncias a caminho de Bragança. A permanecer esta tendência, suspeito que, quando Trás-os-Montes estiver transformado numa coutada, haverá ambulâncias que não terão, sequer, gente para as conduzir. Nessa altura resolve-se o problema, configurando uma nova divisão territorial… “- Atão, dund’és? - E ou que sei lá! Botarum-m’ó mundo no catancho d’ua imbulância. Só sei q’staba a mêo d’ua strada q’é da freg’sia de Macedo, cuncêlho de Bragança, destrito do Porto…” FICÇÃO???!!!… "- Abonda cá um cibo de presunto! - E ondi'u hai?"

domingo, 27 de setembro de 2009

O primeiro dia do resto das nossas vidas

Há 52 anos não havia eleições. Mas existia algo a abalar o território nacional. A irupção dos Capelinhos não deixava margem para se pensar que, meio século após, seríamos detentores do vulcânico poder de decidir sobre a "morfologia territorial" que advirá destas Legislativas. Escrevo isto porque, a poucos momentos de me dirigir à Junta de Freguesia, ainda não descortinei a posição do PI (Partido dos Indecisos) no boletim de voto. Se há meio século havia fenómenos da tectónica, há 41 anos tinha renascido um pouco da chama da esperança, a partir do momento em que Marcelo Caetano tomou as rédeas do monolitismo que caracterizava a cena política portuguesa. Soou, segundo as crónicas, a ventos de mudança... A verdade é que (e peço desculpa pelo abuso linguístico), revelou-se um "não é merda, mas cagou-a o gato"... Essa é a sensação com a qual parto para a missão de colocar um cruz num papel. E não é por medo de ser atingido pelo H1N1 depositado em qualquer caneta pública... O estado a que vi chegar este país faz-me suspeitar que, com ou sem mudanças, haverá mais do mesmo. Particularmente no que à minha região diz respeito. Trás-os-Montes não sofrerá nenhuma metamorfose... Será, talvez, mais abandonado... Ou mais esquecido... Haja, ou não, A4, IP2 e IC5... Apanágio dos tempos e da história... Deve ser por isso que me sinto estranhamente deprimido. Porque, mais logo, seja qual for o resultado, não terei razões para festejar. Como dizem na minha terra adoptiva, um diz "mata!", outro "esfola!" e vem um terceiro a dizer "atirem-no ao mar!". Quanto a Trás-os-Montes, não se pode matar o que morto está... Mas pode ressuscitar-se! Assim queiram as gentes...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Inconformismos

Entrámos em mais uma maratona de discursos e comícios, festas e festinhas, jantares e jantaradas. Assessorada pelo colorido das arruadas, concertos, cartazes, panfletos e demais imagens em forma de autocolantes, bandeiras e outros “souvenirs”. Assistir-se-á ao déjà vu de desfiles, dos grandes com assento parlamentar (PS, PSD, BE, CDU, CDS), juntando-se-lhes os históricos (PCTP, POUS, PPM), os já conhecidos “dissidentes” (MPT+PH, MEP, MMS, PNR, PND) e os novíssimos (PTP-Partido Trabalhista Português e PPV-Partido Pró Vida). Esta corrida a 15, à cruz no boletim de voto terá o seu epílogo numa incerta nomeação de um primeiro-ministro que sairá, seguramente, do habitual “bloco central”. Os números provenientes das sondagens deixam no ar a possibilidade de se poder assistir a algo inusitado: o partido com mais votos poderá não ser o mais representado na Assembleia da República. Cousas de um método de eleição baseado em círculos eleitorais, onde os grandes saem sobrerrepresentados e os pequenos sub-representados, deixando aberta a injustiça da inexistência de equidade. No dia 27 lá estaremos (exceptuando os do PA-Partido Abstencionista), cada um a exercer o direito de defesa da sua dama. Sai-nos cara a defesa… Há crise? De certeza? Corrói-me a alma assistir ao custo que tem o arraial associado à maratona… PS => 5,54 milhões de euros (para as Legislativas de 2005=> 4,8 milhões de euros), dos quais 3,13 financiados pelas contas públicas… PSD => 3,34 ( 7,3 em 2005), dos quais 2,85 do erário público… CDU => 1,95 (0,862 em 2005) e 1 milhão do orçamento público… BE => 0,99 (0,73 em 2005)… CDS => 0,85 (6,7 em 2005!!!)… E para as Autárquicas, a coisa agrava-se até ao insulto à pobreza: PS => 30,5 milhões de euros; PSD => 21,9 ; CDU => 10,27 ; BE => 1,99 ; CDS => 1,9… Faz-se o desconto dos trocos orçamentais para o pelotão dos pequenos partidos e… Quase 70 milhões de euros!!! 70 milhões de euros??? Junte-se-lhes as moeditas despendidas na campanha para as Europeias e chegamos à módica quantia de cerca de 90 milhões de euros… Irra!!! Como andamos todos a dormir… E nem uns trocos há para o afamado helicóptero do INEM que nunca mais vem por falta de verbas… Distrito de Bragança, Distrito de Bragança, que emudecido andas, adoçado por uma auto-estrada e por inaugurações de novos serviços hospitalares! E por cabeças-de-lista que são professores no Porto ou vereadores em Almeirim! Um deles entende que “o dever de um deputado é, acima de tudo, perante o país e não uma região em particular”. É? Então porque não acabam de vez com os círculos eleitorais? Ainda bem que voto na terra adoptiva… Mas sinto-me inconformado, de qualquer forma… “Em Portugal, os deputados da Assembleia da República da Nação, vão discutir legislação nacional e não legislação regional, mas são eleitos por um distrito. Devem ter uma sensibilidade com os problemas desse distrito”… Como podem ter sensibilidade se lá não nasceram e, provavelmente, por lá não passaram vez alguma? Bem… Quer dizer… Já nem sei… Os senhores deputados, filhos da terra, que nos representaram nesta última legislatura exerceram alguma influência para a melhoria das condições de vida do esquecido Nordeste? Ou seguiram a ideia do Sr. Ministro do Ambiente a propósito da barragem do Tua, quando afirmou a “relevância do projecto ao contribuir para o reforço da produção hidroeléctrica nacional”? O que ganha o depauperado Nordeste com isso? Regressa, Mendo Alão! Ressuscita, Nuno Martins de Chacim! Reincarna, Afonso Mendes de Bornes!...

sábado, 5 de setembro de 2009

Neologismos e genuinidade transmontana


O advento das novas tecnologias trouxe a inevitabilidade: a profusão de neologismos. Não coloco em causa se, num mundo de facilitismo, será mais correcto questionar alguém acerca do seu endereço de correio electrónico ou simplificar a questão com a redução a e-mail ou, simplesmente, mail… De idêntica forma, torna-se mais fácil afirmar que escrevo num blog (ou num blogue, na versão aportuguesada), ao invés de o fazer em relação a uma página pessoal e, neste caso, transmissível a quem tenha paciência para a ler. Afinal, um blog nada mais é que um anglicismo resultante da contracção de weblog, ou seja, “um diário de bordo na rede”. Até aqui, tudo bem… Se há uma estratosfera, que haja uma blogosfera… Confesso que prefiro esta forma à oficialização de termos “electrónicos”, tal como foi feito pelo Governo Francês em relação a “courriel” como substituto de “courrier électronique”… Feita a transposição para a realidade portuguesa, não me estou a ver a dar o meu “correiel”… Mas regressemos aos neologismos… Não me provocam prurido alguns dos que vão grassando pela língua portuguesa. Outros há, no entanto, que possuem a capacidade de arranhar o meu canal auditivo. Para lá do célebre “pilhão” (ainda bem que não “hablamos castellano”), surge agora o “depositrão”. Ainda por cima, instalado na minha cidade!... Suspeito que, um destes dias, haverá uma qualquer adulteração de nomes de vulgares utensílios do quotidiano… Como passará a denominar-se um recipiente do lixo? Ou uma sanita? Também são “depositrões”, mas “depositrão” há só um… Fica o desafio linguístico à imaginação… Mas a suprema verborreia em termos de atentado linguístico vem da proliferação de “ódromos”… Até agora, assustava-me mentalmente com a moda dos “sambódromos” ou “fumódromos” do lado de lá do Atlântico. A dita chegou ao lado de cá, precisamente aos meios eruditos universitários, com a criação dos “queimódromos”. Quando pensava que a província transmontana estaria a salvo, eis que surge a novidade de existirem exemplares de raça mirandesa provenientes do concelho de Macedo a disputarem um prémio num concurso de chegas de bois. E onde decorreu? Num “CHEGÓDROMO”???!!! Ora bem… “Dromos” é um sufixo, radical grego, que exprime a ideia de corrida. Estará muito bem aplicado em autódromo, hipódromo ou velódromo. Na realidade, são recintos onde ocorrem corridas. Atentando nos exemplos dados, há corridas de samba? Já se viu fumo a correr? E quem ganhou a última corrida de queimas? E nunca vi nenhuma corrida de chega de bois… Cá para mim, tal prova desenrola-se num lameiro ou num qualquer recinto vedado onde um par de touros tenta disputar a primazia pela força. Na verdade, há, por norma, um que corre… Mas é para fugir, não para receber a bandeira de xadrez. Transmontanamente falando, “bou ó campu ber a tchega de beis”, não vou ao “tchigódrumu”… Como estamos em período de debates eleitorais, porque não anunciar o próximo como decorrendo num “debatódromo”? Razão tem o arquitecto-filósofo Paul Virilio no seu “Cibermundo – a política do pior”. Este “apóstolo céptico” defende que a actual sociedade tecnológica está a reduzir a Humanidade à uniformidade, transformando o Homem num ser alienado. A sociedade de corrida em que vivemos metamorfoseou a democracia num poder “dromocrático”… Viva a “dromocracia”, os “chegódromos”… e os “depositrões”! E viva também, enquanto subsiste, a tipicidade transmontana…

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Velhotas espertalhonas, um vírus espertalhão e outras cousas

Há uns meses atrás fui tomado por uma onda de espanto a propósito d'"A Filha do Cabra" e da representatividade que uma peça de teatro pode ter na quebra do isolamento. Desta vez, fui surpreendido por uma onda de emoção ao assistir à forma característica e muito transmontana como um conjunto de valorosos actores e actrizes amadores expôs a sua alma à reportagem da SIC. Quando menciono uma onda de emoção estou a referir-me, concretamente, à emoção propriamente dita, com sorrisos e uma lagrimazinha de orgulho de permeio. É a minha peculiar forma de sentir o que brota do mesmo "mar de pedras" que me serviu de alicerce...
Mais que uma via de fuga à realidade do quotidiano marcado pela árdua vida campesina, as "Velhotas Espertalhonas" vão além do carácter lúdico de um evento teatral. Transmitem, em jeito de comédia, como lidar com a "chico-espertice" de quem, sem qualquer tipo de escrúpulos, se aproveita de alguma da ingenuidade gerada pelo esquecimento atrás de montes e planaltos. Se a moda pega, teremos, um destes dias, as grandes companhias teatrais a levarem a palco uma qualquer sátira sobre como nos precavermos contra vírus BPN ou BPP... E outros... Que não o famosíssimo H1N1... Esse, parece que veio para ficar, mesmo que pareçam, como em casos anteriores, mais as vozes que a as nozes. No entanto, como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, é de aplaudir a iniciativa do Centro de Saúde em enviar uma equipa de enfermagem num périplo pelas diversas aldeias do concelho, levando às populações a informação técnica que, inúmeras vezes, anda arredia. Por enquanto, segundo números oficiais, o número de infectados, no distrito de Bragança, restringe-se a seis. Que as consequências desta estirpe sejam tão manifestas como o foram as da anterior gripe aviária... Assim seja e será o medo maior que o monstro, à imagem do habitual alarmismo catastrófico que caracteriza o pensar português. Género que não se aplica ao restrito mundo dos Caretos, magistralmente levados à tela por Victor Salvador, através do documentário "No domínio dos tempos". Genial, é o que me apetece dizer! Para quem não teve o prazer de ver e tiver interesse em aguçar o apetite, fica o link para o trailer do dito documentário: http://www.youtube.com/watch?v=Fet9Nt0Pnng

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cousas depreciativamente depressivas

Estou possuído por uma espécie de embriaguez pré-período eleitoral. Lanço, publicamente, um repto: arranjem-me notícias de Macedo onde não seja mencionada, de alguma forma, a acusação de “falta de democracia” na elaboração das listas para as autárquicas! Creio que será o único antídoto eficaz para lidar de modo mentalmente mais pacífico com as acusações a que já fiz referência num post anterior. Ainda que as mesmas não sejam infundadas, que importância têm para a gravidade de factos que assolam a província transmontana? Num recente estudo da Comissão Europeia acerca da pobreza, a Região Norte foi considerada a mais pobre do país. Num âmbito mais abrangente, está incluída no grupo das 30 mais pobres da UE (considerando 25 países). Isto quando as duas maiores fortunas do país se encontram nesta mesma região! Sinto náuseas… Mais grave e aterrador é que Trás-os-Montes é a Sub-Região mais pobre da UE (considerando 27 países)!!! Apetece-me largar as raízes de vez e mudar-me, de armas e bagagens, para a Eslovénia, para a Letónia ou para o Chipre! Vêm os analistas (aquela classe que sabe de tudo um pouco, um pouco de tudo e nada de nada) afirmar, peremptoriamente, que tal se deve ao desperdício de Fundos Comunitários. Quais fundos? Será que se referem ao PRODER? Aquele programa que tentei aproveitar para revalorizar terrenos incultos e que, de empurra em empurra, de obstáculo em obstáculo, de ignorante em ignorante, me constrangeu a mandar a persistência para aquela parte, tal a forma como fui vencido pelo cansaço de engenheiros e doutores “alapados” numa poltrona de improdutividade em que a regra é “deixem-me descansar até à chegada do próximo ordenado”… Dizem-me as más línguas que foi aprovado um projecto para Trás-os-Montes. Um?!?! Gostaria de conhecer o “sortudo“... Sempre contribuiu para não sermos vergados à vergonha de assistirmos à devolução da totalidade dos Fundos… Pelos vistos, não só somos pobres, como mal agradecidos… Mesmo que, e ainda segundo as más línguas, o rio Douro (que também é transmontano) “desperdice” 55% da produção eléctrica nacional sem recebermos nada em troca. Deve ser por isso que se mantém a pretensão de passar o “desperdício” para 55,5% com a construção da hidroeléctrica do rio Tua… Se já soava a irreversível, mais se agravou a sensação com o debate parlamentar sobre a Petição “Movimento Cívico pela Linha do Tua”. A Oposição, mesmo que hipocritamente, defendeu a manutenção de um dos paraísos transmontanos, com algumas tiradas que são de registar. Saliente-se aquela em que um senhor deputado afirmou que “nem a linha, nem os comboios sabem nadar, tal e qual acontecia com as gravuras de Foz Côa”. Pois não sabem, mas vão ter que aprender. Ai vão, vão! “A via férrea deixou de ter utilização, deixou de ser útil para as pessoas que ali vivem e trabalham, que optaram pelo transporte rodoviário”. Esta intervenção, pasme-se, foi tida por um senhor deputado eleito por Trás-os-Montes! É de lhe se tirar o chapéu! Será que das 5.000 pessoas que assinaram a dita petição estão excluídas todas aquelas para quem a ferrovia se transformou em inutilidade? Será que o Presidente da Câmara de Mirandela tem razão quando afirma que esse deputado foi eleito pelo círculo de “Mirandela para cima”? Ou será que esse senhor deputado não se considera representante dos 5.000 assinantes desvairados? Ou terá sido eleito pelos votos da EDP? Apetece-me recorrer ao quase homónimo do senhor deputado (quase porque tem mais o “de Camões” na nomenclatura) : «A dor acostumada não se sente»… Mas sente-se a dor derivada do facto de a dita Sub-Região mais pobre da UE27 ter eleito um deputado que, dificilmente, voltará a sê-lo na próxima legislatura. Porque nos reduziram para três o número de deputados a ser eleitos pelo círculo de Bragança. Um destes dias igualamos o distrito de Portalegre… Bem vistas as coisas, o melhor seria nem elegermos nenhum. Um dos candidatos cabeça de lista (bem na pole position para nos representar(?)…) é de Penafiel e exerce a sua profissão na Invicta Cidade. Vai defender o quê? Os Vinhos Verdes de Trás-os-Montes?… Perante isto, será assim tão importante a tão propalada “falta de democracia”? Temos é “falta de deputados”, “falta de cuidados”, “falta de riqueza”, “falta de escrúpulos” e, um destes dias, “falta de tudo”… Menos do orgulho em ser transmontano (e macedense)… Por mim falando, certo é… Protestarei até que a voz me doa… Ou até sermos transformados num qualquer Kosovo mesmo à beirinha de Zamora… “Quem tu dixo?”…

domingo, 24 de maio de 2009

Escolas que vale a pena fechar???


Não discordando de Mota Andrade, a propósito do encerramento de Escolas Primárias (aquelas que adoptaram a rara designação de EB1), não posso deixar de manifestar a minha estranheza pelas consecutivas políticas de "terra queimada". Dá-se por um lado, tira-se por outro. Deve ser penoso viver em algumas regiões transmontanas... Aliás, não deve, é! Remetendo-me exclusivamente ao meu concelho, posso imaginar as agruras de fixar residência em freguesias como Soutelo Mourisco ou Burga, só para citar dois exemplos, um a norte e outro a sul. É certo que deverão existir algumas compensações, caso contrário já seriam uma espécie de neo-banrezes ou neo-carvas. Mas também não é difícil levantar a suspeição para que as eventuais compensações não suportem a permanência de gente, a muito breve prazo. A cada incursão às profundezas da realidade concelhia, as rugas nos campos são inversamente proporcionais às equivalentes nas faces dos que resistem à desertificação. Diminuem as escolas, diminui a população, à medida que aumenta o abandono e o envelhecimento, reflectidos nas ruínas fruto das sementes do tempo. E aumenta, de igual forma, a proliferação de flora selvagem... Pelo menos, deve ganhar-se na produção autóctone de oxigénio... Começo a perceber a adiada promessa do heli do INEM. Para quê um helicóptero se, um destes dias, fica sem local disponível para poder aterrar? E, da maneira como se mantém a tendência para o envelhecimento da população, para a desertificação e para a baixa taxa de natalidade, não me espanta que, em poucos decénios, a província transmontana se transforme num "admirável mundo novo" pautado por coutadas para fazerem as delícias dos que agora só lá vão para conseguir uma "cruzita no papelinho"... Exceptuando Mirandela, Macedo e Bragança, que se situam no eixo central do distrito, receio pelo futuro dos restantes 9 concelhos do distrito... Venha de lá a A4 e o IC5... E que, do lado de lá da fronteira comece a vir bom vento e bom casamento...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cousas do novo Código da Vinci de D'Ana Brown Jorge

A Irmandade de Sancto Benedicto de Olissipo persiste em adiar a revelação do Segredo... Após mais de cinco séculos de intermináveis lutas pela sua posse, o Deão Corrigia de Campus, num assomo de coragem, decide partilhar com os esquecidos transmontanos o segredo do helix pteron... Logo o Grão-Mestre Σωκράτης, vulgo Sokrates, instruíu a substituta do infame Campus, Hanna Georgius, para a promoção da política do "dourar a pílula", com o claro intuito de demonstrar ao povo do distrito sem auto-estradas que a teoria evolucionista de Darwin deveria ter as suas excepções. Contudo, a aproximação do crucial momento em que os pretensos membros da raça asinina se aprestam para depositar uns papelinhos dotados de quadrículas para assinalar com uma cruz, conduziu a uma inusual incursão de Hanna Georgius ao Reino do Esquecimento. Rapidamente o mesmo se transformou no Reino de Torga, sendo invadido de promessas de não encerramento de unidades hospitalares e da dotação de melhores meios, entre os quais o helix pteron projectado por Da Vinci. Um descuido reprovável permitiu ao centro de espionagem da Ordem dos Hospitalários Macedenses ter acesso ao Segredo tão habilmente guardado durante séculos. De imediato, foi convocada uma reuniâo de emergência com as cúpulas da clandestina organização dos Hospitalários Macedenses. Na mesma foi decidido investigar as consequências imediatas de mais um possível engano, alicerçado em mais uma promessa adiada. No entanto, após aturadas investigações, nomeadamente através dos serviços secretos das várias células espalhadas pelo mundo, foi possível a constatação de que o projecto já avançou para o terreno na Irmandade do Reino Nipónico. Os triviais helicópteros do século XX foram há muito abandonados e em magna assembleia da Irmandade de Sancto Benedicto de Olissipo foi idealizada a transformação do Reino Esquecido num projecto-piloto para a avaliação da eficiência dos novos médicos e enfermeiros voadores. Até lá, será reaberto à circulação o troço da Linha do Tua entre Carvalhais e Bragança. Por falta de carris e restantes estruturas de suporte ao transporte ferroviário, e para aproveitamento das trincheiras já abertas há mais de um século, foi aprovado, como forma de agradecimento à paciência dos transmontanos, aplicar as verbas destinadas ao Túnel do Marão na aquisição de equipamentos de transporte que estão na vanguarda dos serviços primários de saúde.
Caso haja discordância dos mais resistentes, a Irmandade deixou em aberto duas alternativas... A outra alternativa é demasiadamente mórbida para ser mencionada... Será que valeu mesmo a pena o Martim Gonçalves de Macedo ter sido um herói?... Terá João Afonso Pimentel, o alcaide de Bragança por alturas de Aljubarrota, sido um traidor à pátria ou um visionário da sua época, quando tomou o partido de Castela? A mais de 600 anos de distância, já pressentiria o ostracismo a que seria votada a sua região ao longo dos séculos vindouros? Ou já teria conhecimento dos procedimentos da Irmandade? Já existiria na altura algum projecto acerca da virtualidade dos helix pteron INEM?... Adeus, até ao meu regresso... Acabei de ser atingido pelo holograma de uma hélice...