Bem Vindo às Cousas

Puri, se tchigou às COUSAS, beio pur'um magosto ou um bilhó, pur'um azedo ou um butelo, ou pur um cibinho d'izco d'adobo. Se calha, tamém hai puri irbanços, tchítcharos, repolgas, um carólo e ua pinga. As COUSAS num le dão c'o colheroto nim c'ua cajata nim cu'as'tanazes. Num alomba ua lostra nim um biqueiro nas gâmbias. Sêmos um tantinho 'stoubados, dàs bezes 'spritados, tchotchos e lapouços. S'aqui bem num fica sim nos arraiolos ou o meringalho. Nim apanha almorródias nim galiqueira. « - Anda'di, Amigo! Trai ua nabalha, assenta-te no motcho e incerta ó pão. Falemus e bubemus um copo até canearmos e nus pintcharmus pró lado! Nas COUSAS num se fica cum larota, nim sede nim couratcho d'ideias» SEJA BEM-VINDO AO MUNDO DAS COUSAS. COUSAS MACEDENSES E TRASMONTANAS, RECORDAÇÕES, UM PEDAÇO DE UM REINO MARAVILHOSO E UMA AMÁLGAMA DE IDEIAS. CONTAMOS COM AS SUAS :







sábado, 4 de setembro de 2010

Encantos de Setembro (II) - Refulgências de pele lamacense


A Festa... Era no Domingo. Pretérito futuro, perfeito ou imperfeito, num envolvimento mais que perfeito. Eram as cores, garridas, até, trajes de gala que engalanavam o âmago de um qualquer orgulho que parecia irremediavelmente perdido, no quotidiano de "gadanhas", "seitouras" e "aixadas". Sujas roupas, desajeitadas vestes amparadas pelas Sortes, o Moral, Cristelos, Cedelais ou uma Canelha qualquer. Nesse dia ocultava-se a gente "imbuligada" da terra, excepção aos garotos, irrequietos "cmó catancho", desenfreadas correrias pelo aglomerado de gente com roupa "striada de nóbo". E não se ouvia o melancólico ranger dos veículos de tracções outras, alaranjadas formas calcorreantes de caminhos ornados a pó, onde me empoleirava, vezes sem fim, "stadulhos" por segurança, infância doirada por companhia. Nesse Domingo, o despertar era decorado a sonoridades distintas, troavam os sons da alvorada a ritmo de canhão, acordava atordoado com a sequência de "pum-pum-catrapum", tímpanos em algazarra, que os céus pintavam-se a trajectórias de um inconfundível "fiiiiiuuuuu", rastilhos acesos, elevações fumegantes, ficava no ar o rasto de efémeras nuvens artificiais. Era uma cadência de estouros, contra-estouros e re-contra-estouros que me atazanava o espírito, numa melodia que se assemelhava a um concerto de martelos que me vergastavam os receptores auditivos. Até a compensação chegar em forma de sonhos de arcaicos heróis de recolha de "barelas". Ou até descortinar os primeiros acordes da banda 25 de Março, alinhadinha, com o "mestre" na vanguarda, secundado pela rapaziada que fazia da carolice aprendizagem musical. Desafinavam, por vezes, mas ficava siderado com aquele "pó-ró-ró-ró", orgulhosamente extasiado por ver o "Ti Demingos" a debitar umas notas musicais. Era o melhor músico do mundo e arredores, projecto de ídolo de infância do sobrinho. «É u mou tio q'ali bai na banda!»... E já me tinha dado "deis e quinhentos prós doces»... Imaginava-me, crescido, a manusear dourados botões de trompete ou saxofone, percussão talvez, pratos poderia ser, apenas sonhava fazer parte daquele grupo dos "grandes", fardado e de chapéu de polícia na cabeça. Não hesitava em segui-los, marchando ao seu compasso, empunhando, numa mão, a melhor "barela" que havia encontrado no lameiro, na outra munido da artesanal bandeira de papel, encarnada de preferência, que carinhosamente o "Ti Demingos" me tinha deixado surripiar da varanda. Seguia-os, religiosamente, num estranho culto, simbióticas formas onde me via como um imaginário soldado, guardião do rebanho musical. Talvez a minha bandeira de papel fosse o estandarte do exército e a "barela" fosse a espada ou a espingarda dotada de baioneta. Não me recordo de recontros com o inimigo, probabilidades de não existência, ou incompatibilidades da memória. Quem sabe, o inimigo daria tréguas naquele dia especial, aquartelando-se à distância, receios de ser trespassado e esquartejado por aquele indomável general de truta e meia. Apareceria o "Squina", perdão, hábitos não perdidos de tardios baptismos, professor que meu foi. Que por religioso ser, excepções não havia para juvenis epítetos de classe docente. Dizia, apareceria o Quina, perdão de novo, Padre Quina, se faz favor, homem que a sua existência confunde com o pulsar de Lamas. Queira-se ou "desqueira-se", inebriadas vozes de pecados muitos... Com essa inesquecível figura de batina, chegava a solenidade, aproximava-se a "santa hipocrisia" também, que as viperinas linguas amansadas ficavam, que quem ali estava agora era o "S'nhô Pá'dre". E mandava, se mandava! Punha tudo em reboliço. Chapéus desenterrados da cabeça, para "eis", negros lenços desviados, capilares plumagens femininas à vista. E excomunhão para desafios à tradição e ao respeito, ostracizem-se adoradoras de Mary Quant ou expositoras de antepassados de Wonderbra. O "Ti Fanano" punha os sinos em desassossego, "imbarrando-se, dás bezes" na torre da igreja, num desafio ao precipício, inigualável sorriso de oponente do perigo. Silêncio agora, se faz favor, era hora da missa. Missa cantada, mal cantada, encantadoramente mal cantada. Que delicioso era subir a escadaria ao fundo da igreja, ascender ao alpendre, abafar as constantes risadas quando uma voz se descontextualizava do canto, porque havia sempre um mais atrevido que deixava escapar um «Ulha! Aquela aparece-se c'ua pita zeganiçada!». O privado espectáculo da "ganapada" não evoluía para o descalabro porque havia sempre uma respeitável voz que, em surdina, lançava o aviso: «Se num fitchais a matraca, infiu-bos puri ua lostra!». Por entre vernáculas expressões que, por decoro, e por respeito à solenidade, não devem ultrapassar a barreira do irreproduzível. Devotamente, seguia-se a procissão, não sem antes rebentarem mais uns petardos aéreos, anunciantes da saída do pálio, dos andores e do povo que os seguia, cumprimentos de promessas, caras lavradas pela amargura, artificialismo em casos muitos, mostras de social solidariedade, ou dever cumprido, simplesmente. Ia disfarçado de "Cruzado", alva faixa conquistada a custo junto das catequistas, afinal só era "mêo" de Lamas, por causa da costela "imberna". Confesso que preferia não estar dependente do andamento, mas caso assim não fosse outras seriam as memórias. Regredindo no tempo, reconheço que havia um tormento que superava aquele sacrifício da independência e a exposição do escalpe ao tórrido sol de Agosto. Terminada a "pecissão", a minha vontade de desentorpecimento de mente infantil era castrada por uma nova procissão, a do desfilar de gente à qual tinha, quase compulsivamente, de agradar com um sorriso, cedendo ao "bota cá ua mãozada", enquanto olhava esse qualquer desconhecido familiar afastado como executor da minha pena de reclusão às imediações do adro. Cumprida a sentença, prémio de horas muitas, recebia a honra, impagável honra, de ser portador do chapéu do "Ti Demingos". E que "contcho ficaba, tchêinho de proa". Breves mas memoráveis instantes até ouvir a voz da imponente figura da "bó", bradando aos céus, que o "jantar" já estava na mesa. Hora de saciar apetites, laranjada ou gasosa por companhia, que bebidas do Tio Sam ainda eram uma miragem. A azáfama de assados e afins continuava, sequências de éden do paladar, apressadas deglutições para zarpar em direcção à irreprimível tendência consumista de catraio. Com início nos encantos da sorte do bazar, fugazes rasgos de tentativas de recolha de um papelinho premiado. Quando, finalmente era bafejado pelo carimbo da Comissão de Festas, advinha a frustração. Ganhava um "tareco" que, sabe-se lá porque mágicas artes, haveria de aparecer na quermesse do ano seguinte... Inspirado pelo desalento, refugiava-me nos refrigerantes da taberna do "Ti Zé Pinto" ou nos "matraquilhos" da homónima do "Ti Luís". E pedia "ua tchicla d'ua croa" para relaxar a musculatura facial, antes do massacre a pedras esferificadas e gastas pelo tempo, imóveis e desfigurados seres pétreos trajados a jogadores de futebol como carrascos. Por vezes, um dedo exterior ao elenco levava uma "biqueirada" da distracção, trocava-se o parceiro por outro qualquer ansioso em lista de espera. E sujava-se a mão, a vestimenta até, com o óleo que impregnava o suporte dos mudos jogadores equipados à Benfica, Porto ou Sporting. Era tarefa ingrata, depois, justificar os negros resquícios que precisavam de dose extra de "RenaMatic". Se o dito, ou uma boa esfrega com sabão azul não devolvessem a original cor do tecido, era provável que a epiderme facial apresentasse resquícios, de igual forma. Esses rejeitavam qualquer aplicação de tensioactivos... Folgava, com sorte, a carne. Como folga era dada à autofagia que, chegada à hora da "cêa", ia afligindo as entranhas. Nada que um "cibo de tchithca com tantinho arroz" não resolvesse. Culinárias artes da ancestralidade prévias à exteriorização do nocturno espírito festivo. Arrumava-se a banda no velhinho coreto, soava o arranque das primeiras "modas", perfilavam-se arautos conquistadores de donzelas, timidamente apregoando dotes dançarinos. Terminada a dança, voltava tudo ao lugar, nada de exageros, progenitores-sentinela à espreita por entre um copo mais. A inovação dos "cunjuntos" chegaria mais tarde, mas chegou. Dias em que o "Pontão" passava a registar um inusual movimento automóvel, caóticas formas de alterar a fisionomia do "povo", itinerantes mostras de alienígenas matrículas. Um dia veio o cheiro a morte, sinais dos tempos, hipnotizou-se a vergonha e invadiu-se o pretenso privado couto da concelhia sede. Revés de uma inadiável aculturação, paralelos interesses, quiçá, finou a tradicional entrega da bandeira aos novos mordomos. Recusas, incapacidades, desinteresses, estranhas causas muitas, de inentendíveis que são. De resistentes saíu nova prole de mordomos, louváveis guerreiros de moribunda tradição. Cuidados paliativos, tão só... Visíveis na lenta agonia de uma Festa que é prima afastada da Festa que conheci. Mas resiste. Tal como resiste a minha sede de revivescência de quase imemoriais tempos, tão longe que parecem ir, tão perto estão aconchegados. A alfinetada neste ser não provém da perda de aura da Festa, a propriamente dita, com foguetes, bandeirinhas e arraial. Essa apenas é importante porque é a Festa da "minha" Lamas, da "minha" aldeia, das raízes. A outras não me recordo de ter ido, exceptuando a da vizinha Podence, por familiares atributos. Os pontiagudos artefactos que me assolam residem no alheamento a que a Festa está hoje votada. E, por nefasta inerência, na representatividade que esse efeito de modernos tempos tem no evoluir da contaminação através do desprezo. Não é só a Festa que está moribunda ou, em instância última, para demasiado grave não ser a acusação, com efusividade reduzida. É a própria essência de uma forma de estar, contágios do chamariz que já provocou desertificação, despovoamento agora é, eufemismos de quem vai promovendo a gestação do abandono. O parto, quando chegar, há-de ser doloroso. Entretanto, vamos tocando pífaro, ou assobiando para o ar, aguardando que a Senhora do Campo faça algum milagre. Serão gémeos? Sócrates e Aristóteles? Coelho e Lebre? Portas e Janelas? Louça e Plástico? Jerónimo e Touro Sentado? Quem sabe, mas já não acredito em milagres, muito menos provenientes de São Bento... Entretanto, deu-me um desvario do ser... Talvez tenha sido de não ter bebido laranjada e gasosa na Festa. Nebulosidade dos tempos... Cousas voláteis, etílicas, dirão as más línguas... "Q'sa contra-racosa quim u dixo, q'ou num imprenho pur os oubidos, nim pur lado nium! Hai bezes que sou mouquinho de todo"...

1 comentário:

Unknown disse...

Muito bom....Parabéns pela forma tão ordenada e expressiva, como relataste a verdadeira realidade....Que nos leva à nossa infância e que de repente nos leva ao que se passa actualmente...
Aproveito para dar os parabéns aos mordomos, que por carolice e bem, tentam manter VIVA A FESTA DE LAMAS...